domingo, 27 de janeiro de 2013

O cabo de guerra sobre os elefantes: A história da transferência do Zoo de Toronto

Publicado em 19 de Janeiro de 2013

Amy Dempsey / Toronto Star 



Iringa, na frente, e Toka estavam entre os primeiros elefantes a chegar ao Zoo de Toronto em 1974. Já se passaram 15 meses desde que a Câmara Municipal votou pelo envio dos três elefantes de Toronto a um santuário na Califórnia, mas eles continuam em seu recinto. As correntes ao redor de seus tornozelos fazem parte do treinamento para a grande mudança, agora planejada para abril.
(
AMY DEMPSEY/THE TORONTO STAR)

De um mirante na Savana Africana do Zoo de Toronto, uma mãe e uma criança estão observando Iringa, Thika e Toka caminhando em círculos, no frio.

“Mamãe”, questiona o pequeno, “por que os elefantes têm correntes em seus pés?”

“Porque, em breve, eles irão embora daqui.”

Os braceletes de correntes, presos em volta de seus grossos e enrugados tornozelos, fazem parte do treinamento para a sua grande mudança para o sul. Os elefantes os têm usado diariamente, desde janeiro de 2012. 

“Quando eles vão embora?”, quer saber a criança.

Boa sorte para quem tentar responder a esta pergunta. Uma pergunta melhor: Por que isso está demorando um tempo tão longo?

Turbulentos 15 meses se passaram desde que o conselho da Câmara Municipal de Toronto votou, pela primeira vez, pelo envio dos idosos elefantes do Zoo de Toronto para o Performing Animal Welfare Society (PAWS), um santuário de animais na Califórnia, que recebe elefantes que se aposentam de zoos e circos. 

E mesmo assim as “senhoras” ainda continuam no limbo, arrastando-se em volta do mesmo pequeno recinto que chamam de lar, muito antes que o debate sobre seu futuro eclodisse em ofensas, insultos e acusações desenfreadas; antes que os elefantes precisassem de advogados e de sua própria equipe de relações públicas; antes que terminasse nosso estoque de piadas sobre transporte de elefantes; antes que Bob Barker chegasse.

A bizarra saga não se resume ao trio de Toronto. 

Iringa, Thika e Toka são parte de uma batalha maior, que tem sido travada em cidades através da América do Norte durante a última década, conforme os elefantes foram tomando a posição central no que muitos estão chamando de crise de identidade dos zoológicos. 

Face às crescentes críticas sobre bem-estar animal, a indústria dos zoológicos promoveu uma campanha para levar o público a acreditar que elefantes prosperam em zoológicos, quando há cada vez mais evidências apontando o contrário.

Muitos especialistas em elefantes acreditam que santuários — com seus vastos espaços abertos e habitats naturais que imitam, de um modo muito parecido, a natureza selvagem — fornecem um padrão de cuidados muito melhor aos paquidermes. A indústria dos zoológicos não aceita isso.  

“Os zoos Americanos estão em um estado de negação quanto à manutenção de elefantes”, diz o Dr. Benjamin Beck, ex-diretor do Zoo Nacional de Washington, D.C., e especialista no manejo e bem-estar psicológico de animais em zoológicos. “Eles estão tão convencidos de que podem manter elefantes eficazmente, que simplesmente estão, penso eu, negando os fatos.”

Com a decisão do conselho da Câmara Municipal de Toronto de enviar os elefantes para o santuário PAWS reafirmada recentemente, o Zoo de Toronto está trabalhando com a primavera como data limite para seu envio.  nos bastidores, porém, há evidências de que alguns tratadores e patrocinadores do zoológico ainda estão debatendo maneiras de colocar obstáculos no processo, e rumores de que algumas pessoas não têm intenção de cooperar com um plano do qual, fundamentalmente, discordam. Chegará ao fim a saga dos elefantes de Toronto?

A resposta reside em uma questão mais complicada: Como foi que isso aconteceu?

Numa fria manhã de Novembro de 2009, os tratadores do zoo de Toronto encontraram Tara, a matriarca de 41 anos do grupo de paquidermes formado totalmente por fêmeas, deitada sobre um de seus lados na casa dos elefantes, impossibilitada de se levantar. Pode ser perigoso para os elefantes deitar-se dessa maneira por longos períodos, devido à pressão causada em seus órgãos internos. A despeito das tentativas da equipe do zoo de reabilitar Tara, ela morreu. Uma autópsia foi inconclusiva, mas sua morte  — a quarta fatalidade entre os elefantes em quatro anos, no zoológico — deu início a um bombardeio de críticas de grupos de defesa dos direitos dos animais.

O zoo ficou com apenas três elefantas idosas — o número mínimo recomendado pelos padrões da indústria dos zoológicos para essas criaturas altamente sociáveis — e um dilema sobre mudanças em sua estratégia. A administração teria que decidir se investiria dezenas de milhares de dólares na expansão de sua exibição de elefantes ou se encontraria uma nova casa para Iringa, Thika e Toka.


Toka tem 43 anos de idade e é considerada a mais passiva dos três elefantes do zoo de Toronto. Já houve 12 elefantes no zoo desde sua abertura, em 1974. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)       
 
O Zoo de Toronto já foi a casa de 12 elefantes desde que foi inaugurado, há  40 anos. Sete morreram, no decorrer dos anos, e dois foram transferidos. As três elefantas remanescentes vivem juntas num pequeno pedaço de terra  de menos de um hectare (1 hectare equivale a 10.000 metros quadrados) — um espaço que muitos especialistas em elefantes julgam ser pequeno. Iringa e Toka, capturadas em Moçambique durante uma repulsiva eliminação de elefantes, estavam entre os primeiros paquidermes a chegar ao zoo, em 1974. Iringa, agora com 44 anos, é conhecida por ser dominante e excepcionalmente inteligente. Toka, de 43, é passiva e agradável. Thika, de 33, tem a distinção de ter sido o primeiro elefante Africano a nascer num zoo americano, e é conhecida por ser mimada, como se fosse, ao mesmo tempo, uma criança adorável e mal-educada. 


Iringa é a elefante dominante entre o trio de paquidermes do Zoo de Toronto. Ela chegou em 1974 após ser capturada em Moçambique, junto com Toka. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)     
 

Desde os primeiros dias do negócio de exibição de animais, quando o panorama de um zoológico sem elefantes era inimaginável, a maioria dos principais especialistas em elefantes no mundo e um crescente número de profissionais do setor passaram a acreditar que a maioria dos zoos não atendia às necessidades biológicas dos elefantes, especialmente em climas mais frios, onde são forçados a ficar em pequenos espaços internos, por várias semanas de cada vez. 

De acordo com as informações resultantes de extensos estudos que surgiram durante a década passada, cientistas aprenderam que elefantes são criaturas altamente inteligentes, emocionais, que precisam de uma grande quantidade de estímulos para prevenir que se aborreçam. Eles têm o objetivo de buscar alimentos e de perambular em grandes manadas, formando vínculos sociais com outros elefantes de sua escolha. Elefantes em cativeiro sofrem de um número de doenças habituais, que incluem enfermidades nas patas e artrite, por caminharem em superfícies duras, herpes, tuberculose e estresse emocional.

O problema é que elefantes são um grande chamariz para os zoológicos, além de, há muito tempo, serem um símbolo de status e peças -chave num debate ideológico com alguns grupos de defesa dos direitos dos animais que são contra a manutenção de animais em cativeiro. 

Muitos especialistas acreditam que a indústria dos zoológicos — liderada pela poderosa Associação de Zoos e Aquários, uma organização comercial  sediada nos Estados Unidos e que estabelece padrões para seus membros — opera na crença de que os elefantes representam uma linha na areia, que, se transposta, poderia abrir a porta para a perda de outros animais e, no final das contas, levar os zoológicos ao fim. 

“Se os zoos se recusarem a reconhecer que não podem atender adequadamente às necessidades dos elefantes nos pequenos espaços que disponibilizam, acredito que estarão se abrindo para críticas muito mais duras no futuro”, afirma David Hancocks, um ex-diretor de zoo conhecido mundialmente e coeditor do livro Um Elefante na Sala: A Ciência e o Bem-estar dos Elefantes em Cativeiro.

A AZA elevou seus padrões para elefantes, face às novas pesquisas e ao crescente criticismo, mas especialistas afirmam que os padrões são ainda excessivamente baixos. Elevá-los ainda mais e de modo muito rápido forçaria a maioria dos zoos membros a dispender dezenas de milhares de dólares para atender aos requerimentos da manutenção de elefantes. 

Uma recente série de reportagens publicada no Seattle Times, de autoria de um jornalista investigativo, ganhador do Prêmio Pulitzer, sugere que elefantes estão morrendo nos zoos americanos. 

Para cada elefante nascido em um zoo americano credenciado, outros dois, em média, morrem, descobriu o jornal, em uma análise das mortes desde 1962. A taxa de mortalidade entre elefantes bebês nos zoos americanos representa o triplo da que ocorre na natureza, descobriu a investigação. A AZA opõe-se à análise, dizendo que não se consideram os avanços nos padrões de cuidados durante as várias últimas décadas. A associação tem criticado persistentemente pesquisadores e especialistas que sugerem que os elefantes de zoos vivem vidas mais curtas que seus congêneres, na natureza, e, baseada em suas próprias análises, conclui que ambos têm um tempo de vida similar.  

Na década passada, a AZA fez grandes esforços para combater o criticismo sobre elefantes em cativeiro e virar a história a favor de seus membros. A atual estratégia para os elefantes, da associação, foi traçada em 2005, durante um encontro privado de representantes dos zoológicos credenciados pela AZA, na Disney World, na Flórida, onde estiveram diretores do Zoo de Toronto, do Granby Zoo de Quebec e do Zoo de Calgary, entre outros.

Documentos discutidos durante o encontro, obtidos em primeira mão pelo Seattle Times, revelam que a AZA reconheceu que sua população de elefantes nos zoos havia declinado a níveis decisivos e que se tornaria insustentável, a não ser que os zoos membros acelerassem seus programas de reprodução de elefantes. Para gerenciar a crise, os representantes concordaram em falar e agir como uma “única voz” sobre todos os assuntos relacionados a elefantes — divergências públicas não seriam permitidas — e  divulgar que as populações de elefantes nos zoos credenciados pela AZA estavam “prosperando”. Defensores dos direitos dos animais que discordassem de sua visão seriam rotulados de “extremistas” antizoológicos. 

Dois anos depois, a AZA e a empresa de comunicação por ela contratada para administrar a crise dos elefantes ganharam um prêmio de relações públicas por virar a opinião pública a seu favor. 

Profissionais de zoológicos canadenses que participaram do encontro de 2005 dizem que não havia nada de enganoso sobre a estratégia para elefantes e que os planos para o futuro foram traçados tendo em mente os melhores interesses dos elefantes. O porta-voz da AZA, Steve Feldman, disse que a  campanha de relações públicas foi um “esforço efetivo” para defender seus membros de “falsas acusações” e “ataques de extremistas de defesa dos direitos dos animais”.

Mas não demoraria muito para que os zoos estivessem novamente sob fogo cruzado.

Quer você ame ou odeie (o ex-apresentador de TV americano) Bob Barker, é justo dizer que as coisas ficaram extraordinárias quando o homem com o largo sorriso da TV, o bronzeado da Califórnia e o impactante cabelo branco chegou à cidade. Em Abril de 2011, quando a cidade estava mobilizada  em torno de uma decisão há muito tempo esperada sobre o futuro dos elefantes, o ex-apresentador de programas de TV e ativista dos direitos dos animais encontrou-se com os conselheiros da cidade de Toronto e expôs seus argumentos no grande debate. “Eles estarão muito mais saudáveis em um santuário”, disse ele à cidade.


Os três elefantes do Zoo de Toronto - a partir da esquerda, Toka, Thika e Iringa - têm estado no centro de uma batalha, que já dura 15 meses, sobre onde deveriam viver o restante de suas vidas. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)       

Barker ofereceu seus próprios fundos para levar os elefantes de Toronto para o santuário PAWS, uma promessa que eventualmente o levaria a um compromisso de US$ 880.000,00. Alguns chegaram a ressentir-se de seu envolvimento, argumentando que os conselheiros e o público seriam influenciados por essa celebridade, em vez de pelos fatos. 

Algumas semanas depois da visita de Barker, o diretor-executivo do Zoo de Toronto, John Tracogna, enviou um relatório feito pela equipe do zoo, cuidadosamente redigido, ao conselho administrativo. Dado o montante necessário para reformar a instalação dos elefantes — cerca de US$16.5 milhões — e os custos futuros de sua operação, de aproximadamente US$ 1 milhão por ano, o relatório concluía que o preço de se manter elefantes era muito alto para um zoo sem recursos. 

Numa seção intitulada “Bem-estar Animal”, o relatório salientava que a decisão era de caráter financeiro e não uma admissão de que elefantes não podem viver em zoológicos. “Consequentemente”, declarava o relatório, “a  recomendação de interromper o programa de elefantes do Zoo de Toronto não é uma questão ética.” A declaração contrasta com a posição tomada por diretores de alguns zoos — como os de Calgary e Detroit, para citar dois — que romperam com a “única voz” da AZA e declararam publicamente que suas decisões de acabar com as exibições de elefantes foram tomadas para bem-estar dos mesmos. LINK  

O relatório de Tracogna prosseguia dizendo que a equipe do zoo trabalharia com o grupo de aconselhamento da AZA para encontrar um local para os paquidermes de Toronto. “Deve ser enfatizado”, notificou ele ao conselho, “que a AZA ... recomendará que nossos elefantes sejam transferidos apenas para uma instalação credenciada pela AZA”.

Nos dias que antecederam a reunião do conselho na qual o futuro dos elefantes seria votado, a AZA e uma associação intimamente ligada a ela, a Zoos e Aquários Credenciados do Canadá, escreveram suas próprias apelações. “A única maneira de se assegurar que esses elefantes recebam o nível mais alto de cuidados é enviá-los a uma instalação credenciada pela AZA”, afirmou a diretora -executiva da associação, Kristin Vehrs, em uma carta enviada em 10 de Maio ao conselho. “Zoos não credenciados e instalações particulares de elefantes” — “os chamados santuários,” acrescentou ela — “não são uma alternativa apropriada.”

A discordância entre zoos e santuários se origina de uma colisão de dois sistemas fundamentais de pensamento. Zoos conduzem pesquisa, patrocinam e participam de programas de conservação e cobram pela admissão de pessoas que queiram ver suas coleções de animais. Santuários, como o PAWS, operam como lares de aposentadoria para animais idosos e doentes, e mantêm seus elefantes, na maior parte do tempo, fora do alcance dos olhos do público. Mas a questão fundamental que separa os dois lados diz respeito à reprodução. A indústria dos zoológicos, liderada pela AZA, reproduz seus paquidermes como um esforço para criar uma população autossustentável para as coleções dos zoos da América do Norte. O santuário PAWS é contra a reprodução de elefantes em cativeiro.

Uma reunião do conselho de administração do Zoo de Toronto, em 12 de Maio de 2011, reuniu em uma sala membros da equipe do zoo e representantes da AZA juntamente com a Zoocheck Canada — uma organização de defesa dos direitos dos animais sediada em Toronto, que passaria a ter um papel -chave na transferência dos elefantes — e representantes do santuário californiano PAWS.


Ed Stewart, cofundador do Santuário PAWS (Performing Animal Welfare Society).(RICK MADONIK/TORONTO STAR) 

       
Ed Stewart, cofundador do PAWS, tentou defender seu santuário, que havia sido descrito pela equipe do zoo, conselheiros e repórteres como uma instalação “não credenciada”, mesmo sendo ela credenciada pela Federação Global de Santuários de Animais. O santuário PAWS nunca teve como objetivo um credenciamento pela AZA, Stewart tentou explicar, porque não é um zoo ou um aquário. 

A mensagem de Stewart não foi transmitida.

“Quando eu me aposentar e meus filhos estiverem decidindo o que fazer comigo, quero ir para uma casa de descanso licenciada”, disse Paul Ainslie,  vice-diretor do zoo e conselheiro da cidade, na reunião.

Ao término, o conselho do zoo votou por fechar a exibição de elefantes e enviar Iringa, Thika e Toka a um zoo credenciado pela AZA, como recomendado pela equipe do Zoo de Toronto e pela AZA. Um santuário somente seria considerado se não pudesse ser encontrada uma instalação credenciada, o que os representantes mencionaram ser improvável.

Passava de 22h do dia 25 de Outubro de 2011, quando a conselheira da Cidade de Toronto Michelle Berardinetti levantou-se, na câmara municipal, e apresentou uma moção -surpresa recomendando o envio dos elefantes para o santuário PAWS.

Seis meses haviam se passado desde a decisão do conselho de administração do zoo, o inverno estava se aproximando rapidamente e o Zoo de Toronto ainda não havia chegado a um plano viável, apesar de circularem  comentários de que representantes do zoo estavam conversando com uma instalação credenciada pela AZA nos Estados Unidos que estava querendo pegar os elefantes. A moção de Berardinetti iria arruinar aquele plano.

Argumentando que se livrar dos elefantes agora poderia fazer com que a cidade economizasse dinheiro e sugerindo que mais um inverno no zoo talvez resultasse em mais um elefante morto, o conselheiro Scarborough Southwest fez um pronunciamento emocionado aos colegas. A moção para enviar os elefantes ao santuário PAWS foi aprovada por 31 votos a 4 —  e foi quando a você-sabe-o-quê foi jogada no ventilador. 

Os tratadores do zoo ficaram perplexos. “Políticos da Cidade permitiram que um grupo de defesa dos direitos dos animais tirasse meu direito de ter a palavra sobre onde os elefantes dos quais cuidei por 16 anos passarão suas vidas”, escreveu Vernon Presley, chefe dos tratadores dos elefantes do zoo, no Facebook. “EU MERECI ISSO, VOCÊS NÃO!!!”
Outro funcionário do zoo escreveu que os conselheiros da Cidade eram “idiotas” que “não tinham a menor ideia sobre o que estavam falando”.

O conselheiro Glenn De Baeremaeker chamou a reação de “campanha de guerrilha” por uma “equipe perniciosa”. Ele e Berardinetti enfatizaram que o conselho tinha autoridade para tomar a decisão das mãos do zoo, por serem os elefantes propriedade da cidade. Alguns tratadores de elefantes e outros defensores do zoológico acusaram os conselheiros de serem “marionetes” sob o controle da “ARAs” — ativistas dos direitos dos animais.

Em meados de Novembro de 2011, os tratadores apresentaram uma petição ao conselho da cidade com 1.100 assinaturas, pedindo permissão para que “os especialistas do Zoo de Toronto” continuassem sua pesquisa e decidissem qual instalação seria a melhor para os elefantes”. Os Conselheiros enfrentaram muitas críticas pela moção -surpresa, mas tinham a vantagem de terem a seu lado alguns dos mais importantes especialistas do mundo em elefantes, incluindo Cynthia Moss, Joyce Poole e Keith Lindsay.

Lindsay, ecologista especializado em elefantes na Amboseli Trust for Elephants em Nairobi, no Quênia, escreveu ao conselho para oferecer sua visão de que santuários são as únicas instalações na América do Norte com condições que se aproximam das que os animais experimentam na natureza, “enquanto que nenhum zoo, credenciado ou de outro tipo, faz isso no momento”. Seus colegas concordaram.

Tratadores de zoológicos têm uma visão que sempre é colorida por “questões de tradição e status”, escreveu Peter Stroud, um ex-tratador e ex-diretor de zoológico.

“Que eles certamente sentem um poderoso dever de responsabilidade, não há dúvida. Mas que estão em posição de sempre saber o que é certo e melhor para seus animais, é evidentemente falso.”

Conforme se travava o debate, Ed Stewart viajou a Toronto com o veterinário do santuário PAWS para conhecer Iringa, Toka e Thika — uma visita planejada em acordo com a direção do conselho do Zoo de Toronto. Mas, quando chegou, o diretor-executivo do zoo lhe disse que aquela não era uma boa hora para ver os elefantes, afinal. As emoções estavam à flor da pele, e Tracogna ponderou que não sabia como a equipe iria reagir se visse Stewart lá.

Em meados de Dezembro de 2011, entre as crescentes críticas sobre o comportamento inadequado dos tratadores enfurecidos e acusações de atrasar o processo, o zoo convocou uma conferência de imprensa. Tracogna disse ao público que lamentava os “comentários inapropriados” postados no Facebook por membros de sua equipe que se opunham à mudança e afirmou que o zoo estava cooperando totalmente com o santuário PAWS nas preparações para a transferência dos elefantes. Foi definida, como data limite para a partida, começo da primavera. Essa seria a primeira de muitas.


John Tracogna, CEO (executivo chefe) do Zoo de Toronto. (BERNARD WEIL/TORONTO STAR)       

Quando a neve começou a cair em 2012, três contêineres para a viagem, capazes de abrigarem elefantes, chegaram a Toronto. Tudo parecia estar caminhando.

Nos bastidores, entretanto, os relacionamentos estavam se deteriorando,  conforme o zoo começava a investigar o que seus representantes chamaram de “problema de tuberculose” no santuário PAWS. Durante toda a primavera, o santuário PAWS alegou que a equipe do zoológico encarregada de realizar a investigação a tinha transformado numa “caça às bruxas”, enquanto o zoo reclamava que o santuário não estava apresentando as informações.


Os contêineres para elefantes serão usados para levar os paquidermes de Toronto para o Santuário PAWS, na Califórnia. (RENE JOHNSTON/TORONTO STAR)       

Em Abril, semanas antes do prazo estabelecido para a partida dos elefantes, a AZA revogou a credenciação do Zoo de Toronto, desencadeando uma nova onda de críticas sobre a decisão do conselho da Cidade. A associação foi rápida em afirmar que a decisão nada tinha a ver com sua posição sobre santuários e que fora tomada porque o voto do conselho infringira suas regras de administração, que estabelecem que decisões sobre coleções de animais devem ser tomadas por tratadores.  

No entanto, pessoas de dentro da indústria dos zoos acreditam que o movimento tenha sido um sinal de alerta para outros zoos que estivessem considerando enviar seus elefantes a santuários. “Foi uma clara manobra política”, afirma David Hancocks, que, durante muito tempo, foi diretor de zoo. “E isso é tudo o que significou.”

Em Maio, o santuário PAWS recebeu uma solicitação pouco comum do zoológico: um relatório sobre os níveis de tuberculose em toda a vida selvagem encontrada nos limites de seus 930 hectares, incluindo cervos e gatos vadios. A lista de pretensões do zoológico ficou muito acima e foi além das solicitações do acordo legal entre o PAWS e o zoo. “Nenhuma solicitação como essa jamais foi feita a nós — ou a qualquer outro”, afirmou um enfurecido Ed Stewart. Em um encontro a portas fechadas, um representante veterano do zoo até sugeriu que a coproprietária do PAWS, Pat Derby, poderia ter, ela mesma, tuberculose.

Em Setembro, o zoo faria uma conferência de imprensa para anunciar que seria prorrogada a transferência dos elefantes até 2013, devido a “sérias preocupações” sobre tuberculose no santuário. 

Os apoiadores do santuário PAWS disseram que esse movimento foi feito para desviar as atenções, mas as preocupações foram suficientes para persuadir o conselho do zoo a consultar o comitê executivo da cidade sobre a transnferência dos elefantes — uma vitória para a equipe do zoo e seus apoiadores. O Conselho da Cidade teria que votar novamente.

Nas preparações para a votação, membros da equipe do zoo pareciam confiantes em que o conselho faria o que eles achavam que fosse a coisa certa. “Esperando que finalmente possamos tomar um fôlego... deixem a verdade prevalecer, por favor!”, escreveu a tratadora de elefantes Heather Kalka no Twitter.

Ficariam desapontados. Em 27 de Novembro, o conselho reafirmou sua decisão, votando, por 32 a 8, pelo envio dos elefantes ao santuário PAWS.


O Santuário PAWS está localizado no sopé das montanhas de Sierra Nevada, em San Andreas, Califórnia. É a casa de oito elefantes, e de também de tigres, ursos e leões. (DETROIT FREE PRESS)

A orelha de Iringa se move delicadamente ao vento do inverno, enquanto ela se balança de um lado para o outro no recinto dos elefantes, deslizando  levemente sua tromba pelo piso conforme desloca seu peso de um lado para o outro. A temperatura está apenas um pouco acima de 5º C, o que significa que hoje os elefantes têm permissão para ficar do lado de fora. Conforme se embala, Iringa encara inexpressivamente os poucos visitantes que vieram vê-la. Seu movimento é uma dança medíocre, lenta e ritmada. Triste, alguns poderiam dizer. Na realidade, um punhado de  visitantes faz essa observação durante o período de uma hora, em uma tarde de um dia de semana, em Janeiro: Ela parece triste.

Ecologistas especializados em elefantes dizem que esse movimento de embalar é um sinal de estresse psicológico, observado com frequência em elefantes em cativeiro. Mas até mesmo essa conclusão é política. Para alguns, sim, Iringa parece triste. Outros argumentariam que talvez não possamos interpretar os pensamentos de um elefante. Talvez ela esteja feliz, e nós, simplesmente, não entendemos isso. Talvez ela esteja tendo um dia ruim. Talvez ela esteja doente por estar no centro de uma história interminável.

“Não estou olhando para o passado”, disse Tracogna numa entrevista recente. “Estou olhando para a frente.” 

Esta é a mensagem oficial do zoológico: A orientação do conselho de levar os animais para o santuário PAWS será seguida, e uma nova equipe de transferência está trabalhando diligentemente, com a data limite estabelecida para a primavera. “Elefantes foram um capítulo na história do zoo, como muitos outros capítulos que escrevemos antes” disse o diretor-executivo. Em outras palavras, é hora de seguirmos em frente.

Mas será que esta nova equipe vai deixá-las ir? Fará isso?

Em uma página privada do Facebook na qual os patrocinadores do Zoo de Toronto e alguns tratadores compartilham informações e publicam suas queixas, tem havido discussões relativas ao registro de uma reclamação junto à OSPCA sobre o plano de transferência ou a procura de uma “interferência federal”. 

No mês passado, uma semana antes do Natal, uma desanimada trupe de funcionários do Zoo de Toronto participou de uma reunião do conselho administrativo.

Como é a norma quando os elefantes estão em pauta, as emoções estavam à flor da pele. Num certo ponto, o Conselheiro De Baeremaeker repreendeu um antigo funcionário do zoo por estar “atrapalhando”. 

Mais tarde, numa página pública do Facebook gerenciada por alguns tratadores de elefantes e seus apoiadores, a tratadora Alison Babin compartilhou as últimas notícias.

“Elefantes de Toronto se preparam para a partida em Abril” dizia a manchete do  artigo que ela postou. 

Em alguns minutos, um membro da facção anti-PAWS respondeu: “Ou não”.  

Mortes de elefantes

Sete elefantes morreram no Zoo de Toronto desde 1984. Em 2008, a Zoocheck Canada obteve os resultados das necrópsias do zoo:
  • TW, 2 dias de idade, morreu em 1984 devido a problemas de estômago e intestino. 
  • Tantor, 20, morreu em 1989 por falência cardíaca, após uma cirurgia para extração de uma presa infeccionada.  
  • Toronto, 10, morreu em 1994 por excesso de toxinas no sangue.
  • Patsy, 39, sofreu eutanásia em 2006, devido a uma dor crônica causada por artrite e infecções nas patas. 
  • Tequila, 38, encontrada caída numa cerca elétrica em 2008. O relatório da necrópsia foi inconclusivo. 
  • Tessa, 40, morta em 2009. Ela foi lançada contra uma cerca elétrica depois de ser acertada por um outro elefante durante uma luta por feno. O  relatório da necrópsia indicou que ela morreu devido a tentativas de levantá-la e a uma síndrome crônica e devastadora.
  • Tara, 41, morreu depois de cair, em 2009. Ela tinha uma artrite severa nas articulações de ambas as pernas traseiras, o que tornou difícil para ela se levantar. 

Link para o artigo original.


A opinião da ElephantVoices

Estamos convencidos de que os elefantes do Zoológico de Toronto terão uma vida muito melhor no Santuário PAWS e esperamos que as duas sábias e esmagadoras votações da Câmara Municipal de Toronto sejam suficientes para deixá-los ir quando o clima ficar um pouco mais quente.

O número de zoológicos abrindo mão de seus elefantes tem crescido nos últimos tempos. Muitos estão questionando se os zoológicos podem atender às demandas extraordinárias desses seres também extraordinários. Leia aqui "Mente e Movimento - Indo ao Encontro dos Interesses dos Elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli (ElephantVoices), que é primeiro capítulo do livro mencionado na reportagem do Toronto Star - "Um Elefante na Sala: A Ciência e o Bem-estar dos Elefantes em Cativeiro" e saiba por quê. 


O debate sobre zoológicos no Brasil 

No Brasil, também se discute a situação dos animais em zoológicos. Leia o artigo "Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) levanta sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil". 

Saiba mais sobre elefantes em cativeiro, no website da ElephantVoices.

Curta as páginas da ElephantVoices Brasil e da ElephantVoices no Facebook e as compartilhe com seus amigos - com os que sabem e, principalmente, com os que nada sabem sobre elefantes! 

Os elefantes precisam de nossas vozes!



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Comércio de Marfim: Produtos, Controles e Consequências

Katarzyna Nowak, PhD, para o Fair Observer

Não é hora de sermos complacentes ou politicamente corretos, ou testemunharemos a perda do maior mamífero terrestre do planeta.

O mercado de marfim gera imensas discórdias por estar sujeito a inúmeras variáveis: interações entre homens e elefantes, artefatos e tradições culturais, comércio ilegal e a conservação de elefantes. A exploração do marfim determinará a probabilidade de extinção das populações de elefantes e afetará a subsistência humana. O marfim expressa os dilemas associados à sustentabilidade da vida selvagem. Similarmente, a perda de elefantes tem implicações no meio ambiente de algumas regiões, já que os elefantes que habitam a África subsaariana  têm signifiva influência em seu habitat como “engenheiros” do ecossistema. O marfim tem importância cultural, econômica e até politica, por sua conexão histórica com o financiamento de armas ilegais (dados presentes no Relatório da Comissão Kumleben, de 1996).


Preparação para a remoção das presas de um elefante macho adulto que foi morto enquanto incursionava em uma plantação. Fonte: Paulo Mndeme and Katarzyna Nowak
A aquisição e a comercialização de marfim estão inseridas na rede de crime organizado que atende a uma demanda insaciável da Ásia, especialmente da China. A Convenção para o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), um organismo internacional com 175 paises membros, instituiu a proibição do comércio de marfim em 1989, após duas decadas de intensa matança, mas, em seguida, permitiu a venda de estoques de marfim de países sul-africanos, como Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue. Essas vendas geraram uma controvérsia: elas teriam estimulado o aumento da demanda por marfim e, consequentemente, a caça ilegal? Uma resposta clara ainda não foi dada, mas, desde 2005, houve um dramático incremento no tráfico ilegal de marfim. Esse incremento é parcialmente atribuído à venda de estoques, pelos que são contra o comércio, e pela proibição do comércio, pelos que são a favor.

As questões são complexas e difíceis de desembaraçar. Na teoria, se o comércio fosse legalizado e controlado, os fundos gerados seriam usados para a conservação dos elefantes. Mas poderia a demanda atual ser suprida pela mortalidade natural e pelo “controle de animais problemáticos” – fontes legais de marfim – ou seria necessária uma quantidade maior? Se os elefantes estão sendo “consumidos”, quem irá regularizar o fornecimento, impor limites de números e, o mais premente, se beneficiar diretamente desse mercado? Populações locais que convivem com elefantes podem precisar de um retorno dessa coexistência para obter um maior nível de tolerância, ao passo que o termo  “fundos para conservação” sugere um retorno direto aos cofres governamentais (ou para-estatais).

Não está claro o que mudou desde a proibição de 1989  para acreditarmos que podemos controlar o comércio de marfim, especialmente quando os sindicatos do crime estão cada vez mais sofisticados. Basear decisões relativas à conservação no que possa ser menos lucrativo para a Máfia, a Tríade (máfia chinesa) e a Yakuza (máfia japonesa), significa que entramos numa era de preservação e contra o crime organizado, contando com as forças de mercado. Será ingênua a visão de que uma abordagem de mercado a favor da conservação pode conter um boom do mercado negro? Que exemplos reais existem no mundo de tais mercados salvando espécies?

Em comparação com as mais de 33,000 espécies que a CITES regula, é desproporcional a quantidade de tempo e energia que é dispendida, em cada Conferência dos Partidos (CoP), com assuntos relativos ao mercado de marfim. O “Debate do Mercado de Marfim” existe devido a visões polarizadas entre os países signatários. Algumas questões fundamentais continuam sem solução, incluindo decisões tomadas por países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde não existem elefantes e, portanto, nenhuma experiência em conflitos entre homens e elefantes. Outra questão é a listagem de uma única espécie, no Apêndice I (proibição total do comércio internacional) e no Apêndice II (comércio restrito), para permitir aos países do sul da África um comércio controlado. Há uma falta de transparência e de participação no processo de seleção dos membros do Painel de Especialistas e de participantes de reuniões fechadas no CoPs, como também de perguntas responsáveis  sobre quem fornece os dados que contribuem para as decisões dos usuários finais (funcionários do governo, assessores contratados ou cientistas com interesses próprios). As decisões são tomadas por cada país isoladamente, a despeito da mobilidade das populações de elefantes através de países vizinhos com diferentes paradigmas no tratamento de elefantes. Há falta de uma série de providências concretas e de confiabilidade na determinação das fontes de marfim –  mortes naturais, controles populacionais ou caça ilegal e confisco. Finalmente, o acompanhamento de registros de adesão às regras do CITES por um pais comprador e as justificativas de um país vendedor sobre a necessidade de fundos e a verificação do seu uso não são sistematicamente avaliados.

Estas são questões multifacetadas que, futuramente, ficarão mais complicadas, pelo fato de que não é possível fazer generalizações simples sobre a África a respeito do status de elefantes e as causas do aumento ou do declínio de suas populações. Isso levou alguns cientistas, como Rosaleen Duffy, autora de Nature Crime (2011), a argumentar contra uma solução tipo “todos no mesmo saco” e, em vez disso, ser a favor de uma divisão das listagens, que leva em conta políticas específicas para cada país, regimes de manutenção e conquistas na área de conservação. Uma avaliação de cada país, relacionada ao processo de tomada de decisão do CITES, considera a população de elefantes de cada país como distinta e, consequentemente, desconsidera a movimentação de elefantes por países vizinhos, restringindo, assim, a necessidade de se ver as populações de elefantes como metapopulações que se espalham por diversos países. O professor Rudi van Aarde, da Universidade de Pretória, e Tim Jackson, editor cientifico da National Geographic, acreditam que a mobilidade dos elefantes necessita de uma abordagem transnacional, para evitar o problema da concentração de um grande número de indivíduos num mesmo local, o que frequentemente leva a um aumento dos conflitos com humanos.

O chamado “excesso de elefantes” em países do sul da África deve ser interpretado dentro de um contexto no qual a extensão do habitat dos elefantes encolheu e as populações foram reduzidas em mais de 50%, desde a década de 1970. As populações de elefantes jamais recuperarão aquele nível em que estavam antes da epidêmica caça ilegal dos anos 1970, quando a África perdeu, no mínimo, 500.000 elefantes. Todavia, os defensores do comércio John Frederick Walker e Daniel Stiles argumentam que 40 anos não são suficientes para se discutir uma tendência para as populações de elefantes, apesar de que 40 anos não equivalem sequer aos anos de vida de um só elefante.

Além disso, somos confrontados com uma segunda questão, possivelmente mais urgente do que aquela relativa ao comércio somente: existe espaço para elefantes na África? Hoje, para cada 2.000 pessoas na África, existe menos de um elefante. Enquanto as populações de elefantes diminuíram catastroficamente até o final de 1980, a população humana quase dobrou, e a China se tornou o primeiro país a atingir um bilhão de habitantes, em 1980. A recuperação das populações de elefantes coincide com a expansão das populações humanas e suas atividades de subsistência nos habitats antigos dos elefantes, eliminando a capacidade das populações de se recuperarem, sem uma direta e quase sempre perigosa interação humano-elefante. O conflito entre humanos e elefantes tem se tornado um argumento para os mais fracos e despossuídos, nos debates políticos abrangendo a posse e o uso planejado da terra e o poder político. O conflito entre humanos e elefantes também tem sido um mecanismo potencialmente explorado para aumentar os estoques de marfim. A expansão da população humana e uma classe média com maior poder aquisitivo significam não só um aumento na demanda pela tradicional medicina tribal (que tem um enorme impacto sobre rinocerontes, tigres e ursos), mas também por bens luxuosos, como carnes de animais silvestres(por usuários urbanos) e marfim. Políticas públicas, e não as forças de mercado, devem ser direcionadas às  necessidades farmacológicas humanas, avisa o Professor Richard Sullivan, num relatório da EMBO, de 2010. Pode uma política pública atuar, da mesma maneira, na regulamentação de valores arcaicos e estéticos humanos?

A comunidade conservacionista tem sido, por enquanto, mantida em silêncio, acusada de não se importar com os pobres da zona rural e de superdimensionar a importância de espécies não humanas, oferecendo pouco suporte financeiro à administração da vida selvagem e para os sem terra. Por exemplo, Duffy escreve que “o modo pelo qual os povos ocidentais percebem os elefantes – uma visão romântica – demonstra que não é possível vislumbrar uma possibilidade de convivência com eles”. Suas declarações representam outra perspectiva política – a visão de um cientista ocidental preocupado com os despossuídos – e são tão igualmente corruptas intelectualmente como as de ativistas do bem -estar animal que menosprezam as necessidades humanas. Muitos financiamentos e esforços de biólogos de campo são canalizados para avaliar e mitigar os conflitos entre humanos e elefantes. Exemplos disso são o famoso Projeto Pimenta de Elefante (Elephant Pepper Project) no Zimbábue, e
as cercas de colmeias de abelha, no Quênia, (beehive fences in Kenya), projetos que testaram a eficácia das pimentas chilli e das colmeias como inibidoras de elefantes. Mais de 15% dos projetos financiados pelo US Fish and Wildlife African Elephant Conservation Fund (Fundo Americano da Vida Selvagem e Aquática para a Conservação do Elefante Africano) nos últimos cinco anos (2006 - 2010) foram para projetos com um componente explícito de conflito humano-elefante. Esses esforços, que representam o quanto estamos acertando na questão da conservação, não são mencionados no livro de Duffy “Como Estamos Errando na Conservação” (How We’re Getting Conservation Wrong).

De acordo com Duffy, a proibição do mercado de marfim “ castiga” os países em desenvolvimento, fazendo os pobres ficarem mais pobres. Isso presume que os fundos levantados com a venda legal do marfim irão beneficiar diretamente as comunidades que vivem lado a lado com os elefantes; que esses fundos serão distribuídos igualmente, ou, pelo menos, equitativamente; e que pelo menos alguma renda irá para a mitigação do conflito humano-elefante e a restauração de corredores verdes (particularmente se a melhora na conectividade entre habitats vier a ser, a longo prazo,  uma melhor estratégia para diminuir o conflito humano- elefante do que os métodos de inibição).  Duffy escreve que a mídia internacional e ONGs globais “ demonizam aldeões como sendo gananciosos ou são condescendentes por eles serem pobres”, quando o assunto é a caça ilegal. Ela está possivelmente correta quando diz que as ações anticaça ilegal miram o sintoma (caçadores) em vez da causa (demanda global e seus objetivos econômicos), mas as ONGs de conservação não criaram esses mercados globalizados.

Quando foi que a atenuação da pobreza virou a prioridade das ONGs de conservação? Não existem organizações maiores – Usaid, Oxfam, ONU – com mais experiência nisso? São os caçadores ilegais de marfim realmente um sintoma de pobreza ou de uma demanda global e, consequentemente, a chance de fazer dinheiro fácil? Caçadores, em Moçambique, mataram recentemente, de helicóptero, 52 elefantes, o que demonstra que estavam mais bem equipados que os guardas florestais no solo, descartando a imagem dos caçadores como sendo “ pobres aldeões”.

A instalação de corredores – que ajudariam a aliviar o conflito humano-elefante, ao promover a locomoção dos elefantes entre habitats apropriados – foi recentemente classificada como “apropriação de terra”,  num artigo escrito por Mara Goldman nos Anais da Associação dos Geógrafos Americanos. Por que estradas que fazem um elo entre as populações de vida selvagem são menos importantes do que aquelas que ligam as populações humanas? estradas que atravessam áreas selvagens não seriam “apropriações ilegais de terra”? A terra – e muitos dos seus usos e serviços – está destinada somente para o benefício humano?

Autores como Duffy e Goldman estão pedindo aos conservacionistas que concordem com a perda de espécies para evitar acusações de neocolonialismo. Essas questões – altamente políticas – deixam pouco espaço para a defesa de aspectos centrados na ciência e na ecologia. Se a discussão é realmente sobre se o marfim é um “recurso” econômico para os países, será a proibição a resposta? Se for assim, então talvez a verdadeira questão seja se o lado da demanda pode ser afetado num prazo necessário. Essa é uma questão de justiça, normas distributivas e equilíbrio moral. Surgem as perguntas: por que as pessoas querem marfim? Por que algumas “mercadorias” não se tornaram arcaicas na Ásia e no resto do mundo?

Investigações sobre o mercado e a regulamentação de outros troféus animais, como dentes de rinoceronte, cascos de tartaruga, xales tibetanos de shahtoosh (proveniente do antílope) e partes de animais usadas na tradicional medicina chinesa – ossos de tigre, bílis de urso e chifres de rinoceronte – podem informar o Debate Sobre o Mercado de Marfim. Entretanto, as possíveis ligações existentes no comércio de diversas espécies não foram devidamente pesquisadas. Por exemplo, a possibilidade da estocagem de marfim encorajar outras estocagens, como as de partes de tigres e ursos provenientes de fazendas ou de populações em cativeiro,  não foi ainda investigada. Pesquisadores de tigres, preocupados com a competição entre “fazendeiros” e “negociantes” (i.e., caçadores ilegais), duvidam de que o comércio legal de marfim possa impedir o mercado negro. Caçadores ilegais podem vender partes de tigre em mercados legais por preços inferiores aos dos fazendeiros, devido ao alto custo da produção em fazendas (como também é o custo de obter, transportar e manter o marfim em local seguro). Por outro lado, o custo de caçar ilegalmente um tigre ou um elefante na natureza é relativamente baixo, mesmo com o risco de ser apanhado. A crença de  Walker e Stiles de que as forças do mercado poderiam controlar o comércio de marfim e a ideia de que, com o comércio legal, não haveria compradores no mercado negro, independentemente da corrupção e da fraca imposição da lei, não parece estar fundamentada no que já foi observado com outras espécies. Isso quer dizer que não foi percebida uma redução na demanda de partes de animais devido às “forças de mercado” (como, por exemplo, a bílis de urso). A legalização do comércio de tigres de fazenda reabre um mercado que passou por um intenso declínio na China. Que forças garantiriam que um comércio legal de marfim seria sustentável e controlado, particularmente quando o comércio ilegal de marfim está prosperando em partes da China? (
illegal ivory trade is thriving in parts of China?)

Se o mercado de marfim diminuísse a caça ilegal e levasse a uma redução da morte de elefantes, então o assunto seria simples, e a questão do mercado de marfim ser ou não ético não seria um argumento para alguns, incluindo Peter Singer, o primeiro filósofo dos direitos dos animais. Mas, enquanto discutimos as questões do relacionamento entre o mercado de marfim e a caça ilegal e debatemos os detalhes, estamos perdendo milhares de elefantes. Eu já vi o “fracasso na ação, enquanto reunimos mais dados” como uma questão ética. Isso de novo deixa de lado uma questão muito mais ética e fundamental: “Devem os elefantes ser uma mercadoria?”

Como diz Fred Nelson, Diretor da Maliasili Initiatives, instituição sem fins lucrativos e baseada nos EUA, “todos os debates da CITES são agradáveis, nos artigos publicados, mas,  provavelmente, não são suficientemente críticos quanto à situação real, que depende mais do que cada país está fazendo individualmente em relação ao cumprimento da lei, ao compartilhamento dos benefícios com as comunidades locais e à administração dos recursos naturais em geral”. O que pode ser crítico para esse gerenciamento, e algo que o movimento conservacionista ainda não explorou o suficiente, é a restauração da relação entre o homem e a natureza selvagem. Talvez o que estejamos precisando é de celebrarmos a natureza e nos lembrarmos da nossa interdependência com ela, estimulando o desenvolvimento do meio ambiente, em vez de fazer cálices de chifre de rinoceronte e capas de celulares de marfim, o símbolo de status dos novos-ricos – e de todo mundo também.

Agradeço a Samuel Wasser, Phyllis Lee, Richard Sullivan e William Grassie, por seus comentários inestimáveis.


Link para o artigo original.

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) levanta sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil

Maus-tratos no Zoo da Matinha (BA): Tripoli aciona, e Secretaria Municipal de Meio Ambiente se manifesta

 

Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP)

O Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) acionou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e se pronunciou sobre o caso de denúncias de maus-tratos no Zoo da Matinha, na Bahia. No pronunciamento, publicado em sua página de internet, o Deputado chama a atenção para o intenso debate sobre a questão dos zoológicos, que tem ocorrido no mundo todo

"Os zoológicos, muito embora assumam função importante no que tange à educação e à conservação, tem sido alvo de intenso debate no país e no mundo. Os animais normalmente são mantidos em espaços exíguos, e inadequados às exigências espécie-específicas. Apresentam comportamentos estereotipados (comportamento motor repetitivo, não funcional) e são privados das condições primárias de bem-estar físico, mental e natural, ainda que se tente promover enriquecimento ambiental. Peço que fiquem atentos e que continuem denunciando abusos e abandono. É preciso provocar este debate, necessário em tempos de mudanças de paradigmas, éticos e legais!"

Leia aqui a manifestação integral do Deputado Tripoli, em sua página de internet, e saiba mais sobre o caso.   

A ElephantVoices parabeniza o Deputado Ricardo Tripoli por levantar sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil.

Uma boa parte do trabalho da ElephantVoices está relacionada ao bem-estar de elefantes em cativeiro. A conservação e o tratamento ético de elefantes selvagens é de extrema importância. Entretanto, a aflição e a miséria sofridas por muitos elefantes em cativeiro são assustadoras. Com quatro décadas de pesquisas inovadoras sobre elefantes selvagens, a ElephantVoices está em posição de falar com confiança sobre os interesses dos elefantes, onde quer que eles estejam. 

Nossas descobertas científicas indicam que precisamos melhorar o modo pelo qual cuidamos dos elefantes e demandam que pequemos pelo excesso de prudência quando os interesses desses seres tão inteligentes e sociais estão sendo considerados. 

Zoológicos não são uma alternativa adequada para abrigar os elefantes que serão libertados dos circos no Brasil - por que este é o momento certo para o país planejar criteriosamente e de modo responsável o destino desses animais

O Projeto de Lei 7291/06que proíbe o uso de animais silvestres das faunas brasileira e exótica na atividade circense em todo o território nacional, está no Plenário da Câmara dos Deputados, aguardando votação, depois de ter sido aprovado pela terceira comissão da Câmara, a CCJC (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania), com base no parecer do Deputado Ricardo Tripoli (PSDB/SP). A ElephantVoices apoia o Deputado Ricardo Tripoli e trabalha em colaboração com ele pela aprovação do Projeto de Lei

Este é o momento certo para o Brasil planejar criteriosamente e de modo responsável o destino dos animais que serão libertados dos circos. Com relação aos elefantes, podemos afirmar que os zoológicos não são, infelizmente, uma alternativa adequada. Tanto os representantes dos zoos como os ativistas do bem-estar animal têm se concentrado nas causas imediatas do sofrimento dos elefantes em cativeiro (problemas nas patas, artrite, problemas de saúde relacionados à reprodução, obesidade, hiperagressividade, comportamentos estereotipados). Mas, se não resolvermos a fonte elementar de sofrimento de um elefante em cativeiro – a completa falta de estímulos mentais relevantes e de atividades físicas –, nunca atenderemos às suas necessidades biológicas e comportamentais. 

A ElephantVoices está trabalhando ativamente para a conscientização sobre a necessidade da criação de um Santuário para Elefantes no Brasil. 

Santuários para Elefantes, além de abrigarem elefantes resgatados de circos e propriedades rurais, também são a casa de elefantes que se aposentam de zoológicos. Alguns zoológicos, como o de Detroit, nos Estados Unidos, conscientes das necessidades de seus elefantes, decidiram enviar seus animais a santuários e estão satisfeitos com os resultados de sua decisão (assista, abaixo, ao depoimento de Ron Kagan, Diretor do Zoo de Detroit, à ElephantVoices Brasil, durante o congresso PAWS Summit for Elephants, em Março de 2012, na Califórnia). Um zoológico da Argentina também está à procura de uma vaga em um santuário para sua elefanta asiática. E a Fundação Brigitte Bardot, defendendo os interesses de Baby e Népal, os elefantes do Zoo de Lyon (França), que afirmou que não poderia mais mantê-los no zoo devido a suspeitas de problemas em sua saúde e que pretendia neles praticar a eutanásia, também está à procura de um local adequado para recebê-los. Não faltam exemplos no mundo todo que comprovam a necessidade da criação de novos santuários para elefantes, em locais estratégicos. O Brasil, com sua economia crescente e notável consciência ambiental, e dispondo de regiões com clima, vegetação e relevo adequados para abrigar tanto elefantes africanos como asiáticos, pode e deve dar um importante passo nesse sentido.



Depoimento de Ron Kagan, Diretor do Zoo de Detroit, à ElephantVoices Brasil, durante o congresso PAWS Summit for Elephants, em Março de 2012, na Califórnia, sobre a decisão do zoo de enviar seus elefantes a um santuário (legendado em Português).


Santuários para Elefantes: alguns casos de sucesso pelo mundo

Conheça os santuários TES - Santuário de Elefantes do Tennessee (Estados Unidos), fundado por Scott Blais (consultor da ElephantVoices) em 1995, PAWS, na Califórnia (Estados Unidos), BLES e Elephant Nature Park (ambos na Tailândia). Saiba também como uma floresta no Camboja que estava prestes a ser derrubada se transformou em um projeto sustentável, bom para os elefantes e para os habitantes da região.


Grupo de elefantes em Mara Naboisho Conservancy, parte do ecossistema 
de Maasai Mara, no Quênia (© ElephantVoices, 2011)
Leia mais 

Conheça aqui os Princípios da ElephantVoices para a criação de um Santuário para Elefantes.

Leia também "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli.   

Uma série de declarações e testemunhos da ElephantVoices e da Amboseli Trust for Elephants a respeito do bem-estar de elefantes na natureza, em santuários, zoológicos e circos pode ser acessada aqui

Leia "A América do Sul Precisa de Elefantes" - ecologista australiano afirma que a reintrodução de grandes herbívoros nas Américas ajudaria a restaurar ecossistemas e salvar espécies nativas ameaçadas, e assista à divertida animação "O Elefante Planta Florestas".

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domingo, 13 de janeiro de 2013

Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos

Alimentada pelo aumento da demanda por marfim, a grande matança de elefantes africanos chegou a um nível monumental. Em uma entrevista com a Yale Environment 360, o repórter do New York Times Jeffrey Gettleman discute a sua investigação a fundo sobre o fatal comércio do marfim, que envolve o apoio das forças militares americanas em várias nações africanas.

Por Christina M. Russo, Yale Environment 360

Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.

Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano. 

 
Gettleman, que recebeu o prêmio Pulitzer 2012 de Jornalismo Internacional, também discutiu sobre como grupos infames – incluindo o Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army – LRA); o janjaweed, em Darfur; e o grupo islamita Shabab – participam da caça ilegal de elefantes.

Jeffrey Gettleman
Gettleman observa que a atual dizimação de manadas de elefantes é emblemática, que deriva de um problema ainda maior que assola o povo africano e seu patrimônio natural, que um dia foi tão rico: a omissão do Estado. “É por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central”, ele diz, “porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há áreas enormes completamente sem lei”.

Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?

Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.

O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.

Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.


e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?

Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.

(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim. 


Elefantes massacrados por causa de suas presas de marfim no Parque Nacional de  Bouba Ndjida, em Camarões, em Fevereiro de 2012. Conforme o preço do marfim sobe, dezenas de milhares de elefantes Africanos estão sendo mortos anualmente por causa de suas presas. (AFP/Getty Images)

e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?

Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.

E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.

e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?

Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.

Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam  usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando? 



Guardas florestais inspecionam um Elefante Africano da Floresta morto por caçadores no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana. (Foto: TRAFFIC/Martin Harvey/WWF-Canon)

e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?

Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.

Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.

Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.


Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.

e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?

Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.



Funcionária do grupo de conservação Traffic inspeciona marfim apreendido na Malásia. O mercado global de marfim é fortemente impulsionado pela demanda da China e de várias outras nações asiáticas. (Foto: TRAFFIC)

e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?

Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.

e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?

Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais.  Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.

Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro. 


Um elefante morto por causa de seu marfim, no Chade. (Foto: SOS Elephants of Chad/Stephanie Verignault)

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