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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Harmonizando Mortes de Elefantes


Publicado por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices, em “Uma Voz para os Elefantes”, Coluna da National Geographic, em 5 de Fevereiro de 2013.


Uma foto de identificação de Goodness, matriarca morta por flechadas
por causa de suas presas. Foto: ElephantVoices.

Banhados pela luz da lua, esperávamos deitados pelo alarme, que deveria tocar às 4:30h, quando teríamos que nos levantar. O Rift Valley se espraiava sereno e mágico abaixo de nós. Um momento de tranquilidade. teríamos um longo dia pela frente, que Começaria com três horas e meia de estrada, de Il Masin, ao sul dos Ngong Hills, através do Rift Valley, até Ewaso Nyiro, em Narok, para chegarmos para a reunião das 9h.

Ainda bem que o tráfego estava tranquilo àquela hora tão cedo, dando algum espaço em nossas mentes para que vislumbrássemos a reunião da qual iríamos participar. Estávamos temerosos em pensar quantos elefantes estariam na lista final. Nossa previsão era que fossem 150 indivíduos, talvez alguns a mais ou alguns a menos. Qualquer que fosse o número, sabíamos que isso representaria apenas as carcaças que foram encontradas. Havia outros lá fora, escondidos por densa vegetação, em lugares sem patrulhamento, cujas mortes jamais seriam apuradas. Quantos corpos e ossos de machos ainda estariam lá? Quantas fêmeas? Quantos filhotes teriam sucumbido por causa da fome e do sofrimento causado pela morte de suas mães? Quantos deles no mato e quantos na lista daquele dia eram elefantes que tínhamos minuciosamente fotografado, registrado e descrito em nosso banco de dados, mas cujas mortes jamais iríamos registrar?  

Dois dias depois, uma fêmea adulta foi encontrada assassinada ali perto, e o macho adulto m0243 foi visto tomando conta desse filhote de 6 anos. Foto: ElephantVoices.

“Não podíamos usar a palavra ‘harmonizar’ sem chorarmos um pouco.”

O objetivo do dia não era nada bonito. Iríamos nos encontrar com outras pessoas integrantes do processo, na sede do Kenya Wildlife Service (KWS), no condado de Narok, para harmonizarmos as mortes de elefantes de 2012 que cada um de nós havia coletado do mundialmente famoso ecossistema de Maasai Mara. Não podíamos usar a palavra harmonizar sem chorarmos um pouco. Sincronizar teria sido um termo melhor, já que a tarefa que tínhamos pela frente não parecia nem um pouco harmoniosa ou agradável.

Os participantes foram chamados com alguma antecedência e vieram de todo o Maasai Mara. Havia representantes do KWS, das Câmaras Municipais de Narok e Transmara, das unidades de conservação, além de ONGs e cientistas, todos reunidos numa pequena sala. Fomos munidos de nossos mortos — em papéis, em fotografias, em arquivos, em pastas, em planilhas e em nosso banco de dados. Muitos deles também estavam em nossos corações, como indivíduos que havíamos conhecido. Lekuta e Tenebo, dois machos maduros, cujos nomes foram dados, respectivamente, por patrulheiros das unidades de conservação Olare Orok e Siana, estavam na lista. A linda matriarca Goodness (Bondade) cujo nome foi dado por Derrick Nabaala, guia da unidade de conservação Mara Naboisho, por causa de sua natureza tão gentil, também estava na lista. Todos os três tinham sido mortos por flechadas por causa de suas presas.

O dia todo se passou com a discussão em torno das georreferências dos locais dos cemitérios dos elefantes, das presas que foram recuperadas e das que foram perdidas e das horríveis mortes individuais, por tiros, flechadas e setas envenenadas. Esclarecemos quais morreram de morte natural, quais foram mortos em conflitos com pessoas por causa dos minguantes recursos, ou os que foram mortos por causa de suas presas de marfim. Haviam todos sido georreferenciados? Sem um ponto de GPS, eles não poderiam ser verificados e contados entre os mortos. Acrescentamos nossas “novas” vítimas e riscamos os que estavam contados duas vezes na lista. 

“Vejam, vejam, vejam o que está acontecendo com nossos elefantes! PAREM com a matança! PAREM com o mercado de marfim!”

Trabalhamos até o fim do dia, quando tomamos o caminho de casa. outros continuaram durante o dia seguinte, até que cada registro tivesse sido checado e estivesse de acordo. Planejado para ocorrer a cada trimestre, estávamos esperando por esse processo. Uma vez que os dados estejam organizados, podemos ir para a imprensa com os horríveis números, podemos postá-los no Facebook, podemos gritar para o mundo com os difíceis fatos, a incontestável evidência: “Vejam, vejam, vejam o que está acontecendo com nossos elefantes! PAREM com a matança! PAREM com o comércio de marfim!”

Enquanto isso, o registro de 2013 começou, e a matança continua: seis em Janeiro, em apenas uma unidade de conservação do Mara. Dizem-nos que muitas pessoas na China acham que os elefantes deixam cair suas presas, como caem as armações dos cervídeos. A repulsiva mensagem de que cada presa custa uma vida não chegou a esses compradores. Temos que fazer com que a compra de marfim, assim como o uso de casacos de pele de felinos malhados, seja algo a ser desprezado

Usando um colar com GPS que permite que pesquisadores monitorem seus movimentos, Omondi faz uma pausa para escutar. Assim como muitos machos do Mara, ele tem um ferimento supurado, provocado por uma flecha. Foto: ElephantVoices.

Enquanto existir um mercado para o marfim, ele terá valor. Enquanto ele tiver valor, será um recurso controlado por pessoas que têm poder. O comércio de marfim no Quênia, assim como em qualquer outro local, é um negócio corrupto e sujo. Em todos os lugares a que vamos, escutamos o mesmo refrão: “É sempre assim em ano de eleição”, ou “não melhorará até que ocorram as eleições”. As pessoas insinuam que os políticos estão engajados   no mercado de marfim para levantar verba para suas campanhas. Pode ser verdade, mas a escala do problema é muito, muito maior que isso, e não temos ilusões de que a situação ficará melhor depois das eleições do começo de Março, a não ser que ajamos solidariamente e falemos como uma só voz.

O que significa exatamente "harmonizar" a mortalidade dos elefantes, e por que devemos fazer isso? A simples resposta é que, com tantas pessoas engajadas em conservação de elefantes no Quênia, temos que organizar esses números, de modo que possamos documentar o que está acontecendo e reagir de modo apropriado. Na realidade, a situação é um pouco mais complexa.

Para explicar, é necessário um pouco de história. Até 1990, os elefantes Africanos estavam no Apêndice II da Convenção do Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Convention on International Trade in Endangered Species - CITES), que permitia a venda de marfim pelos países que tinham elefantes, sob um sistema de cotas. Era um sistema tão aberto a abusos que o Leste da África perdeu 85% de seus elefantes em 15 anos, e a população de elefantes no continente caiu de 1,3 milhão para 600.000.

Em 1989, os Participantes da CITES votaram por colocar os elefantes Africanos no Apêndice I, decretando, por meio disso, uma proibição do comércio internacional de marfim. O voto certamente não foi unânime, e muitos países do sul da África e seus parceiros de negócios foram contra.

Nos dez anos que se seguiram, viu-se tanto uma lenta recuperação das populações desses mamíferos de longa vida, como também o desgaste da proibição. Muitas populações de elefantes dos países do sul da África foram “rebaixadas” para o Apêndice II e as chamadas vendas “únicas” de seus estoques de marfim foram permitidas para o Japão e para a China. 

Elefantes bebês brincando na segurança relativa das unidades de conservação.
Foto: ElephantVoices.
Em 2000, em resposta a preocupações de que essas vendas estimulariam o mercado, os Participantes da  CITES iniciaram um programa chamado  Monitoramento da Matança Ilegal de Elefantes (Monitoring the Illegal Killing of Elephants), ou MIKE, para ficar mais curto. O programa MIKE envolve a coleta de dados específicos da mortalidade de elefantes de umas 52 “localidades MIKE” ou de populações de elefantes monitorados através da África, tendo como um de seus objetivos principais monitorar onde e como as decisões tomadas pela CITES possam estar impactando os níveis de caça ilegal na região

Embora esses dados tenham fornecido indicadores valiosos sobre as tendências da caça ilegal, também foram altamente criticados por não terem sido capazes de comprovar, ou não, alguma causalidade entre as vendas de estoques de marfim e os níveis de caça ilegal. Já em 2007, havia indicadores de que nem tudo estava bem, mas, conforme o número de elefantes caçados continuou a subir, houve um grande desentendimento sobre se os “rebaixamentos na lista e as vendas dos estoques de marfim eram a causa, ou se a “proibição” (fragilizada por eles) não estava mais funcionando. No final de 2012, a situação da caça ilegal ficou completamente fora de controle, e o MIKE era ainda incapaz de concluir se as vendas de marfim eram a causa! 

Houve outras questões no MIKE que nos perturbaram. Na medida em que o MIKE forneceu fatos e números para as autoridades, em alguns países ele pode também ter levado a uma demora em soar o alarme sobre a matança de elefantes por causa do marfim. 

O Quênia tem duas localidades oficiais no MIKE: Tsavo e Samburu/Laikipia. Além disso, a presença de projetos com elefantes no Amboseli e em Maasai Mara também tem permitido registros detalhados de mortalidade coletados de acordo com os critérios do MIKE.

Uma família com órfãos, liderada por uma fêmea jovem, encontra na estrada  um bom lugar para um banho de lama. Foto: ElephantVoices.

Cientistas amam fatos e números, assim como os oficiais do governo. Fatos e números significam informação, e o controle dessas informações significa poder. Aqueles que coletam dados frequentemente querem usá-los para seus próprios propósitos e podem ser relutantes em compartilhá-los. Indivíduos e instituições podem também esconder números porque não gostam do que eles revelam e podem, por essa razão, querer controlar o acesso a eles.

No início dos anos 1990, quando Joyce encabeçava o Programa de Elefantes para o KWS (Serviço para a Vida Selvagem do Quênia), ela estabeleceu um Banco de Dados de Mortalidade de Elefantes, para ajudar o KWS a monitorar seus esforços anticaça, assim como o sucesso da proibição do comércio de marfim que tinha sido decretado pela CITES. É esse  banco de dados que agora abriga os dados do MIKE e forma uma importante  fonte de informação sobre o nível da caça ilegal de elefantes no país.

Como resultado do programa MIKE, algumas informações do Banco de Dados de Mortalidade do KWS são agora de interesse de uma audiência mais ampla. De fato, o mundo todo, subitamente, tem debatido esses dados. De particular interesse para o mundo todo, em geral, é o “PIKE” — ou o percentual de elefantes assassinados ilegalmente em relação ao número total de mortes. 

Nos últimos seis anos, o número de mortes e, particularmente, o PIKE, têm crescido constantemente (acreditamos que devido a decisões tomadas na CITES). Os números não têm sido bonitos, e é preciso dizer que algumas pessoas têm procurado tanto fazer discursos de fachada quanto esconder os fatos para mantê-los longe do público. Cientistas têm sido intimidados por terem diferenças de opiniões sobre os números. Há rumores de que, por  falarem abertamente sobre isso, pessoas têm tido seus financiamentos bloqueados, sócios honorários têm sido despojados de seus títulos e alguns têm sido acusados de conluio com caçadores. Qualquer que seja a verdade, tem florescido um clima de suspeitas, de sigilo, causando frustração e muita raiva, mesmo entre colegas e amigos. 

“Ainda bem que, nas últimas semanas, temos visto uma importante mudança de atitude no Quênia.”

Ainda bem que, nas últimas semanas, temos visto uma importante mudança de atitude no Quênia. A imprensa, de repente, está realmente bem informada, “dando nomes” e pressionando para que se faça algo. O Primeiro- Ministro, Raila Odinga, prometeu agir, e todos os sinais indicam que cabeças rolarão. O novo Diretor do Serviço para a Vida Selvagem do Quênia (Kenya Wildlife Service) está prometendo transparência, e isso está se estendendo a seus colaboradores, e encontros de harmonização estão acontecendo em todo o país.

Mais do que qualquer país do mundo, o Quênia é o epicentro do conhecimento sobre elefantes. Temos um time de conservacionistas internacionalmente reconhecido e autoridades em elefantes, experiência em  conservação, instituições, aplicação de políticas e um público alarmado e  desejoso de diminuir a matança. Enquanto escrevemos, membros de um novo grupo, Quenianos Unidos contra a Caça Ilegal (Kenyans United Against Poaching), marcham pelas ruas de Mombasa, cantando:

“Se não há vida selvagem – Não há turismo, 
Sem turismo – Não há trabalho, 
Sem turismo – Não há economia, 
Sem turismo – Não se vislumbra 2030. 
Temos que acabar com a caça ilegal agora. 
A China tem que Acabar com o Comércio de Marfim.”

Os elefantes são um recurso do Quênia e de seu povo e, enquanto aguardamos os resultados dos números oficiais de mortalidade de elefantes em 2012, temos a esperança de que o “Time Quênia” trabalhará junto, em harmonia, para proteger seus elefantes.



Joyce Poole estuda elefantes desde 1975, tem PhD em comportamento de elefantes pela Universidade de Cambridge e teve papel fundamental na obtenção da proibição do comércio de marfim, em 1989. Ela é uma autoridade mundial em comportamento social, reprodutivo, comunicativo e cognitivo e dedicou sua vida à conservação e bem-estar dos elefantes. Poole encabeçou o Programa de Elefantes do Serviço para a Vida Selvagem do Quênia (Kenya Wildlife Service) de 1990 a 1994 e foi responsável pela conservação e manutenção de elefantes em todo o Quênia. É autora de numerosos artigos científicos, de dois livros e a autora principal do “The Elephant Charter”. Poole e seu marido, Petter Granli, fundaram e dirigem a ElephantVoices. Em 2011, deram início a um projeto contínuo de conservação no Maasai Mara. Leia mais em www.elephantvoices.org.



Petter Granli é um economista com significativa experiência corporativa em gerenciamento e comunicação. Seu trabalho com conservação de vida selvagem começou em1998, como um dos fundadores da premiada empresa de ecoturismo norueguesa Basecamp Explorer, que dirigiu por três anos. Ali deu início ao Projeto de Conservação de Guepardos em Maasai Mara e a diversos trabalhos ecológicos colaborativos envolvendo os Maasai. Em 2004, enquanto trabalhava com Joyce Poole, começou um projeto de mitigação de conflitos entre humanos e elefantes na região do Amboseli. Com Joyce, fundou e dirige a ElephantVoices. Leia mais em www.elephantvoices.org.

Acesse o artigo original, na página da National Geographic.
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ouro Branco

A Fundação Africana de Filmes Ambientais (AEFF) lançará, em breve, seu mais recente filme, intitulado "Ouro Branco".

O filme lança uma luz intensa sobre o comércio de marfim e como ele afeta o Quênia, sob as perspectivas econômica, ecológica e de segurança. 

O poderoso filme e seus “trailers” serão mostrados em março na CoP 16 da CITES, em Bangkok, na Tailândia, na China - na TV e em redes sociais - e em um grande número de países africanos, através de 77 empresas de teledifusão. 


Bebê elefante na África: uma história de vida, um dos trailers de "Ouro Branco", poderoso filme que será exibido na CITES e em diversos países do mundo durante a CoP 16 de Bangkok.
Clique aqui.

Assista a outros dois trailers:

O Marfim e o Terrorismo: uma ligação muito forte para ser ignorada

Clique aqui.

A Maldição do Mercado de Marfim

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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Comércio de Marfim: Produtos, Controles e Consequências

Katarzyna Nowak, PhD, para o Fair Observer

Não é hora de sermos complacentes ou politicamente corretos, ou testemunharemos a perda do maior mamífero terrestre do planeta.

O mercado de marfim gera imensas discórdias por estar sujeito a inúmeras variáveis: interações entre homens e elefantes, artefatos e tradições culturais, comércio ilegal e a conservação de elefantes. A exploração do marfim determinará a probabilidade de extinção das populações de elefantes e afetará a subsistência humana. O marfim expressa os dilemas associados à sustentabilidade da vida selvagem. Similarmente, a perda de elefantes tem implicações no meio ambiente de algumas regiões, já que os elefantes que habitam a África subsaariana  têm signifiva influência em seu habitat como “engenheiros” do ecossistema. O marfim tem importância cultural, econômica e até politica, por sua conexão histórica com o financiamento de armas ilegais (dados presentes no Relatório da Comissão Kumleben, de 1996).


Preparação para a remoção das presas de um elefante macho adulto que foi morto enquanto incursionava em uma plantação. Fonte: Paulo Mndeme and Katarzyna Nowak
A aquisição e a comercialização de marfim estão inseridas na rede de crime organizado que atende a uma demanda insaciável da Ásia, especialmente da China. A Convenção para o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), um organismo internacional com 175 paises membros, instituiu a proibição do comércio de marfim em 1989, após duas decadas de intensa matança, mas, em seguida, permitiu a venda de estoques de marfim de países sul-africanos, como Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue. Essas vendas geraram uma controvérsia: elas teriam estimulado o aumento da demanda por marfim e, consequentemente, a caça ilegal? Uma resposta clara ainda não foi dada, mas, desde 2005, houve um dramático incremento no tráfico ilegal de marfim. Esse incremento é parcialmente atribuído à venda de estoques, pelos que são contra o comércio, e pela proibição do comércio, pelos que são a favor.

As questões são complexas e difíceis de desembaraçar. Na teoria, se o comércio fosse legalizado e controlado, os fundos gerados seriam usados para a conservação dos elefantes. Mas poderia a demanda atual ser suprida pela mortalidade natural e pelo “controle de animais problemáticos” – fontes legais de marfim – ou seria necessária uma quantidade maior? Se os elefantes estão sendo “consumidos”, quem irá regularizar o fornecimento, impor limites de números e, o mais premente, se beneficiar diretamente desse mercado? Populações locais que convivem com elefantes podem precisar de um retorno dessa coexistência para obter um maior nível de tolerância, ao passo que o termo  “fundos para conservação” sugere um retorno direto aos cofres governamentais (ou para-estatais).

Não está claro o que mudou desde a proibição de 1989  para acreditarmos que podemos controlar o comércio de marfim, especialmente quando os sindicatos do crime estão cada vez mais sofisticados. Basear decisões relativas à conservação no que possa ser menos lucrativo para a Máfia, a Tríade (máfia chinesa) e a Yakuza (máfia japonesa), significa que entramos numa era de preservação e contra o crime organizado, contando com as forças de mercado. Será ingênua a visão de que uma abordagem de mercado a favor da conservação pode conter um boom do mercado negro? Que exemplos reais existem no mundo de tais mercados salvando espécies?

Em comparação com as mais de 33,000 espécies que a CITES regula, é desproporcional a quantidade de tempo e energia que é dispendida, em cada Conferência dos Partidos (CoP), com assuntos relativos ao mercado de marfim. O “Debate do Mercado de Marfim” existe devido a visões polarizadas entre os países signatários. Algumas questões fundamentais continuam sem solução, incluindo decisões tomadas por países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde não existem elefantes e, portanto, nenhuma experiência em conflitos entre homens e elefantes. Outra questão é a listagem de uma única espécie, no Apêndice I (proibição total do comércio internacional) e no Apêndice II (comércio restrito), para permitir aos países do sul da África um comércio controlado. Há uma falta de transparência e de participação no processo de seleção dos membros do Painel de Especialistas e de participantes de reuniões fechadas no CoPs, como também de perguntas responsáveis  sobre quem fornece os dados que contribuem para as decisões dos usuários finais (funcionários do governo, assessores contratados ou cientistas com interesses próprios). As decisões são tomadas por cada país isoladamente, a despeito da mobilidade das populações de elefantes através de países vizinhos com diferentes paradigmas no tratamento de elefantes. Há falta de uma série de providências concretas e de confiabilidade na determinação das fontes de marfim –  mortes naturais, controles populacionais ou caça ilegal e confisco. Finalmente, o acompanhamento de registros de adesão às regras do CITES por um pais comprador e as justificativas de um país vendedor sobre a necessidade de fundos e a verificação do seu uso não são sistematicamente avaliados.

Estas são questões multifacetadas que, futuramente, ficarão mais complicadas, pelo fato de que não é possível fazer generalizações simples sobre a África a respeito do status de elefantes e as causas do aumento ou do declínio de suas populações. Isso levou alguns cientistas, como Rosaleen Duffy, autora de Nature Crime (2011), a argumentar contra uma solução tipo “todos no mesmo saco” e, em vez disso, ser a favor de uma divisão das listagens, que leva em conta políticas específicas para cada país, regimes de manutenção e conquistas na área de conservação. Uma avaliação de cada país, relacionada ao processo de tomada de decisão do CITES, considera a população de elefantes de cada país como distinta e, consequentemente, desconsidera a movimentação de elefantes por países vizinhos, restringindo, assim, a necessidade de se ver as populações de elefantes como metapopulações que se espalham por diversos países. O professor Rudi van Aarde, da Universidade de Pretória, e Tim Jackson, editor cientifico da National Geographic, acreditam que a mobilidade dos elefantes necessita de uma abordagem transnacional, para evitar o problema da concentração de um grande número de indivíduos num mesmo local, o que frequentemente leva a um aumento dos conflitos com humanos.

O chamado “excesso de elefantes” em países do sul da África deve ser interpretado dentro de um contexto no qual a extensão do habitat dos elefantes encolheu e as populações foram reduzidas em mais de 50%, desde a década de 1970. As populações de elefantes jamais recuperarão aquele nível em que estavam antes da epidêmica caça ilegal dos anos 1970, quando a África perdeu, no mínimo, 500.000 elefantes. Todavia, os defensores do comércio John Frederick Walker e Daniel Stiles argumentam que 40 anos não são suficientes para se discutir uma tendência para as populações de elefantes, apesar de que 40 anos não equivalem sequer aos anos de vida de um só elefante.

Além disso, somos confrontados com uma segunda questão, possivelmente mais urgente do que aquela relativa ao comércio somente: existe espaço para elefantes na África? Hoje, para cada 2.000 pessoas na África, existe menos de um elefante. Enquanto as populações de elefantes diminuíram catastroficamente até o final de 1980, a população humana quase dobrou, e a China se tornou o primeiro país a atingir um bilhão de habitantes, em 1980. A recuperação das populações de elefantes coincide com a expansão das populações humanas e suas atividades de subsistência nos habitats antigos dos elefantes, eliminando a capacidade das populações de se recuperarem, sem uma direta e quase sempre perigosa interação humano-elefante. O conflito entre humanos e elefantes tem se tornado um argumento para os mais fracos e despossuídos, nos debates políticos abrangendo a posse e o uso planejado da terra e o poder político. O conflito entre humanos e elefantes também tem sido um mecanismo potencialmente explorado para aumentar os estoques de marfim. A expansão da população humana e uma classe média com maior poder aquisitivo significam não só um aumento na demanda pela tradicional medicina tribal (que tem um enorme impacto sobre rinocerontes, tigres e ursos), mas também por bens luxuosos, como carnes de animais silvestres(por usuários urbanos) e marfim. Políticas públicas, e não as forças de mercado, devem ser direcionadas às  necessidades farmacológicas humanas, avisa o Professor Richard Sullivan, num relatório da EMBO, de 2010. Pode uma política pública atuar, da mesma maneira, na regulamentação de valores arcaicos e estéticos humanos?

A comunidade conservacionista tem sido, por enquanto, mantida em silêncio, acusada de não se importar com os pobres da zona rural e de superdimensionar a importância de espécies não humanas, oferecendo pouco suporte financeiro à administração da vida selvagem e para os sem terra. Por exemplo, Duffy escreve que “o modo pelo qual os povos ocidentais percebem os elefantes – uma visão romântica – demonstra que não é possível vislumbrar uma possibilidade de convivência com eles”. Suas declarações representam outra perspectiva política – a visão de um cientista ocidental preocupado com os despossuídos – e são tão igualmente corruptas intelectualmente como as de ativistas do bem -estar animal que menosprezam as necessidades humanas. Muitos financiamentos e esforços de biólogos de campo são canalizados para avaliar e mitigar os conflitos entre humanos e elefantes. Exemplos disso são o famoso Projeto Pimenta de Elefante (Elephant Pepper Project) no Zimbábue, e
as cercas de colmeias de abelha, no Quênia, (beehive fences in Kenya), projetos que testaram a eficácia das pimentas chilli e das colmeias como inibidoras de elefantes. Mais de 15% dos projetos financiados pelo US Fish and Wildlife African Elephant Conservation Fund (Fundo Americano da Vida Selvagem e Aquática para a Conservação do Elefante Africano) nos últimos cinco anos (2006 - 2010) foram para projetos com um componente explícito de conflito humano-elefante. Esses esforços, que representam o quanto estamos acertando na questão da conservação, não são mencionados no livro de Duffy “Como Estamos Errando na Conservação” (How We’re Getting Conservation Wrong).

De acordo com Duffy, a proibição do mercado de marfim “ castiga” os países em desenvolvimento, fazendo os pobres ficarem mais pobres. Isso presume que os fundos levantados com a venda legal do marfim irão beneficiar diretamente as comunidades que vivem lado a lado com os elefantes; que esses fundos serão distribuídos igualmente, ou, pelo menos, equitativamente; e que pelo menos alguma renda irá para a mitigação do conflito humano-elefante e a restauração de corredores verdes (particularmente se a melhora na conectividade entre habitats vier a ser, a longo prazo,  uma melhor estratégia para diminuir o conflito humano- elefante do que os métodos de inibição).  Duffy escreve que a mídia internacional e ONGs globais “ demonizam aldeões como sendo gananciosos ou são condescendentes por eles serem pobres”, quando o assunto é a caça ilegal. Ela está possivelmente correta quando diz que as ações anticaça ilegal miram o sintoma (caçadores) em vez da causa (demanda global e seus objetivos econômicos), mas as ONGs de conservação não criaram esses mercados globalizados.

Quando foi que a atenuação da pobreza virou a prioridade das ONGs de conservação? Não existem organizações maiores – Usaid, Oxfam, ONU – com mais experiência nisso? São os caçadores ilegais de marfim realmente um sintoma de pobreza ou de uma demanda global e, consequentemente, a chance de fazer dinheiro fácil? Caçadores, em Moçambique, mataram recentemente, de helicóptero, 52 elefantes, o que demonstra que estavam mais bem equipados que os guardas florestais no solo, descartando a imagem dos caçadores como sendo “ pobres aldeões”.

A instalação de corredores – que ajudariam a aliviar o conflito humano-elefante, ao promover a locomoção dos elefantes entre habitats apropriados – foi recentemente classificada como “apropriação de terra”,  num artigo escrito por Mara Goldman nos Anais da Associação dos Geógrafos Americanos. Por que estradas que fazem um elo entre as populações de vida selvagem são menos importantes do que aquelas que ligam as populações humanas? estradas que atravessam áreas selvagens não seriam “apropriações ilegais de terra”? A terra – e muitos dos seus usos e serviços – está destinada somente para o benefício humano?

Autores como Duffy e Goldman estão pedindo aos conservacionistas que concordem com a perda de espécies para evitar acusações de neocolonialismo. Essas questões – altamente políticas – deixam pouco espaço para a defesa de aspectos centrados na ciência e na ecologia. Se a discussão é realmente sobre se o marfim é um “recurso” econômico para os países, será a proibição a resposta? Se for assim, então talvez a verdadeira questão seja se o lado da demanda pode ser afetado num prazo necessário. Essa é uma questão de justiça, normas distributivas e equilíbrio moral. Surgem as perguntas: por que as pessoas querem marfim? Por que algumas “mercadorias” não se tornaram arcaicas na Ásia e no resto do mundo?

Investigações sobre o mercado e a regulamentação de outros troféus animais, como dentes de rinoceronte, cascos de tartaruga, xales tibetanos de shahtoosh (proveniente do antílope) e partes de animais usadas na tradicional medicina chinesa – ossos de tigre, bílis de urso e chifres de rinoceronte – podem informar o Debate Sobre o Mercado de Marfim. Entretanto, as possíveis ligações existentes no comércio de diversas espécies não foram devidamente pesquisadas. Por exemplo, a possibilidade da estocagem de marfim encorajar outras estocagens, como as de partes de tigres e ursos provenientes de fazendas ou de populações em cativeiro,  não foi ainda investigada. Pesquisadores de tigres, preocupados com a competição entre “fazendeiros” e “negociantes” (i.e., caçadores ilegais), duvidam de que o comércio legal de marfim possa impedir o mercado negro. Caçadores ilegais podem vender partes de tigre em mercados legais por preços inferiores aos dos fazendeiros, devido ao alto custo da produção em fazendas (como também é o custo de obter, transportar e manter o marfim em local seguro). Por outro lado, o custo de caçar ilegalmente um tigre ou um elefante na natureza é relativamente baixo, mesmo com o risco de ser apanhado. A crença de  Walker e Stiles de que as forças do mercado poderiam controlar o comércio de marfim e a ideia de que, com o comércio legal, não haveria compradores no mercado negro, independentemente da corrupção e da fraca imposição da lei, não parece estar fundamentada no que já foi observado com outras espécies. Isso quer dizer que não foi percebida uma redução na demanda de partes de animais devido às “forças de mercado” (como, por exemplo, a bílis de urso). A legalização do comércio de tigres de fazenda reabre um mercado que passou por um intenso declínio na China. Que forças garantiriam que um comércio legal de marfim seria sustentável e controlado, particularmente quando o comércio ilegal de marfim está prosperando em partes da China? (
illegal ivory trade is thriving in parts of China?)

Se o mercado de marfim diminuísse a caça ilegal e levasse a uma redução da morte de elefantes, então o assunto seria simples, e a questão do mercado de marfim ser ou não ético não seria um argumento para alguns, incluindo Peter Singer, o primeiro filósofo dos direitos dos animais. Mas, enquanto discutimos as questões do relacionamento entre o mercado de marfim e a caça ilegal e debatemos os detalhes, estamos perdendo milhares de elefantes. Eu já vi o “fracasso na ação, enquanto reunimos mais dados” como uma questão ética. Isso de novo deixa de lado uma questão muito mais ética e fundamental: “Devem os elefantes ser uma mercadoria?”

Como diz Fred Nelson, Diretor da Maliasili Initiatives, instituição sem fins lucrativos e baseada nos EUA, “todos os debates da CITES são agradáveis, nos artigos publicados, mas,  provavelmente, não são suficientemente críticos quanto à situação real, que depende mais do que cada país está fazendo individualmente em relação ao cumprimento da lei, ao compartilhamento dos benefícios com as comunidades locais e à administração dos recursos naturais em geral”. O que pode ser crítico para esse gerenciamento, e algo que o movimento conservacionista ainda não explorou o suficiente, é a restauração da relação entre o homem e a natureza selvagem. Talvez o que estejamos precisando é de celebrarmos a natureza e nos lembrarmos da nossa interdependência com ela, estimulando o desenvolvimento do meio ambiente, em vez de fazer cálices de chifre de rinoceronte e capas de celulares de marfim, o símbolo de status dos novos-ricos – e de todo mundo também.

Agradeço a Samuel Wasser, Phyllis Lee, Richard Sullivan e William Grassie, por seus comentários inestimáveis.


Link para o artigo original.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ou a venda de marfim para agora ou os elefantes da África estarão extintos em breve, diz Jane Goodall

Obrigado, Jane Goodall, por levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes. Obrigado por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada.

A conservacionista acusa a China de insuflar a caça ilegal, enquanto presas são contrabandeadas em malas diplomáticas.

Por John Vidal - The Guardian 
Publicado em 16 de dezembro de 2012

Elefantes na Reserva de Maasai Mara, no Quênia. 
Fotografia: Anup Shah/ Anup Shah/Corbis

Jane Goodall, uma das maiores conservacionistas do mundo, fez um apelo arrebatado a favor da proibição mundial da venda de marfim, a fim de evitar a extinção do elefante Africano.

O apelo foi feito após a apreensão de 24 toneladas de marfim ilegal na Malásia, na semana passada, e um relatório de conservacionistas advertir que o comércio ilegal de marfim agora ameaça governos porque grupos rebeldes usam as presas de elefantes para financiar suas guerras.

“Uma grande tragédia está acontecendo em algumas partes da África. Isso é desesperadamente sério, sem precedentes”, disse ela. “Acreditamos que a Tanzânia tenha perdido metade de seus elefantes nos últimos três anos. Aviões militares de Uganda foram vistos na República Democrática do Congo atirando, do ar, nos elefantes. Agora, milícias armadas estão atirando nos elefantes.”

Ela acusou a China de ser essencialmente responsável, porque é para lá que a maioria do marfim vai, para ser transformado em ornamentos. “Os mercados principais são a China e o oriente. Parece que o marfim está sendo contrabandeado nas malas dos diplomatas chineses ou em aviões não registrados, ou ainda através da fronteira, para a República Democrática do Congo. Gangues armadas e guardas florestais estão se unindo no contrabando ou sendo mortos. Temo estarmos perdendo a batalha em alguns países. É chocante”, disse ela.

O aumento da presença chinesa na África está relacionado ao crescimento sem precedentes da caça ilegal. A descoberta, por oficiais alfandegários da Malásia, de 1.500 presas, na semana passada, escondidas em compartimentos secretos dentro de 10 contêineres que supostamente carregavam pisos de madeira foi a maior apreensão já vista, equivalendo a todo o marfim ilegal apreendido no ano passado.


Os contêineres estavam indo do Togo para a China, via Espanha. O Togo é o destino popular do contrabando feito por gangues armadas. Essa apreensão veio após a descoberta de 1.000 presas de marfim em Hong Kong, e de 200 presas na própria Tanzânia.

Goodall, que ficou famosa por seu trabalho como primatologista, estudando chimpanzés na África, comparou a deterioração da situação dos elefantes com o declínio drástico das populações de primatas nos últimos 40 anos. “ Estamos testemunhando a devastação de populações de elefantes em vários países. É uma  situação similar à dos grandes primatas. Todo mundo deveria estar preocupado. Estamos lutando por uma total proibição da venda do marfim.”

Ela vai fazer uma campanha, junto com David Attenborough, para persuadir a ONU a proibir a venda do marfim. “O mundo precisa acordar. Governos precisam apertar o cerco. Ninguém, em lugar nenhum, deve comprar marfim. Países têm que ser ajudados no esforço de controle da caça ilegal,” disse Goodall.

Um relatório entregue à ONU, na semana passada, pela WWF Internacional, adverte que o comércio ilegal de marfim ameaça governos, uma vez que grupos rebeldes usam a venda para financiar suas guerras. “A situação ultrapassa a questão da vida selvagem. Essa crise está ameaçando a estabilidade de governos. É uma ameaça à segurança nacional”, disse Jim Leape, diretor -geral da WWF Internacional.

Em alguns países a caça ilegal está fora de controle. No sul do Sudão, a população de elefantes, estimada em 130.000 em 1986, caiu para 5.000, disse Paul Elkan, diretor da Wildlife Conservation Society. “Com esses níveis de caça ilegal, daqui a cinco anos eles não existirão mais. Até as forças de segurança estão envolvidas no tráfico”, disse ele.

Conservacionistas acusam as autoridades da Tanzânia de não controlarem a caça ilegal e o tráfico. “Um enorme massacre de elefantes está ocorrendo na Tanzânia, agora. Está fora de controle”, disse Iain Douglas-Hamilton, conservacionista veterano. “Não há proteção para os elefantes, assim como não houve para os bisões na América, no século passado, quando foram exterminados. As pessoas então não devem se enganar.”

A Tanzânia, com 70.000 - 80.000 elefantes em 2009, tem perto de um quarto dos elefantes de toda a África. Mas Peter Msigwa, um parlamentar da Tanzânia, disse, na semana passada, que a caça ilegal está “fora de controle”, com uma média de 30 elefantes sendo mortos por dia, por causa do marfim.

“No fim do ano, são 10.000 elefantes mortos”, disse James Lembeli, dirigente da comissão dos recursos naturais da Tanzânia. “Em locais onde este país tem elefantes, há carcaças por todos os lados”, disse ele.

No Ano passado, a polícia da Tanzânia apreendeu mais de 1.000 presas de elefantes escondidas em sacos de peixe salgado, no porto de Zanzibar.
 

Em junho, a Convenção do Comércio Internacional de Espécies em Extinção (CITES) descreveu a difícil situação dos elefantes da África como “crítica” e disse que a caça ilegal atingiu o maior índice da década, com milhares de elefantes mortos por ano por causa de suas presas. 


Marfim sangrento - um massacre fora de controle

Por: ElephantVoices

Os fatos que marcaram 2012 já foram vistos antes por Joyce Poole, da ElephantVoices. É o retorno de um pesadelo. No final dos anos 80, quando os elefantes estavam sendo massacrados em uma quantidade sem precedentes, ela conduziu pesquisas sobre as populações de elefantes africanos para documentar o impacto que a caça ilegal estava causando em sua reprodução e comportamento social. Joyce ajudou a escrever a proposta que culminou na proibição do comércio internacional de marfim, em 1989. Nos 17 anos que se seguiram, ela assistiu à recuperação das populações de elefantes, tanto em termos numéricos como sociais. Isso durou até 2007, quando o organismo internacional que regulamenta o comércio de espécies ameaçadas, a CITES, permitiu a exportação de marfim por cinco países do sul da África, incluindo a China como parceiro comercial. 


Então, assistimos ao inevitável: o inferno começou a aflorar. Em 2010, expressamos nossa grave preocupação em um documento publicado na Revista Science e demos uma palestra na CoP15, em Doha, Qatar, nos posicionando contra qualquer nova venda. Na ocasião, as autoridades não concordaram com nossa preocupação. Mas agora foi diferente. Com a matança totalmente fora de controle, as Nações Unidas afirmaram recentemente que a matança de elefantes é uma ameaça à segurança global.


No ecossistema de Maasai Mara, onde trabalhamos, os elefantes estão parcialmente protegidos pela presença de turistas. Mas apenas nos primeiros três meses de 2012, 42 elefantes foram mortos ilegalmente ali.  No segundo semestre de 2012, nossa adorada “Goodness” (“Bondade”, cujo nome foi dado por Derrick Nabaala devido à sua natureza gentil) foi morta por possuir longas e assimétricas presas, deixando para trás sua jovem filha, f0361, e outros filhos (veja o álbum de fotografias de Goodness no facebook). No final de Agosto, encontramos f0361 parada sozinha sob uma árvore, desolada. Uma família de cinco membros foi reduzida a apenas um, pelo assassinato da matriarca, por causa de suas presas. A morte dos dependentes - filhotes de até 10 anos de idade - é o custo não revelado do mercado de marfim. O marfim é dentina, dente que pertence aos elefantes, não ao aparador da lareira.


Goodness, matriarca morta por possuir grandes e assimétricas presas, fotografada com sua família
no ecossistema de Maasai Mara, no Quênia (Foto: ElephantVoices)

Graças a uma combinação de vozes protestando e ao trabalho duro de muitas pessoas no mundo todo, a informação está, finalmente, sendo transmitida. O artigo “Culto ao Marfim”, da National Geographic, alarmou a opinião pública, em outubro de 2012. Em dezembro, foi a vez de Jane Goodall levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes.


A declaração de Jane chega na hora certa, enquanto muitos de nós estão se preparando para uma grande batalha na CoP 16 da CITES, em Bangcoc, em Março de 2013. Esperamos que a China perceba que é de seu interesse policiar seu crescente mercado de marfim, a indústria de entalhe e seus nocivos compatriotas na África. É hora de entrar na batalha para parar a matança dos elefantes. A China tem muito a perder e pouco a ganhar,  se não fizer isso. Apoiadores do mercado de marfim, atenção ao que está escrito na parede: “O mundo quer elefantes e não um estoque de marfim!”. Obrigado, Jane Goodall, por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada. 

Saiba mais sobre nosso trabalho na Reserva de Maasai Mara, no Quênia.


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sábado, 22 de dezembro de 2012

Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro


Por Jeffrey Gettleman
The New York Times


Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo – Em 30 anos de luta contra caçadores ilegais, Paul Onyango nunca vira nada parecido: vinte e dois elefantes mortos, incluindo vários filhotes, agrupados na savana aberta, muitos abatidos com uma única bala no topo da cabeça.
 

A Guerra do Marfim: pelotões fortemente armados de guardas florestais 
no Parque Nacional de Garamba, República Democrática do Congo, 
travam uma guerra contra os caçadores de elefantes.


Não havia pegadas ou rastros, nenhum sinal de que os caçadores espreitaram suas vítimas. As presas foram retiradas a machadadas, mas a carne continuava intacta – e caçadores de subsistência quase sempre talham um pouco de carne para a longa caminhada de volta para casa.

Vários dias depois, no começo de abril, guardas do Parque Nacional de Garamba localizaram um helicóptero militar de Uganda voando em baixa altitude sobre o parque, num voo não autorizado, e disseram que o helicóptero abruptamente fez a volta e foi embora ao ser detectado. Oficiais do parque, cientistas e autoridades congolesas agora acreditam que militares de Uganda – um dos parceiros mais próximos do Pentágono, na África – mataram os 22 elefantes de um helicóptero e levaram mais de um milhão de dólares em marfim.

“Foram tiros bons, tiros muito bons,” disse o sr. Onyango, chefe dos guardas florestais de Garamba. “Eles mataram até os bebês. Por quê? Parece que vieram só para destruir tudo.”

A África está no centro de uma chacina épica de elefantes. Grupos conservacionistas dizem que os caçadores ilegais estão matando milhares de elefantes por ano, mais do que em qualquer época nas últimas duas décadas, e o comércio ilegal de marfim está ficando cada vez mais militarizado.

Como os diamantes de sangue de Serra Leoa ou a pilhagem de minerais do Congo, o marfim, assim parece, é a mais recente fonte de conflitos na África, subtraído de zonas remotas de batalhas, facilmente convertido em dinheiro e agora abastecendo conflitos pelo continente.

Alguns dos grupos armados mais notórios da África, como o Lord’s Resistance Army e os janjaweeds de Shabab e Darfur, estão caçando elefantes e usando suas presas para sustentar sua desordem. Sindicatos do crime organizado estão se unindo a eles para movimentar o marfim pelo mundo, explorando estados turbulentos, fronteiras porosas e oficiais corruptos, da África Subsaariana para a China, dizem as forças policiais.

Mais não são só os fora da lei que estão envolvidos. Membros de alguns exércitos africanos treinados e sustentados pelo governo americano com milhões de dólares do contribuinte – como os militares de Uganda, o exército congolês e os militares do recentemente independente Sudão do Sul – estão implicados na caça ilegal de elefantes e no negócio do marfim.

Soldados congoleses são frequentemente presos por isso. Forças do Sudão do Sul frequentemente combatem guardas florestais. A Interpol, rede de polícia internacional, está ajudando a investigar a matança em massa de elefantes no Parque de Garamba, tentando comparar exemplos de DNA dos crânios dos animais com uma enorme carga de presas, marcadas como “utensílios domésticos”, recentemente confiscada no aeroporto de Uganda.

A grande maioria do marfim ilegal – 70%, segundo especialistas – vai para a China, e, embora o marfim seja cobiçado há séculos, nunca tantos chineses puderam adquiri-lo como agora. O boom econômico chinês criou uma vasta classe média, elevando o preço do marfim para estratosféricos US$ 1.000,00 por libra nas ruas de Pequim (o que equivale
equivale a 0,4536 kg).

 A África está no meio de uma matança épica de elefantes. Grupos de conservacionistas afirmam que os caçadores estão liquidando dezenas de milhares de elefantes por ano, mais do que em qualquer época nas duas décadas anteriores, com o mercado de marfim ilegal se tornando incrivelmente militarizado. O Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo, é um campo de batalha, com uma corrida armamentista acontecendo através da savana. 
Foto: Tyler Hicks/The New York Times


Oficiais de alto escalão do Exército da Liberação do Povo (ELP) chinês têm uma predileção por presentes feitos de badulaques de marfim. Fóruns na internet oferecem um mercado próspero e não regulamentado de palitos usados como talheres, marcadores de livro, anéis, cuias e pentes, além de dicas de como contrabandear os objetos (enrolá-los em papel-alumínio, segundo um dos sites, para enganar as máquinas de raio x dos aeroportos).

Ano passado, mais de 150 cidadãos chineses foram presos na África, do Quênia a Nigéria, por contrabando de marfim. Há evidências de que a caça ilegal aumentou em países com ricas populações de elefantes em áreas onde trabalhadores chineses constroem estradas.

“A China é o epicentro da demanda,” diz Robert Hormats, um oficial veterano do Departamento de Estado americano. “Sem a demanda da China, isso tudo acabaria”.

Hormats disse que a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton, que há alguns anos condenou os minerais vindos de zonas de conflito do Congo, levantou a lebre do marfim com os chineses e disse que iria “gastar tempo e esforço consideráveis nessa questão e discutiria o assunto ousadamente”.

Há gerações estrangeiros vêm dizimando as populações de elefantes africanos. O “ouro branco” foi uma das razões primordiais pela qual o rei Leopoldo II da Bélgica transformou o Congo em seu feudo pessoal no final do século XIX, levando as lutas pelo marfim a excessos de brutalidade. Esses fatos foram relatados, em forma de ficção, por Joseph Conrad em seu livro “O Coração das Trevas” e plantaram as sementes para a queda livre na qual o Congo se encontra hoje em dia.

A Costa do Marfim ganhou esse nome por causa das imensas manadas de elefantes que costumavam habitar suas florestas. Hoje, depois de décadas de carnificina, quase não existe mais marfim.

A demanda por marfim aumentou tanto que as presas de um único elefante adulto pode vir a valer dez vezes mais que o valor de um salário anual em muitos países africanos.
 

Na Tanzânia, aldeões pobres envenenam abóboras e as despejam nas estradas para os elefantes comerem. No Gabão, caçadores de subsistência estão sendo recrutados para matar elefantes nas profundezas da floresta, e as presas, às vezes, são trocadas por um punhado de sal.

Monitores internacionais começaram a manter registros detalhados da caça ilegal na África a partir de 2002, e, no ano passado, os números atingiram seu maior nível. Em 2011, foi quebrado o recorde de apreensões de marfim no mundo: 38,8 toneladas (equivalentes a mais de 4.000 elefantes mortos). Oficiais de Justiça dizem que o aumento de apreensões é um nítido sinal de que o crime organizado se uniu ao mercado de marfim, porque só uma máquina criminal bem azeitada – com a ajuda de oficiais corruptos – pode deslocar centenas de toneladas por milhares de milhas através do mundo, frequentemente usando compartimentos secretos em contêineres especialmente construídos para tal.

Os contrabandistas são “sindicatos criminosos asiáticos com bases na África, que se adaptam facilmente às intervenções da lei, mudando constantemente rotas e modus operandi”, diz Tom Milliken, diretor do Projeto de Monitoramento Internacional do Marfim. 


Conservacionistas dizem que as mortes em massa que estão ocorrendo na África são tão ruins ou até piores que as ocorridas na década de 80, quando caçadores ilegais mataram mais da metade dos elefantes africanos, isso antes que a proibição internacional do comércio de marfim fosse finalmente efetivada.

“Estamos vivenciando o que parece ser a maior perda de elefantes da História”, diz Richard G. Ruggiero, oficial do Serviço de Pesca e Vida Selvagem americano.

Especialistas dizem que a sobrevivência da espécie está em risco, principalmente quando membros dos serviços de segurança africanos incumbidos de proteger os animais estão matando-os.

“As grandes populações do oeste da África desapareceram e as do centro e do leste estão sumindo rapidamente,” diz Andrew Dobson, ecólogo de Princeton. “A questão é: Você quer que seus filhos cresçam num mundo sem elefantes?”


Guardas florestais descobrem um elefante assassinado, sem o marfim, nas profundezas do parque. Alguns dos elefantes assasinados recentemente têm sido sexualmente mutilados, tendo seus genitais ou mamilos arrancados, possivelmente para venda — um fenômeno que os pesquisadores afirmam não ter visto antes. 
Foto: Tyler Hicks/The New York Times

‘Atiramos Primeiro’

O Parque Nacional de Garamba é um enorme e maravilhoso lençol verde, com 1.900 milhas quadradas, incrustado no canto nordeste do Congo. Visualize um mar de capim-elefante na altura do peito, serpentes de rios marrons, rolos de papiros e ocasionais pássaros, como a secretária preta e branca, deslizando com elegância através de céus cor-de-rosa. Fundado em 1938, Garamba é considerado um dos mais estonteantes parques da África, o sonho dos naturalistas.

Mas hoje é um campo de batalha. Toda manhã, pelotões de 140 guardas florestais de Garamba se armam com rifles, metralhadoras e granadas-foguete. Luis Arranz, diretor do parque, deseja adquirir aeronaves não pilotadas para fiscalização, e a organização sem fins lucrativos que administra o parque está considerando comprar óculos de visão noturna, coletes à prova de bala e caminhonetes com metralhadoras acopladas.

“Nós não negociamos, não damos avisos, atiramos primeiro,” diz o sr. Onyango, chefe dos guardas florestais, que trabalhou como fiscal da vida selvagem no Quênia por mais de 20 anos. Ele foi promovido a um alto posto, mas perdeu o emprego quando um caçador ilegal sob sua custódia morreu após ser chicoteado.

“Aqui não é michezo,” diz o sr. Onyango, usando a palavra brincadeira em swahili.

Em junho, ele ouviu uma profusão de tiros. Seus guardas florestais se arrastaram por horas por entre a grama-elefante até acharem caçadores ilegais retirando presas de diversos elefantes mortos. No instante em que seu esquadrão abriu fogo, a área virou um pandemônio, e os tiros vinham de todos os lados.

“Eles contra-atacaram com PKMs, AKs, G-3s e FNs”, disse. “A maioria dos caçadores ilegais são econômicos com a munição, mas esses caras estavam atirando como se estivessem no Iraque. De repente, percebemos que éramos menores, em número e armas.”

Duas metralhadoras dos guardas florestais emperraram naquele dia, e eles escaparam por pouco (desde 2008, 11 foram mortos, e filhos de alguns guardas florestais já foram sequestrados). Investigações subsequentes mostraram que os caçadores ilegais eram membros do Lord’s Resistance Army (LRA), um grupo rebelde brutal atuante na África Central que mata aldeões e escraviza crianças. Tropas das Operações Especiais Americanas estão ajudando diversos exércitos africanos a capturar Joseph Kony, líder do grupo, suspeito de estar escondido num canto remoto da República Centro-Africana.

O marfim pode ser a nova tábua de salvação de Kony.

Vários recém-foragidos do LRA disseram que Kony ordenou a seus combatentes que matassem a maior quantidade possível de elefantes e lhe enviassem as presas.

“Kony quer marfim,” disse uma jovem mulher sequestrada no começo deste ano perto de Garamba. Por ainda estar aterrorizada, ela não quis se identificar. “Eu ouvi rebeldes dizerem diversas vezes: `Precisamos obter marfim e mandar para Kony´.”

Em seus quatro meses de cativeiro, antes de conseguir escapar em uma noite em que os rebeldes estavam bêbados, ela viu 10 elefantes serem mortos e suas presas serem enroladas em sacos de pano e enviadas para Kony em seu esconderijo.

Outros recém-foragidos dizem que, desde maio, o grupo matou, no mínimo, 29 elefantes e, com a renda, comprou armas, munições e rádios. É possível que Kony esteja mancomunado com traficantes sudaneses de marfim. Um varejista de marfim em Omdurman, no Sudão, que vende abertamente pulseiras, terços e presas entalhadas de marfim, disse que uma das fontes do marfim era o LRA.

“O LRA trabalha com isso também. É assim que eles compram suas armas”, disse o lojista, informalmente. Oficiais americanos disseram que isso faz sentido, devido às poucas fontes de renda de Kony.

Vários comerciantes sudaneses de marfim disseram que o marfim do Congo e o da República Centro-Africana foram transportados por via terrestre através do vasto deserto da região de Darfur e, depois, levados para Omdurman, com a ajuda de oficiais sudaneses corruptos. Existe um costume no Sudão chamado “hora comprada”, em que contrabandistas pagam a oficiais e guardas alfandegários por uma específica quantidade de tempo para que um comboio com cargas ilegais passe pelos postos de controle das fronteiras.

Mas há várias rotas. Na costa leste da África, a cidade portuária de Mombasa, no Quênia, é o principal centro de transbordo. Uma pequena porcentagem dos contêineres em Mombasa é inspecionada, e o marfim é escondido em tudo quanto é tipo de carga, de abacates a anchovas. Algumas vezes são enrolados com pimentas chili, para enganar os cães farejadores.

No Golfo da Guiné, na costa oeste, “existe um fenômeno relativamente novo:  caçadores ilegais sofisticados e bem armados embarcam seu marfim em navios pesqueiros chineses,” disse um veterano oficial americano.

Oficiais chineses se recusaram a discutir qualquer aspecto do comércio de marfim com um representante do Ministério Florestal, que trata dos assuntos relativos ao marfim, dizendo: “Esse assunto é muito delicado, no momento”.

Diversos comerciantes de marfim sudaneses e oficiais do Ocidente dizem que as infames milícias janjaweed de Darfur eram integradas, em sua maioria, por caçadores ilegais. Grandes grupos de janjaweed – a palavra significa cavaleiro que ataca de surpresa – foram acusados de matar milhares de civis no começo do ano 2000, quando o conflito étnico explodiu em Darfur. Funcionários responsáveis pela aplicação da lei internacional dizem que os janjaweed de Darfur eliminaram milhares de elefantes na África Central nos anos 80. Agora, eles suspeitam que centenas de milícias janjaweed cavalgaram mais de 600 milhas desde o Sudão e foram os responsáveis pelo massacre de, no mínimo, 300 elefantes no Parque Nacional de Bouba Ndjida, em Camarões, em janeiro passado. Esse foi um dos piores massacres de elefantes recentemente descobertos.

Em 2010, soldados de Uganda, à procura de Kony nas florestas da República Centro-Africana, esbarraram numa caravana de marfim dos janjaweed. “Eram 400 caras, mulas para transporte, um grande acampamento e muitas armas,” disse um oficial ocidental. Uma batalha foi deflagrada, e 10 ugandenses foram mortos.

“Isso mostra o poder da caça ilegal e o quanto de dinheiro se pode ganhar ao entrar nesse jogo,” disse o oficial.

Homens de negócio estão bancando essas enormes expedições em busca de marfim, ao mesmo tempo auferindo lucros e fomentando os conflitos, dizem oficiais ocidentais.

“Isso não é coisa de caçadores eventuais,” disse o sr. Hormats, oficial do Departamento de Estado americano. “Isso é crime organizado.”

Paul Elkan, um diretor da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, disse que a varredura feita pelos janjaweed na África Central, em caçadas ambiciosas de elefantes, “vai mais além do que um bando de caras atacando, montados a cavalo. Isso tem a ver com falta de segurança e falta de leis, ou seja, anarquia”.

Talvez nenhum outro país na África seja mais anárquico do que a Somália, que vem definhando por mais de 20 anos sem um governo central funcional, gerando militantes islâmicos, contrabandistas de armas, traficantes de seres humanos e piratas modernos. O marfim entrou nessa mistura ilícita.

Vários anciões somalis disseram que o Shabab, grupo militante islâmico que diz ter se aliado à Al Qaeda, recentemente começou a treinar combatentes para se infiltrarem no Quênia, o país vizinho, para matarem elefantes visando ao marfim, para levantar fundos.

Um antigo integrante do Shabab disse que o grupo estava prometendo  “facilitar o comércio do marfim” e encorajando aldeões ao longo da fronteira entre o Quênia e a Somália a trazer-lhe presas, que são embarcadas no porto de Kismayo, notório eixo de contrabando da última cidade principal ainda controlada pelo Shabab.

“O negócio é arriscado,” disse Hassan Majengo, um residente de Kismayo com conhecimento do comércio de marfim, “mas o lucro é excepcional”.

“Dinheiro Fácil”

O lucro não é perdido com propinas pagas a soldados da África Central, que ganham a bagatela de US$ 100 por mês, isso se realmente receberem.

Em Garamba, os guardas florestais prenderam vários soldados do governo congolês, sendo que alguns foram apanhados com presas, pedaços de carne de elefante e boinas vermelhas usadas frequentemente pela guarda de elite da Presidência.

“Um elemento do nosso exército está envolvido,” reconheceu o major Jean-Pierrot Mulako, promotor do exército congolês. “É dinheiro fácil.”

Soldados congoleses têm uma longa história de envolvimento em estupros e mortes de civis e em pilhagens. Segundo um relatório escrito em 2010 por John Hart, cientista americano e um dos principais pesquisadores de elefantes no Congo, os “militares congoleses estão implicados em quase toda caça ilegal de elefantes,” tornando o exército “o principal responsável pela matança ilegal de elefantes na República Democrática do Congo.”

Os guardas florestais de Garamba e um oficial da Inteligência do governo congolês disseram que eles também lutam rotineiramente com soldados do Exército de Libertação do Povo do Sudão, exército do Sudão do Sul. Um porta-voz do exército do Sudão do Sul negou o fato, e disse que os soldados “não tinham tempo” para a caça ilegal.

O governo americano forneceu US$ 250 milhões em assistência militar não letal para o Sudão do Sul nos últimos anos. Em maio, os guardas florestais de Garamba abriram fogo contra quatro soldados do Sudão do Sul que caçaram seis presas de elefantes. Os guardas florestais disseram ter matado um soldado, fato que não achavam ser de grande importância.

“Eu matei mais gente do que posso contar,” disse Alexi Tamoasi, guarda florestal veterano.

Mas a caça ilegal com helicóptero é algo novo.

O sr. Onyango disse que o modo estranho como as carcaças dos elefantes foram achadas, amontoadas em círculos, com os filhotes no meio para proteção, foi mais um indício de que o helicóptero os encurralou, porque elefantes normalmente se espalham ao primeiro tiro.

A Parques Africanos, organização sul-africana de conservação que administra Garamba, tem fotografias de um Mi-17, helicóptero de transporte militar, voando baixo sobre o parque em abril, e constatou que o helicóptero estava registrado no exército de Uganda. 


O coronel Felix Kulayigye, um porta-voz do exército de Uganda, reconheceu o helicóptero como sendo uma de suas aeronaves, mas disse que as acusações de caça ilegal eram “rumores sem fundamento” e que ele sabia “com certeza” que os membros do LRA eram “conhecidos” caçadores daquela área.


John Sidle, americano de Nebraska que trabalha como piloto em Garamba, disse: “O que me incomoda é que provavelmente o dinheiro da gasolina do helicóptero vem dos impostos pagos pelo povo americano.” 


Os Estados Unidos gastaram milhões de dólares nos últimos anos em gasolina e serviços de transporte para o exército de Uganda caçar Kony na África Central, enquanto treinam congoleses e sudaneses para ajudá-los. Entretanto, o Departamento de Estado disse que não havia evidências de que o exército de Uganda era responsável pelas matanças de Garamba, nem conhecimento de que qualquer um dos soldados envolvidos na caça a Kony se engajara na caça ilegal de elefantes. O Departamento de Estado não fez nenhuma observação sobre a extensa história de caça ilegal cometida pelos militares financiados pelos EUA.


Em junho, 36 presas foram apreendidas no aeroporto de Entebbe, em Uganda. Dos 22 elefantes mortos em Garamba, em março, 18 eram adultos que tiveram suas presas arrancadas, o que daria uma quantidade de 36 presas. As pequenas presas dos filhotes mortos não foram tocadas.


Em 1989, a CITES (Convenção Internacional para o Comércio de Espécies Ameaçadas), estabeleceu uma moratória no comércio internacional de marfim, exceto sob algumas circunstâncias. Ninguém sabe quantos elefantes estão sendo mortos por ano, mas muitos conservacionistas de ponta concordam que o número pode atingir “centenas de milhares” e que 2012 será provavelmente pior do que 2011.


A população total de elefantes na África também é um mistério. A União Internacional Pela Conservação da Natureza, uma rede global de conservação, estima entre 472.269 e 689.671. Mas isso é baseado nas informações de 2006. A caça ilegal se alastrou dramaticamente, desde então, por todo o continente africano.


Alguns elefantes mortos recentemente foram mutilados sexualmente. Seus genitais e mamilos foram cortados, possivelmente para venda, algo que os pesquisadores disseram jamais ter presenciado.


“É muito perturbador”, disse Iain Douglas-Hamilton, fundador de Salve os Elefantes, que recentemente foi testemunha numa audiência do Senado americano sobre marfim e insegurança.


“Como a Guerra às Drogas”

O sr. Arranz, diretor de Garamba, tem um olhar exausto. A História está contra ele. Garamba foi fundado há mais de 70 anos, em parte para proteger os raros rinocerontes do norte, que costumavam ser mais de 1.000. Mas muitas pessoas na Ásia acreditam que chifre de rinoceronte moído é uma cura para o câncer e outras enfermidades, e ele custa US$ 30.000 a libra (ou
0,4536 kg), mais do que o ouro. Nas últimas décadas, enquanto o Congo caía no caos, caçadores ilegais se mudaram para Garamba. Os rinocerontes do norte do parque eram os últimos vivos na natureza, mas os guardas florestais não têm avistado nenhum nos últimos cinco anos.

Garamba enfrenta, ao que parece, um número de desafios sem-fim, muitos relacionados à falência do Estado, no Congo. Alguns guardas florestais são caçadores ilegais e matam os animais que eles foram incumbidos de proteger, alegando que é impossível sobreviver com seus baixos salários. 


“Eu estava com fome,” explicou um guarda florestal preso por matar um antílope waterbuck.
Vários guardas florestais de Garamba admitem que são alcoólatras e têm dívidas no bar perto da sede do parque, o que não ajuda muito. O sr. Onyango, o chefe, bebe diversos litros de cerveja numa única noite. Ele culpa “o estresse.” 


O grau da caça ilegal atingiu seu maior nível na África Central, uma região que engloba alguns dos países mais problemáticos do mundo. No Chade, cavaleiros armados até os dentes, que vários conservacionistas disseram ser janjaweed, recentemente mataram 3.000 elefantes em apenas poucos anos.


Garamba tinha mais de 20.00 elefantes. Ano passado, o número caiu para 2.800. Este ano, talvez 2.400.


Toda manhã, se o céu está aberto, o sr. Arranz voa sobre Garamba num pequeno avião de dois lugares, equivalente a um Mazda Miata de asas. A savana verde-esmeralda se estende sob ele, numa visão emocionante ao amanhecer.


Mas, outro dia, ele viu algo que causou vincos em sua testa: abutres.


No dia seguinte, depois de uma caminhada através da grama alta, o cheiro foi se tornando insuportável e o ar reverberava ao som de milhares de moscas. “Morto por caçadores ilegais”, disse o sr. Arranz, ao descobrir um elefante morto, com sua face arrancada.


Perto havia cinzas de um pequeno acampamento.


“Esses caras ficaram um tempo por aqui”, disse ele. “Se eles se dispuseram a fazer isso por um só elefante...” Sua voz embargou.


“É como na guerra às drogas,” disse ele mais tarde. “Se as pessoas continuam comprando e pagando por marfim, é impossível isso ter um fim.”


 Guarda florestal no Parque Nacional de Garamba organiza uma  série de presas de elefantes, a maior parte delas proveniente da caça ilegal, mas algumas de elefantes mortos naturalmente. A grande maioria do marfim ilegal — 70 por cento,  segundo especialistas — vai para a China, onde uma emergente classe média empurrou o preço para estratosféricos U$1.000,00 por libra nas ruas de Pequim (o que equivale equivale a 0,4536 kg).
Foto: Tyler Hicks/The New York Times


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Isma’il Kushkush contribuiu em Omdurman, Sudão; Mia Li, de Pequim ; e um jornalista somali, de Mogadishu, Somalia.

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