Por: BBC NEWS - Ciência e Meio Ambiente
10 de maio de 2013
Homens armados com rifles Kalashnikov massacraram 26 elefantes no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana, afirmam conservacionistas.
A WWF reportou o número de carcaças, citando suas fontes na região.
A preocupação com o que estava ocorrendo no parque surgiu no início desta semana, quando afirmou-se que caçadores ilegais de marfim estariam usando as plataformas de observação de cientistas para atirarem nos animais.
Os elefantes se reúnem frequentemente em Dzanga Bai, uma grande clareira, para beberem.
Desde os tiros, nenhum elefante foi visto na área, reporta a WWF.
O Parque Dzanga-Ndoki, considerado Patrimônio da Humaninade, é localizado na ponta sudoeste da República Centro-Africana (RCA, ou CAR, por sua sigla em Inglês), fazendo fornteira com Camarões e a República do Congo.
É descrito como um habitat único para os elefantes da floresta, em particular.
A RCA tem testemunhado níveis crescentes de violência desde o início do ano, e grupos conservacionistas como a WWF retiraram suas equipes da área da clareira Dzanga Bai, por razões de segurança.
Na segunda-feira, o grupo conservacionista soltou um alerta de que 17 indivíduos armados, alguns com rifles de alto calibre, haviam entrado no parque e se dirigiam para a clareira Bai, conhecida localmente como a "aldeia dos elefantes".
Quando os homens armados saíram, Dzanga Bai parecia um "necrotério de elefantes", disse a WWF.
Jim Leape, Diretor Geral Internacional da WWF, acrescentou: "A República Centro-Africana precisa agir imediatamente para proteger esse Patrimônio da Humaninade”.
"A violência brutal a que estamos testemunhando em Dzanga Bai ameaça destruir um dos maiores tesouros naturais, e coloca em risco o futuro das pessoas que vivem aqui.
"A comunidade internacional precisa agir para ajudar a República Centro Africana a reestabelecer a paz e a ordem neste país, para defender sua popoulação e seu patrimônio natural.
Caçadores sudaneses de marfim foram responsabilizados pela matança.
Leia mais: "O Novo Ouro Branco e a Extinção dos Elefantes Africanos", no Blog do Planeta, da Revista Época.
Nossa missão é inspirar a admiração pela inteligência, complexidade e vozes dos elefantes e garantir a eles um futuro melhor, através da pesquisa, conservação e compartilhamento de conhecimentos.
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
O mais incrível horticultor do mundo, por Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz
Em uma entrevista, em Abril de 2011, Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz discutiram a importância de elefantes africanos e asiáticos para a dispersão de sementes tropicais, as várias ameaças que os elefantes estão enfrentando e as formas de salvar o mais incrível horticultor do mundo.
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| Fruta da Dilenia indica, uma iguaria para os elefantes. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
Entrevista com Ahimsa Campos-Arceiz e Stephen Blake
Mongabay: Qual é sua experiência anterior?
Ahimsa Campos-Arceiz: Eu sou da Espanha, mas me mudei para a Ásia quase uma década atrás. Desde então tenho estudado grandes herbívoros asiáticos, principalmente elefantes, em Sri Lanka, mas também gazelas da Mongólia, veado sika Japonês e antas da Malásia. Depois de muitos anos com base na Universidade de Tóquio e de um curto período na Universidade Nacional de Cingapura, estou agora em Kuala Lumpur, Malásia, trabalhando no campus da Universidade de Nottingham.
Stephen Blake: Eu sou Britânico. Comecei trabalhando na Bacia do Congo, em 1990, em um orfanato de gorilas e, depois, com a Wildlife Conservation Society, em 1993. Fiz um mestrado (1993) e um doutorado (2002) na Universidade de Edimburgo – Um PhD em ecologia de elefantes africanos da floresta. Agora sou um pesquisador para o Max Planck Institute de Ornitologia, trabalhando com tartarugas de Galápagos.
Elefantes: os megajardineiros
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| Leguminosas brotando das fezes de elefantes em Bago Yoma, Myanmar. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
Mongabay: Por que elefantes são importantes para as florestas que eles habitam?
Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes são importantes porque eles têm uma função única nessas florestas. Todos os animais estão envolvidos de alguma forma nos processos do ecossistema, mas os elefantes, sendo os maiores animais da floresta, estão envolvidos de formas únicas. Elefantes alteram a estrutura física da vegetação quando se alimentam, mobilizam grandes quantidades de nutrientes com suas fezes, fornecem comida e geram habitats para um grande número de vertebrados e invertebrados e, é claro, dispersam as sementes de muitas plantas que consomem, promovendo, portanto, a manutenção e a regeneração da floresta.
Stephen Blake: Lembremo-nos também de que, em uma densidade natural, elefantes podem formar a maior parte da biomassa de mamíferos em florestas tropicais. Portanto, os elefantes usam uma grande parte da energia que flui dos animais. O tamanho de seu corpo significa que fazem coisas que outros animais simplesmente não podem fazer, como transportar sementes por distâncias maiores do que outros dispersores.
Mongabay: Qual das espécies de elefantes é a melhor dispersora de sementes?
Ahimsa Campos-Arceiz: No nosso artigo, mostramos que elefantes africanos da floresta são os melhores dispersores de sementes. eles dispersam um enorme número de sementes, de uma grande variedade de plantas, de uma forma muito eficaz (ex.: por distâncias muito grandes e melhorando sua capacidade de germinação). Elefantes africanos da savana e asiáticos também dispersam muitas sementes e podem ser extremamente importantes, mas parecem ser menos frugívoros (nós também sabemos menos sobre suas funções em dispersão de sementes).
Mongabay: Por que você acha que elefantes asiáticos dispersam menos sementes?
Ahimsa Campos-Arceiz: De certa forma, isso me surpreende. Acho que a maior diferença está nas florestas asiáticas, em vez de nos elefantes. No sudeste asiático, florestas são dominadas por dipterocarpáceas – árvores que são dispersadas pelo vento e que têm complexos ciclos supra-anuais (menos de um ciclo por ano) de frutificação em massa, conhecido como mast fruiting. Árvores que não são dipterocarpáceas constantemente seguem esses ciclos de frutificação em massa também. Para animais frugívoros, isso significa que frutas são uma fonte de comida menos abundante e confiável do que em outras florestas tropicais. Isso, provavelmente, é umas das razões que fazem os elefantes asiáticos parecerem ser menos frugívoros do que seus parentes, os elefantes africanos da floresta, apesar de, fora isso, terem muitas semelhanças em suas ecologias. De qualquer forma, elefantes asiáticos gostam muito de frutas grandes e suculentas e seria bem interessante estudar sua importância como um dispersor de sementes durante os episódios de frutificação em massa.
Stephen Blake: Concordo: são a composição e a estrutura da floresta, não uma escolha inerente feita pelos elefantes. Elefantes africanos da savana geralmente não dispersam muitas sementes, mas coloque-os na floresta de Kibale, em Uganda, onde há acesso a frutas, e eles se tornarão formidáveis dispersores de sementes... nenhum mamífero de grande porte que é generalista em sua dieta vai recusar uma boa alimentação de frutas, se esta estiver disponível.
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| Montes velhos de fezes de elefantes se tornam áreas férteis para a germinação de sementes. Foto: Stephen Blake. |
Mongabay: Há evidência de que os elefantes sejam os únicos dispersores de algumas espécies?
Ahimsa Campos-Arceiz: Sim, há vários exemplos de plantas cujas sementes são dispersadas somente por elefantes. O melhor caso documentado é a relação entre a Balanites wilsoniana e o elefante africano da savana, em Uganda. Vários estudos descobriram que elefantes consomem e dispersam muitas sementes de Balanites; que nenhum outro animal dispersa essas sementes que, ao serem consumidas por elefantes, têm sua capacidade de germinação aumentada; e, ainda, que, em lugares sem elefantes, não há árvores jovens de Balanites longe de árvores adultas. Steve Blake também documentou 13 espécies que, em grande parte, dependem dos elefantes africanos da floresta para dispersarem suas sementes na floresta de Ndoki, no Congo.
Na Ásia, não temos um caso bem documentado. Estou atualmente preparando estudos no Sri Lanka e na Malásia, observando espécies que dependem obrigatoriamente de elefantes asiáticos para sua dispersão. Definitivamente, precisamos de mais pessoas estudando a relação entre elefantes e as chamadas frutas da síndrome da megafauna (as espécies que supostamente se adaptaram para serem dispersadas pela megafauna). E, sim, isso é um chamado para os estudantes asiáticos que se interessem pelo tópico!
Stephen Blake: Humanos têm uma sobreposição considerável com as coisas relacionadas a grandes sementes. nossa estimativa de 13, no Congo, foi provavelmente muito alta, principalmente se humanos estiverem incluídos – e eles têm que estar incluídos. Para mim, o ponto principal não é saber de quantas espécies os elefantes são os únicos dispersores, mas o impacto cumulativo da dispersão por elefantes... é claro que a diminuição da quantidade de algumas árvores por causa do desaparecimento de elefantes é prejudicial, mas, se a Balanites for extinta, é improvável que isso tenha um grande impacto no ecossistema da floresta. Entretanto, o fato de elefantes se tornarem extintos significa que o equilíbrio competitivo de muitas e muitas espécies – indiscutivelmente mais de 100, na África Central – favorecerá aquelas que têm sua dispersão feita por fatores abióticos (não biológicos, como o vento). Isso é um fator fundamental, de um ponto de vista ecológico.
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| Broto de Sandoricum Koetjape, em Taman Negara, na Malásia. Foto por: Ahimsa Campos-Arceiz. |
Mongabay: Como a inteligência dos elefantes os ajuda a acharem alimentos e, consequentemente, dispersarem sementes?
Stephen Blake: O quão importante a inteligência é, é difícil dizer, sem estudos específicos, mas é provável que seja muito importante.
Ahimsa Campos-Arceiz: Deve ter uma função importante. Encontrar frutas na floresta é bem desafiador porque fruta é um recurso muito cumulativo – em espaço e tempo –, e as plantas com frutas grandes que são dispersadas por elefantes frequentemente ocorrem em densidades bem baixas. Em nosso artigo, nós especulamos que elefantes provavelmente possuem mapas cognitivos que permitem que eles lembrem onde e quando frutas estão provavelmente disponíveis, muito parecido com o fato de os elefantes da savana saberem onde encontrar água durante épocas de seca. Chimpanzés são conhecidos por usar esses mapas cognitivos em sua busca por frutas.
Fora a memória individual, elefantes têm uma “memória espacial societal” na forma de trilhas permanentes, abertas na floresta por gerações de elefantes movendo-se de e para fontes confiáveis. Como Steve descreveu em um artigo anterior, essas trilhas “aprisionam” árvores frutíferas e outros recursos importantes. É claro que, através de seus movimentos por essas trilhas, elefantes também dispersam um maior número de sementes em volta delas, em um processo de “aperfeiçoamento” do habitat que se autorreforça.
Mongabay: Quão longe os elefantes dispersam sementes? Por que isso importa?
Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes dispersam sementes grandes por vários quilômetros regularmente. Em meu estudo com elefantes asiáticos, descobri que, em Sri Lanka e Myanmar, eles dispersam 57% de sementes por mais de 1 quilômetro de distância da planta- mãe, com uma distância máxima de até aproximadamente 6 quilômetros (observando dados não publicados de uma população birmanesa diferente, descobri distâncias de dispersão de mais de 20 quilômetros!). Mas essas distâncias parecem curtas, comparadas com o que Steve descreve sobre o Congo, onde elefantes africanos de floresta dispersam 82% de sementes por distâncias maiores que 1 quilômetro, e algumas sementes por distâncias de até 57 quilômetros!! Essas são realmente distâncias de dispersão sem precedentes para sementes grandes de floresta – a maioria dos animais dispersores de sementes em florestas tropicais soltam as sementes apenas a uns 10 ou 100 metros da fonte.
Distância de dispersão é um dos fatores mais determinantes de distribuição espacial de sementes, o que tem uma influência importante no padrão de distribuição de árvores e, consequentemente, na estrutura da floresta. Árvores dispersadas por longas distâncias pelos elefantes têm uma ampla distribuição geográfica, baixo nível de agregação espacial e ocorrem em baixas densidades. Dispersão de sementes por longas distâncias também tem um fator chave em processos como migração de plantas (ex.: em resposta à mudança climática), conexão de populações isoladas (ex.: em cenários de florestas fragmentadas), e recolonização de habitats degradados (ex.: depois do abandono de campos de agricultura).
Mongabay: Se elefantes não estiverem mais presentes, outras espécies os substituirão, em termos de dispersão de sementes?
Stephen Blake: A perda de elefantes é precursora do colapso das populações de mamíferos de grande porte, geralmente devido ao comércio da carne de caça. então, espécies que poderiam substituir um pouco o papel dos elefantes, com esse alívio da competição – gorilas, chimpanzés, antílopes de floresta etc., também não estarão presentes. Na Bacia do Congo, isso é agravado pelo vírus Ebola, por exemplo, que acaba com os gorilas em vastas áreas de floresta. Assim, nós não deveríamos ver o desaparecimento dos elefantes como um evento isolado, mas sim como um sinal mais óbvio de um amplo colapso ecológico.
Ahimsa Campos-Arceiz: Plantas raramente colocam “todos os ovos de sua dispersão em uma única cesta”’ – elas geralmente têm vários mecanismos complementares para dispersão. A maioria das frutas suculentas são dispersadas por uma variedade de animais, os quais continuam dispersando sementes, na falta de elefantes. Geralmente há algum nível de redundância funcional.
No caso dos elefantes, entretanto, por causa de suas características funcionais exclusivas, há menos redundância e mecanismos para compensar sua perda. Algumas plantas com sementes muito grandes talvez não achem nenhum outro animal dispersor (ex.: Balanites wilsoniana, na África, ou Borassus flabelifer, na Ásia). E mesmo que haja animais que ainda dispersem as sementes (ex.: roedores acumuladores de alimentos), o padrão espacial de dispersão poderia mudar drasticamente, resultando em uma trajetória ecológica diferente para a planta (ex.: restrição da distribuição geográfica da espécie, distribuição espacial mais aglomerada dos adultos, aumento da estrutura genética local e, principalmente, desaparecimento de muitas populações).
Mongabay: Como você acredita que florestas irão mudar, se populações de elefantes diminuírem rapidamente ou se até forem extintas localmente?
Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes já desapareceram de áreas grandes da África, da Ásia e das Américas, então florestas já devem ter mudado. As mudanças principais que podemos esperar são: plantas com frutas e sementes grandes (especializadas em dispersão por megafauna) fracassarão em sua propagação e se tornarão cada vez mais raras, até que eventualmente desapareçam; plantas que são dispersadas por elefantes e outros animais verão seu padrão de dispersão modificado, o que resultará em diminuição de distribuição geográfica, aumento de agregação espacial e de estrutura genética de populações e maior risco de desaparecimento local; e plantas que não são dispersadas por animais de grande porte (principalmente as que são dispersadas por fatores abióticos (não biológicos, como o vento) ganharão vantagem competitiva e se tornarão mais dominantes.
No geral, podemos esperar uma perda de biodiversidade e de simplificação da estrutura e da função da floresta.
Conservação de Elefantes
Mongabay: Qual é a diferença entre elefantes africanos da floresta e da savana? Um estudo recente descobriu que o elefante africano da floresta é uma espécie distinta. Você acredita nisso?
Stephen Blake: Tudo ainda é discutível. Um novo artigo acabou de sair no PLOS Biology, falando sobre “especiação profunda entre elefantes africanos”, mas tudo ainda é uma questão de opinião. No momento, o grupo especialista em elefantes africanos ainda considera duas subespécies para os elefantes africanos.
Mongabay: Se eles são espécies diferentes, quais são as implicações disso para conservação?
Stephen Blake: Com relação à conservação, eu não tenho certeza de que ter duas espécies distintas definidas fará muita diferença em termos práticos, mas, no curto e médio prazo, isso pode tornar as coisas mais difíceis para o elefante da floresta: A CITES imediatamente abriria o mercado para elefantes da savana, o que aumentaria o preço do marfim no mercado mundial, aumentando assim sua demanda. O aumento na demanda e nos preços tornaria as operações no mercado negro ainda mais lucrativas e viáveis, na falta de uma implementação eficaz da lei. O fator -chave é a implementação da lei, já que, porque esta é muitas vezes fraca em países exportadores e importadores, por causa da corrupção e da falta de fundos e de competência, fica mais fácil transferir marfim ilegal da bacia do Congo para o mercado mundial. No momento, comerciantes dizem que esse não é o caso, e que o mercado legal seria bem controlado, mas suas evidências para isso são escassas
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| Elefante asiático macho atravessando uma estrada perto do Parque Nacional de Bundala, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
Stephen Blake: O status das populações de elefantes africanos varia muito entre diferentes regiões e grupos taxonômicos. As populações de Elefantes do sul da África estão estáveis ou, em geral, aumentando; as do leste africano, também; e as de elefantes africanos da floresta e da savana da África central estão em rápido declínio, por causa da caça ilegal e da perda de habitat. Elefantes do oeste africano parecem estar relativamente estáveis, mas eles estão muito fragmentados e geralmente são encontrados em populações pequenininhas, então a perspectiva para eles é bem ruim. Eu acho que as nações do sul da África estão satisfeitas com a perspectiva de estabilidade para seus elefantes. No entanto, com o enriquecimento da classe média Chinesa e com a Ásia comprando cada vez mais da África, nós veremos um aumento dramático na demanda por marfim e no seu preço no mercado negro, independentemente do que aconteça com o mercado legal. Combine isso com influência política e corrupção, e nós estamos prontos para ver elefantes serem muito afetados em áreas que são seguras agora. (obs.: esta entrevista é de abril de 2011, e, como previsto, nos últimos dois anos houve aumento da demanda por marfim, e os elefantes enfrentam hoje uma matança sem precedentes.)
Mongabay: E qual é o status das populações de elefantes asiáticos?
Ahimsa Campos-Arceiz: A situação das populações de elefantes asiáticos é complexa. Algo fácil de entender é que o número de elefantes asiáticos está diminuindo rapidamente, e, hoje, eles existem principalmente em populações pequenas e fragmentadas. Elefantes asiáticos perderam a maior parte – provavelmente 95% – da extensão territorial que eles ocupavam historicamente. Esse declínio ainda está acontecendo, com uma estimativa de 80% de perda da extensão geográfica durante o século 20 (!!). Hoje em dia, um, em cada três elefantes asiáticos, é um animal de cativeiro. E países como Myanmar e Tailândia talvez tenham mais elefantes em cativeiro do que selvagens. Então as coisas não estão parecendo boas para os elefantes asiáticos.
Além disso, elefantes asiáticos habitam alguns dos países mais populosos do mundo. A atual densidade local de elefantes asiáticos em áreas do Sri Lanka, da Índia e de outros países é, no momento, insustentavelmente alta, porque elefantes que moram perto de pessoas inevitavelmente recorrem à invasão de terras cultiváveis, gerando vários conflitos entre humanos e elefantes (HEC), levando ao assassinato desses animais por retaliação e, eventualmente, à eliminação de populações inteiras. Em muitas áreas, os elefantes asiáticos são vistos como “as pestes muito abundantes da agricultura”. Porque elefantes são animais de vida longa, nós precisamos incutir, em nossa mente, que os efeitos demográficos aparecem muito tempo depois de mudanças ambientais. Muitas populações de elefantes asiáticos que atualmente estão sofrendo intensos conflitos entre humanos e elefantes (HEC) podem ser consideradas populações mortas-vivas, com poucas esperanças para o futuro, a longo prazo.
Mongabay: Que medidas de conservação você sugeriria para os elefantes asiáticos?
Ahimsa Campos-Arceiz: Na minha opinião, a prioridade na Ásia é aprender a lidar com os conflitos entre humanos e elefantes. Até agora, esses conflitos sempre levaram à extinção local de elefantes. Com as populações humanas se expandindo, há cada vez menos elefantes que conseguem viver sem interagir com as pessoas. Nós precisamos aprender maneiras de minimizar o dano causado por elefantes em comunidades locais (através da compreensão de fatores ecológicos e comportamentais que levam à invasão de campos de agricultura) e de aumentar o nível de tolerância das pessoas (morar com elefantes envolve riscos e consequências que não podem ser completamente ignoradas). Não vai ser fácil, mas compreender os reais impactos dos conflitos entre humanos e elefantes na vida das pessoas e os fatores socioculturais por trás de suas percepções e atitudes será muito importante.
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| Ahimsa Campos-Arceiz checa um elefante morto, vítima de conflitos entre humanos e elefantes, no sudeste do Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
Mongabay: E que medidas de conservação você sugeriria para o elefante africano da floresta?
Stephen Blake: Sempre gira sobre os mesmos pontos: proteção, manejo de animais selvagens, educação e divulgação , trabalho com os lideres de comunidades para gerar suporte local e bom manejo dos recursos naturais. Infelizmente isso tem fracassado e continua fracassando porque os recursos simplesmente não estão presentes. Você sabe, a África central está afundando cada dia mais em relação aos problemas ambientais e sociais: no Congo, estamos vendo uma geração que está começando a amadurecer, teve pouca educação e tem tido poucas oportunidades de trabalho. Os grandes impulsionadores das atividades econômicas – os chineses, por exemplo – estão trazendo sua própria mão de obra para as operações de extração de madeira e mineração, ao mesmo tempo em que o desejo mundial de ajuda internacional e filantropia está diminuindo rapidamente.
Então, trabalhar com o setor privado é importantíssimo para a conservação do cenário. Investimentos em conservação têm que estar ligados às forças do mercado de venda de madeira, minerais e óleo. Companhias sem consideração pelo meio ambiente devem ser penalizadas, enquanto as que são “boas” têm que ser recompensadas. No entanto, como nós vemos todos os dias, isso é difícil, na prática. Você já viu as últimas noticias sobre a British Petroleum? sua estratégia de crescimento permanece a mesma, depois do enorme derramamento de óleo no desastre do Golfo do México. Sempre há um mercado por aí, mesmo que a companhia seja “boa” ou “ruim,” e, com o crescente aumento da demanda global, principalmente em mercados asiáticos, serão os preços da matéria -prima no mercado em crescimento, e não os produtos ambientais de luxo e top de linha, que contarão. Preços baixos não podem ser mantidos, se as companhias têm que investir em bom manejo de estradas, em combate à caça ilegal e em outras práticas ambientais e sociais.
Mongabay: O que você gostaria de ver como o próximo passo para pesquisas sobre elefantes como megajardineiros?
Stephen Blake: Acho que muitas pesquisas devem ser feitas agora. Nós precisamos olhar para coisas como o benefício de carbono gerado por dispersão feita por elefantes. qual é o ganho geral de carbono de ter elefantes plantando espécies de árvores de madeira de lei, que têm alta densidade de madeira, comparativamente com espécies que têm baixa densidade de madeira e são dispersadas por outros meios ? Há alguns trabalhos interessantes sobre isso que estão começando. Manter uma floresta rica em mamíferos intacta pode fornecer benefícios de carbono tangíveis, e, já que a única moeda que o mundo entende atualmente é dinheiro baseado em uma economia lastreada no petróleo, nós temos de aproveitar isso, por mais imperfeito que seja.
Ahimsa Campos-Arceiz: Precisamos de muita pesquisa de base. Precisamos que estudantes asiáticos estudem frugivoria e dispersão de sementes por elefantes em diferentes ambientes, principalmente em florestas tropicais do sul e do sudeste asiático. Precisamos identificar os mecanismos de dispersão de muitas plantas com a síndrome da megafauna. E também precisamos identificar mudanças que estão ocorrendo na estrutura da floresta depois da perda de elefantes e de outros herbívoros de grande porte (ex.: rinocerontes da floresta).
Mongabay: O que o público em geral pode fazer para ajudar?
Ahimsa Campos-Arceiz: Essa é uma pergunta difícil. Eu incentivaria muito que pessoas morando perto de elefantes entendessem que conflitos entre humanos e elefantes fazem parte, e não tem como isso ser solucionado, a não ser que todos os elefantes sejam removidos.
Para os que não moram perto de elefantes, eu os incentivaria a fazer contribuições financeiras para organizações de conservação e pesquisa, porque fundos são uma limitação séria na realização de projetos para a conservação de elefantes; a tornarem-se consumidores bem informados e diminuírem o consumo de produtos que prejudicam os habitats de elefantes (ex.: produtos que contêm óleo de palma produzido sem sustentabilidade, ou madeira proveniente de extrações ilegais); e a ficarem cientes de que alguns shows e atividades com elefantes na Ásia dependem do fornecimento insustentável de animais que vêm de populações selvagens, e isso não deve ser incentivado.
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| Uma vítima da matança ilegal dos elefantes. A mãe desse filhote foi morta enquanto invadia plantações em uma concessão de petróleo. Foto: S. Deem. |
CITAÇÃO: Ahimsa Campos-Arceiz and Stephen Blake. Megagardeners of the forest – the role of elephants in seed dispersal. Acta Oecologica. 2011. doi:10.1016/j.actao.2011.01.014.
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| Uma elefanta asiática de cativeiro, Milennium Elephant Foundation, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
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| Casa atacada por elefantes, para consumir arroz armazenado, Sudeste do Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
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| Um jovem macho curioso de elefante de floresta reestabelecendo sua presença em uma área de conservação de sucesso, Nouable-Ndoki, Norte do Congo. Foto: Stephen Blake. |
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| A não implementação da lei resulta em que a carne de elefante é oferecida para venda abertamente em mercados de vilas e vilarejos, na República Centro-Africana. Foto: L. Williamson. |
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| Comércio de marfim no aeroporto de Lagos, na Nigéria. Foto: D. Stiles. |
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| O entalhe de marfim tem uma longa história na Europa e na Ásia. Foto: D. Stiles. |
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| Dois elefantes asiáticos machos brincando no Parque Nacional de Udawalawe, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz. |
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
COMUNICADO DA ELEPHANTVOICES À IMPRENSA: Parem com o Comércio de Marfim AGORA
18 de Fevereiro de 2013
A ElephantVoices está lançando uma campanha contra o comércio de marfim, que está causando a matança de dezenas de milhares de elefantes todos os anos. A especialista em Elefantes e Cofundadora da ElephantVoices, Dra. Joyce Poole, observa: “É com uma sensação de déjà vu e profunda tristeza, embora com pouca surpresa, que, após o torpedeamento da proibição de 1989 pela “venda única” de estoques de marfim, estejamos passando por – e batalhando contra – outro massacre de elefantes”. Duas semanas antes dos representantes para a Convenção Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Convention on International Trade in Endangered Species – CITES) se encontrarem em Bangcoc, na Tailândia, para discutirem, uma vez mais, o destino dos elefantes, a ElephantVoices relembra ao mundo que cada nova presa no mercado significa mais mortes, trauma e destruição.
"Estamos pedindo às pessoas que nos ajudem a atingir os compradores potenciais de marfim que não se dão conta de que elefantes estão morrendo em números recordes para se tornarem bugigangas e objetos de decoração. O único modo de acabar com essa brutal matança de elefantes é reprimir a demanda por marfim e acabar com o comércio", afirma Joyce Poole.
A ElephantVoices está usando duas poderosas peças gráficas da artista novaiorquina Asher Jay como base para esta campanha. As imagens, com os slogans CADA PRESA CUSTA UMA VIDA, NÃO COMPRE MARFIM; e CADA PRESA CUSTA UMA VIDA, PAREM COM O COMÉRCIO são dirigidas a compradores potenciais e tomadores de decisão, e, também, especificamente, ao público chinês . "A ElephantVoices está fazendo algo único ao disponibilizar a arte gráfica na internet em muitas versões, possibilitando que ilustrações sejam compartilhadas nas redes sociais e usadas para camisetas, adesivos para carros, pôsteres e cartazes", afirma o Diretor -Executivo, Petter Granli.
"Apelamos às pessoas que compartilhem essas mensagens amplamente, tornando-as virais. A caça ilegal está colocando os elefantes em perigo, arriscando a biodiversidade e ameaçando o turismo, o sustento das pessoas e a estabilidade nos países onde vivem os elefantes. O terror é iminente para os elefantes, e temos que agir já", diz Joyce Poole.
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A China tem a capacidade de conscientizar o público, além de impor suas severas leis para rapidamente sufocar o comércio, a compra e a caça ilegal. A China pode coibir seus cidadãos que estão causando a destruição do patrimônio e da biodiversidade da África, e, ao mesmo tempo, proteger seus enormes investimentos no continente africano. Pedimos à China que aja agora para acabar com qualquer comércio de marfim. Não podemos permitir a perda de uma espécie-chave da África. 中国 Zhōngguó significa China. O poder da estrela é necessário para salvar os elefantes africanos do extermínio.
Imagem 2: Valores de Família
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As presas de “marfim” do elefante são dentes inervados, compostos por dentina, que crescem durante toda a vida, acrescentando dois centímetros a cada ano. Não são trocadas como as galhadas dos cervos, não caem sozinhas e simplesmente não podem ser removidas de elefantes vivos. Para obtê-las, você precisa golpeá-las com um machado. As presas de elefantes machos são muito maiores que as das fêmeas. Os caçadores ilegais visam aos elefantes com as maiores presas, matando, primeiramente, os machos maduros, em idade reprodutiva. Quando todos estão mortos, os caçadores focam os machos mais jovens.
As sociedades dos elefantes, hoje, se parecem com as comunidades humanas após uma prolongada guerra: a maioria dos elefantes patriarcas, os de grandes presas, se foram. Não há modelos de conduta para seus filhos machos. Conforme o número de elefantes machos disponíveis para caça declina, os caçadores se voltam para as fêmeas mais velhas - as líderes das sociedades dos elefantes. Eles escolhem primeiramente as integrantes mais velhas da família, matando as matriarcas, uma a uma. Conforme o preço do marfim aumenta com a crescente demanda, os caçadores matam as mães e as filhas, causando a desintegração de famílias inteiras. Um elefante filhote, assim como uma criança humana, não pode sobreviver sem os cuidados amorosos de sua mãe. Os órfãos de elefantes da África estão sucumbindo em grandes quantidades à fome, à tristeza do luto e à morte. Os comerciantes e compradores de marfim estão devastando as famílias de elefantes da África. O mundo tem obrigação moral de proteger as sociedades de elefantes, certamente um teste crucial dos valores humanos.
A ElephantVoices foi fundada em 2002 e trabalha globalmente pelos interesses dos elefantes. Sua missão é inspirar a admiração pela inteligência, pela complexidade e pelas necessidades dos elefantes e garantir a eles um futuro melhor, através de pesquisa, conservação e compartilhamento de conhecimentos. A cofundadora Dra. Joyce Poole é uma especialista em elefantes reconhecida mundialmente e os tem estudado e trabalhado por sua conservação e bem-estar desde 1975.
Sobre a CITES
A Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção - CITES é um dos acordos ambientais mais importantes para preservação das espécies, tendo, como signatários, a maioria dos países do mundo (177). O Brasil aderiu à Convenção em 1975. O Decreto nº 76.623/1975 promulgou seu texto, que foi aprovado pelo Decreto Legislativo nº 54, do mesmo ano.
A CITES regulamenta a exportação, importação e reexportação de animais e plantas, suas partes e derivados, através de um sistema de emissão de licenças e certificados que são expedidos quando se cumprem determinados requisitos.
A implementação das disposições da CITES no país ocorreu por meio do Decreto no. 3.607, de 21 de setembro de 2000. Este Decreto, entre outras providências, designou o IBAMA como Autoridade Administrativa, com atribuição de emitir licenças para a comercialização internacional das espécies constantes nos Anexos da CITES e, como Autoridade Científica, o Jardim Botânico/RJ, ICMBIO e também o Ibama.
A próxima reunião da CITES se dará de 3 a 14 de março deste ano.
Acesse aqui o texto do comunicado para a imprensa em inglês, na página de internet da ElephantVoices.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos
Alimentada pelo aumento da demanda por marfim, a grande matança de elefantes africanos chegou a um nível monumental. Em uma entrevista com a Yale Environment 360, o repórter do New York Times Jeffrey Gettleman discute a sua investigação a fundo sobre o fatal comércio do marfim, que envolve o apoio das forças militares americanas em várias nações africanas.
Por Christina M. Russo, Yale Environment 360
Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.
Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano.
Gettleman, que recebeu o prêmio Pulitzer 2012 de Jornalismo Internacional, também discutiu sobre como grupos infames – incluindo o Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army – LRA); o janjaweed, em Darfur; e o grupo islamita Shabab – participam da caça ilegal de elefantes.
Gettleman observa que a atual dizimação de manadas de elefantes é emblemática, que deriva de um problema ainda maior que assola o povo africano e seu patrimônio natural, que um dia foi tão rico: a omissão do Estado. “É por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central”, ele diz, “porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há áreas enormes completamente sem lei”.
Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?
Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.
O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.
Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.
e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?
Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.
(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim.
e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?
Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.
E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.
e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?
Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.
Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando?
e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?
Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.
Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.
Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.
Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.
e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?
Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.
e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?
Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.
e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?
Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais. Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.
Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro.
Link para o artigo original.
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Por Christina M. Russo, Yale Environment 360
Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.
Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano.
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| Jeffrey Gettleman |
Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?
Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.
O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.
Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.
e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?
Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.
(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim.
e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?
Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.
E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.
e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?
Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.
Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando?
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| Guardas florestais inspecionam um Elefante Africano da Floresta morto por caçadores no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana. (Foto: TRAFFIC/Martin Harvey/WWF-Canon) |
e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?
Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.
Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.
Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.
Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.
e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?
Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.
e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?
Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.
e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?
Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais. Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.
Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro.
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| Um elefante morto por causa de seu marfim, no Chade. (Foto: SOS Elephants of Chad/Stephanie Verignault) |
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terça-feira, 6 de novembro de 2012
O Projeto Gorongosa, da ElephantVoices
O Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique, é o local do mais recente projeto de monitoramento e conservação da ElephantVoices. Em 2011, a ElephantVoices foi convidada a ir a Gorongosa para avaliar os elefantes e iniciar um processo de familiarização, de modo que encontros entre elefantes e visitantes possam ser pacíficos. Acostumar elefantes com veículos de turistas é importante porque, sem a renda do turismo, esse lindo e biodiverso habitat não pode ser protegido. Com a atual pressão sobre os recursos naturais, e com a caça de elefantes por marfim em um novo pico, é imperativo garantir a sobrevivência da Gorongosa.
Entendendo e respeitando os sinais dos elefantes
Em 1972, Gorongosa era a casa de mais de 2.000 elefantes. Porém, entre 1977 e 1992 uma guerra civil tirou a vida da maioria desses indivíduos. A carne dos elefantes era usada para alimentar os soldados e seu marfim era vendido para a compra de armas e munição. Quando a paz foi restaurada, menos de 200 elefantes tinham sobrevivido. Hoje, graças à intervenção do Governo de Moçambique e ao Projeto de Restauração da Gorongosa, há cerca de 300-400 elefantes no parque, e seu número vem gradativamente aumentando. Mas, mesmo assim, os sobreviventes não se esqueceram de suas terríveis experiências e ainda estão, compreensivamente, cautelosos com relação às pessoas e continuam evitando grandes áreas do parque nacional.
Fazemos com que os elefantes se habituem aos veículos nos aproximando deles vagarosamente e desligando o motor ao primeiro sinal de medo ou agressividade. Fazendo isso, mostramos a eles que entendemos e respeitamos seus sinais, que não causamos danos e que não estamos com medo de sua postura de desafio.
Elefantes são dramáticos: adoram transformar algo pequeno em uma grande ocasião. E demonstram alguns dos mais dramáticos e aterrorizantes comportamentos defensivos, o que fica bem na televisão. Por isso, alguns de nossos encontros iniciais com elefantes na Gorongosa foram filmados para o documentário da National Geographic, War Elephants. É justo afirmar que a edição do filme aumentou a dramaticidade de nossas interações para a audiência da TV. Na realidade, encontramos elefantes normais, se comportando de modo bem próximo do que esperávamos. E os muitos elefantes que encontramos, em mais de uma ocasião, rapidamente aprenderam que não representávamos uma ameaça para eles.
Quem é Quem e Onde Estão os Elefantes da Gorongosa
Em Outubro de 2012 começamos um trabalho mais intenso com os elefantes da Gorongosa. Começaremos por aprender o quanto pudermos com outras pessoas. Este é um novo lugar e são novos elefantes para a ElephantVoices, portanto temos muito o que aprender com aqueles que vivem e trabalham na Gorongosa. E, o mais importante, aprenderemos através de nossas experiências com os elefantes.
Traremos conosco versões customizadas das mesmas ferramentas online desenvolvidas pela ElephantVoices para nosso projeto de conservação de elefantes do Mara, no Quênia, o Elephant Partners. Com essas ferramentas, poderemos registrar cada elefante e coletar observações de modo sistemático e eficiente. Em colaboração com o Projeto de Restauração da Gorongosa e com a equipe do Parque Nacional, iremos, em tempo, construir o banco de dados "Quem é Quem e Onde Estão os Elefantes da Gorongosa", disponível para o público, para que explore, aprenda e contribua com ele.
Cada elefante em uma população é um indivíduo importante e começaremos o processo de identificação e registro de elefantes, um a um, povoando o banco de dados “Quem é Quem na Gorongosa” com fotografias, características fisionômicas e informações sobre sua história de vida. No caminho, teremos que aprender quem é assustado, quem é agressivo e dedicar mais tempo a esses indivíduos, para construir sua confiança.
Saiba mais: Elefantes da Gorongosa
Conforme formos aprendendo sobre os indivíduos e suas famílias, trabalharemos no sentido de estimar o tamanho e a estrutura da população. Por exemplo, qual proporção da população é composta por machos e fêmeas, jovens e idosos? Quantos elefantes sem presas há? Quais são suas idades e o que esse padrão demográfico reflete sobre seu passado e qual o significado para sua sobrevivência no futuro?
Mais conhecimento é a base para uma melhor proteção
Observações de indivíduos e famílias serão cadastradas no banco de dados da Gorongosa e, desse modo, começaremos a entender os padrões que definem a população, permitindo que a equipe do parque os proteja melhor. Por exemplo, precisamos saber quem passa seu tempo com quem, onde vão, quando e por quê.
Conforme conheçamos os elefantes, também treinaremos guarda-parques e guias sobre como coletar dados sobre eles e como deles se aproximarem, com benefício para ambos - pessoas e, com prioridade, elefantes. Com base no que aprendemos, nos engajaremos com outros cientistas que fazem pesquisas na Gorongosa e com a equipe do parque, para determinarmos possíveis futuros estudos sobre os elefantes e estratégias para sua conservação.
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Grupo de Elefantes de Gorongosa (©Andreas Ziegler)
Entendendo e respeitando os sinais dos elefantes
Em 1972, Gorongosa era a casa de mais de 2.000 elefantes. Porém, entre 1977 e 1992 uma guerra civil tirou a vida da maioria desses indivíduos. A carne dos elefantes era usada para alimentar os soldados e seu marfim era vendido para a compra de armas e munição. Quando a paz foi restaurada, menos de 200 elefantes tinham sobrevivido. Hoje, graças à intervenção do Governo de Moçambique e ao Projeto de Restauração da Gorongosa, há cerca de 300-400 elefantes no parque, e seu número vem gradativamente aumentando. Mas, mesmo assim, os sobreviventes não se esqueceram de suas terríveis experiências e ainda estão, compreensivamente, cautelosos com relação às pessoas e continuam evitando grandes áreas do parque nacional.
Fazemos com que os elefantes se habituem aos veículos nos aproximando deles vagarosamente e desligando o motor ao primeiro sinal de medo ou agressividade. Fazendo isso, mostramos a eles que entendemos e respeitamos seus sinais, que não causamos danos e que não estamos com medo de sua postura de desafio.
Elefantes são dramáticos: adoram transformar algo pequeno em uma grande ocasião. E demonstram alguns dos mais dramáticos e aterrorizantes comportamentos defensivos, o que fica bem na televisão. Por isso, alguns de nossos encontros iniciais com elefantes na Gorongosa foram filmados para o documentário da National Geographic, War Elephants. É justo afirmar que a edição do filme aumentou a dramaticidade de nossas interações para a audiência da TV. Na realidade, encontramos elefantes normais, se comportando de modo bem próximo do que esperávamos. E os muitos elefantes que encontramos, em mais de uma ocasião, rapidamente aprenderam que não representávamos uma ameaça para eles.
Quem é Quem e Onde Estão os Elefantes da Gorongosa
Em Outubro de 2012 começamos um trabalho mais intenso com os elefantes da Gorongosa. Começaremos por aprender o quanto pudermos com outras pessoas. Este é um novo lugar e são novos elefantes para a ElephantVoices, portanto temos muito o que aprender com aqueles que vivem e trabalham na Gorongosa. E, o mais importante, aprenderemos através de nossas experiências com os elefantes.
Traremos conosco versões customizadas das mesmas ferramentas online desenvolvidas pela ElephantVoices para nosso projeto de conservação de elefantes do Mara, no Quênia, o Elephant Partners. Com essas ferramentas, poderemos registrar cada elefante e coletar observações de modo sistemático e eficiente. Em colaboração com o Projeto de Restauração da Gorongosa e com a equipe do Parque Nacional, iremos, em tempo, construir o banco de dados "Quem é Quem e Onde Estão os Elefantes da Gorongosa", disponível para o público, para que explore, aprenda e contribua com ele.
Cada elefante em uma população é um indivíduo importante e começaremos o processo de identificação e registro de elefantes, um a um, povoando o banco de dados “Quem é Quem na Gorongosa” com fotografias, características fisionômicas e informações sobre sua história de vida. No caminho, teremos que aprender quem é assustado, quem é agressivo e dedicar mais tempo a esses indivíduos, para construir sua confiança.
Saiba mais: Elefantes da Gorongosa
Conforme formos aprendendo sobre os indivíduos e suas famílias, trabalharemos no sentido de estimar o tamanho e a estrutura da população. Por exemplo, qual proporção da população é composta por machos e fêmeas, jovens e idosos? Quantos elefantes sem presas há? Quais são suas idades e o que esse padrão demográfico reflete sobre seu passado e qual o significado para sua sobrevivência no futuro?
Grupo de elefantes no Parque Nacional de Gorongosa (©ElephantVoices)
Mais conhecimento é a base para uma melhor proteção
Observações de indivíduos e famílias serão cadastradas no banco de dados da Gorongosa e, desse modo, começaremos a entender os padrões que definem a população, permitindo que a equipe do parque os proteja melhor. Por exemplo, precisamos saber quem passa seu tempo com quem, onde vão, quando e por quê.
Conforme conheçamos os elefantes, também treinaremos guarda-parques e guias sobre como coletar dados sobre eles e como deles se aproximarem, com benefício para ambos - pessoas e, com prioridade, elefantes. Com base no que aprendemos, nos engajaremos com outros cientistas que fazem pesquisas na Gorongosa e com a equipe do parque, para determinarmos possíveis futuros estudos sobre os elefantes e estratégias para sua conservação.
Guerreira, gf0050 - Essa linda matriarca foi assim nomeada devido a
dois furos grandes e perfeitamente redondos que tem nas orelhas,
que muito provavelmente revelam que defendeu sua família,
com as orelhas abertas, de uma saraivada de tiros (©ElephantVoices)
dois furos grandes e perfeitamente redondos que tem nas orelhas,
que muito provavelmente revelam que defendeu sua família,
com as orelhas abertas, de uma saraivada de tiros (©ElephantVoices)
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