sábado, 2 de fevereiro de 2013

Tailândia: Lucky, resgatada de um circo, é recebida calorosamente pela família de elefantes de um santuário

Da Tailândia, Lek Chailert, fundadora e diretora do santuário de elefantes Elephant Nature Park, conta como conheceu e resgatou Lucky, uma elefanta cega, do circo onde era a estrela principal. Uma linda história e um exemplo a ser seguido.

(tradução livre) 

 

 

Lucky, sendo calorosamente recebida pela família de elefantes do santuário
(© Sangduen "Lek" Chailert) 


 

No ano passado, durante a turnê de um circo, conheci uma elefanta.

Seu nome era Lucky, e ela era a estrela do Circo Elefanta Lucky, que levava o mesmo nome que o seu.


Lucky tinha sido forçada a trabalhar no circo desde muito jovem e tinha ficado cega devido aos holofotes que ofuscavam seus olhos durante as apresentações. Mesmo assim, continuava a se apresentar.

Levei muito tempo para convencer o dono do circo a deixar que a resgatássemos. Ontem, pudemos trazê-la para casa, para que se juntasse à manada, sendo libertada do trabalho e do circo.

Levamos quase 24 horas para transportá-la da província de Isarn até nosso santuário. Fiquei o tempo todo ao seu lado, tentando me comunicar, para me assegurar de que ela identificasse minha voz.

Lucky, completamente cega de ambos os olhos, é de uma gentileza e personalidade maravilhosas.

Durante a viagem, não ficou nem um pouco nervosa. Parecia estar acostumada ao caminhão e também às viagens às quais era submetida no circo, quando era  levada continuamente de um lado para o outro para se apresentar. 

 

Lucky e Lek Chailert a caminho do santuário (© Sangduen "Lek" Chailert)

Lucky, no caminhão, em sua jornada para o Elephant Nature Park  (© Sangduen "Lek" Chailert) 
Lucky aproveitando as folhagens da beira da estrada durante a viagem (© Sangduen "Lek" Chailert) 

Lucky bebeu água e se alimentou bem durante todo o trajeto. Quando passamos perto de um camping que oferece passeios em cima de elefantes, notei que ela começou a bramir, enviando sua voz a eles, e alguns deles voltaram suas cabeças para o caminhão, respondendo de volta.

 

Quando Lucky chegou ao parque, pela primeira vez se mostrou bem nervosa. Porém, depois de ser recebida pela família de elefantes com uma calorosa e cordial recepção, se sentiu mais confiante. 

 

Os elefantes do parque chegam para recepcionar Lucky (© Sangduen "Lek" Chailert) 

Espero que Lucky escolha um amigo que possa ser, além de seus olhos, seu melhor companheiro, como os outros elefantes cegos do parque, que sempre têm um amigo por perto cuidando deles.

Agradecemos a David Budd e a Holly por sua generosidade, nos ajudando a trazer Lucky do circo, para que se juntasse à sua nova família no parque e não precisasse mais trabalhar. 

 

Lucky, em sua jornada (© Sangduen "Lek" Chailert)

 

Leia também: "Santuário para Elefantes - Princípios Gerais" da ElephantVoices. 

 

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Animais em circos: um comércio de escravos da atualidade

Por Benjamin Zephaniah / The Guardian, Reino Unido
Publicado em 30 de Novembro de 2012 - guardian.co.uk

O poeta Benjamin Zephaniah escreveu um brilhante artigo para o jornal The Guardian sobre a escravidão de seus ancestrais e a dos animais de circo (ainda uma realidade em muitos países), que publicamos abaixo, em Português. Esperamos que o Brasil caminhe firme para a aprovação do Projeto de Lei 7291/06, que aguarda votação no Plenário da Câmara dos Deputados. Muitos animais, entre os quais, vários elefantes, ainda estão em circos, viajando pelo Brasil. 



Benjamin Zephaniah é poeta.
Os regulamentos existentes falharam com animais como Anne, a elefanta chutada e espancada em um circo no Reino Unido. Precisamos de uma proibição já. 


AVISO: o vídeo da Animal Defenders International contém conteúdo explícito

Minha herança jamaicana e minhas raízes africanas fazem com que seja impossível para mim ignorar as similaridades históricas entre a crueldade imposta a meus ancestrais e a crueldade infligida aos animais de circos, hoje. A mentalidade que permitiu que atrocidades fossem infligidas a humanos é a mesma mentalidade que permite que ocorra o abuso de animais. Assim como meus ancestrais foram surrados e explorados, o mesmo acontece com zebras, leões, tigres, camelos e outros animais usados em circos. Exatamente como meus ancestrais tinham famílias, sentimentos e emoções, também os têm os animais. De fato, quando me despojo das coisas materiais que estão ao meu redor, vejo que também sou um animal. Somos todos parte de uma mesma família.

Tratados como se fossem máquinas, os animais que são forçados a viajar e atuar em circos são rotineiramente privados de cuidados adequados e ficam doentes, indiferentes e deprimidos. Muitos desenvolvem comportamentos neuróticos por causa do estresse e dos abusos e morrem mais cedo do que se poderia esperar, de acordo com a expectativa de vida de cada espécie. Passam a maior parte de suas vidas apertados em jaulas de transporte ou vagões e são puxados por toda parte, de um canto para outro. As leis do Reino Unido requerem que animais recebam uma boa qualidade de vida. Entretanto, o rigor do transporte, as cruéis técnicas de treinamento e outros estresses da vida no circo tornam isso impossível. 

Muitos de meus ancestrais foram aprisionados sem motivo e passaram suas vidas desprovidos de tudo o que era importante e significativo para eles:  liberdade de escolha, independência e autonomia. Isso se aplica exatamente  à vida dos animais usados em circos. Eles não têm escolha em relação às sua condições de vida ou às criaturas com as quais vivem e interagem e são punidos quando não se sujeitam às regras. Eles não têm o menor controle sobre nenhum aspecto de seu próprio destino.  

Animais não “se acostumam” à servidão. Eles sabem que não estão onde deveriam estar. Animais que fazem acrobacias que nunca fariam em seus legítimos lares o fazem movidos pelo medo, não porque querem. 

No último ano, pessoas no mundo todo se sentiram justificadamente ultrajadas quando uma filmagem de Anne, o último elefante usado em um circo do Reino Unido, circulou na internet mostrando um treinador que a chutava, espancava e espetava com um ancinho, mesmo estando ela acorrentada. Anne finalmente teve permissão para se aposentar, na sequência de um clamor público. No entanto, a não ser que se imponha uma proibição ao uso de animais em circos, não há nada que impeça um circo britânico de adquirir um outro elefante para submetê-lo a uma vida de tormentos. Elefantes se adaptaram a movimentações praticamente constantes na natureza e percorrem longas distâncias todos os dias, a fim de manter sua saúde e bem-estar. Em circos, o único “exercício” que um elefante faz é quando pratica truques tolos. Eles precisam da companhia e do companheirismo de outros elefantes para que prosperem. Eles são membros de uma espécie inteligente e multifacetada que, como nós, experimenta uma vasta gama de emoções. 

Noventa e quatro por cento das pessoas que responderam à última consulta do governo do Reino Unido sobre os circos apoiam a proibição do uso de animais em circos, sabendo que não é aceitável submeter animais a tratamento cruel para nosso entretenimento. A Grécia, recentemente, anunciou a proibição do uso de todos os animais em circos, e, na Áustria, um recurso para reverter a proibição do uso de animais selvagens em circos falhou. Bolívia, Finlândia, Índia, Cingapura e Suécia implementaram, todos eles, a proibição de números com animais. Através do mundo, as pessoas estão se manifestando contra a vergonhosa crueldade de confinar animais em jaulas apertadas, transportá-los por toda parte em vagões e forçá-los a praticar atos antinaturais, degradantes e, algumas vezes, doloridos. Todavia, no Reino Unido, que certa vez já esteve à frente na questão da proteção aos animais, o governo ainda está ignorando a vontade tanto do público como dos membros do parlamento, perdendo tempo ao falar sobre um sistema de “licenciamento” ou de “regulamentação” de números com animais selvagens. Isso não é suficiente.
 
Pela primeira vez, desde que era uma criancinha, fui a um circo, no começo deste ano. A razão pela qual fiz isso foi a de que eles diziam claramente que não usavam animais. Passei um tempo maravilhoso, admirando o que os seres humanos podem fazer quando param de explorar outros seres e usam seu livre arbítrio e criatividade. Depois do espetáculo, conversei com muitos  artistas, e eles me disseram que não trabalhariam com animais. Isso foi inspirador, e eu respondi que eles eram ótimos exemplos do que era possível se fazer.

Os regulamentos existentes no Reino Unido já falharam miseravelmente com os animais de circo. Anne, por exemplo, passou quase seis décadas com o  Bobby Roberts Super Circus. Os problemas de bem-estar e abuso que os animais de circo experimentam são inerentes a ele, e é claro que não podemos permitir que os circos exerçam uma autorregulamentação. Apenas uma completa proibição assegurará que os animais de circo sejam poupados de mais sofrimento. 

Faz 200 anos desde que o parlamento aboliu a escravatura. Já está na hora daquela atitude esclarecida ser estendida aos escravos animais explorados em circos.  

Acesse aqui o artigo original, publicado no The Guardian, no Reino Unido.  

Vários países já aprovaram - ou caminham para a aprovação - de leis contra o uso de animais em circos. Saiba quais são eles e como está a situação no Brasil.

Saiba mais sobre elefantes em cativeiro e na natureza, lendo "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices.

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domingo, 27 de janeiro de 2013

O cabo de guerra sobre os elefantes: A história da transferência do Zoo de Toronto

Publicado em 19 de Janeiro de 2013

Amy Dempsey / Toronto Star 



Iringa, na frente, e Toka estavam entre os primeiros elefantes a chegar ao Zoo de Toronto em 1974. Já se passaram 15 meses desde que a Câmara Municipal votou pelo envio dos três elefantes de Toronto a um santuário na Califórnia, mas eles continuam em seu recinto. As correntes ao redor de seus tornozelos fazem parte do treinamento para a grande mudança, agora planejada para abril.
(
AMY DEMPSEY/THE TORONTO STAR)

De um mirante na Savana Africana do Zoo de Toronto, uma mãe e uma criança estão observando Iringa, Thika e Toka caminhando em círculos, no frio.

“Mamãe”, questiona o pequeno, “por que os elefantes têm correntes em seus pés?”

“Porque, em breve, eles irão embora daqui.”

Os braceletes de correntes, presos em volta de seus grossos e enrugados tornozelos, fazem parte do treinamento para a sua grande mudança para o sul. Os elefantes os têm usado diariamente, desde janeiro de 2012. 

“Quando eles vão embora?”, quer saber a criança.

Boa sorte para quem tentar responder a esta pergunta. Uma pergunta melhor: Por que isso está demorando um tempo tão longo?

Turbulentos 15 meses se passaram desde que o conselho da Câmara Municipal de Toronto votou, pela primeira vez, pelo envio dos idosos elefantes do Zoo de Toronto para o Performing Animal Welfare Society (PAWS), um santuário de animais na Califórnia, que recebe elefantes que se aposentam de zoos e circos. 

E mesmo assim as “senhoras” ainda continuam no limbo, arrastando-se em volta do mesmo pequeno recinto que chamam de lar, muito antes que o debate sobre seu futuro eclodisse em ofensas, insultos e acusações desenfreadas; antes que os elefantes precisassem de advogados e de sua própria equipe de relações públicas; antes que terminasse nosso estoque de piadas sobre transporte de elefantes; antes que Bob Barker chegasse.

A bizarra saga não se resume ao trio de Toronto. 

Iringa, Thika e Toka são parte de uma batalha maior, que tem sido travada em cidades através da América do Norte durante a última década, conforme os elefantes foram tomando a posição central no que muitos estão chamando de crise de identidade dos zoológicos. 

Face às crescentes críticas sobre bem-estar animal, a indústria dos zoológicos promoveu uma campanha para levar o público a acreditar que elefantes prosperam em zoológicos, quando há cada vez mais evidências apontando o contrário.

Muitos especialistas em elefantes acreditam que santuários — com seus vastos espaços abertos e habitats naturais que imitam, de um modo muito parecido, a natureza selvagem — fornecem um padrão de cuidados muito melhor aos paquidermes. A indústria dos zoológicos não aceita isso.  

“Os zoos Americanos estão em um estado de negação quanto à manutenção de elefantes”, diz o Dr. Benjamin Beck, ex-diretor do Zoo Nacional de Washington, D.C., e especialista no manejo e bem-estar psicológico de animais em zoológicos. “Eles estão tão convencidos de que podem manter elefantes eficazmente, que simplesmente estão, penso eu, negando os fatos.”

Com a decisão do conselho da Câmara Municipal de Toronto de enviar os elefantes para o santuário PAWS reafirmada recentemente, o Zoo de Toronto está trabalhando com a primavera como data limite para seu envio.  nos bastidores, porém, há evidências de que alguns tratadores e patrocinadores do zoológico ainda estão debatendo maneiras de colocar obstáculos no processo, e rumores de que algumas pessoas não têm intenção de cooperar com um plano do qual, fundamentalmente, discordam. Chegará ao fim a saga dos elefantes de Toronto?

A resposta reside em uma questão mais complicada: Como foi que isso aconteceu?

Numa fria manhã de Novembro de 2009, os tratadores do zoo de Toronto encontraram Tara, a matriarca de 41 anos do grupo de paquidermes formado totalmente por fêmeas, deitada sobre um de seus lados na casa dos elefantes, impossibilitada de se levantar. Pode ser perigoso para os elefantes deitar-se dessa maneira por longos períodos, devido à pressão causada em seus órgãos internos. A despeito das tentativas da equipe do zoo de reabilitar Tara, ela morreu. Uma autópsia foi inconclusiva, mas sua morte  — a quarta fatalidade entre os elefantes em quatro anos, no zoológico — deu início a um bombardeio de críticas de grupos de defesa dos direitos dos animais.

O zoo ficou com apenas três elefantas idosas — o número mínimo recomendado pelos padrões da indústria dos zoológicos para essas criaturas altamente sociáveis — e um dilema sobre mudanças em sua estratégia. A administração teria que decidir se investiria dezenas de milhares de dólares na expansão de sua exibição de elefantes ou se encontraria uma nova casa para Iringa, Thika e Toka.


Toka tem 43 anos de idade e é considerada a mais passiva dos três elefantes do zoo de Toronto. Já houve 12 elefantes no zoo desde sua abertura, em 1974. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)       
 
O Zoo de Toronto já foi a casa de 12 elefantes desde que foi inaugurado, há  40 anos. Sete morreram, no decorrer dos anos, e dois foram transferidos. As três elefantas remanescentes vivem juntas num pequeno pedaço de terra  de menos de um hectare (1 hectare equivale a 10.000 metros quadrados) — um espaço que muitos especialistas em elefantes julgam ser pequeno. Iringa e Toka, capturadas em Moçambique durante uma repulsiva eliminação de elefantes, estavam entre os primeiros paquidermes a chegar ao zoo, em 1974. Iringa, agora com 44 anos, é conhecida por ser dominante e excepcionalmente inteligente. Toka, de 43, é passiva e agradável. Thika, de 33, tem a distinção de ter sido o primeiro elefante Africano a nascer num zoo americano, e é conhecida por ser mimada, como se fosse, ao mesmo tempo, uma criança adorável e mal-educada. 


Iringa é a elefante dominante entre o trio de paquidermes do Zoo de Toronto. Ela chegou em 1974 após ser capturada em Moçambique, junto com Toka. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)     
 

Desde os primeiros dias do negócio de exibição de animais, quando o panorama de um zoológico sem elefantes era inimaginável, a maioria dos principais especialistas em elefantes no mundo e um crescente número de profissionais do setor passaram a acreditar que a maioria dos zoos não atendia às necessidades biológicas dos elefantes, especialmente em climas mais frios, onde são forçados a ficar em pequenos espaços internos, por várias semanas de cada vez. 

De acordo com as informações resultantes de extensos estudos que surgiram durante a década passada, cientistas aprenderam que elefantes são criaturas altamente inteligentes, emocionais, que precisam de uma grande quantidade de estímulos para prevenir que se aborreçam. Eles têm o objetivo de buscar alimentos e de perambular em grandes manadas, formando vínculos sociais com outros elefantes de sua escolha. Elefantes em cativeiro sofrem de um número de doenças habituais, que incluem enfermidades nas patas e artrite, por caminharem em superfícies duras, herpes, tuberculose e estresse emocional.

O problema é que elefantes são um grande chamariz para os zoológicos, além de, há muito tempo, serem um símbolo de status e peças -chave num debate ideológico com alguns grupos de defesa dos direitos dos animais que são contra a manutenção de animais em cativeiro. 

Muitos especialistas acreditam que a indústria dos zoológicos — liderada pela poderosa Associação de Zoos e Aquários, uma organização comercial  sediada nos Estados Unidos e que estabelece padrões para seus membros — opera na crença de que os elefantes representam uma linha na areia, que, se transposta, poderia abrir a porta para a perda de outros animais e, no final das contas, levar os zoológicos ao fim. 

“Se os zoos se recusarem a reconhecer que não podem atender adequadamente às necessidades dos elefantes nos pequenos espaços que disponibilizam, acredito que estarão se abrindo para críticas muito mais duras no futuro”, afirma David Hancocks, um ex-diretor de zoo conhecido mundialmente e coeditor do livro Um Elefante na Sala: A Ciência e o Bem-estar dos Elefantes em Cativeiro.

A AZA elevou seus padrões para elefantes, face às novas pesquisas e ao crescente criticismo, mas especialistas afirmam que os padrões são ainda excessivamente baixos. Elevá-los ainda mais e de modo muito rápido forçaria a maioria dos zoos membros a dispender dezenas de milhares de dólares para atender aos requerimentos da manutenção de elefantes. 

Uma recente série de reportagens publicada no Seattle Times, de autoria de um jornalista investigativo, ganhador do Prêmio Pulitzer, sugere que elefantes estão morrendo nos zoos americanos. 

Para cada elefante nascido em um zoo americano credenciado, outros dois, em média, morrem, descobriu o jornal, em uma análise das mortes desde 1962. A taxa de mortalidade entre elefantes bebês nos zoos americanos representa o triplo da que ocorre na natureza, descobriu a investigação. A AZA opõe-se à análise, dizendo que não se consideram os avanços nos padrões de cuidados durante as várias últimas décadas. A associação tem criticado persistentemente pesquisadores e especialistas que sugerem que os elefantes de zoos vivem vidas mais curtas que seus congêneres, na natureza, e, baseada em suas próprias análises, conclui que ambos têm um tempo de vida similar.  

Na década passada, a AZA fez grandes esforços para combater o criticismo sobre elefantes em cativeiro e virar a história a favor de seus membros. A atual estratégia para os elefantes, da associação, foi traçada em 2005, durante um encontro privado de representantes dos zoológicos credenciados pela AZA, na Disney World, na Flórida, onde estiveram diretores do Zoo de Toronto, do Granby Zoo de Quebec e do Zoo de Calgary, entre outros.

Documentos discutidos durante o encontro, obtidos em primeira mão pelo Seattle Times, revelam que a AZA reconheceu que sua população de elefantes nos zoos havia declinado a níveis decisivos e que se tornaria insustentável, a não ser que os zoos membros acelerassem seus programas de reprodução de elefantes. Para gerenciar a crise, os representantes concordaram em falar e agir como uma “única voz” sobre todos os assuntos relacionados a elefantes — divergências públicas não seriam permitidas — e  divulgar que as populações de elefantes nos zoos credenciados pela AZA estavam “prosperando”. Defensores dos direitos dos animais que discordassem de sua visão seriam rotulados de “extremistas” antizoológicos. 

Dois anos depois, a AZA e a empresa de comunicação por ela contratada para administrar a crise dos elefantes ganharam um prêmio de relações públicas por virar a opinião pública a seu favor. 

Profissionais de zoológicos canadenses que participaram do encontro de 2005 dizem que não havia nada de enganoso sobre a estratégia para elefantes e que os planos para o futuro foram traçados tendo em mente os melhores interesses dos elefantes. O porta-voz da AZA, Steve Feldman, disse que a  campanha de relações públicas foi um “esforço efetivo” para defender seus membros de “falsas acusações” e “ataques de extremistas de defesa dos direitos dos animais”.

Mas não demoraria muito para que os zoos estivessem novamente sob fogo cruzado.

Quer você ame ou odeie (o ex-apresentador de TV americano) Bob Barker, é justo dizer que as coisas ficaram extraordinárias quando o homem com o largo sorriso da TV, o bronzeado da Califórnia e o impactante cabelo branco chegou à cidade. Em Abril de 2011, quando a cidade estava mobilizada  em torno de uma decisão há muito tempo esperada sobre o futuro dos elefantes, o ex-apresentador de programas de TV e ativista dos direitos dos animais encontrou-se com os conselheiros da cidade de Toronto e expôs seus argumentos no grande debate. “Eles estarão muito mais saudáveis em um santuário”, disse ele à cidade.


Os três elefantes do Zoo de Toronto - a partir da esquerda, Toka, Thika e Iringa - têm estado no centro de uma batalha, que já dura 15 meses, sobre onde deveriam viver o restante de suas vidas. (CARLOS OSORIO/TORONTO STAR)       

Barker ofereceu seus próprios fundos para levar os elefantes de Toronto para o santuário PAWS, uma promessa que eventualmente o levaria a um compromisso de US$ 880.000,00. Alguns chegaram a ressentir-se de seu envolvimento, argumentando que os conselheiros e o público seriam influenciados por essa celebridade, em vez de pelos fatos. 

Algumas semanas depois da visita de Barker, o diretor-executivo do Zoo de Toronto, John Tracogna, enviou um relatório feito pela equipe do zoo, cuidadosamente redigido, ao conselho administrativo. Dado o montante necessário para reformar a instalação dos elefantes — cerca de US$16.5 milhões — e os custos futuros de sua operação, de aproximadamente US$ 1 milhão por ano, o relatório concluía que o preço de se manter elefantes era muito alto para um zoo sem recursos. 

Numa seção intitulada “Bem-estar Animal”, o relatório salientava que a decisão era de caráter financeiro e não uma admissão de que elefantes não podem viver em zoológicos. “Consequentemente”, declarava o relatório, “a  recomendação de interromper o programa de elefantes do Zoo de Toronto não é uma questão ética.” A declaração contrasta com a posição tomada por diretores de alguns zoos — como os de Calgary e Detroit, para citar dois — que romperam com a “única voz” da AZA e declararam publicamente que suas decisões de acabar com as exibições de elefantes foram tomadas para bem-estar dos mesmos. LINK  

O relatório de Tracogna prosseguia dizendo que a equipe do zoo trabalharia com o grupo de aconselhamento da AZA para encontrar um local para os paquidermes de Toronto. “Deve ser enfatizado”, notificou ele ao conselho, “que a AZA ... recomendará que nossos elefantes sejam transferidos apenas para uma instalação credenciada pela AZA”.

Nos dias que antecederam a reunião do conselho na qual o futuro dos elefantes seria votado, a AZA e uma associação intimamente ligada a ela, a Zoos e Aquários Credenciados do Canadá, escreveram suas próprias apelações. “A única maneira de se assegurar que esses elefantes recebam o nível mais alto de cuidados é enviá-los a uma instalação credenciada pela AZA”, afirmou a diretora -executiva da associação, Kristin Vehrs, em uma carta enviada em 10 de Maio ao conselho. “Zoos não credenciados e instalações particulares de elefantes” — “os chamados santuários,” acrescentou ela — “não são uma alternativa apropriada.”

A discordância entre zoos e santuários se origina de uma colisão de dois sistemas fundamentais de pensamento. Zoos conduzem pesquisa, patrocinam e participam de programas de conservação e cobram pela admissão de pessoas que queiram ver suas coleções de animais. Santuários, como o PAWS, operam como lares de aposentadoria para animais idosos e doentes, e mantêm seus elefantes, na maior parte do tempo, fora do alcance dos olhos do público. Mas a questão fundamental que separa os dois lados diz respeito à reprodução. A indústria dos zoológicos, liderada pela AZA, reproduz seus paquidermes como um esforço para criar uma população autossustentável para as coleções dos zoos da América do Norte. O santuário PAWS é contra a reprodução de elefantes em cativeiro.

Uma reunião do conselho de administração do Zoo de Toronto, em 12 de Maio de 2011, reuniu em uma sala membros da equipe do zoo e representantes da AZA juntamente com a Zoocheck Canada — uma organização de defesa dos direitos dos animais sediada em Toronto, que passaria a ter um papel -chave na transferência dos elefantes — e representantes do santuário californiano PAWS.


Ed Stewart, cofundador do Santuário PAWS (Performing Animal Welfare Society).(RICK MADONIK/TORONTO STAR) 

       
Ed Stewart, cofundador do PAWS, tentou defender seu santuário, que havia sido descrito pela equipe do zoo, conselheiros e repórteres como uma instalação “não credenciada”, mesmo sendo ela credenciada pela Federação Global de Santuários de Animais. O santuário PAWS nunca teve como objetivo um credenciamento pela AZA, Stewart tentou explicar, porque não é um zoo ou um aquário. 

A mensagem de Stewart não foi transmitida.

“Quando eu me aposentar e meus filhos estiverem decidindo o que fazer comigo, quero ir para uma casa de descanso licenciada”, disse Paul Ainslie,  vice-diretor do zoo e conselheiro da cidade, na reunião.

Ao término, o conselho do zoo votou por fechar a exibição de elefantes e enviar Iringa, Thika e Toka a um zoo credenciado pela AZA, como recomendado pela equipe do Zoo de Toronto e pela AZA. Um santuário somente seria considerado se não pudesse ser encontrada uma instalação credenciada, o que os representantes mencionaram ser improvável.

Passava de 22h do dia 25 de Outubro de 2011, quando a conselheira da Cidade de Toronto Michelle Berardinetti levantou-se, na câmara municipal, e apresentou uma moção -surpresa recomendando o envio dos elefantes para o santuário PAWS.

Seis meses haviam se passado desde a decisão do conselho de administração do zoo, o inverno estava se aproximando rapidamente e o Zoo de Toronto ainda não havia chegado a um plano viável, apesar de circularem  comentários de que representantes do zoo estavam conversando com uma instalação credenciada pela AZA nos Estados Unidos que estava querendo pegar os elefantes. A moção de Berardinetti iria arruinar aquele plano.

Argumentando que se livrar dos elefantes agora poderia fazer com que a cidade economizasse dinheiro e sugerindo que mais um inverno no zoo talvez resultasse em mais um elefante morto, o conselheiro Scarborough Southwest fez um pronunciamento emocionado aos colegas. A moção para enviar os elefantes ao santuário PAWS foi aprovada por 31 votos a 4 —  e foi quando a você-sabe-o-quê foi jogada no ventilador. 

Os tratadores do zoo ficaram perplexos. “Políticos da Cidade permitiram que um grupo de defesa dos direitos dos animais tirasse meu direito de ter a palavra sobre onde os elefantes dos quais cuidei por 16 anos passarão suas vidas”, escreveu Vernon Presley, chefe dos tratadores dos elefantes do zoo, no Facebook. “EU MERECI ISSO, VOCÊS NÃO!!!”
Outro funcionário do zoo escreveu que os conselheiros da Cidade eram “idiotas” que “não tinham a menor ideia sobre o que estavam falando”.

O conselheiro Glenn De Baeremaeker chamou a reação de “campanha de guerrilha” por uma “equipe perniciosa”. Ele e Berardinetti enfatizaram que o conselho tinha autoridade para tomar a decisão das mãos do zoo, por serem os elefantes propriedade da cidade. Alguns tratadores de elefantes e outros defensores do zoológico acusaram os conselheiros de serem “marionetes” sob o controle da “ARAs” — ativistas dos direitos dos animais.

Em meados de Novembro de 2011, os tratadores apresentaram uma petição ao conselho da cidade com 1.100 assinaturas, pedindo permissão para que “os especialistas do Zoo de Toronto” continuassem sua pesquisa e decidissem qual instalação seria a melhor para os elefantes”. Os Conselheiros enfrentaram muitas críticas pela moção -surpresa, mas tinham a vantagem de terem a seu lado alguns dos mais importantes especialistas do mundo em elefantes, incluindo Cynthia Moss, Joyce Poole e Keith Lindsay.

Lindsay, ecologista especializado em elefantes na Amboseli Trust for Elephants em Nairobi, no Quênia, escreveu ao conselho para oferecer sua visão de que santuários são as únicas instalações na América do Norte com condições que se aproximam das que os animais experimentam na natureza, “enquanto que nenhum zoo, credenciado ou de outro tipo, faz isso no momento”. Seus colegas concordaram.

Tratadores de zoológicos têm uma visão que sempre é colorida por “questões de tradição e status”, escreveu Peter Stroud, um ex-tratador e ex-diretor de zoológico.

“Que eles certamente sentem um poderoso dever de responsabilidade, não há dúvida. Mas que estão em posição de sempre saber o que é certo e melhor para seus animais, é evidentemente falso.”

Conforme se travava o debate, Ed Stewart viajou a Toronto com o veterinário do santuário PAWS para conhecer Iringa, Toka e Thika — uma visita planejada em acordo com a direção do conselho do Zoo de Toronto. Mas, quando chegou, o diretor-executivo do zoo lhe disse que aquela não era uma boa hora para ver os elefantes, afinal. As emoções estavam à flor da pele, e Tracogna ponderou que não sabia como a equipe iria reagir se visse Stewart lá.

Em meados de Dezembro de 2011, entre as crescentes críticas sobre o comportamento inadequado dos tratadores enfurecidos e acusações de atrasar o processo, o zoo convocou uma conferência de imprensa. Tracogna disse ao público que lamentava os “comentários inapropriados” postados no Facebook por membros de sua equipe que se opunham à mudança e afirmou que o zoo estava cooperando totalmente com o santuário PAWS nas preparações para a transferência dos elefantes. Foi definida, como data limite para a partida, começo da primavera. Essa seria a primeira de muitas.


John Tracogna, CEO (executivo chefe) do Zoo de Toronto. (BERNARD WEIL/TORONTO STAR)       

Quando a neve começou a cair em 2012, três contêineres para a viagem, capazes de abrigarem elefantes, chegaram a Toronto. Tudo parecia estar caminhando.

Nos bastidores, entretanto, os relacionamentos estavam se deteriorando,  conforme o zoo começava a investigar o que seus representantes chamaram de “problema de tuberculose” no santuário PAWS. Durante toda a primavera, o santuário PAWS alegou que a equipe do zoológico encarregada de realizar a investigação a tinha transformado numa “caça às bruxas”, enquanto o zoo reclamava que o santuário não estava apresentando as informações.


Os contêineres para elefantes serão usados para levar os paquidermes de Toronto para o Santuário PAWS, na Califórnia. (RENE JOHNSTON/TORONTO STAR)       

Em Abril, semanas antes do prazo estabelecido para a partida dos elefantes, a AZA revogou a credenciação do Zoo de Toronto, desencadeando uma nova onda de críticas sobre a decisão do conselho da Cidade. A associação foi rápida em afirmar que a decisão nada tinha a ver com sua posição sobre santuários e que fora tomada porque o voto do conselho infringira suas regras de administração, que estabelecem que decisões sobre coleções de animais devem ser tomadas por tratadores.  

No entanto, pessoas de dentro da indústria dos zoos acreditam que o movimento tenha sido um sinal de alerta para outros zoos que estivessem considerando enviar seus elefantes a santuários. “Foi uma clara manobra política”, afirma David Hancocks, que, durante muito tempo, foi diretor de zoo. “E isso é tudo o que significou.”

Em Maio, o santuário PAWS recebeu uma solicitação pouco comum do zoológico: um relatório sobre os níveis de tuberculose em toda a vida selvagem encontrada nos limites de seus 930 hectares, incluindo cervos e gatos vadios. A lista de pretensões do zoológico ficou muito acima e foi além das solicitações do acordo legal entre o PAWS e o zoo. “Nenhuma solicitação como essa jamais foi feita a nós — ou a qualquer outro”, afirmou um enfurecido Ed Stewart. Em um encontro a portas fechadas, um representante veterano do zoo até sugeriu que a coproprietária do PAWS, Pat Derby, poderia ter, ela mesma, tuberculose.

Em Setembro, o zoo faria uma conferência de imprensa para anunciar que seria prorrogada a transferência dos elefantes até 2013, devido a “sérias preocupações” sobre tuberculose no santuário. 

Os apoiadores do santuário PAWS disseram que esse movimento foi feito para desviar as atenções, mas as preocupações foram suficientes para persuadir o conselho do zoo a consultar o comitê executivo da cidade sobre a transnferência dos elefantes — uma vitória para a equipe do zoo e seus apoiadores. O Conselho da Cidade teria que votar novamente.

Nas preparações para a votação, membros da equipe do zoo pareciam confiantes em que o conselho faria o que eles achavam que fosse a coisa certa. “Esperando que finalmente possamos tomar um fôlego... deixem a verdade prevalecer, por favor!”, escreveu a tratadora de elefantes Heather Kalka no Twitter.

Ficariam desapontados. Em 27 de Novembro, o conselho reafirmou sua decisão, votando, por 32 a 8, pelo envio dos elefantes ao santuário PAWS.


O Santuário PAWS está localizado no sopé das montanhas de Sierra Nevada, em San Andreas, Califórnia. É a casa de oito elefantes, e de também de tigres, ursos e leões. (DETROIT FREE PRESS)

A orelha de Iringa se move delicadamente ao vento do inverno, enquanto ela se balança de um lado para o outro no recinto dos elefantes, deslizando  levemente sua tromba pelo piso conforme desloca seu peso de um lado para o outro. A temperatura está apenas um pouco acima de 5º C, o que significa que hoje os elefantes têm permissão para ficar do lado de fora. Conforme se embala, Iringa encara inexpressivamente os poucos visitantes que vieram vê-la. Seu movimento é uma dança medíocre, lenta e ritmada. Triste, alguns poderiam dizer. Na realidade, um punhado de  visitantes faz essa observação durante o período de uma hora, em uma tarde de um dia de semana, em Janeiro: Ela parece triste.

Ecologistas especializados em elefantes dizem que esse movimento de embalar é um sinal de estresse psicológico, observado com frequência em elefantes em cativeiro. Mas até mesmo essa conclusão é política. Para alguns, sim, Iringa parece triste. Outros argumentariam que talvez não possamos interpretar os pensamentos de um elefante. Talvez ela esteja feliz, e nós, simplesmente, não entendemos isso. Talvez ela esteja tendo um dia ruim. Talvez ela esteja doente por estar no centro de uma história interminável.

“Não estou olhando para o passado”, disse Tracogna numa entrevista recente. “Estou olhando para a frente.” 

Esta é a mensagem oficial do zoológico: A orientação do conselho de levar os animais para o santuário PAWS será seguida, e uma nova equipe de transferência está trabalhando diligentemente, com a data limite estabelecida para a primavera. “Elefantes foram um capítulo na história do zoo, como muitos outros capítulos que escrevemos antes” disse o diretor-executivo. Em outras palavras, é hora de seguirmos em frente.

Mas será que esta nova equipe vai deixá-las ir? Fará isso?

Em uma página privada do Facebook na qual os patrocinadores do Zoo de Toronto e alguns tratadores compartilham informações e publicam suas queixas, tem havido discussões relativas ao registro de uma reclamação junto à OSPCA sobre o plano de transferência ou a procura de uma “interferência federal”. 

No mês passado, uma semana antes do Natal, uma desanimada trupe de funcionários do Zoo de Toronto participou de uma reunião do conselho administrativo.

Como é a norma quando os elefantes estão em pauta, as emoções estavam à flor da pele. Num certo ponto, o Conselheiro De Baeremaeker repreendeu um antigo funcionário do zoo por estar “atrapalhando”. 

Mais tarde, numa página pública do Facebook gerenciada por alguns tratadores de elefantes e seus apoiadores, a tratadora Alison Babin compartilhou as últimas notícias.

“Elefantes de Toronto se preparam para a partida em Abril” dizia a manchete do  artigo que ela postou. 

Em alguns minutos, um membro da facção anti-PAWS respondeu: “Ou não”.  

Mortes de elefantes

Sete elefantes morreram no Zoo de Toronto desde 1984. Em 2008, a Zoocheck Canada obteve os resultados das necrópsias do zoo:
  • TW, 2 dias de idade, morreu em 1984 devido a problemas de estômago e intestino. 
  • Tantor, 20, morreu em 1989 por falência cardíaca, após uma cirurgia para extração de uma presa infeccionada.  
  • Toronto, 10, morreu em 1994 por excesso de toxinas no sangue.
  • Patsy, 39, sofreu eutanásia em 2006, devido a uma dor crônica causada por artrite e infecções nas patas. 
  • Tequila, 38, encontrada caída numa cerca elétrica em 2008. O relatório da necrópsia foi inconclusivo. 
  • Tessa, 40, morta em 2009. Ela foi lançada contra uma cerca elétrica depois de ser acertada por um outro elefante durante uma luta por feno. O  relatório da necrópsia indicou que ela morreu devido a tentativas de levantá-la e a uma síndrome crônica e devastadora.
  • Tara, 41, morreu depois de cair, em 2009. Ela tinha uma artrite severa nas articulações de ambas as pernas traseiras, o que tornou difícil para ela se levantar. 

Link para o artigo original.


A opinião da ElephantVoices

Estamos convencidos de que os elefantes do Zoológico de Toronto terão uma vida muito melhor no Santuário PAWS e esperamos que as duas sábias e esmagadoras votações da Câmara Municipal de Toronto sejam suficientes para deixá-los ir quando o clima ficar um pouco mais quente.

O número de zoológicos abrindo mão de seus elefantes tem crescido nos últimos tempos. Muitos estão questionando se os zoológicos podem atender às demandas extraordinárias desses seres também extraordinários. Leia aqui "Mente e Movimento - Indo ao Encontro dos Interesses dos Elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli (ElephantVoices), que é primeiro capítulo do livro mencionado na reportagem do Toronto Star - "Um Elefante na Sala: A Ciência e o Bem-estar dos Elefantes em Cativeiro" e saiba por quê. 


O debate sobre zoológicos no Brasil 

No Brasil, também se discute a situação dos animais em zoológicos. Leia o artigo "Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) levanta sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil". 

Saiba mais sobre elefantes em cativeiro, no website da ElephantVoices.

Curta as páginas da ElephantVoices Brasil e da ElephantVoices no Facebook e as compartilhe com seus amigos - com os que sabem e, principalmente, com os que nada sabem sobre elefantes! 

Os elefantes precisam de nossas vozes!



terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Comércio de Marfim: Produtos, Controles e Consequências

Katarzyna Nowak, PhD, para o Fair Observer

Não é hora de sermos complacentes ou politicamente corretos, ou testemunharemos a perda do maior mamífero terrestre do planeta.

O mercado de marfim gera imensas discórdias por estar sujeito a inúmeras variáveis: interações entre homens e elefantes, artefatos e tradições culturais, comércio ilegal e a conservação de elefantes. A exploração do marfim determinará a probabilidade de extinção das populações de elefantes e afetará a subsistência humana. O marfim expressa os dilemas associados à sustentabilidade da vida selvagem. Similarmente, a perda de elefantes tem implicações no meio ambiente de algumas regiões, já que os elefantes que habitam a África subsaariana  têm signifiva influência em seu habitat como “engenheiros” do ecossistema. O marfim tem importância cultural, econômica e até politica, por sua conexão histórica com o financiamento de armas ilegais (dados presentes no Relatório da Comissão Kumleben, de 1996).


Preparação para a remoção das presas de um elefante macho adulto que foi morto enquanto incursionava em uma plantação. Fonte: Paulo Mndeme and Katarzyna Nowak
A aquisição e a comercialização de marfim estão inseridas na rede de crime organizado que atende a uma demanda insaciável da Ásia, especialmente da China. A Convenção para o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES), um organismo internacional com 175 paises membros, instituiu a proibição do comércio de marfim em 1989, após duas decadas de intensa matança, mas, em seguida, permitiu a venda de estoques de marfim de países sul-africanos, como Botsuana, Namíbia, África do Sul e Zimbábue. Essas vendas geraram uma controvérsia: elas teriam estimulado o aumento da demanda por marfim e, consequentemente, a caça ilegal? Uma resposta clara ainda não foi dada, mas, desde 2005, houve um dramático incremento no tráfico ilegal de marfim. Esse incremento é parcialmente atribuído à venda de estoques, pelos que são contra o comércio, e pela proibição do comércio, pelos que são a favor.

As questões são complexas e difíceis de desembaraçar. Na teoria, se o comércio fosse legalizado e controlado, os fundos gerados seriam usados para a conservação dos elefantes. Mas poderia a demanda atual ser suprida pela mortalidade natural e pelo “controle de animais problemáticos” – fontes legais de marfim – ou seria necessária uma quantidade maior? Se os elefantes estão sendo “consumidos”, quem irá regularizar o fornecimento, impor limites de números e, o mais premente, se beneficiar diretamente desse mercado? Populações locais que convivem com elefantes podem precisar de um retorno dessa coexistência para obter um maior nível de tolerância, ao passo que o termo  “fundos para conservação” sugere um retorno direto aos cofres governamentais (ou para-estatais).

Não está claro o que mudou desde a proibição de 1989  para acreditarmos que podemos controlar o comércio de marfim, especialmente quando os sindicatos do crime estão cada vez mais sofisticados. Basear decisões relativas à conservação no que possa ser menos lucrativo para a Máfia, a Tríade (máfia chinesa) e a Yakuza (máfia japonesa), significa que entramos numa era de preservação e contra o crime organizado, contando com as forças de mercado. Será ingênua a visão de que uma abordagem de mercado a favor da conservação pode conter um boom do mercado negro? Que exemplos reais existem no mundo de tais mercados salvando espécies?

Em comparação com as mais de 33,000 espécies que a CITES regula, é desproporcional a quantidade de tempo e energia que é dispendida, em cada Conferência dos Partidos (CoP), com assuntos relativos ao mercado de marfim. O “Debate do Mercado de Marfim” existe devido a visões polarizadas entre os países signatários. Algumas questões fundamentais continuam sem solução, incluindo decisões tomadas por países como a Inglaterra e os Estados Unidos, onde não existem elefantes e, portanto, nenhuma experiência em conflitos entre homens e elefantes. Outra questão é a listagem de uma única espécie, no Apêndice I (proibição total do comércio internacional) e no Apêndice II (comércio restrito), para permitir aos países do sul da África um comércio controlado. Há uma falta de transparência e de participação no processo de seleção dos membros do Painel de Especialistas e de participantes de reuniões fechadas no CoPs, como também de perguntas responsáveis  sobre quem fornece os dados que contribuem para as decisões dos usuários finais (funcionários do governo, assessores contratados ou cientistas com interesses próprios). As decisões são tomadas por cada país isoladamente, a despeito da mobilidade das populações de elefantes através de países vizinhos com diferentes paradigmas no tratamento de elefantes. Há falta de uma série de providências concretas e de confiabilidade na determinação das fontes de marfim –  mortes naturais, controles populacionais ou caça ilegal e confisco. Finalmente, o acompanhamento de registros de adesão às regras do CITES por um pais comprador e as justificativas de um país vendedor sobre a necessidade de fundos e a verificação do seu uso não são sistematicamente avaliados.

Estas são questões multifacetadas que, futuramente, ficarão mais complicadas, pelo fato de que não é possível fazer generalizações simples sobre a África a respeito do status de elefantes e as causas do aumento ou do declínio de suas populações. Isso levou alguns cientistas, como Rosaleen Duffy, autora de Nature Crime (2011), a argumentar contra uma solução tipo “todos no mesmo saco” e, em vez disso, ser a favor de uma divisão das listagens, que leva em conta políticas específicas para cada país, regimes de manutenção e conquistas na área de conservação. Uma avaliação de cada país, relacionada ao processo de tomada de decisão do CITES, considera a população de elefantes de cada país como distinta e, consequentemente, desconsidera a movimentação de elefantes por países vizinhos, restringindo, assim, a necessidade de se ver as populações de elefantes como metapopulações que se espalham por diversos países. O professor Rudi van Aarde, da Universidade de Pretória, e Tim Jackson, editor cientifico da National Geographic, acreditam que a mobilidade dos elefantes necessita de uma abordagem transnacional, para evitar o problema da concentração de um grande número de indivíduos num mesmo local, o que frequentemente leva a um aumento dos conflitos com humanos.

O chamado “excesso de elefantes” em países do sul da África deve ser interpretado dentro de um contexto no qual a extensão do habitat dos elefantes encolheu e as populações foram reduzidas em mais de 50%, desde a década de 1970. As populações de elefantes jamais recuperarão aquele nível em que estavam antes da epidêmica caça ilegal dos anos 1970, quando a África perdeu, no mínimo, 500.000 elefantes. Todavia, os defensores do comércio John Frederick Walker e Daniel Stiles argumentam que 40 anos não são suficientes para se discutir uma tendência para as populações de elefantes, apesar de que 40 anos não equivalem sequer aos anos de vida de um só elefante.

Além disso, somos confrontados com uma segunda questão, possivelmente mais urgente do que aquela relativa ao comércio somente: existe espaço para elefantes na África? Hoje, para cada 2.000 pessoas na África, existe menos de um elefante. Enquanto as populações de elefantes diminuíram catastroficamente até o final de 1980, a população humana quase dobrou, e a China se tornou o primeiro país a atingir um bilhão de habitantes, em 1980. A recuperação das populações de elefantes coincide com a expansão das populações humanas e suas atividades de subsistência nos habitats antigos dos elefantes, eliminando a capacidade das populações de se recuperarem, sem uma direta e quase sempre perigosa interação humano-elefante. O conflito entre humanos e elefantes tem se tornado um argumento para os mais fracos e despossuídos, nos debates políticos abrangendo a posse e o uso planejado da terra e o poder político. O conflito entre humanos e elefantes também tem sido um mecanismo potencialmente explorado para aumentar os estoques de marfim. A expansão da população humana e uma classe média com maior poder aquisitivo significam não só um aumento na demanda pela tradicional medicina tribal (que tem um enorme impacto sobre rinocerontes, tigres e ursos), mas também por bens luxuosos, como carnes de animais silvestres(por usuários urbanos) e marfim. Políticas públicas, e não as forças de mercado, devem ser direcionadas às  necessidades farmacológicas humanas, avisa o Professor Richard Sullivan, num relatório da EMBO, de 2010. Pode uma política pública atuar, da mesma maneira, na regulamentação de valores arcaicos e estéticos humanos?

A comunidade conservacionista tem sido, por enquanto, mantida em silêncio, acusada de não se importar com os pobres da zona rural e de superdimensionar a importância de espécies não humanas, oferecendo pouco suporte financeiro à administração da vida selvagem e para os sem terra. Por exemplo, Duffy escreve que “o modo pelo qual os povos ocidentais percebem os elefantes – uma visão romântica – demonstra que não é possível vislumbrar uma possibilidade de convivência com eles”. Suas declarações representam outra perspectiva política – a visão de um cientista ocidental preocupado com os despossuídos – e são tão igualmente corruptas intelectualmente como as de ativistas do bem -estar animal que menosprezam as necessidades humanas. Muitos financiamentos e esforços de biólogos de campo são canalizados para avaliar e mitigar os conflitos entre humanos e elefantes. Exemplos disso são o famoso Projeto Pimenta de Elefante (Elephant Pepper Project) no Zimbábue, e
as cercas de colmeias de abelha, no Quênia, (beehive fences in Kenya), projetos que testaram a eficácia das pimentas chilli e das colmeias como inibidoras de elefantes. Mais de 15% dos projetos financiados pelo US Fish and Wildlife African Elephant Conservation Fund (Fundo Americano da Vida Selvagem e Aquática para a Conservação do Elefante Africano) nos últimos cinco anos (2006 - 2010) foram para projetos com um componente explícito de conflito humano-elefante. Esses esforços, que representam o quanto estamos acertando na questão da conservação, não são mencionados no livro de Duffy “Como Estamos Errando na Conservação” (How We’re Getting Conservation Wrong).

De acordo com Duffy, a proibição do mercado de marfim “ castiga” os países em desenvolvimento, fazendo os pobres ficarem mais pobres. Isso presume que os fundos levantados com a venda legal do marfim irão beneficiar diretamente as comunidades que vivem lado a lado com os elefantes; que esses fundos serão distribuídos igualmente, ou, pelo menos, equitativamente; e que pelo menos alguma renda irá para a mitigação do conflito humano-elefante e a restauração de corredores verdes (particularmente se a melhora na conectividade entre habitats vier a ser, a longo prazo,  uma melhor estratégia para diminuir o conflito humano- elefante do que os métodos de inibição).  Duffy escreve que a mídia internacional e ONGs globais “ demonizam aldeões como sendo gananciosos ou são condescendentes por eles serem pobres”, quando o assunto é a caça ilegal. Ela está possivelmente correta quando diz que as ações anticaça ilegal miram o sintoma (caçadores) em vez da causa (demanda global e seus objetivos econômicos), mas as ONGs de conservação não criaram esses mercados globalizados.

Quando foi que a atenuação da pobreza virou a prioridade das ONGs de conservação? Não existem organizações maiores – Usaid, Oxfam, ONU – com mais experiência nisso? São os caçadores ilegais de marfim realmente um sintoma de pobreza ou de uma demanda global e, consequentemente, a chance de fazer dinheiro fácil? Caçadores, em Moçambique, mataram recentemente, de helicóptero, 52 elefantes, o que demonstra que estavam mais bem equipados que os guardas florestais no solo, descartando a imagem dos caçadores como sendo “ pobres aldeões”.

A instalação de corredores – que ajudariam a aliviar o conflito humano-elefante, ao promover a locomoção dos elefantes entre habitats apropriados – foi recentemente classificada como “apropriação de terra”,  num artigo escrito por Mara Goldman nos Anais da Associação dos Geógrafos Americanos. Por que estradas que fazem um elo entre as populações de vida selvagem são menos importantes do que aquelas que ligam as populações humanas? estradas que atravessam áreas selvagens não seriam “apropriações ilegais de terra”? A terra – e muitos dos seus usos e serviços – está destinada somente para o benefício humano?

Autores como Duffy e Goldman estão pedindo aos conservacionistas que concordem com a perda de espécies para evitar acusações de neocolonialismo. Essas questões – altamente políticas – deixam pouco espaço para a defesa de aspectos centrados na ciência e na ecologia. Se a discussão é realmente sobre se o marfim é um “recurso” econômico para os países, será a proibição a resposta? Se for assim, então talvez a verdadeira questão seja se o lado da demanda pode ser afetado num prazo necessário. Essa é uma questão de justiça, normas distributivas e equilíbrio moral. Surgem as perguntas: por que as pessoas querem marfim? Por que algumas “mercadorias” não se tornaram arcaicas na Ásia e no resto do mundo?

Investigações sobre o mercado e a regulamentação de outros troféus animais, como dentes de rinoceronte, cascos de tartaruga, xales tibetanos de shahtoosh (proveniente do antílope) e partes de animais usadas na tradicional medicina chinesa – ossos de tigre, bílis de urso e chifres de rinoceronte – podem informar o Debate Sobre o Mercado de Marfim. Entretanto, as possíveis ligações existentes no comércio de diversas espécies não foram devidamente pesquisadas. Por exemplo, a possibilidade da estocagem de marfim encorajar outras estocagens, como as de partes de tigres e ursos provenientes de fazendas ou de populações em cativeiro,  não foi ainda investigada. Pesquisadores de tigres, preocupados com a competição entre “fazendeiros” e “negociantes” (i.e., caçadores ilegais), duvidam de que o comércio legal de marfim possa impedir o mercado negro. Caçadores ilegais podem vender partes de tigre em mercados legais por preços inferiores aos dos fazendeiros, devido ao alto custo da produção em fazendas (como também é o custo de obter, transportar e manter o marfim em local seguro). Por outro lado, o custo de caçar ilegalmente um tigre ou um elefante na natureza é relativamente baixo, mesmo com o risco de ser apanhado. A crença de  Walker e Stiles de que as forças do mercado poderiam controlar o comércio de marfim e a ideia de que, com o comércio legal, não haveria compradores no mercado negro, independentemente da corrupção e da fraca imposição da lei, não parece estar fundamentada no que já foi observado com outras espécies. Isso quer dizer que não foi percebida uma redução na demanda de partes de animais devido às “forças de mercado” (como, por exemplo, a bílis de urso). A legalização do comércio de tigres de fazenda reabre um mercado que passou por um intenso declínio na China. Que forças garantiriam que um comércio legal de marfim seria sustentável e controlado, particularmente quando o comércio ilegal de marfim está prosperando em partes da China? (
illegal ivory trade is thriving in parts of China?)

Se o mercado de marfim diminuísse a caça ilegal e levasse a uma redução da morte de elefantes, então o assunto seria simples, e a questão do mercado de marfim ser ou não ético não seria um argumento para alguns, incluindo Peter Singer, o primeiro filósofo dos direitos dos animais. Mas, enquanto discutimos as questões do relacionamento entre o mercado de marfim e a caça ilegal e debatemos os detalhes, estamos perdendo milhares de elefantes. Eu já vi o “fracasso na ação, enquanto reunimos mais dados” como uma questão ética. Isso de novo deixa de lado uma questão muito mais ética e fundamental: “Devem os elefantes ser uma mercadoria?”

Como diz Fred Nelson, Diretor da Maliasili Initiatives, instituição sem fins lucrativos e baseada nos EUA, “todos os debates da CITES são agradáveis, nos artigos publicados, mas,  provavelmente, não são suficientemente críticos quanto à situação real, que depende mais do que cada país está fazendo individualmente em relação ao cumprimento da lei, ao compartilhamento dos benefícios com as comunidades locais e à administração dos recursos naturais em geral”. O que pode ser crítico para esse gerenciamento, e algo que o movimento conservacionista ainda não explorou o suficiente, é a restauração da relação entre o homem e a natureza selvagem. Talvez o que estejamos precisando é de celebrarmos a natureza e nos lembrarmos da nossa interdependência com ela, estimulando o desenvolvimento do meio ambiente, em vez de fazer cálices de chifre de rinoceronte e capas de celulares de marfim, o símbolo de status dos novos-ricos – e de todo mundo também.

Agradeço a Samuel Wasser, Phyllis Lee, Richard Sullivan e William Grassie, por seus comentários inestimáveis.


Link para o artigo original.

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