segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Harmonizando Mortes de Elefantes


Publicado por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices, em “Uma Voz para os Elefantes”, Coluna da National Geographic, em 5 de Fevereiro de 2013.


Uma foto de identificação de Goodness, matriarca morta por flechadas
por causa de suas presas. Foto: ElephantVoices.

Banhados pela luz da lua, esperávamos deitados pelo alarme, que deveria tocar às 4:30h, quando teríamos que nos levantar. O Rift Valley se espraiava sereno e mágico abaixo de nós. Um momento de tranquilidade. teríamos um longo dia pela frente, que Começaria com três horas e meia de estrada, de Il Masin, ao sul dos Ngong Hills, através do Rift Valley, até Ewaso Nyiro, em Narok, para chegarmos para a reunião das 9h.

Ainda bem que o tráfego estava tranquilo àquela hora tão cedo, dando algum espaço em nossas mentes para que vislumbrássemos a reunião da qual iríamos participar. Estávamos temerosos em pensar quantos elefantes estariam na lista final. Nossa previsão era que fossem 150 indivíduos, talvez alguns a mais ou alguns a menos. Qualquer que fosse o número, sabíamos que isso representaria apenas as carcaças que foram encontradas. Havia outros lá fora, escondidos por densa vegetação, em lugares sem patrulhamento, cujas mortes jamais seriam apuradas. Quantos corpos e ossos de machos ainda estariam lá? Quantas fêmeas? Quantos filhotes teriam sucumbido por causa da fome e do sofrimento causado pela morte de suas mães? Quantos deles no mato e quantos na lista daquele dia eram elefantes que tínhamos minuciosamente fotografado, registrado e descrito em nosso banco de dados, mas cujas mortes jamais iríamos registrar?  

Dois dias depois, uma fêmea adulta foi encontrada assassinada ali perto, e o macho adulto m0243 foi visto tomando conta desse filhote de 6 anos. Foto: ElephantVoices.

“Não podíamos usar a palavra ‘harmonizar’ sem chorarmos um pouco.”

O objetivo do dia não era nada bonito. Iríamos nos encontrar com outras pessoas integrantes do processo, na sede do Kenya Wildlife Service (KWS), no condado de Narok, para harmonizarmos as mortes de elefantes de 2012 que cada um de nós havia coletado do mundialmente famoso ecossistema de Maasai Mara. Não podíamos usar a palavra harmonizar sem chorarmos um pouco. Sincronizar teria sido um termo melhor, já que a tarefa que tínhamos pela frente não parecia nem um pouco harmoniosa ou agradável.

Os participantes foram chamados com alguma antecedência e vieram de todo o Maasai Mara. Havia representantes do KWS, das Câmaras Municipais de Narok e Transmara, das unidades de conservação, além de ONGs e cientistas, todos reunidos numa pequena sala. Fomos munidos de nossos mortos — em papéis, em fotografias, em arquivos, em pastas, em planilhas e em nosso banco de dados. Muitos deles também estavam em nossos corações, como indivíduos que havíamos conhecido. Lekuta e Tenebo, dois machos maduros, cujos nomes foram dados, respectivamente, por patrulheiros das unidades de conservação Olare Orok e Siana, estavam na lista. A linda matriarca Goodness (Bondade) cujo nome foi dado por Derrick Nabaala, guia da unidade de conservação Mara Naboisho, por causa de sua natureza tão gentil, também estava na lista. Todos os três tinham sido mortos por flechadas por causa de suas presas.

O dia todo se passou com a discussão em torno das georreferências dos locais dos cemitérios dos elefantes, das presas que foram recuperadas e das que foram perdidas e das horríveis mortes individuais, por tiros, flechadas e setas envenenadas. Esclarecemos quais morreram de morte natural, quais foram mortos em conflitos com pessoas por causa dos minguantes recursos, ou os que foram mortos por causa de suas presas de marfim. Haviam todos sido georreferenciados? Sem um ponto de GPS, eles não poderiam ser verificados e contados entre os mortos. Acrescentamos nossas “novas” vítimas e riscamos os que estavam contados duas vezes na lista. 

“Vejam, vejam, vejam o que está acontecendo com nossos elefantes! PAREM com a matança! PAREM com o mercado de marfim!”

Trabalhamos até o fim do dia, quando tomamos o caminho de casa. outros continuaram durante o dia seguinte, até que cada registro tivesse sido checado e estivesse de acordo. Planejado para ocorrer a cada trimestre, estávamos esperando por esse processo. Uma vez que os dados estejam organizados, podemos ir para a imprensa com os horríveis números, podemos postá-los no Facebook, podemos gritar para o mundo com os difíceis fatos, a incontestável evidência: “Vejam, vejam, vejam o que está acontecendo com nossos elefantes! PAREM com a matança! PAREM com o comércio de marfim!”

Enquanto isso, o registro de 2013 começou, e a matança continua: seis em Janeiro, em apenas uma unidade de conservação do Mara. Dizem-nos que muitas pessoas na China acham que os elefantes deixam cair suas presas, como caem as armações dos cervídeos. A repulsiva mensagem de que cada presa custa uma vida não chegou a esses compradores. Temos que fazer com que a compra de marfim, assim como o uso de casacos de pele de felinos malhados, seja algo a ser desprezado. 

Usando um colar com GPS que permite que pesquisadores monitorem seus movimentos, Omondi faz uma pausa para escutar. Assim como muitos machos do Mara, ele tem um ferimento supurado, provocado por uma flecha. Foto: ElephantVoices.

Enquanto existir um mercado para o marfim, ele terá valor. Enquanto ele tiver valor, será um recurso controlado por pessoas que têm poder. O comércio de marfim no Quênia, assim como em qualquer outro local, é um negócio corrupto e sujo. Em todos os lugares a que vamos, escutamos o mesmo refrão: “É sempre assim em ano de eleição”, ou “não melhorará até que ocorram as eleições”. As pessoas insinuam que os políticos estão engajados   no mercado de marfim para levantar verba para suas campanhas. Pode ser verdade, mas a escala do problema é muito, muito maior que isso, e não temos ilusões de que a situação ficará melhor depois das eleições do começo de Março, a não ser que ajamos solidariamente e falemos como uma só voz.

O que significa exatamente "harmonizar" a mortalidade dos elefantes, e por que devemos fazer isso? A simples resposta é que, com tantas pessoas engajadas em conservação de elefantes no Quênia, temos que organizar esses números, de modo que possamos documentar o que está acontecendo e reagir de modo apropriado. Na realidade, a situação é um pouco mais complexa.

Para explicar, é necessário um pouco de história. Até 1990, os elefantes Africanos estavam no Apêndice II da Convenção do Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (Convention on International Trade in Endangered Species - CITES), que permitia a venda de marfim pelos países que tinham elefantes, sob um sistema de cotas. Era um sistema tão aberto a abusos que o Leste da África perdeu 85% de seus elefantes em 15 anos, e a população de elefantes no continente caiu de 1,3 milhão para 600.000.

Em 1989, os Participantes da CITES votaram por colocar os elefantes Africanos no Apêndice I, decretando, por meio disso, uma proibição do comércio internacional de marfim. O voto certamente não foi unânime, e muitos países do sul da África e seus parceiros de negócios foram contra.

Nos dez anos que se seguiram, viu-se tanto uma lenta recuperação das populações desses mamíferos de longa vida, como também o desgaste da proibição. Muitas populações de elefantes dos países do sul da África foram “rebaixadas” para o Apêndice II e as chamadas vendas “únicas” de seus estoques de marfim foram permitidas para o Japão e para a China. 

Elefantes bebês brincando na segurança relativa das unidades de conservação.
Foto: ElephantVoices.
Em 2000, em resposta a preocupações de que essas vendas estimulariam o mercado, os Participantes da  CITES iniciaram um programa chamado  Monitoramento da Matança Ilegal de Elefantes (Monitoring the Illegal Killing of Elephants), ou MIKE, para ficar mais curto. O programa MIKE envolve a coleta de dados específicos da mortalidade de elefantes de umas 52 “localidades MIKE” ou de populações de elefantes monitorados através da África, tendo como um de seus objetivos principais monitorar onde e como as decisões tomadas pela CITES possam estar impactando os níveis de caça ilegal na região. 

Embora esses dados tenham fornecido indicadores valiosos sobre as tendências da caça ilegal, também foram altamente criticados por não terem sido capazes de comprovar, ou não, alguma causalidade entre as vendas de estoques de marfim e os níveis de caça ilegal. Já em 2007, havia indicadores de que nem tudo estava bem, mas, conforme o número de elefantes caçados continuou a subir, houve um grande desentendimento sobre se os “rebaixamentos” na lista e as vendas dos estoques de marfim eram a causa, ou se a “proibição” (fragilizada por eles) não estava mais funcionando. No final de 2012, a situação da caça ilegal ficou completamente fora de controle, e o MIKE era ainda incapaz de concluir se as vendas de marfim eram a causa! 

Houve outras questões no MIKE que nos perturbaram. Na medida em que o MIKE forneceu fatos e números para as autoridades, em alguns países ele pode também ter levado a uma demora em soar o alarme sobre a matança de elefantes por causa do marfim. 

O Quênia tem duas localidades oficiais no MIKE: Tsavo e Samburu/Laikipia. Além disso, a presença de projetos com elefantes no Amboseli e em Maasai Mara também tem permitido registros detalhados de mortalidade coletados de acordo com os critérios do MIKE.

Uma família com órfãos, liderada por uma fêmea jovem, encontra na estrada  um bom lugar para um banho de lama. Foto: ElephantVoices.

Cientistas amam fatos e números, assim como os oficiais do governo. Fatos e números significam informação, e o controle dessas informações significa poder. Aqueles que coletam dados frequentemente querem usá-los para seus próprios propósitos e podem ser relutantes em compartilhá-los. Indivíduos e instituições podem também esconder números porque não gostam do que eles revelam e podem, por essa razão, querer controlar o acesso a eles.

No início dos anos 1990, quando Joyce encabeçava o Programa de Elefantes para o KWS (Serviço para a Vida Selvagem do Quênia), ela estabeleceu um Banco de Dados de Mortalidade de Elefantes, para ajudar o KWS a monitorar seus esforços anticaça, assim como o sucesso da proibição do comércio de marfim que tinha sido decretado pela CITES. É esse  banco de dados que agora abriga os dados do MIKE e forma uma importante  fonte de informação sobre o nível da caça ilegal de elefantes no país.

Como resultado do programa MIKE, algumas informações do Banco de Dados de Mortalidade do KWS são agora de interesse de uma audiência mais ampla. De fato, o mundo todo, subitamente, tem debatido esses dados. De particular interesse para o mundo todo, em geral, é o “PIKE” — ou o percentual de elefantes assassinados ilegalmente em relação ao número total de mortes. 

Nos últimos seis anos, o número de mortes e, particularmente, o PIKE, têm crescido constantemente (acreditamos que devido a decisões tomadas na CITES). Os números não têm sido bonitos, e é preciso dizer que algumas pessoas têm procurado tanto fazer discursos de fachada quanto esconder os fatos para mantê-los longe do público. Cientistas têm sido intimidados por terem diferenças de opiniões sobre os números. Há rumores de que, por  falarem abertamente sobre isso, pessoas têm tido seus financiamentos bloqueados, sócios honorários têm sido despojados de seus títulos e alguns têm sido acusados de conluio com caçadores. Qualquer que seja a verdade, tem florescido um clima de suspeitas, de sigilo, causando frustração e muita raiva, mesmo entre colegas e amigos. 

“Ainda bem que, nas últimas semanas, temos visto uma importante mudança de atitude no Quênia.”

Ainda bem que, nas últimas semanas, temos visto uma importante mudança de atitude no Quênia. A imprensa, de repente, está realmente bem informada, “dando nomes” e pressionando para que se faça algo. O Primeiro- Ministro, Raila Odinga, prometeu agir, e todos os sinais indicam que cabeças rolarão. O novo Diretor do Serviço para a Vida Selvagem do Quênia (Kenya Wildlife Service) está prometendo transparência, e isso está se estendendo a seus colaboradores, e encontros de harmonização estão acontecendo em todo o país.

Mais do que qualquer país do mundo, o Quênia é o epicentro do conhecimento sobre elefantes. Temos um time de conservacionistas internacionalmente reconhecido e autoridades em elefantes, experiência em  conservação, instituições, aplicação de políticas e um público alarmado e  desejoso de diminuir a matança. Enquanto escrevemos, membros de um novo grupo, Quenianos Unidos contra a Caça Ilegal (Kenyans United Against Poaching), marcham pelas ruas de Mombasa, cantando:

“Se não há vida selvagem – Não há turismo, 
Sem turismo – Não há trabalho, 
Sem turismo – Não há economia, 
Sem turismo – Não se vislumbra 2030. 
Temos que acabar com a caça ilegal agora. 
A China tem que Acabar com o Comércio de Marfim.”

Os elefantes são um recurso do Quênia e de seu povo e, enquanto aguardamos os resultados dos números oficiais de mortalidade de elefantes em 2012, temos a esperança de que o “Time Quênia” trabalhará junto, em harmonia, para proteger seus elefantes.



Joyce Poole estuda elefantes desde 1975, tem PhD em comportamento de elefantes pela Universidade de Cambridge e teve papel fundamental na obtenção da proibição do comércio de marfim, em 1989. Ela é uma autoridade mundial em comportamento social, reprodutivo, comunicativo e cognitivo e dedicou sua vida à conservação e bem-estar dos elefantes. Poole encabeçou o Programa de Elefantes do Serviço para a Vida Selvagem do Quênia (Kenya Wildlife Service) de 1990 a 1994 e foi responsável pela conservação e manutenção de elefantes em todo o Quênia. É autora de numerosos artigos científicos, de dois livros e a autora principal do “The Elephant Charter”. Poole e seu marido, Petter Granli, fundaram e dirigem a ElephantVoices. Em 2011, deram início a um projeto contínuo de conservação no Maasai Mara. Leia mais em www.elephantvoices.org.



Petter Granli é um economista com significativa experiência corporativa em gerenciamento e comunicação. Seu trabalho com conservação de vida selvagem começou em1998, como um dos fundadores da premiada empresa de ecoturismo norueguesa Basecamp Explorer, que dirigiu por três anos. Ali deu início ao Projeto de Conservação de Guepardos em Maasai Mara e a diversos trabalhos ecológicos colaborativos envolvendo os Maasai. Em 2004, enquanto trabalhava com Joyce Poole, começou um projeto de mitigação de conflitos entre humanos e elefantes na região do Amboseli. Com Joyce, fundou e dirige a ElephantVoices. Leia mais em www.elephantvoices.org.

Acesse o artigo original, na página da National Geographic.
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A nova vida de Lucky


Lucky em sua nova vida no Santuário ENP, na Tailândia. Feliz, tomando banho no Rio (©Lek Chailert)

Lucky, a elefanta cega, balançava tristemente para frente a para trás, acorrentada em seu quintal, quando foi resgatada do circo, em 1 de fevereiro. 

Hoje, menos de quinze dias depois, recebemos notícias do santuário na Tailândia onde ela vive agora, o Elephant Nature Park. 

Nos conta Lek Chailert, fundadora do santuário: “Lucky tem três melhores amigas, que se tornaram seus olhos, sua irmã e sua babá. Hoje, pela primeira vez, ela se deitou e mergulhou no rio, jogou água enquanto trombeteava e brincou como uma criança, enquanto as três elefantas, Boon Ma, Danee e Bua, a vigiavam de perto.”


Lucky em sua nova vida no Santuário ENP, na Tailândia (©Lek Chailert)
Elefantes são animais de cérebro grande, inteligentes e curiosos. Estão entre os animais não humanos mais inteligentes e complexos - tanto do ponto de vista emocional como social. 

Na natureza, fora as duas ou três horas das 24 horas do dia em que podem ficar parados ou se deitar para dormir, os elefantes estão sempre em movimento ou envolvidos em alguma atividade. Sua vida é repleta de desafios intelectuais. As atividades experimentadas por eles dão motivação a uma mente ativa e mantêm o corpo vigoroso em boa condição física. Não importa qual seja o cenário – procura por alimentos, defesa, socialização ou reprodução –, a vida diária de um elefante se distingue por necessidade, propósito, desafio, escolha, vontade, autonomia e camaradagem. O aprendizado social também é visto em vários aspectos da vida diária de um elefante selvagem e é um componente vital da atividade mental. Esses elementos, tão necessários na vida de elefantes selvagens, atualmente estão completamente ausentes no cativeiro.

Temos certeza de que Lucky está agora no lugar certo. Ficamos felizes com as notícias e desejamos que mais elefantes que estejam sofrendo em cativeiro no mundo todo sejam  levados para santuários, onde possam, finalmente, ser elefantes.

Lucky em sua nova vida no Santuário ENP, na Tailândia (©Lek Chailert)

Saiba mais sobre elefantes na natureza e em cativeiro lendo "Mente e Movimento - Indo ao encontro dos interesses dos elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices. 



Lucky em sua nova vida no Santuário ENP, na Tailândia (©Lek Chailert)

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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A Comunicação Química dos Elefantes

Os sinais químicos e olfatórios são fundamentais na comunicação entre elefantes. Frequentemente eles levantam a tromba e farejam o ar, ou usam sua extremidade para explorar o solo (em busca de sinais ou rastros de urina e de material fecal), além de  utilizarem-na também para farejar genitais, glândulas temporais ou a boca de outros elefantes. A comunicação química produz sinais duradouros e energeticamente eficientes.

Secreção da glândula temporal durante o período de "Frenesi Sexual" (ou "Musth"). Mr. Nick. (©ElephantVoices)

Os odores utilizados na comunicação química

Os odores provenientes de urina, fezes, saliva e secreções da glândula temporal (uma grande estrutura multilobular que apresenta um orifício localizado entre o olho e a orelha) são os utilizados na comunicação química entre elefantes.


Os elefantes podem também utilizar as secreções das glândulas interdigitais e tarsais (também conhecidas como meibomianas), no processo de comunicação. Essas secreções são frequentemente observadas juntamente com secreções do ouvido, que provavelmente também transmitem informações.



Secreção do ouvido (©ElephantVoices)

O olfato

Os elefantes possuem um olfato apurado e o utilizam constantemente, da mesma maneira  que nós utilizamos nossa visão. Quando queremos saber mais sobre o que o elefante está pensando, ou para onde está dirigida a sua atenção, olhamos para a extremidade de sua tromba e não para o seu olhar (como faríamos, no caso dos humanos).  A extremidade de sua tromba está sempre se movimentando, virando de um lado para o outro, de cima para baixo, para frente e para trás, captando novos cheiros e buscando informações, e acreditamos que lá se encontra o foco de sua atenção. Certa vez, observamos um elefante retornar ao nosso carro, que estava a uma distância de 50 metros, a fim de localizar um pequeno pedaço (menor que 0,5cm de diâmetro) de banana que havia sido descartado.



Testando os genitais. (©ElephantVoices)
O olfato do elefante é tão apurado que, em Amboseli, onde eles são mortos pelos guerreiros masai, observamos elefantes fugirem de masais que estavam a 2km de distância, além de fugirem de um carro que levava um grupo de guerreiros masai no dia anterior. Lucy Bates e colegas demonstraram, experimentalmente, que os elefantes classificam grupos étnicos humanos somente pelo olfato. Classificam pessoas de acordo com o grau de ameaça que elas representam. Em seu estudo, observou que os elefantes correram para mais longe e permaneceram em estado de alerta por mais tempo quando expostos a camisetas que haviam sido usadas por masais, quando comparados a camisetas usadas por um grupo de pessoas que não representavam uma ameaça.
 

Numa ocasião, observamos a elefanta Virginia emitir um chamado para estabelecer contato bastante alto, depois de se deparar com um solo encharcado com a urina de sua filha Vida, que já estava separada de sua família por um período de dois dias.
O trabalho experimental de Lucy Bates e colegas demonstrou que os elefantes são capazes, através de seu olfato, de saber onde se encontram os indivíduos de seu grupo.



Testando urina. (©ElephantVoices)

A tromba contém 150 .000 subunidades musculares

A tromba é uma fusão do nariz com o lábio superior e contém, aproximadamente, 150.000 subunidades musculares. Embora obviamente tenha a função de captar água e alimento, também é utilizada na investigação tátil do meio ambiente, no olfato e no olfato vomeronasal.  A sua extremidade contém dois tipos de vibrissas, além de pequenos corpúsculos e terminações nervosas livres. Estas características permitem que detecte vibrações, além de manipular objetos e transferir líquidos.


Tromba de elefante descansando. (©ElephantVoices)

Na cavidade nasal, existem sete cornetos nasais (os cães têm apenas cinco), estruturas ósseas convolutas com tecido especializado na detecção de hormônios e de diferentes cheiros.Estas estruturas contêm milhares de células receptoras do olfato. Quando um macho está no "Frenesi Sexual" (ou "Musth"), com seus níveis de testosterona muito elevados, ou a fêmea no estro, eles podem detectar hormônios ou moléculas químicas presentes na urina, nas fezes e em secreções das glândulas temporais, observando também a boca e a tromba, que refletem o estado psicológico do animal analisado.



Três jovens farejando no modo "periscópio". (©ElephantVoices)

Um elefante capta muita informação ao farejar, ou ele pode também coletar determinada substância com a extremidade de sua tromba. Uma vez feito isso, a informação química é transferida ao órgão de Jacobson, também conhecido como órgão vomeronasal, localizado no céu da boca, onde esta informação é analisada. Este comportamento é conhecido como resposta flehmen. A informação é então transferida ao cérebro. Em frente ao órgão de  Jacobson existe uma pequena fileira de poros, conhecidos como fossas palatinas. Esses poros também podem intensificar a comunicação química, decifrando a informação molecular que foi levada à tromba, a fim de ser inspecionada.

Às vezes, pode-se observar um elefante achatando a extremidade de sua tromba sobre um ponto de urina no solo, como se estivesse vedando seu material de interesse. Ele pode então inalar pela boca para, depois, soprar sobre a substância, presumivelmente aquecendo-a de forma que mais compostos voláteis sejam liberados da matriz líquida.

Procure pesquisar as palavras “sniff” ou “sniffing”, ou “test” ou “testing” no ElephantVoices Gestures Database (Banco de Dados de Gestos da ElephantVoices), para saber mais sobre em que situações os elefantes usam seu olfato.


Clique aqui para ler as referências principais do texto. 

Saiba mais sobre a comunicação dos elefantes. Já publicados em Português: "A Comunicação Tátil dos Elefantes" e "A Comunicação Sísmica dos Elefantes".

Leia o texto original na página de internet da ElephantVoices.

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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Ouro Branco

A Fundação Africana de Filmes Ambientais (AEFF) lançará, em breve, seu mais recente filme, intitulado "Ouro Branco".

O filme lança uma luz intensa sobre o comércio de marfim e como ele afeta o Quênia, sob as perspectivas econômica, ecológica e de segurança. 

O poderoso filme e seus “trailers” serão mostrados em março na CoP 16 da CITES, em Bangkok, na Tailândia, na China - na TV e em redes sociais - e em um grande número de países africanos, através de 77 empresas de teledifusão. 


Bebê elefante na África: uma história de vida, um dos trailers de "Ouro Branco", poderoso filme que será exibido na CITES e em diversos países do mundo durante a CoP 16 de Bangkok.
Clique aqui.

Assista a outros dois trailers:

O Marfim e o Terrorismo: uma ligação muito forte para ser ignorada

Clique aqui.

A Maldição do Mercado de Marfim

Clique aqui.


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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

A Comunicação Sísmica dos Elefantes


Pata de Echo, famosa matriarca que viveu no Parque Nacional do Amboseli (©ElephantVoices)
A energia sísmica se propaga de forma eficiente entre 10 e 40 Hz – o que corresponde também à frequência fundamental e à segunda harmônica do bramido do elefante. O que ocorre é que, quando um elefante brame, uma réplica desse som também se propaga pelo solo. Os sons emitidos por elefantes se propagam a uma velocidade de 309m/s pelo ar e de aproximadamente 248-264m/s através do solo.

Estudos feitos por Caitlin O`Connell e colegas demonstraram que os elefantes são capazes não só de perceber esses sinais sísmicos, como também se orientam pela direção da vibração, além de responder a ela corretamente.



Um elefante normalmente "congela" seus movimentos para escutar - presume-se que também esteja recebendo vibrações sísmicas (©ElephantVoices)

Os elefantes detectam essas vibrações sísmicas, também conhecidas como ondas Rayleigh, de duas formas: através da vibração dos ossículos do ouvido médio, ou, possivelmente, também por mecanorreceptores sensíveis às vibrações, localizados em suas patas. A extremidade da tromba do elefante apresenta camadas celulares conhecidas como Corpúsculos de Pacini, que são extremamente sensíveis às vibrações, e acredita-se que estes possam detectar movimentos extremamente sutis, como o Movimento browniano. Também são encontrados Corpúsculos de Pacini na camada dérmica da parte anterior e posterior da pata (na área dos dedos e do calcanhar). Movimentos ou vibrações levam à sua deformação, transmitindo um sinal nervoso ao cérebro. Embora estes corpúsculos também sejam encontrados em outros mamíferos, eles são particularmente densos na extremidade da tromba do elefante.

Mais informações interessantes sobre sinais sísmicos em elefantes podem ser encontradas aqui.


Leia o texto original em Inglês aqui.

Leia também: "A Comunicação Tátil dos Elefantes".

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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Os Elefantes do Parque Nacional da Gorongosa, Moçambique

Nossos amigos e colegas do Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, desenvolveram uma nova e linda página de internet, com versões em Português e Inglês. Visite-a quando você puder. 

Nossa recomendação é que você comece lendo sobre o Projeto da ElephantVoices na Gorongosa. Em uma entrevista, Joyce Poole explica como é conduzida a pesquisa de elefantes no parque e ensina como identificá-los. Na Gorongosa, devido à terrível matança por marfim durante a guerra civil (1977 a 1992), uma grande parte dos elefantes não tem presas, o que torna a tarefa de identificação mais difícil, mas existem outras características que ajudam a fazer esse trabalho. 

©Parque Nacional da Gorongosa

A ElephantVoices desenvolveu oito módulos para ensinar como identificar elefantes africanos. Já foram publicados em Português: "Como determinar a idade de elefantes africanos" e "Sexagem de Elefantes Africanos".

Leia também: "O Projeto Gorongosa, da ElephantVoices".

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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Tailândia: Lucky, resgatada de um circo, é recebida calorosamente pela família de elefantes de um santuário

Da Tailândia, Lek Chailert, fundadora e diretora do santuário de elefantes Elephant Nature Park, conta como conheceu e resgatou Lucky, uma elefanta cega, do circo onde era a estrela principal. Uma linda história e um exemplo a ser seguido.

(tradução livre) 

 

 

Lucky, sendo calorosamente recebida pela família de elefantes do santuário
(© Sangduen "Lek" Chailert) 


 

No ano passado, durante a turnê de um circo, conheci uma elefanta.

Seu nome era Lucky, e ela era a estrela do Circo Elefanta Lucky, que levava o mesmo nome que o seu.


Lucky tinha sido forçada a trabalhar no circo desde muito jovem e tinha ficado cega devido aos holofotes que ofuscavam seus olhos durante as apresentações. Mesmo assim, continuava a se apresentar.

Levei muito tempo para convencer o dono do circo a deixar que a resgatássemos. Ontem, pudemos trazê-la para casa, para que se juntasse à manada, sendo libertada do trabalho e do circo.

Levamos quase 24 horas para transportá-la da província de Isarn até nosso santuário. Fiquei o tempo todo ao seu lado, tentando me comunicar, para me assegurar de que ela identificasse minha voz.

Lucky, completamente cega de ambos os olhos, é de uma gentileza e personalidade maravilhosas.

Durante a viagem, não ficou nem um pouco nervosa. Parecia estar acostumada ao caminhão e também às viagens às quais era submetida no circo, quando era  levada continuamente de um lado para o outro para se apresentar. 

 

Lucky e Lek Chailert a caminho do santuário (© Sangduen "Lek" Chailert)

Lucky, no caminhão, em sua jornada para o Elephant Nature Park  (© Sangduen "Lek" Chailert) 
Lucky aproveitando as folhagens da beira da estrada durante a viagem (© Sangduen "Lek" Chailert) 

Lucky bebeu água e se alimentou bem durante todo o trajeto. Quando passamos perto de um camping que oferece passeios em cima de elefantes, notei que ela começou a bramir, enviando sua voz a eles, e alguns deles voltaram suas cabeças para o caminhão, respondendo de volta.

 

Quando Lucky chegou ao parque, pela primeira vez se mostrou bem nervosa. Porém, depois de ser recebida pela família de elefantes com uma calorosa e cordial recepção, se sentiu mais confiante. 

 

Os elefantes do parque chegam para recepcionar Lucky (© Sangduen "Lek" Chailert) 

Espero que Lucky escolha um amigo que possa ser, além de seus olhos, seu melhor companheiro, como os outros elefantes cegos do parque, que sempre têm um amigo por perto cuidando deles.

Agradecemos a David Budd e a Holly por sua generosidade, nos ajudando a trazer Lucky do circo, para que se juntasse à sua nova família no parque e não precisasse mais trabalhar. 

 

Lucky, em sua jornada (© Sangduen "Lek" Chailert)

 

Leia também: "Santuário para Elefantes - Princípios Gerais" da ElephantVoices. 

 

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