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sábado, 27 de abril de 2013

Uma Lição Sobre Sexo de Elefantes

Em meados dos anos 70, quando começou a estudar elefantes no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia, junto com Cynthia Moss, a Dra. Joyce Poole logo descobriu que os elefantes africanos entram em períodos de frenesi sexual (musth), durante os quais seu comportamento sexual fica exacerbado, assim como sua agressividade. Aos 25 anos, Joyce publicou seu primeiro estudo científico sobre o tema, no periódico Nature. Essa foi a primeira de muitas descobertas sobre esses fascinantes e inteligentes animais. Os elefantes asiáticos também entram em períodos de frenesi sexual, e as manifestações ocorrem de modo similar.

O escritor Carl Safina conta para o Huffington Post, direto do Quênia, onde está escrevendo um livro sobre a vida dos animais, como é o acasalamento dos elefantes.


Foto: Shifra Goldenberg

Hoje, eu assisti a elefantes acasalando. Eu não sei se você já viu, mas, para mim, foi a primeira vez. 

Eu estou no Quênia, escrevendo um livro sobre a vida dos animais.

Elefantes têm um sistema de acasalamento bem diferente. Primeiro, as fêmeas vivem juntas em uma família: a matriarca, suas filhas adultas e todos os seus filhotes. Os Machos vivem em grupos separados ou vagam sozinhos. Eles não vivem em famílias.

Em geral, os machos não começam a procriar antes dos 20 anos. E uma coisa estranha acontece. Machos mais velhos e dominantes, geralmente por volta dos 30 anos, entram em um período de aumento do apetite sexual e da agressividade chamado “frenesi sexual”. Os elefantes machos em “frenesi sexual” são um pouco parecidos com os antílopes machos no estro. Mas todos os antílopes de uma mesma espécie começam a época de acasalamento ao mesmo tempo. Com os elefantes, não há como prever que os machos vão entrar em “frenesi sexual” ou quando isso vai acontecer. Machos que não estão em “frenesi sexual” podem acasalar. Mas machos em “frenesi sexual” são dominantes e agressivos, e as fêmeas os preferem.

Fêmeas amadurecem por volta dos 13 anos e, então, entram em estro por três ou quatro dias. Elas concebem quase todas as vezes que entram em estro e ficam grávidas por dois anos. Mais ou menos dois anos depois que o filhote nasce, elas entram em estro novamente, e então ficam grávidas por mais dois anos, enquanto ainda amamentam o último filhote. (Se elas têm um filhote que sobrevive, elas continuam amamentando-o até ele ter uns quatro anos.) Em outras palavras, elas estão prontas para acasalar apenas durante três ou quatro dias a cada quatro ou cinco anos.

Então, quando uma fêmea está pronta para acasalar, os machos ficam superanimados e há muita competição.

Machos em “frenesi sexual” ficam perambulando e visitando várias famílias, com um líquido escorrendo pelas glândulas que ambos os sexos têm nas têmporas. (Ambos os sexos secretam um líquido por essas glândulas quando há um aumento de tensão emocional ou qualquer tipo de excitação. acho que é como se nós tivéssemos axilas suadas na lateral do nosso rosto.) Eles também ficam constantemente pingando urina para alertar sobre o seu estado – dá para sentir o cheiro, que é parecido com o cheiro de urina de gato –, e o pênis apresenta uma cor esverdeada.

Pesquisadores só entenderam tudo isso sobre os elefantes africanos nos anos 70. Antes, eles achavam que os machos estavam doentes e chamavam aquele evento todo, que pode durar algumas semanas, de “a doença do pênis verde”.


Os machos em “frenesi sexual” andam por todo lado cheirando o ar e as manadas, à procura de fêmeas em estro. Eles vão até uma fêmea adulta e, em vez de dizerem “Qual é o seu estado?”, eles tocam a ponta de suas trombas em sua vulva, sentem o cheiro e muitas vezes colocam a tromba na boca para sentir o gosto.

Esse brusco excesso de familiaridade não perturba as damas nem um pouco, e elas lidam com essa situação com muita calma  e compreensão, andando e comendo como se nada estivesse acontecendo. Elefantes são, de várias maneiras, muito parecidos com os humanos, mas há limites para as comparações. Ou, pelo menos, para as regras de etiqueta.

Se a fêmea estiver em estro, vários machos a seguirão, acompanhada de sua família. Se um macho em “frenesi sexual” chegar, ele afasta todos os seus rivais e passa a  escoltar a fêmea em estro. Ela parecerá bem atraída pelo macho em “frenesi sexual”.

Hoje, apareceram um macho em “frenesi sexual” e vários outros machos onde estavam algumas fêmeas que eu estava observando. Duas famílias, chamadas os Zodiacs e os Rivers, estavam se misturando. Famílias que se misturam são chamadas de “grupos com laços” e são muitas vezes formadas por parentes de famílias que cresceram e se separaram durante décadas.

Bom, depois de ficar observando os machos, percebi que duas fêmeas –   Taurus Zodiac e Yangtze Rivers – estavam em estro. Eu sei o nome delas porque estou ficando no acampamento “Save the Elephants”, e a estudante de pós -graduação Shifra Goldenberg consegue reconhecer centenas de elefantes só de vista. 

Primeiro, um macho chamado Bigfoot começou a perseguir Taurus. Geralmente, o jogo é assim: se um macho adulto adequado consegue alcançar uma fêmea em estro e colocar sua tromba ao longo de suas costas,  ela para, e eles acasalam. Mas Taurus devia ter acabado de ficar em estro e não parecia estar pronta para acasalar. Ou então ela só não queria acasalar com Bigfoot. Quando Bigfoot a alcançou e colocou sua tromba em suas costas, tudo certinho, ela continuou correndo. Ele não ficou nada satisfeito e foi correndo ao lado dela, parecendo que ia cravar nela suas presas. Mas, em vez disso, ele só rugiu de frustração e parou a perseguição.

Depois, Suzuki perseguiu Taurus e recebeu exatamente a mesma resposta e o mesmo resultado.

Logo após, um macho em “frenesi sexual”, que não parece estar no banco de dados de machos que são reconhecidos, espantou esses dois machos. Havia mais ou menos uma dúzia de machos na área, e todas as fêmeas e machos estavam agitados, correndo e bramindo por todo lado. Isto se chama “pandemônio do acasalamento”.

Os meninos ficaram tão envolvidos na situação que perderam Taurus de vista, que, da última vez que a vi, estava indo rumo ao leste. Então todos eles botaram suas trombas para cima, como se elas fossem periscópios, procurando o seu cheiro.

Foi somente aí que percebi que  Yangtze também estava em estro. O macho desconhecido que estava em “frenesi sexual” alcançou-a, e ela o deixou iniciar a monta.

Todos pareceram ficar muito quietos. Os outros machos olhavam com admiração, espantados. O acasalamento durou uns dois minutos.

Depois disso, todos se acalmaram e voltaram a descansar – eles devem ter gasto muita energia correndo para cima e para baixo no calor tropical do meio do dia – e comer.

E fui embora, sabendo que essa exaltação vai se repetir sem parar pelos próximos dias. 


Link para o artigo original.

Assista ao vídeo Comportamento de elefante macho no período de frenesi sexual - Reserva Nacional de Maasai Mara, Quênia.




Tradução, revisão e edição: Ruby Malzoni, Maria Cristina Mullins, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) levanta sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil

Maus-tratos no Zoo da Matinha (BA): Tripoli aciona, e Secretaria Municipal de Meio Ambiente se manifesta

 

Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP)

O Deputado Federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) acionou a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e se pronunciou sobre o caso de denúncias de maus-tratos no Zoo da Matinha, na Bahia. No pronunciamento, publicado em sua página de internet, o Deputado chama a atenção para o intenso debate sobre a questão dos zoológicos, que tem ocorrido no mundo todo

"Os zoológicos, muito embora assumam função importante no que tange à educação e à conservação, tem sido alvo de intenso debate no país e no mundo. Os animais normalmente são mantidos em espaços exíguos, e inadequados às exigências espécie-específicas. Apresentam comportamentos estereotipados (comportamento motor repetitivo, não funcional) e são privados das condições primárias de bem-estar físico, mental e natural, ainda que se tente promover enriquecimento ambiental. Peço que fiquem atentos e que continuem denunciando abusos e abandono. É preciso provocar este debate, necessário em tempos de mudanças de paradigmas, éticos e legais!"

Leia aqui a manifestação integral do Deputado Tripoli, em sua página de internet, e saiba mais sobre o caso.   

A ElephantVoices parabeniza o Deputado Ricardo Tripoli por levantar sua voz pelos animais em zoológicos no Brasil.

Uma boa parte do trabalho da ElephantVoices está relacionada ao bem-estar de elefantes em cativeiro. A conservação e o tratamento ético de elefantes selvagens é de extrema importância. Entretanto, a aflição e a miséria sofridas por muitos elefantes em cativeiro são assustadoras. Com quatro décadas de pesquisas inovadoras sobre elefantes selvagens, a ElephantVoices está em posição de falar com confiança sobre os interesses dos elefantes, onde quer que eles estejam. 

Nossas descobertas científicas indicam que precisamos melhorar o modo pelo qual cuidamos dos elefantes e demandam que pequemos pelo excesso de prudência quando os interesses desses seres tão inteligentes e sociais estão sendo considerados. 

Zoológicos não são uma alternativa adequada para abrigar os elefantes que serão libertados dos circos no Brasil - por que este é o momento certo para o país planejar criteriosamente e de modo responsável o destino desses animais

O Projeto de Lei 7291/06que proíbe o uso de animais silvestres das faunas brasileira e exótica na atividade circense em todo o território nacional, está no Plenário da Câmara dos Deputados, aguardando votação, depois de ter sido aprovado pela terceira comissão da Câmara, a CCJC (Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania), com base no parecer do Deputado Ricardo Tripoli (PSDB/SP). A ElephantVoices apoia o Deputado Ricardo Tripoli e trabalha em colaboração com ele pela aprovação do Projeto de Lei

Este é o momento certo para o Brasil planejar criteriosamente e de modo responsável o destino dos animais que serão libertados dos circos. Com relação aos elefantes, podemos afirmar que os zoológicos não são, infelizmente, uma alternativa adequada. Tanto os representantes dos zoos como os ativistas do bem-estar animal têm se concentrado nas causas imediatas do sofrimento dos elefantes em cativeiro (problemas nas patas, artrite, problemas de saúde relacionados à reprodução, obesidade, hiperagressividade, comportamentos estereotipados). Mas, se não resolvermos a fonte elementar de sofrimento de um elefante em cativeiro – a completa falta de estímulos mentais relevantes e de atividades físicas –, nunca atenderemos às suas necessidades biológicas e comportamentais. 

A ElephantVoices está trabalhando ativamente para a conscientização sobre a necessidade da criação de um Santuário para Elefantes no Brasil. 

Santuários para Elefantes, além de abrigarem elefantes resgatados de circos e propriedades rurais, também são a casa de elefantes que se aposentam de zoológicos. Alguns zoológicos, como o de Detroit, nos Estados Unidos, conscientes das necessidades de seus elefantes, decidiram enviar seus animais a santuários e estão satisfeitos com os resultados de sua decisão (assista, abaixo, ao depoimento de Ron Kagan, Diretor do Zoo de Detroit, à ElephantVoices Brasil, durante o congresso PAWS Summit for Elephants, em Março de 2012, na Califórnia). Um zoológico da Argentina também está à procura de uma vaga em um santuário para sua elefanta asiática. E a Fundação Brigitte Bardot, defendendo os interesses de Baby e Népal, os elefantes do Zoo de Lyon (França), que afirmou que não poderia mais mantê-los no zoo devido a suspeitas de problemas em sua saúde e que pretendia neles praticar a eutanásia, também está à procura de um local adequado para recebê-los. Não faltam exemplos no mundo todo que comprovam a necessidade da criação de novos santuários para elefantes, em locais estratégicos. O Brasil, com sua economia crescente e notável consciência ambiental, e dispondo de regiões com clima, vegetação e relevo adequados para abrigar tanto elefantes africanos como asiáticos, pode e deve dar um importante passo nesse sentido.



Depoimento de Ron Kagan, Diretor do Zoo de Detroit, à ElephantVoices Brasil, durante o congresso PAWS Summit for Elephants, em Março de 2012, na Califórnia, sobre a decisão do zoo de enviar seus elefantes a um santuário (legendado em Português).


Santuários para Elefantes: alguns casos de sucesso pelo mundo

Conheça os santuários TES - Santuário de Elefantes do Tennessee (Estados Unidos), fundado por Scott Blais (consultor da ElephantVoices) em 1995, PAWS, na Califórnia (Estados Unidos), BLES e Elephant Nature Park (ambos na Tailândia). Saiba também como uma floresta no Camboja que estava prestes a ser derrubada se transformou em um projeto sustentável, bom para os elefantes e para os habitantes da região.


Grupo de elefantes em Mara Naboisho Conservancy, parte do ecossistema 
de Maasai Mara, no Quênia (© ElephantVoices, 2011)
Leia mais 

Conheça aqui os Princípios da ElephantVoices para a criação de um Santuário para Elefantes.

Leia também "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli.   

Uma série de declarações e testemunhos da ElephantVoices e da Amboseli Trust for Elephants a respeito do bem-estar de elefantes na natureza, em santuários, zoológicos e circos pode ser acessada aqui

Leia "A América do Sul Precisa de Elefantes" - ecologista australiano afirma que a reintrodução de grandes herbívoros nas Américas ajudaria a restaurar ecossistemas e salvar espécies nativas ameaçadas, e assista à divertida animação "O Elefante Planta Florestas".

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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mente e Movimento

Indo ao encontro dos interesses dos elefantes 
Joyce Poole e Petter Granli

Capítulo IV

O quarto e último capítulo de "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes" trata do que é essencial para o bem-estar dos elefantes. 

"Teremos nós o direito de presidir sobre o sofrimento de animais inteligentes, para nosso entretenimento e prazer, estando eles ou não representando seus primos selvagens?" Estas e outras questões que atualmente estão no centro de debates no mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, Canadá e Europa, são levantadas nesta importante conclusão. Para ler o documento a partir do capítulo inicial, clique aqui

Conclusão

Elefantes são criaturas vigorosas e inteligentes que se desenvolveram em ambientes físicos e sociais expansivos e complexos. Adaptados a grandes espaços, a contínua procura por comida, água, companheiros e cônjuges envolve movimentos em grande e pequena escala, que, acreditamos, são essenciais a seu bem-estar. Com base em décadas de pesquisa, consideramos que os zoos e circos de hoje estão longe de ir ao encontro dos interesses dos elefantes, sejam machos ou fêmeas. Também não acreditamos que os espaços de exibição de alguns zoológicos, levemente expandidos, e a altos custos, farão alguma diferença significativa. 

É nossa opinião que os interesses dos elefantes em cativeiro só podem ser alcançados em ambientes que:

Figura 6. Elefantes selvagens vivem em uma complexa sociedade de associações e divisões, notável tanto por sua fluidez como pela permanência e proximidade das relações sociais. (Foto: Petter Granli)

  • Permitam o desenvolvimento de relações sociais normais, a formação de famílias (com filhotes), a possibilidade de formarem grupos sociais de associações e divisões, pelo menos em pequena escala, comportamento cooperativo, aprendizado social e interação lúdica;
  • Permitam a escolha de associação e interação entre numerosos parceiros e companheiros;
  • Permitam o comportamento natural de procura por alimento e padrões de atividades;
  • Tornem necessária a perambulação na busca por alimentos variados, parceiros sociais e cônjuges;
  • Inspirem atividades físicas e mentais em todos os aspectos da vida diária.

Durante essa análise, enfatizamos que o espaço é crucial para o bem-estar dos elefantes. Para atender a cada um dos critérios acima, espaço é uma necessidade. E, atendendo a esses critérios, os zoos também irão atender a uma necessidade final: 

  • Assegurar que doenças crônicas e sofrimentos físicos e mentais devidos à falta de movimentação física e estímulo mental jamais ocorram.
Entretanto, definir o espaço mínimo necessário para atender aos interesses dos elefantes é extremamente difícil. Acreditamos que de dois a três grupos familiares sejam necessários para permitir o desenvolvimento das características de associações e divisões. Além dessa quantidade, a “população” deve incluir machos adultos. Para reduzir o problema de cio masculino prolongado, uma hierarquia natural deve ser permitida se estabelecer, e os machos devem ter um mecanismo seguro de retirada. Estimamos que um mínimo de quatro a cinco machos adultos, abrangendo idades desde jovens adultos (15-20 anos) a adultos totalmente maduros (40-50 anos ou mais) devam ser incluídos. Para acomodar uma população de 25-35 ou mais indivíduos e permitir uma natural procura por alimento e comportamento social, acreditamos que 50-70km² (2km²/indivíduo) de terreno e habitat variados seja uma indicação do espaço necessário.

Supondo que tal cenário seja aceitável, alguns desses grandes zoos de elefantes poderiam ser localizados nas zonas climáticas mais quentes dos EUA e da Europa. As “populações” seriam compostas de elefantes vindos de zoos existentes ou de circos, porque a captura e a importação de elefantes de seu habitat natural é inaceitável. Uma vez estabelecida uma população, a transferência de fêmeas e filhotes para outras instalações seria altamente indesejável, devido ao potencial trauma infligido pela ruptura de vínculos sociais. 

Com base no nosso conhecimento sobre o comportamento social dos elefantes está a  firme crença de que não é possível um elefante fêmea ter qualidade de vida sem a presença de filhotes. Temos uma forte preocupação a respeito de questões éticas envolvendo a reprodução em cativeiro e suas consequências a longo prazo. Qualquer grande instalação que mantenha uma população de elefantes funcionando naturalmente, com mortalidade e reprodução naturais, provavelmente experimentará um acréscimo no número de habitantes, e, sendo a exposição de natureza de confinamento, teria de sofrer uma intervenção para manter um tamanho apropriado da população. O abate com objetivos de controle populacional é extremamente controverso (Owen-Smith, Kerley, Page, Slotow et al., 2006). O abate de elefantes nos Estados Unidos ou na Europa seria eticamente inaceitável, assim como a transferência de indivíduos (particularmente fêmeas e filhotes) de uma instalação para outra. Controle de fertilidade, apesar de possível, provavelmente causaria uma queda extrema na porcentagem de nascimentos, uma vez que o esperado é que a a mortalidade nessas instalações seja pequena. 

A questão da reprodução em cativeiro é tão problemática que a maioria dos proponentes do bem-estar dos elefantes é de opinião que nenhuma reprodução deve  ocorrer. Claramente uma política de não reprodução em cativeiro conduziria a uma eventual extinção de elefantes cativos fora de seu habitat natural. Se é uma coisa boa ou ruim, depende de quem você escuta, e não está dentro do âmbito deste ensaio. Concluímos meramente colocando as seguintes perguntas: Teremos nós o direito de presidir sobre o sofrimento de animais inteligentes, para nosso entretenimento e prazer, estando eles ou não  representando seus primos selvagens? O quanto de sofrimento físico e mental de elefantes é tolerável, em troca de uma medida em prol da conservação da espécie? E é aceitável educar o público e prevenir a extinção de elefantes selvagens mantendo várias centenas deles em  vergonhosos espaços confinados? 

Agradecimentos

Agradecemos o Gabinete do Presidente do Quênia pela permissão para trabalharmos no Parque Nacional do Amboseli, o Kenya Wildlife Service por patrocínio local e a Amboseli Trust for Elephants por décadas de trabalho científico em equipe e suporte logístico. A participação na conferência e a criação deste documento foram possíveis pelo suporte da Amboseli Trust for Elephants, a RSPCA e o Phoenix Zoo. Agradecemos aos nossos colegas da Amboseli Trust for Elephants e Lisa Kane e Debra Forthman pelos comentários que fizeram sobre o manuscrito. Somos gratos à Tufts University Cummings School of  Veterinary and Medicine’s Center for Animals and Public Policy e à Coalition for Captive Elephants Well-Being por sediarem o encontro no qual baseia-se este volume, e aos patrocinadores do congresso (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals, Gary Fink, Phoenix Zoo, American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, North Carolina Zoo e Oackland Zoo). Agradecimentos especiais a Paul Waldau, Lisa Kane e Debra Forthman pela organização. 

Tradução, revisão, edição: Ana Zinger, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

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Elefantes são capazes de aprender comunicação vocal

Inesperadamente, dois animais inventam sons como uma forma surpreendente de comunicação social

Existem algumas espécies de mamíferos que conseguem modificar suas vocalizações em resposta a suas experiências auditivas. Por exemplo, assim como os pássaros às vezes fazem, alguns mamíferos marinhos utilizam imitação vocal como uma forma de anúncio de que estão disponíveis para reprodução. Aqui descrevemos dois exemplos de imitação vocal feita pelo Elefante Africano de Savanna, Loxodonta africana, um mamífero terrestre que vive em uma sociedade complexa de cisão e fusão. Nossos achados favorecem um papel para a comunicação vocal que já foi previamente proposto para primatas, aves, morcegos e mamíferos marinhos: comunicação vocal é uma forma útil de comunicação acústica que ajuda a manter laços entre inidivíduos em grupos sociais em mutação. 




©ElephantVoices

No primeiro caso, gravamos imitações de som de caminhão feitas por Mlaika, uma elefanta  Africana adolescente de 10 anos que vive em um grupo de elefantes órfãos em semi-liberdade em Tsavo, no Quênia. Às vezes era possível escutar caminhões do estábulo onde Mlaika passava a noite, que ficava a 3km da auto-estrada Nairobi-Mombassa. Mlaika emitia sons parecidos com os de caminhões por várias horas depois do pôr do sol, que é o melhor horário para a transmissão de sons de baixa frequência nas savanas Africanas.

Comparações da duração e da frequência fundamental mínima e máxima mostram que as imitações de som de caminhão feitas por Mlaika são diferentes dos sons normalmente feitos por elefantes africanos adultos, adolescentes e filhotes. Os sons feitos por Mlaika não diferem significativamente dos sons feitos por caminhões de verdade. Dez amostras do conjunto de dados apropriados foram escolhidas ao acaso para comparar os sons feitos por Mlaika com os sons de caminhões. A média individual dos três parâmetros acústicos dessas chamadas também mostram que os sons feitos por Mlaika diferem de chamados normais feitos por elefantes africanos e também que são similares às gravações de sons feitos por caminhões. As chamadas parecidas com sons de caminhões feitas por Mlaika não são mais parecidas com os sons gravados em um horário do que em outros, sugerindo que Mlaika usou características gerais dos sons feitos por caminhões como modelo.

Um segundo caso de imitação feita por um elefante africano envolve o chilrear que é tipicamente produzido por elefantes asiáticos, Elephas maximus, mas não por elefantes africanos. Calimero é um elefante africano macho de 23 anos que viveu durante 18 anos com duas elefantas asiáticas no zoológico de Basel, na Suíça. O espectrograma na figura 1c mostra a típica série de chilros feita por uma das elefantas asiáticas e a figura 1d mostra o chilro similar feito por Calimero, que raramente produz outros sons. Usando a mesma análise estatística que foi aplicada no caso de Mlaika, descobrimos que os chilros de Calimero não são significativamente diferentes em duração dos chilros feitos pelas elefantas asiáticas e diferem em todos os parâmetros dos sons feitos por elefantes africanos adultos, adolescentes e filhotes. Uma escala multidimensional confirma que os sons feitos por Calimero são diferentes dos sons normais feitos por elefantes africanos e são parecidos com os chilros feitos por elefantes asiáticos. 



Fig 1. Espectogramas mostrando exemplos de modelos e imitações de sons por dois elefantes Africanos, 
Mlaika e Calimero. a, som de um caminhão à distância, gravado do estábulo de Mlaika; b, o som emitido por
Mlaika imitando o caminhão; c, chilros emitidos por elefantas Asiáticas vivendo em cativeiro com Calimero, 
e d) os chamados tipo "chilros" emitidos por Calimero. 

Fig 2. Imitações feitas por Mlaika e Calimero. As imitações de Mlaika (triângulos verdes) são
parecidas com o som de caminhões (triângulos azuis claros) e diferentes de suas vocalizações normais (triângulos amarelos), que são parecidas com os sons emitidos por outros elefantes africanos (símbolos azuis marinhos: estrelas, fêmeas adultas; diamantes, machos adultos; quadrados, filhotes fêmeas; hexágonos, filhotes machos). Calimero faz sons como chilros (círculos rosas) parecidos com os chilros das elefantas africanas que viviam com ele (círculos vermelhos). a, gráfico de frequência versus duração de dez chamados de cada tipo. b, escala multidimensional de meios para cada fonte em a, sem contar os sons tipo chilros. c, escala multidimensional de chilros próprios de nove elefantas asiáticas e os chamados tipo chilros de Calimero. Os valores representam diferentes combinações de características acústicas.


A evolução de imitação vocal em seres humanos, algumas espécies de aves, morcegos e golfinhos talvez possa ser resultado da necessidade de usar sinais acústicos para manter laços específicos com indivíduos quando os animais se separam e se reúnem. Se for assim, então o aprendizado vocal deveria ocorrer em outras espécies em que laços sociais de longa duração se baseiam em relações individuais específicas, envolvem grupos onde há constante mudança de membros e onde a comunicação vocal é usada para manter contato e para o reconhecimento do grupo e de indivíduos. Nossa descoberta de que um elefante africano da savana imita os sons feitos por elefantes asiáticos com quem ele viveu segue um padrão comum visto em espécies que são capazes de aprendizado vocal, em que sons convergem conforme os animais formam laços sociais. 

O aprendizado vocal permite um sistema de comunicação aberto e flexível, em que animais talvez possam aprender a imitar sinais que não são típicos de suas espécies, como foi demonstrado pelo elefante africano que imita caminhões. Para nosso conhecimento, essa descoberta em elefantes é o primeiro exemplo de imitação vocal em uma espécie de mamífero terrestre que não é um primata. Isso fortalece a idéia de que existe uma pressão de seleção primária para aprendizado vocal que envolve as demandas de comunicação na manutenção de relações sociais em sociedades fluídas.

Joyce H. Poole (ElephantVoices), Peter L. Tyack, Angela S. Stoeger-Horwath, Stephanie Watwood


Saiba mais sobre o aprendizado vocal dos elefantes. Leia a incrível história de Koshik, o elefante que vive em um zoo coreano e que fala como humanos.

Leia também "A Comunicação Acústica dos Elefantes". 

Link para o artigo original, "Elephants are capable of vocal learning", e outros artigos científicos da ElephantVoices.

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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Mente e Movimento

Indo ao encontro dos interesses dos elefantes 
Joyce Poole e Petter Granli

Capítulo III

O terceiro capítulo de "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes" trata de seus desafios diários, como a busca por alimentos, a rede de relacionamentos, o aprendizado, a procura por parceiros e a comunicação. Para ler "Mente e Movimento" a partir do primeiro capítulo, clique aqui.

Desafios mentais e físicos na vida diária de um elefante selvagem

As atividades experimentadas por um elefante selvagem dão motivação a uma mente ativa e mantêm o corpo vigoroso em boa condição física. Não importa qual seja o cenário – procura por alimentos, defesa, socialização ou reprodução –, a vida diária de um elefante se distingue por necessidade, propósito, desafio, escolha, vontade, autonomia e camaradagem. O aprendizado social também é visto em vários aspectos da vida diária de um elefante selvagem e é um componente vital da atividade mental.  Esses elementos, tão necessários na vida de elefantes selvagens, atualmente estão completamente ausentes no cativeiro.

Procura por alimentos 

Elefantes continuam crescendo durante toda a sua vida, devido à fusão epifisária  atrasada dos ossos longos (Haynes, 1991). Por causa de seu enorme tamanho, vida reprodutora de extremo gasto energético e falta de um sistema digestivo especializado, elefantes precisam consumir uma vasta quantidade de comida, e a procura por alimento ocupa a maior parte dos movimentos diários de um elefante. Um adulto consome diariamente de 150 a 450kg de alimento, ou quatro ou cinco por cento do seu peso corporal, e bebe de 100 a 160 litros de água. Para realizar esse consumo, elefantes precisam gastar quase 3/4 de 24 horas procurando alimento (Wyatt & Eltringham, 1974; Lindsay, 1994). 

Uma procura por alimento efetiva é realizada através de movimentos constantes, grandes e pequenos, que envolvem a ação coordenada das patas, das presas e da tromba, que, usada com habilidade, seleciona itens individuais de frutas, puxa tufos de grama, extrai palmito, achata os duros espinhos de um galho de acácia, ou descasca troncos de árvores. Um perambular lento leva o elefante de um item alimentar a outro. Propositadamente, o caminhar de um elefante o leva a uma variedade de habitats diariamente e a migrações sazonais. A atividade física e o estímulo mental envolvidos na busca por alimento (caminhar, alcançar e cheirar com a tromba), sua manipulação (cavar, chutar, estabilizar com as patas; bisbilhotar, alavancar e quebrar com as presas; puxar, rasgar, quebrar, desfolhar, limpar com a tromba), sua ingestão (tromba e língua) e mastigação constituem o núcleo mais importante do interesse e da sobrevivência de  um elefante. Muitas das técnicas usadas por elefantes selvagens para localizar, selecionar e extrair comida precisam ser aprendidas, ou por experiência ou por observação de outros, e o aprendizado social tem uma função decisiva para o filhote poder adquirir o conhecimento necessário de como procurar e manipular comida (Lee & Moss, 1999; Figura 3). 

A falta de espaço em zoológicos e circos não permite aos elefantes procurar por alimentos, manipular uma vasta variedade deles, selecioná-los, aprender sobre eles, desprovendo-os, assim, da atividade física e do estímulo mental necessários. Alguns  zoológicos introduziram a prática de enriquecer o ambiente espalhando comida (Kinzley, 2006) e, mesmo sendo um avanço no cuidado de elefantes cativos, isto consome muito tempo e requer uma equipe de funcionários dedicada. 

Uma complexa rede de relacionamentos no tempo e no espaço 

Elefantes selvagens vivem numa sociedade complexa de cisão e fusão notável, tanto por sua fluidez como também pelos relacionamentos próximos e duradouros.  O relacionamento dos elefantes tem início no vínculo mãe-filho e se irradia para a família, vínculo de grupo, clã, subpopulação, machos adultos independentes e até mesmo para além da população a estranhos (Moss, 1988; Payne, 2003; Poole & Moss, 2008). Nessa arena social, a vida de machos e fêmeas adultas difere radicalmente (Poole, 1994). Uma teia intrincada de vínculos entre indivíduos e famílias caracteriza a vida das fêmeas e seus filhotes, enquanto estados sexuais oscilantes distinguem as atividades dinâmicas, associações e relacionamentos de machos adultos (Moss & Poole, 1983, veja Caixas 1 & 2; Figura 4). Os relacionamentos sociais dos elefantes são particularmente complexos porque indivíduos interagem com muitos animais de diferentes unidades sociais em meio a uma população, e parceiros sociais cooperativos podem nem sempre estar juntos num mesmo grupo. Membros de uma mesma família estão frequentemente separados por  quilômetros, e uma boa parte da atividade diária de uma família pode estar focada em se aproximar de companheiros de laços próximos ou em evitar certos indivíduos. Este comportamento de atração e evasão é demonstrado claramente pelos padrões de rastreamento simultâneo de indivíduos por coleiras com rádio (Charif, Ramey, Langbauer, Payne et al., 2005; Douglas-Hamilton, Krink & Volrath 2006). 

Fig. 3. Filhotes de elefantes aprendem o que comer pegando amostras 
das bocas de seus familiares. (Foto: Petter Granli)


A combinação de qualidades sociais observadas nos elefantes – relacionamentos cooperativos próximos e duradouros, sociabilidade de fissão-fusão – existe apenas em um pequeno número de carnívoros que caçam cooperativamente (ex.: hienas, leões e cachalotes) e alguns primatas (ex.: chimpanzés e humanos: Archie, Moss & Alberts, 2006). A hipótese de complexidade social sugere que a inteligência evoluiu para que indivíduos pudessem arcar com mudanças difíceis de prever no comportamento de parceiros com os quais devem cooperar e competir. E, assim, como outras espécies que vivem em sociedades de fissão-fusão (humanos, chimpanzés, carnívoros sociais, baleias), elefantes são reconhecidos por sua inteligência e habilidade de raciocínio (Poole & Moss, 2008).

 Figura 4. Uma intrincada rede de relacionamentos entre indivíduos e famílias caracteriza 
as vidas das fêmeas e de seus descendentes. (Foto: Petter Granli)

Ainda que a população de elefantes de Amboseli seja relativamente pequena  (1.500 elefantes, no fim de 2006) comparada a várias outras, ela é, contudo, uma sociedade grande. Uma fêmea de Amboseli pode, ao longo do dia, procurar a companhia ou/e  propositadamente evitar centenas de outros indivíduos (Poole & Moss, 2008; ver Lee & Moss, Figua 7, Capítulo 2). Ao procurar por fêmeas receptivas, um macho sexualmente ativo pode também interagir com centenas de diferentes indivíduos – machos e fêmeas – ao longo de 24 horas (Poole & Moss, 1989). O número absoluto de elefantes envolvidos na teia social de um indivíduo e o caráter hierárquico na formação e dissolução de agregações fazem do elefante um ser notável. Os elefantes têm a habilidade de distinguir estranhos dentre um grande número de associados familiares, através do reconhecimento da voz (McComb, Moss, Durant, Sayialel & Baker, 2000) e do cheiro (Rasmussen & Krishnamurthy, 2000). Isso pode ser explicado pelos lóbulos temporais extremamente grandes e convolutos de seu cérebro (Shoshani, 1998; Shoshani et al., 2006).   

Aprendendo com outros 

Aprendizado social e inovação comportamental são elementos essenciais no desenvolvimento de um indivíduo e são a matéria-prima da sociedade, da cultura e da tradição dos elefantes (Lee & Moss, 1999; Poole & Moss, 2008). Por exemplo, o aprendizado social obtido através do cuidado de filhotes por fêmeas juvenis proporciona a elas um leque de habilidades e conhecimentos de como cuidar de um filhote. Futuramente, elas usarão esse conhecimento para tomar conta de sua própria prole (Lee, 1987; Lee & Moss, 1999). Saber distinguir quem é amigo ou inimigo, onde encontrar água durante as secas e itens específicos de alimentos e minerais são conhecimentos transmitidos de mãe para filha (McComb, Moss, Durant, Sayialel et al., 2001; Payne, 2003).
 

Um comportamento adequado no cio e no acasalamento também requer um aprendizado social para as fêmeas (Poole & Moss, 2008). Tanto o comportamento durante o cio como a escolha de parceiros parecem ser facilitados pela presença e pelo comportamento das mães dessas fêmeas jovens (Poole & Moss, 2008). O nascimento de um primeiro filhote é um evento de vida em que a presença e o comportamento de fêmeas experientes vem socorrer e ajudar fêmeas inexperientes. Membros experientes da família dão assistência às femeas jovens durante o parto, ajudam o recém-nascido a ficar de pé e são responsáveis pela socialização e pela proteção imediata do filhote recém-nascido (Moss, 1998; Lee & Moss, 1999). A interação com outros elefantes e a transmissão de conhecimento social e ecológico são a chave da sobrevivência do elefante, e o estímulo proporcionado por tais relações, nós acreditamos, se faz necessário para um elefante se desenvolver.
 

O zoo tradicional não oferece o espaço necessário que permita aos elefantes uma vida familiar natural, nem lhes dá a opção de escolher associados de outros grupos familiares, clãs ou populações, e também não lhes dá a oportunidade de aprender habilidades de sobrevivência através da experiência de outros. Ao privar os elefantes de um espaço adequado, zoos não só restringem sua habilidade de obter exercício adequado e essencial como também retiram uma enorme fonte de estímulo mental necessário para o bem-estar básico de um indivíduo altamente social e inteligente.  

A procura por parceiros 

O comportamento reprodutivo é um componente essencial na vida diária de qualquer animal. Nos elefantes, a reprodução envolve atividades mentais e físicas altamente energéticas. Sinais acústicos e químicos intrincados e uma memória afiada são utilizados para localizar rivais e parceiros em áreas extensas (Poole, 1989a; Poole & Moss, 1989; Poole, 1999). Cortejar, acasalar, competir (entre machos) e escolher fêmeas são comportamentos de intensa interatividade, alternadamente sutis e exagerados. Os espaços confinados oferecidos por zoos e circos não permitem que inúmeros machos e fêmeas pratiquem o ato natural de se misturar, tendo, assim, uma enorme influência no propósito, na escolha, na autonomia e na vontade de um elefante.
 

Aos 30 anos, a maioria dos machos vivencia o mais elevado período de atividades    agressivas e sexuais: o cio (Poole & Moss, 1981; Hall-Martin & Van der Wilt, 1984). Caracterizado por uma postura distinta, rígida, com a cabeça elevada, glândulas temporais inchadas e com secreção, gotejamento de urina de forte odor (Poole & Moss, 1981; Poole, 1987) e vocalizações distintas (Poole, 1987, 1999; Poole et al., 1988), os machos no cio experimentam impressionantes surtos da testosterona que circula no seu organismo (Hal-Martin & Van der Walt, 1984; Poole, Kasman, Ramsay & Lasley, 1984). Com a chegada do cio, o comportamento de um macho passa por uma transformação psicológica contundente. Um macho no cio passa a maior parte de seu tempo interagindo agressivamente com outros machos adultos ou procurando entusiasticamente por fêmeas receptivas, tentando acessar ou vigiar aquelas no auge do cio (Moss, 1983; Poole, 1989 a, b; Poole & Moss, 1989: Figura 5). Altamente ativo, um macho no cio pode perseguir outro macho ou procurar por uma parceira por vários quilômetros em poucas horas. O cio tem um papel crucial no status de dominância entre machos (Poole, 1989a). Com algumas exceções, machos pequenos ou grandes no cio têm um posto mais elevado do que machos que não se encontram no cio. A duração do cio depende da idade do macho e também pode ser influenciada pela opressão de machos de um nível hierárquico superior (Poole, 1989a). Numa população desprovida de    indivíduos mais velhos (Slotow, van Dyke, Poole, Page et al., 2000), ou em cativeiro (Jainudeen, McKay & Eisenberg, 1972), o cio começa numa idade menor e tem uma duração maior.
 

Assim como as fêmeas jovens, machos jovens se beneficiam do aprendizado social e frequentemente são observados seguindo os machos mais velhos no cio, testando os mesmos locais de urina e as mesmas fêmeas, como fazem os machos mais velhos (Poole & Moss, 2008). Os machos mais velhos, no cio, são extremamente tolerantes com esses jovens, permitindo-lhes ficar a menos de um metro de uma fêmea em estro, enquanto se preocupam em não deixar outros machos adultos se aproximarem (Poole, 1982). O sucesso da cópula requer habilidade e prática consideráveis que, em parte, podem ser obtidas pela observação de como os machos mais velhos e experientes se comportam. Experiência provinda do sul da África também destaca a importância do aprendizado social na aquisição de um comportamento apropriado dos machos, no que tange à reprodução (Slotow et al., 2000). Machos juvenis que testemunharam a matança de suas famílias em procedimentos seletivos de abate e depois transferidos para áreas desprovidas de machos adultos exibiram comportamentos reprodutivos anormais quando jovens, como montar, enfiar as presas e matar rinocerontes negros. Embora o trauma seja a provável causa do desenvolvimento desse comportamento anormal (Bradshaw, Schore, Brown, Poole & Moss, 2005), é provável também que a ausência de modelos masculinos adultos tenha contribuído para a reação sexual inapropriada desses machos jovens. Esse comportamento deixa de existir depois da introdução de machos mais velhos (Slotow et al., 2000).

Quadro 1. Famílias e Grupos Vinculados

Os relacionamentos sociais próximos e duradouros criados por elefantes fêmeas são extraordinários, dentro do contexto de seu flexivel sistema social (Archie et al., 2006). Famílias de elefantes são compostas por grupos previsíveis e discretos de parentes, mas, ao longo de horas ou dias, esses grupos podem temporariamente se separar ou se reunir, ou podem se juntar a outros grupos, formando grupos sociais maiores ou agregações. Tais agrupamentos podem ser estabelecidos por laços sociais e genéticos, área territorial e estação do ano (Douglas-Hamilton, 1972; Moss & Poole, 1983; Sukumar, 2003; Wittemyer, Douglas-Hamilton & Getz, 2005; Archie et al., 2006; Moss & Lee, em jornais). Tipo de habitat, estação do ano, grau de parentesco, traços de personalidade, tradição, morte de indivíduos influentes e a força da liderança matriarcal atuam na coesão das famílias (Moss & Lee, na imprensa). Em geral, as famílias de elefantes são menores em habitats de florestas e são maiores em habitats mistos de savana (Sukumar, 2003). Ao longo dos anos, famílias podem se separar para formar grupos vinculados (Douglas-Hamilton, 1972; Moss & Poole, 1983; Wittemyer, Douglas-Hamilton & Getz, 2005) ou, algumas vezes, se fundir para formar novas famílias (Moss & Lee, na imprensa). Relações próximas entre indivíduos podem ser distinguidas por padrões de associação, conduta de cumprimento, movimentos coordenados e tomada de decisões, além de comportamento de forte afiliação, cooperação e defesa (Douglas-Hamilton, 1972; Dublin, 1983; Moss & Poole, 1983; Lee, 1987; Moss, 1998; Poole, 1998; Payne, 2003). Mesmo indivíduos que não têm relacionamentos próximos dentro de sua família se beneficiam do comportamento cooperativo presente entre elefantes (Archie et al., 2006).


Quadro 2. A sociedade masculina


A vida social de um elefante selvagem macho é física e mentalmente desafiadora. Crescendo numa sociedade de vínculo feminino coeso, machos jovens mantêm um relacionamento próximo com seus parentes e participam de eventos sociais que afetam sua família, embora com menor intensidade do que suas companheiras fêmeas de mesma idade (Lee & Moss, 1999; Poole & Moss, na imprensa). Aos nove anos, machos começam a passar mais tempo longe de suas famílias e, aos 14, eles habitualmente partem (Lee & Moss, 1999). Machos recém independentes precisam adquirir habilidades novas para poderem se adaptar à sociedade dos machos em que tamanho corporal e estados sexuais oscilantes determinam interações e relacionamentos (Poole, 1989a). Durante a transição, as atividades sociais de machos jovens têm como ponto principal conhecer parceiros de idades semelhantes e fazer amizades fora do seu círculo familiar (Lee, 1986; Lee et al, na imprensa). Desta forma, machos reúnem informações cruciais para seu sucesso, em termos de reprodução e longevidade (Poole, 1989a, 1989b; Poole, Lee & Moss, na imprensa; Lee, Poole & Moss, na imprensa). Entre adultos sexualmente inativos, relacionamentos são corteses, enquanto as interações entre aqueles sexualmente ativos, particularmente entre aqueles no período de cio, se tornam altamente agressivas (Poole, 1987, 1989a). O sucesso reprodutivo dos machos depende fortemente de sua longevidade. Machos mais velhos e maiores, no cio, são dominantes e produzem significativamente mais descendentes (Poole, 1989 a & b; Hollister-Smith, Poole, Archie, Vance et al., na imprensa). O auge da idade reprodutora é entre 45-50 anos. Para um macho sobreviver até a idade de sucesso reprodutivo, ele precisa se utilizar dos conhecimentos que aprendeu e aperfeiçoou durante décadas. Um macho precisa aprender a reconhecer o cheiro, a aparência e a voz de uma grande quantidade de indivíduos; lembrar-se da força de cada indivíduo, comparada com a sua; saber quais indivíduos estão no cio, onde estão e em que condições se encontram; e monitorar a localização, que varia muito, das fêmeas em pré-cio e no cio.


Comunicação

A natureza flexível da sociedade dos elefantes, na qual indivíduos intimamente ligados podem estar a quilômetros de distancia, requer que os elefantes possuam um sistema de comunicação que combine uma sinalização multifacetada de curta-longa distância. Uma combinação de posturas de tromba, orelhas, membros, posturas corporais e movimentos sinaliza uma ampla gama de gestos agonísticos, defensivos e afiliativos e respostas emocionais complexas (Kahl & Armstrong, 2000; Poole & Granli, 2003; Poole & Granli, 2004). Sinais químicos, incluindo saliva, secreção mucosa dos olhos, fluidos dos tratos anogenitais, glândulas temporais, ouvidos e glândulas interdigitais desempenham um papel essencial na comunicação social e reprodutiva dos elefantes (Rasmussen, Hall-Martin & Hess, 1996; Rasmussen & Schmidt, 1998; Rasmussen & Krishnamurthy, 2000; Rasmussen& Wittemyer, 2002). A comunicação acústica inclui uma ampla variedade de sons com componentes que vão de 5Hz a mais de 9.000Hz (Poole, na imprensa). Chamados incluem ruídos de baixíssima e alta frequências, como trombetear, berrar, bufar, rugir, urrar, latir, gorgear, grasnar e outros sons idiossincráticos (Africano: Berg, 1983; Poole et al., 1988; Poole, 1994; Langbauer, 2000; Leong, Ortolani, Burks, Mellen et al., 2003; Soltis, Leong & Savage, 2005a, b; Polle, na imprensa; Asiático: McKay, 1973). Elefantes usam esses sinais acústicos para passar mensagens agonísticas, defensivas, afiliativas, protetoras, reprodutoras, logísticas e sociais (Poole, na imprensa). Elefantes utilizam poderosos sons de baixíssima frequência para coordenar suas movimentações (Payne, Langbauer & omas, 1986; Poole et al., 1988; Langbauer, Payne, Charif, Rapaport et al., 1991; Garstang, Larom, Raspet & Lindeque, 1995; Larom, Garstang, Payne, Raspet et al., 1997; McComb et al., 2000). Através de tais sinais acústicos, eles podem reconhecer as vozes individuais de outros elefantes a uma distância de mais de 1,5km (McComb, Reby, Baker, Moss et al., 2002) e podem detectar a localização de conspecíficos numa área de 300 km2, dependendo das condições atmosféricas (Larom et al., 1997). Quando um elefante vocaliza com ribombos de baixa frequência, uma réplica exata desse sinal se propaga separadamente através do solo. Elefantes respondem apropriadamente a esse sinal (O’Connell et all., 1998; O’Connell-Rodwell, Wood, Rodwell et al., 2006). Elefantes são capazes de aprender a vocalizar através da imitação, e esse raro talento pode ter sido desenvolvido para facilitar vínculos sociais e coesão numa dinâmica sociedade de fissão-fusão (Poole, Tyack, Stoeger-Horwath & Watwood, 2005). O aprendizado social, tão fundamental no desenvolvimento dos elefantes, desempenha um papel adicional na aquisição acústica (Wemmer, Mishra & Dinerstein, 1985). O rico sistema de comunicação que observamos nos elefantes existentes deve provavelmente ter evoluído com o aumento da sociabilidade e do tamanho do cérebro (Shoshani et al., 2006). Versátil e intrincada, a comunicação de longa-curta distância dos elefantes é mais um indicador de sua adaptação a um ambiente social rico e de um complexo uso do espaço.


Próximo capítulo: "Conclusão". Para ler "Mente e Movimento" a partir do primeiro capítulo, clique aqui.

Tradução, revisão, edição: Ana Zinger, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

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domingo, 2 de dezembro de 2012

Mente e Movimento

Indo ao encontro dos interesses dos elefantes 
Joyce Poole e Petter Granli

Capítulo II

Esta é a continuação de "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes" (você pode ler o primeiro capítulo clicando aqui).


Em movimento

Elefantes em liberdade se movimentam pelo menos 20 de cada 24 horas (Figura 1), de forma ativa, envolvidos com a busca por alimentos, explorações, sociabilizações e procura por indivíduos da mesma espécie. Os padrões de atividade dos elefantes selvagens variam muito, dependendo da estação do ano, da idade, do sexo, do estado reprodutivo e da população (database da ATE). No Parque Nacional de Amboseli, os elefantes passam entre 30% a 55% das horas com luz do dia se alimentando (menor valor da escala: machos em período reprodutivo; maior valor da escala: machos fora do período reprodutivo), entre 5% a 15% caminhando enquanto se alimentam (menor valor: machos em grupos do mesmo sexo; maior valor: elefantes em grupos mistos), entre 15% a 55% caminhando (mais baixo: machos fora do período reprodutivo; mais alto: machos em período reprodutivo), entre 3% a 23% interagindo (mais baixo: machos fora do período reprodutivo; mais alto: machos em período reprodutivo), entre 3% a 15% descansando (mais baixo: machos em período reprodutivo; mais alto: machos fora do período reprodutivo) e aproximadamente 5% de modo geral parados, em atividades de conforto e bebendo água. Os adultos normalmente descansam em pé durante o dia e geralmente dormem deitados por um par de horas à noite.




Fig. 1. Elefantes seguem uma rotina diária no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia: caminham desde as áreas arborizadas, através das planícies abertas, em direção ao pântano (Foto: Petter Granli)

Os elefantes modernos espalham-se por diversos tipos de habitats: desertos, pântanos, planícies de florestas tropicais, matas ciliares e de encostas, terras altas úmidas, terras alagáveis próximas a rios, savanas abertas e bosques. Do nível do mar até 4.875m de altitude (Grimshaw, Cordeiro & Foley, 1995), os elefantes podem sobreviver a temperaturas extremas por curtos períodos de tempo, ainda que vivam habitualmente entre 15 e 35° C e, normalmente, procuram por sombra ou água quando a temperatura está acima de 30o C. Em casos raros, elefantes se adaptaram a condições desérticas, como, por exemplo, em Gourma, Mali e Kaokoveld e Damaraland, na Namíbia (Leggett, 2004).

Nesses habitats, a área habitada por indivíduos machos e grupos familiares varia bastante, de 15 a aproximadamente 11.000km2 . Poucos estudos relatam áreas habitadas menores do que 100km2 e estes, provavelmente, representam conjuntos incompletos de dados. No Parque Nacional Kruger, na África do Sul, por exemplo, as áreas habitadas por fêmeas adultas variam de 86 a 2.776km2, com uma média de 880km2 (Whyte, 2001). No norte de Botswana, o tamanho médio das áreas habitadas é de mais de 1.000km2, variando de 447 a 3.309km2, com alguns grupos viajando até 200km em busca de água, na época da seca (Verlinden & Gavor, 1998). No Quênia, na semiárida savana da região de Samburu-Laikipia, a área ocupada por elefantes varia de 102 a 5.527km2 (Thouless, 1996), enquanto que, nas regiões mais áridas da Namíbia, ela pode variar de 2.136 a 10.738km2 , com uma média de 5.860km2 (Lindeque & Lindeque, 1991). O Elefante Asiático, espécie que tipicamente habita florestas, e o Elefante Africano da Floresta geralmente ocupam espaços menores que o Elefante Africano da Savana. A área habitada pelos elefantes asiáticos varia entre 34 e 800km2 , no caso de fêmeas, e entre 200 e 235km2 no caso de machos, ainda que algumas áreas pareçam abranger milhares de quilômetros quadrados (Sukumar, 2003). Elefantes que vivem em condições severas no deserto caracteristicamente têm as maiores áreas de ocupação. Na população do deserto mais bem estudada, no noroeste da Namíbia, elefantes sobrevivem à escassez sazonal de água e alimento movendo-se através de vastas áreas de até 12.600km2 (Viljoen, 1987; Viljoen & Bothma, 1990; Lindeque & Lindeque, 1991; Leggett, Fennessy & Schneider, 2003; Leggett, 2005).


A variação do tamanho da área habitada pode ser explicada, em grande parte, pelo tipo de habitat, apesar de o tamanho dessas áreas também variar consideravelmente dentro das populações e de as preferências individuais, a tradição, as relações interfamiliares e sexuais e as estações também contribuírem para a determinação do tamanho da área (database da ATE). A despeito do fato de o gasto energético do elefante ao caminhar ser o menor já registrado em qualquer animal terrestre (por grama de tecido, equivale a uma quarta parte do valor de um rato; Langman, Roberts, Black, Maloiy et al., 1995), elefantes ainda se comportam de modo a economizar energia (Wall, Douglas-Hamilton & Vollrath, 2006). Consequentemente, áreas de habitação menores geralmente refletem uma qualidade melhor de habitat e vice-versa. Os defensores dos zoológicos modernos têm usado essa informação energética fundamental para argumentar que, como os elefantes em cativeiro recebem alimento e água, eles não precisam de grandes espaços. Por exemplo, Bill Foster, antigo presidente da Associação de Zoológicos e Aquários dos Estados Unidos (AZA), deu uma entrevista ao jornal Deseret Morning News, em 2005, dizendo que o motivo dos animais se moverem tanto na natureza é a procura por alimento e proteção, mas que nos zoológicos, com alimento, ambientes protegidos e cuidados veterinários, elefantes vivem vidas enriquecidas. “Sim, eles podem se mover por milhas”, disse ele, “mas só porque eles precisam fazer isso”. Nada poderia estar mais longe da verdade.

Por milhões de anos, como animais de corpos grandes, os elefantes desenvolveram uma série de adaptações comportamentais e físicas especializadas, que permitiram que eles cubram longas distâncias e preencham suas necessidades ecológicas, sociais e reprodutivas. Em outras palavras, elefantes são adaptados para “vivência em grandes distâncias”, assim como os ursos polares são adaptados para o clima ártico. Para sobreviver a grandes caminhadas sem acesso à água, os elefantes desenvolveram uma bolsa faríngea para armazenamento de água. Para a defesa de si mesmos e de sua prole contra grandes carnívoros e caçadores humanos, os elefantes desenvolveram uma rede social muito interligada, uma sociedade altamente cooperativa, com um comportamento elaborado na atenção para com os filhos e com sua defesa. Para se adaptarem a um estilo de vida em que os companheiros mais próximos e parceiros potenciais podem estar a muitos quilômetros de distância, os elefantes desenvolveram uma gama de características especializadas, que permitem a eles produzir, receber e localizar sinais acústicos e sísmicos de baixíssima frequência (Hener & Hener, 1982; Fischer, 1990; Nummela, 1995; O’Connell, Hart & Arnason, 1998; Reuter, Nummela & Hemila, 1998; Weissengruber, Egger, Hutchinson, Groenewald et al., 2006a).

Morfologicamente únicas e peculiares, as pernas relativamente inflexíveis e em forma de pilares dos elefantes e suas patas macias se desenvolveram de modo a suportar seu grande peso (Weissengruber & Forstenpointner, 2004), habilitando-os a caminharem com eficiência por longas distâncias em terrenos acidentados. Esqueletos de mamutes, mastodontes e elefantes modernos são todos identicamente inflexíveis, caracterizados por pernas em forma de colunas e espinha quase horizontal, o que oferece suporte para seus corpos pesados e para a falta de juntas flexíveis. Ao contrário de outros animais, as partes superiores e inferiores das pernas são alinhadas quase que verticalmente quando estão estendidas (Haynes, 1991), e o movimento das pernas para frente e para trás é limitado, então as pernas estão quase sempre sob o corpo.


Também a formação das estruturas musculares atendem aos específicos requerimentos de seres tão pesados e também à postura e aos padrões de locomoção dos Proboscídeos. Por exemplo, o arco osteomuscular das patas é formado de modo a permitir ao elefante ficar sobre uma espécie de amortecedor, sem que seus dedos toquem o solo. Cada dedo tem músculos separados, indicando que seus movimentos, como esticar-se ou encolher-se, são importantes. Os dedos dos elefantes são embutidos como se formassem um “sapato de pele”. Tanto o arco osteomuscular das patas como seu amortecedor têm uma importante função de absorção de choque. A postura adequada das patas e de seus elementos ósseos provavelmente tem uma função muito importante, tanto na sustentação do enorme peso do elefante como na distribuição de sua massa sobre o solo (Csuti, Sargent & Bechert, 2001). Mecanismos de elasticidade ajudam a minimizar a pressão e o consumo de energia durante o descanso e a locomoção (Weissengruber & Forstenpointner, 2004).

Algumas das características descritas acima, que fazem dos elefantes seres tão bem desenhados para viver em espaços grandes, se tornaram as principais razões pelas quais eles não são adaptáveis ao zoológico tradicional. Por exemplo, indivíduos tão bem adaptados, tanto sob o ponto de vista emocional como comportamental, a viver em sociedades de estruturas fortemente interligadas, quase sempre vivem em cativeiro sem companhia. Uma espécie desenhada de modo tão perfeito para detectar sons significativos de baixa frequência (de outros elefantes, de trovoadas etc.) (Hener & Hener, 1982; Poole, Payne, Langbauer & Moss, 1988) e vibrações sísmicas (O’Connell, Hart & Arnason, 1998; Reuter, Nummela & Hemila, 1998) é exposta a ambientes urbanos e sons contínuos de máquinas de baixa frequência, ruídos de veículos e de tráfego aéreo que podem interferir em sua comunicação interindividual e provavelmente influenciar negativamente tanto sua saúde psicológica como fisiológica (Rylander, 2004). Dotada de uma grande concentração de corpúsculos de Vater-Pacinian (sensíveis a pressões e vibrações) nos seus amortecedores e de corpúsculos de Meissner (mecanorreceptores) na pele adjacente, a pata do elefante é altamente sensível (Weissengruber et al., 2006a). O grande corpo do elefante e suas juntas especialmente inflexíveis, tão bem adaptadas para uma locomoção energeticamente eficiente, são particularmente vulneráveis à artrite no ambiente sedentário do cativeiro (Weissengruber, Fuss, Egger, Stanek et al., 2006b). As almofadas das patas de um elefante são projetadas para caminhadas de longas distâncias em terrenos irregulares e ásperos, e não para pisar em concreto. Como resultado de uma existência predominantemente estática sobre superfícies lisas, as patas de elefantes cativos se desgastam de forma irregular (Schmidt, 2002), causando uma postura inadequada das mesmas e, consequentemente, das pernas e da coluna, resultando assim numa dolorosa artrite e em outros problemas de articulação (Figura 2). G. Weissengruber (pers.comm. March 31, 2006) descobriu, nos elefantes de zoológicos, que não só as articulações das extremidades, mas também as articulações da coluna vertebral foram afetadas por alterações patológicas. O desgaste irregular aparece com frequência em zoos (Schmidt, 2002). O provérbio “usar ou largar” se aplica perfeitamente em elefantes cativos: elefantes precisam andar, para ficarem bem.


Caminhar para ficar bem não se refere somente ao bem-estar físico de um elefante. Elefantes em locais pequenos, com poucos estímulos mentais e físicos, também exibem um comportamento estereotipado, balançando e oscilando. Numa elegante comparação com carnívoros, Clubb e Mason (2003) mostraram que espécies que vivem em extensos habitats selvagens eram mais vulneráveis a problemas relacionados ao bem-estar quando em cativeiro, incluindo disfunções psicológicas e stress, exemplificados pela estereotipia.


Fig. 2. Elefanta asiática, Toni, incapacitada pela artrite; 
fotografada no Zoo Nacional, em 2005 (Foto: Petter Granli)

Proponentes dos zoológicos modernos reivindicam que os dados coletados de elefantes selvagens não se aplicam aos dos que vivem em zoos. Por exemplo, Hutchins (2006) reivindica que os dados de elefantes selvagens mostram que esses animais são extremamente adaptáveis. Apesar desta informação estar correta, zoos não chegam nem perto dos parâmetros sociais e de meio ambiente de âmbito inferior contidos na natureza. Se os elefantes em cativeiro estivessem se desenvolvendo, isso poderia ser aceitável, mas não é o caso (e.g., Clubb & Mason, 2002). Outros gerentes de zoos (como Stephen Thompson, diretor do departamento de conservação no zoo Lincoln Park, situado em Kennedy, 2005) vão mais além, afirmando que pesquisas de vida selvagem não se aplicam a elefantes de zoos porque elefantes cativos têm necessidades diferentes das dos elefantes livres na natureza. O argumento pode ter sido originado da longa tradição de manter elefantes em cativeiro e do equívoco quanto ao termo “domesticado”. Em termos biológicos, domesticação se refere a mudanças na constituição genética de uma população que afetem o caráter físico ou comportamental de indivíduos, um processo que provavelmente leva centenas de gerações de procriação seletiva para acontecer. A captura e a domesticação de elefantes teve seu início no Vale do Indo há aproximadamente 4.000 anos, e elefantes asiáticos continuam sendo capturados e treinados para o trabalho desde então. Elefantes asiáticos são frequentemente referidos como uma espécie doméstica, mas tal uso do termo é errôneo. A grande maioria de elefantes cativos foi capturada da natureza, e, entre a minoria nascida em cativeiro, provavelmente a maioria é descendente de pais selvagens. Além disso, não houve seleção para criar “raças” domésticas entre os elefantes asiáticos. O número de gerações de proles cativas não é suficiente para que qualquer adaptação física ou comportamental ocorra, portanto é incorreto se referir ou pensar nos elefantes como uma “espécie doméstica”. Os elefantes podem se habituar aos seres humanos ou por eles serem domados, mas eles continuam sendo animais selvagens, com os mesmos interesses físicos, comportamentais, sociais e emocionais inerentes a elefantes selvagens. Os interesses de elefantes cativos devem nitidamente ser baseados em conclusões dos estudos de elefantes no seu habitat natural.

Próximos capítulos: "Desafios mentais e físicos na vida diária de um elefante selvagem""Conclusão". Para ler o primeiro capítulo, clique aqui.

Tradução, revisão, edição: Ana Zinger, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

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