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quarta-feira, 29 de julho de 2015

Catástrofe de elefantes na Tanzânia – “Nós recalculamos cerca de 1000 vezes porque não acreditávamos no que estávamos vendo”

A Tanzânia perdeu bruscamente dois terços da sua população de elefantes, em apenas quatro anos, escreve Aislinn Laing.


Elefantes em Ngorongoro Crater, Tanzânia. Photo: Copyright (c) 2014 Rex Features.

Publicado no The Telegraph, em 19 de Julho de 2015
Por: Aislinn Laing, Seronera, Parque Nacional do Serengeti 


Enquanto Howard Frederick voava baixo em um Cessna sobre o cerrado da reserva de Selous, na Tanzânia, o que mais o chocou, ao invés das pilhas de ossos espalhados, foi a ausência completa de elefantes no local.

A equipe que estava realizando a contagem dos animais selvagens na Tanzânia em 2013 e 2014 sabia que a caça furtiva estava se tornando um grande problema, mas nada poderia tê-los preparado para o que eles descobriram.

A Tanzania havia perdido dois terços de sua considerável população de elefantes em apenas quatro anos, pois a demanda da China por suas presas de marfim havia enviado um exército altamente organizado de criminosos portando rifles e motosserras para dentro de suas reservas.

"Eu nunca tinha visto nada parecido com isso - havia cadáveres por toda parte, vários grupos familiares inteiros, lado a lado, de três a sete animais, abatidos" disse ele ao The Telegraph.

"Voando sobre estas áreas enormes e até mesmo dirigindo por elas, costumávamos, antes, ver dezenas de enormes elefantes machos.”

"Uma sensação terrível de falta de vida vinha daquela paisagem, a qual era definida pela presença daquelas criaturas. Agora é apenas um vazio."

Cem metros abaixo dele, em um veículo de safári, o guia turístico David Guthrie estava fazendo o seu melhor para explicar aos visitantes por que ele estava dirigindo para longe dos abutres que circundavam por ali – mesmo esse sendo, geralmente, um sinal emocionante para os turistas, de que poderiam estar prestes a ver os leões em momento de caça.

"Em 17 anos de trabalho em Selous, eu tinha visto apenas duas carcaças de elefantes, mas em 2010 elas começaram a aparecer de forma numerosa e, em 2012, foi simplesmente horrível", disse ele.

"Ouvíamos tiros regularmente quando estávamos nos campings. Tínhamos elefantes machos feridos vindo até ali, tentando encontrar um lugar seguro, e morrendo debaixo das árvores.”

"Os guardas tentavam bloquear o acesso às áreas – era simplesmente uma carnificina."


Presas de elefantes caçados no sudoeste da Tanzânia.
Apesar de ter liderado o caminho para a proibição da exportação de marfim de elefante na década de 1980, a Tanzânia acabou se tornando complacente na tarefa de administrar sua vida selvagem abundante.

Com a sua reputação de capital mundial de elefantes e nomeação como Patrimônio Mundial da Unesco, Selous arrecadou cerca de US $ 9 milhões (R$ 5,8 milhões) por ano em receitas turísticas, mas o governo repassou apenas 20% desse valor para o funcionamento do parque.

O Sr. Guthrie disse que seus poucos guardas eram "impotentes e totalmente desmoralizados", trabalhando com armamento, abrigo e alimentos escassos. Os caçadores se vangloriavam por montar acampamentos em áreas nobres do parque e, em alguns casos, se mudar para os postos de vigilância.

De acordo com Howard Frederick, os caçadores furtivos trabalhavam em "equipes altamente mecanizadas", administradas por grandes organizações criminosas com base em Dar es Salaam.

“Eles formavam equipes que saiam para escoltar as áreas, em seguida, os caçadores entravam, montavam uma emboscada e matavam um grupo inteiro”, diz ele.

"Eles seguiam para a próxima área, enquanto a equipe de carniceiros chegava e picava todas as presas, e uma nova equipe entrava para realizar o transporte. A caça furtiva evoluiu de muito casual para a formação de equipes altamente organizadas."


Vista aérea de elefantes caçados na Tanzânia ocidental.
Os elefantes da Tanzânia eram um alvo óbvio.

Quando o especialista em elefantes, mundialmente renomado, Douglas-Hamilton realizou o primeiro levantamento aéreo na Tanzânia, em 1976, o país tinha 316 mil elefantes, a maior população do paquiderme do planeta.

 "Para uma pessoa que conta elefantes, era como o Everest para um alpinista," disse ele ao The Telegraph esta semana, da sua base na Reserva Nacional de Samburu, no Quênia. "Foi incrível. Uma área selvagem, imaculada, repleta de elefantes.”

Em 2013, foram realizadas várias apreensões de toneladas de marfim e foi sugerido que elas seriam originárias da Tanzânia.

Rob Muir, diretor de programação da África para a Sociedade Zoológica de Frankfurt (FZS), uma organização de vida selvagem com uma longa história no país do leste africano, disse que ficou claro que a caça furtiva - um problema identificado em toda a África – havia aumentado repentinamente em Selous, uma área com o dobro do tamanho da Bélgica.

O governo e a FZS (Sociedade Zoológica de Frankfurt) montaram uma equipe de pesquisa multinacional para determinar a gravidade do problema.

Quando o trabalho deles foi concluído, em outubro de 2013, eles ficaram devastados com os resultados.

“Nós recalculamos cerca de 1000 vezes porque não acreditávamos no que estávamos vendo”, disse Frederick.

Em Selous e no ecossistema ao redor, a população de elefantes é a menor desde que a primeira contagem foi realizada, de 109.000 em 1976, para 13.084 em 2013.

"Esse resultado foi como um chamado para percebermos como a caça furtiva havia se tornado algo sério", disse Muir. "Uma das maiores fortalezas de elefantes havia acabado de ser dizimada."

O governo da Tanzânia disse que iria reforçar a proteção da vida selvagem e aceitou várias ofertas de ajuda, incluindo dos americanos, que enviaram fuzileiros para treinar seus guardas.

Em uma conferência internacional em Londres, contra a caça furtiva, em abril do ano passado, o presidente Jakaya Kikwete disse que ele havia envolvido o serviço militar nesse tema e deu a entender que seu governo havia identificado o chefão da caça furtiva.

Mas havia ainda mais más notícias.

Paul Allen, fundador da Microsoft, adiantou-se perguntando sobre a situação dos elefantes em outros parques nacionais da África. Ele financiou um segundo levantamento que, no fim do ano passado, revelou que os caçadores, que acabaram com os elefantes em Selous, haviam mudado para Ruaha, o maior parque nacional da Tanzânia.

Em apenas um ano, entre 2013 e 2014, a população de elefantes dessa reserva despencou 60% - cerca de 1.000 elefantes por mês - para 8.200 elefantes.


Elefantes caçados na reserva de Selous, na Tanzânia.
Um importante estudo de DNA realizado com o marfim apreendido em um carregamento confirmou que 85% das presas africanas vieram de dois locais, uma pequena área da África Ocidental e da Tanzânia.

O Sr. Muir conheceu um casal em lua-de-mel em um voo, que havia gasto milhares de dólares para ver elefantes em Selous - e haviam ido embora sem encontrar um único animal.

"A mulher estava em choque e profundamente chateada", disse ele.

Iain Douglas-Hamilton disse que os elefantes, criaturas conhecidas pela sua sensibilidade, inteligência e boa memória, estavam escondidos.

"Eles se tornaram muito mais assustados, fugindo dos seres humanos e escondendo-se na vegetação mais densa, adquirindo hábitos mais noturnos", disse ele.

Em um coquetel em Dar, em junho, Lazaro Nyalandu, o ministro do Turismo, anunciou uma nova campanha de sensibilização chamada "Orgulho da Vida Selvagem", envolvendo uma ex-Miss Tanzânia e um astro do basquete.

Durante um discurso na Universidade de Cambridge, no final do mês, ele falou sobre a diminuição do número de elefantes, mas também destacou que esse número começou a subir novamente em Selous, além de falar sobre os "caminhos de sucesso para a conservação".

O governo ainda se recusa a publicar o relatório da contagem de 2014 em Ruaha, citando a falta de carcaças um empecilho para confirmar as mortes.

O Sr. Nyalandu sugeriu que o desaparecimento de 12.000 elefantes daquela reserva seja "o maior mistério da vida selvagem", e se comprometeu a enviar equipes de busca para verificar se eles haviam migrado para países vizinhos.

Os conservacionistas dizem que não há dúvida de que os elefantes foram vítimas de caçadores furtivos, mas que os seus cadáveres foram simplesmente descartados pelos caçadores antes de serem descobertos. Os números mais recentes são profundamente embaraçosos, dizem eles, especialmente depois que o Sr. Kikwete disse na conferência de Londres sobre seus esforços para interromper essa matança.

Poucos acreditam que a Tanzânia tenha tomado todas as medidas necessárias para tentar reprimir a caça furtiva.

Rob Muir acredita que a redução de elefantes já atingiu um "limiar" e não poderá diminuir ainda mais em Selous e Ruaha porque, como os turistas, os caçadores ilegais também não conseguirão encontrá-los.

Ele teme que sem esforços concentrados por parte do governo e sem a redução da demanda dos consumidores chineses, os caçadores possam mudar o foco para outros lugares, como para o Parque Nacional de Katavi, no Ocidente, ou até mesmo para a lendária Serengeti, onde a FZS está baseada em um conjunto de cabanas de estanho e cal cercadas por árvores de acácia.

Dr. Alfred Kikoti, principal especialista em elefantes da Tanzânia, disse que o ultrapassado governo do Sr. Nyalandu colabora com o problema por falta de vontade em combater as poderosas redes de corrupção da polícia e funcionários e políticos relacionados com a vida selvagem, ajudando os caçadores furtivos a operar sem nenhum impedimento.

Várias tentativas para desmantelar estas redes fracassaram.

A operação militar anunciada pelo Sr. Kikwete para diminuir os casos de caça furtiva durante a noite, para quase zero, foi interrompida após apenas um mês, por alegações sobre a violação dos direitos humanos. Pessoas envolvidas na operação disseram que os abusos foram uma forma conveniente de atrapalhar a operação: ela foi ficando muito perto de políticos sênior e de suas operações lucrativas.

Não muito tempo depois, o ministro do Turismo Khamis Kagasheki, que causou alvoroço ao entregar ao presidente uma lista secreta de políticos envolvidos na caça furtiva, foi demitido junto com três outros ministros, e a justificativa foi o fracasso da operação. A lista foi discretamente enterrada.

O Dr. Kikoti acredita que até que um novo presidente seja eleito em outubro, pouco mudará.

"Eu acho que se este governo decidir amanhã que não quer que essa situação continue, e que irá lidar com isso, aí sim será possível reverter essa diminuição na quantidade de elefantes", disse ele.

"Mas tem que vir de cima e tem que saber que ninguém está imune, caso esteja envolvido."

Ele e outros grupos de proteção da vida selvagem irão dedicar os próximos três meses para conseguir que o candidato do partido no poder, John Magufuli, pessoa adequada para a função, abrace essa causa.

Para o Dr. Kikoti, isso significa disponibilizar uma força-tarefa militar para cada parque e reserva, além de colocar um ponto final nas nomeações políticas para os cargos de autoridades relacionados à vida selvagem, definir penas mais duras e instaurar mais processos para os caçadores e, criteriosamente, passar a mensagem de que não haverá nenhum “intocável” na luta para salvar os elefantes da Tanzânia.

"Eu realmente espero que este novo representante faça a diferença, ele se tornará o presidente da selva", disse ele. "Ele deve lutar por nossa vida selvagem, e prometeu que vai."

Link para o artigo original.

Traduzido por Paula Duque Bertasi. Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Descoberto massacre de elefantes na República Democrática do Congo; 30 animais mortos em 15 dias

Publicado pelo “The Huffington Post” em 26/3/2015
Por Ed Mazza


Elefantes mortos por caçadores ilegais, em uma foto de 2014. 
Novos relatórios dizem que mais elefantes estão 
sendo mortos; foram 30 em apenas 15 dias / ASSOCIATED PRESS

Dúzias de elefantes estão sendo chacinados num parque nacional na República Democrática do Congo por militantes armados que estão entrando no comércio de caça ilegal. O dinheiro proveniente da venda do marfim ilegal é usado para comprar comida, armas e munição.

O Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (The International Fund for Animal Welfare – IFAW) disse esta semana que 68 elefantes foram mortos nos últimos dois meses no Parque Nacional de Garamba, e a AFP (Agence Française de Développement) denunciou que 30 foram mortos em apenas duas semanas.

“Existe um grupo de sudaneses do norte adentrando o parque, dividindo-se em pequenos grupos, que, durante 15 dias, mataram 30 elefantes”, disse o diretor de Conservação do African Parks, Jean Marc Froment, que cuida da manutenção do parque. “Esses caçadores de elefantes têm muita experiência”, acrescentou.

Existem apenas 150 guardas florestais patrulhando os mais de 12.949 quilômetros quadrados de Garamba, disse a AFP. Como resultado, os 1.700 elefantes do parque se tornaram um alvo fácil para os caçadores ilegais e militantes armados, alguns entrando no parque através de países vizinhos.

Desde abril de 2014 até janeiro deste ano, 131 elefantes foram encontrados mortos em Garamba, relata o Enough Project. O grupo diz que o guerrilheiro de Uganda Joseph Kony, do Lord’s Resistance Army, renegados do exército nacional do Congo e caçadores ilegais armados do Sudão do Sul e do Sudão estão matando os elefantes no parque.


O Enough Project disse que o preço do marfim no mercado negro da Ásia gira em torno de US$ 1.000,00 a US$ 1.300,00 por libra e que uma única presa, dependendo do tamanho, pode ser adquirida por um preço que varia de US$ 20.000,00 a US$ 175.000,00. A organização preparou um relatório interativo sobre a caça ilegal em Garamba, que pode ser visto aqui.

Na África, as presas nem sempre são trocadas apenas por dinheiro. Guerrilheiros, às vezes, as trocam por munição: uma única presa pode comprar 18.000 balas, disse Sasha Lezhnev, diretora associada do Enough Project, ao Daily Mail.

Ano passado, representantes de 41 nações assinaram uma declaração em Londres, jurando proteger animais ameaçados, como os elefantes.
Entretanto, o IFAW disse que 15 desses países não deram qualquer evidência de que estão comprometidos com essa causa. “É aterrador que países como Chade, Camarões e República Democrática do Congo, cujas populações de elefantes estão altamente ameaçadas por causa do marfim, não demonstrem qualquer iniciativa ou progresso para diminuir a matança”, disse Jason Bell, diretor do Programa para Elefantes do IFAW.

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

Link para o texto original.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Massacre de elefantes na Costa do Marfim choca aldeões

Mãe e filhote de elefantes africanos da floresta (Loxodonta cyclotis) 
descansam em uma clareira da África central (Foto: © Melissa Groo)

Abidjan, Costa do Marfim, 17 de Setembro de 2013 – Inúmeros elefantes foram mortos por caçadores armados na Reserva Nacional de Mount Peko, na Costa do Marfim, de acordo com residentes locais.

Aldeões de Bagohouo afirmaram, na segunda-feira, que ficaram aturdidos ao ver tantos elefantes mortos por tiros e com as presas removidas. 

“Nos últimos dias, os caçadores aumentaram os ataques noturnos contra os elefantes. Já informamos as autoridades florestais sobre a presença de indivíduos armados na reserva,” disse Gaspart Guei, residente local.

“De uma população de muitos elefantes há alguns anos atrás, temos agora apenas três elefantes,” Benoit Yrou, outro aldeão, afirmou sobre a área onde está sua aldeia.

A Reserva Nacional de Mount Peko, que tem 34.000 hectares, é um dos maiores parques da Costa do Marfim.

O massacre dos elefantes ocorre logo após a grande estrela do futebol internacional do país, Yaya Toure, ter prometido fazer “tudo o que for possível” para lutar contra a caça ilegal de elefantes na África.

O jogador do Manchester City, time inglês, afirmou que a caça ilegal é uma das mais sérias ameaças à estabilidade política, à economia, à herança cultural e ao gerenciamento adequado dos recursos naturais de muitos países.

Apenas em 2011, segundo uma estimativa das Nações Unidas, mais de 17 mil elefantes foram mortos dentro de áreas protegidas.

Na Costa do Marfim, onde o número de elefantes caiu drasticamente, remanescem apenas 800 elefantes.

Especialistas alertaram sobre essa grave ameaça aos elefantes na Costa do Marfim, pedindo que sejam feitos mais esforços para proteger essa ameaçada espécie.

Link para o artigo original.

Junte-se à nossa campanha "Cada Presa Custa uma Vida" e a compartilhe massivamente. É preciso acabar com o comércio de marfim o mais urgente possível, no mundo todo!

Uma das ilustrações criadas pela artista Asher Jay para a campanha
Cada Presa Custa uma Vida (2013)

Tradução, revisão e edição: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Uma Caminhada pela Vida Selvagem e Pelo Fim do Comércio de Marfim


Jim Nyamu, do Elephant Neighbours Centre, no Quênia, caminhou entra sexta-feira e sábado de Mombasa a Nairobi, por 490 km, num apelo global a todas as pessoas no mundo todo que se preocupam com elefantes e conservação. 



Na foto, sua chegada a Nairobi e o banner da campanha CADA PRESA CUSTA UMA VIDA - NÃO COMPRE MARFIM. O elefante em ideogramas chineses significa “China”. 




"
Nosso objetivo é sensibilizar os jovens sobre os valores da vida selvagem, engajá-los para que atenuem o conflito entre humanos e elefantes e conduzam um patrulhamento, a fim de mapear e reportar os incidentes de caça. A partir da perspectiva da comunidade, a caça aos elefantes na África, por seu valor, é uma caça a um tesouro social", afirmou ele.

Acompanhe e divulgue massivamente a campanha contra o comércio de marfim,  disponível neste link.



domingo, 13 de janeiro de 2013

Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos

Alimentada pelo aumento da demanda por marfim, a grande matança de elefantes africanos chegou a um nível monumental. Em uma entrevista com a Yale Environment 360, o repórter do New York Times Jeffrey Gettleman discute a sua investigação a fundo sobre o fatal comércio do marfim, que envolve o apoio das forças militares americanas em várias nações africanas.

Por Christina M. Russo, Yale Environment 360

Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.

Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano. 

 
Gettleman, que recebeu o prêmio Pulitzer 2012 de Jornalismo Internacional, também discutiu sobre como grupos infames – incluindo o Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army – LRA); o janjaweed, em Darfur; e o grupo islamita Shabab – participam da caça ilegal de elefantes.

Jeffrey Gettleman
Gettleman observa que a atual dizimação de manadas de elefantes é emblemática, que deriva de um problema ainda maior que assola o povo africano e seu patrimônio natural, que um dia foi tão rico: a omissão do Estado. “É por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central”, ele diz, “porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há áreas enormes completamente sem lei”.

Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?

Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.

O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.

Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.


e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?

Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.

(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim. 


Elefantes massacrados por causa de suas presas de marfim no Parque Nacional de  Bouba Ndjida, em Camarões, em Fevereiro de 2012. Conforme o preço do marfim sobe, dezenas de milhares de elefantes Africanos estão sendo mortos anualmente por causa de suas presas. (AFP/Getty Images)

e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?

Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.

E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.

e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?

Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.

Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam  usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando? 



Guardas florestais inspecionam um Elefante Africano da Floresta morto por caçadores no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana. (Foto: TRAFFIC/Martin Harvey/WWF-Canon)

e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?

Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.

Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.

Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.


Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.

e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?

Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.



Funcionária do grupo de conservação Traffic inspeciona marfim apreendido na Malásia. O mercado global de marfim é fortemente impulsionado pela demanda da China e de várias outras nações asiáticas. (Foto: TRAFFIC)

e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?

Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.

e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?

Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais.  Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.

Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro. 


Um elefante morto por causa de seu marfim, no Chade. (Foto: SOS Elephants of Chad/Stephanie Verignault)

Link para o artigo original.

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Família de elefantes é exterminada por caçadores ilegais no Parque Nacional de Tsavo, no Quênia

No último final de semana, uma família inteira de doze  elefantes foi morta e teve suas presas retiradas, em Bisadi,  uma área do Parque Nacional de Tsavo Leste. Acreditava-se que fossem onze elefantes, mas foi descoberta mais uma  carcaça, que pertencia a um elefante bebê, de aproximadamente dois meses de idade.  

Segundo o Serviço à Vida Selvagem do Quênia (KWS), um suspeito foi preso e está fornecendo informações que levarão as autoridades a outros membros da gangue.

Depois dessa última tragédia de caça ilegal, o Primeiro Ministro do Quênia, Raila Odinga, apelou à comunidade internacional por ajuda. “Peço à comunidade internacional que ajude a fortalecer o policiamento nacional e internacional para lidar com o tráfico de vida selvagem como uma séria ameaça à conservação, ao Estado de Direito, ao governo e ao desenvolvimento econômico”.  


 A menor vítima do massacre.
Foto: Kenya Wildlife Service

7 de Janeiro de 2013
Por Mary Purvis, examiner.com

Em apenas um dia. Onze elefantes. Mortos. Uma família inteira assassinada a tiros por caçadores ilegais.


De acordo com informações que o Serviço da Vida Selvagem do Quênia (KWS) acaba de divulgar, a família foi massacrada durante o final de semana, em Bisadi, uma área do Parque Nacional de Tsavo Leste.


O KWS está, neste momento, à procura da gangue responsável pelo massacre.


Tsavo está fazendo jus a seu nome, que, na língua Kamba, significa massacre. Durante os anos 70 e 80, as magníficas manadas de elefantes do parque foram praticamente reduzidas a zero, devido à caça ilegal. E agora, a história se repete.


Também durante o final de semana, patrulheiros da Save the Elephants (Salve os Elefantes) encontraram um de seus machos adultos morto. Changilla era muito amado por Iain e Oria Douglas-Hamilton. Os patrulheiros não haviam conseguido localizá-lo e quando, finalmente, ele foi descoberto, seu corpo estava escondido sob galhos. 


A Save the Elephants afirmou que nas últimas seis semanas quase 20 elefantes foram mortos na área próxima a Isiolo, no norte do Quênia.


Uma fonte alegou que uma família bastante rica e envolvida há muito tempo na política, suspeita de envolvimento no comércio ilegal de marfim durante os anos 70, está por trás deste recente holocausto de caça ilegal. Um membro dessa família foi acusado de cometer crimes contra a humanidade nas eleições de 2007 e é agora candidato à presidência nas próximas eleições de março. 


Dado o poder que essa família exerce, será que o mercado de marfim pode ser mesmo brecado no Quênia?


Mesmo assim, esses indivíduos representam apenas um entre os diversos grupos responsáveis pelo massacre da vida selvagem no Quênia.


Se a caça ilegal não diminuir, um dos tesouros mais valiosos do Quênia desaparecerá. Para sempre.


Leia o artigo original publicado na examiner.com

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Eles estão atrás dos nossos elefantes"

Camarões mobiliza 600 soldados de elite para defender o país contra caçadores ilegais


 600 soldados e um helicóptero das forças de elite Bataillon d´intervention rapide 
(BIR – Batalhão de Intervenção Rápida) foram mobilizados para impedir que os caçadores entrem em seu território para matar elefantes e retirar seu marfim.
© WWF-CARPO

Parque Nacional de Bouba N’Djida, norte de Camarões – A cinquenta quilômetros da fronteira com o Chade, na região norte do Parque Nacional de Bouba N’Djida, em Camarões, o general Martin Tumenta não mede as palavras ao se dirigir à mídia:

“Nós não estamos lidando com caçadores ilegais comuns”, disse ele para um grupo de repórteres nacionais e internacionais.

“Eles estão fortemente armados, com metralhadoras e rifles automáticos... Eles usam uniformes, são organizados e estão atrás dos nossos elefantes.”

“Nós estamos lidando com um exército – batalhões, pelotões –  que não hesita em cruzar nossas fronteiras para roubar nosso  patrimônio natural.”

“Meu dever é preservar a integridade territorial e a biodiversidade do nosso país”, disse o general, que lidera as operações militares no norte do país, ao anunciar, no fim de semana, a decisão de Camarões de mobilizar 600 soldados e um helicóptero do seu Batalhão de Elite de Rápida Intervenção para impedir que caçadores ilegais entrem em seu território para matar elefantes, em busca do marfim.

A ação foi uma resposta ao incidente ocorrido no começo do ano passado, quando caçadores ilegais sudaneses viajaram mais de 1.000 quilômetros a cavalo, do norte do Sudão e através da República Centro-Africana e do Chade, para matar mais de 300 elefantes no Parque Nacional de Bouba N’Djida.

Fontes do WWF disseram que vários grupos de caçadores ilegais resolveram começar suas ações mais cedo este ano, aproveitando a época das chuvas, quando uma maior cobertura do terreno está disponível, e para usar o elemento surpresa contra os guardas florestais, ao chegarem mais cedo do que o esperado.

A resposta militar de Camarões foi imediatamente aplaudida por Jim Leape, diretor-geral do WWF International, que chamou a ação de “audaciosa e corajosa, criando, com ela, um novo padrão para outros países na linha de frente contra a caça e o tráfico da vida selvagem”.

“O WWF gostaria de parabenizar o presidente de Camarões pela decisão de dispor das Forças Especiais para proteger áreas vulneráveis, pessoas e elefantes contra gangues estrangeiras altamente armadas de caça ilegal.”

“Esse incidente (em Bouba N’Djida, no começo do ano passado) sublinha o fato de que a caça ilegal e o tráfico de vida selvagem se tornou uma questão de segurança nacional, com sérias consequências econômicas e sociais para o país”, declarou ele.

A matança de elefantes africanos por causa do marfim tem uma longa história. Entre 1970 e 1989, metade dos elefantes africanos – talvez 700.000 indivíduos – foi morta em decorrência do mercado ilegal de marfim.

Mais recentemente, a caça ilegal de elefantes e o mercado ilegal relacionado a ela foram responsáveis pelo extermínio de metade dos elefantes remanescentes da África Central, entre 1995 e 2007. E, desde então, o grau de matança de elefantes subiu vertiginosamente.

A raiz do problema é uma demanda estratosférica por marfim, consequência do aumento de renda na Ásia, além de atitudes culturais relacionadas a esse bem. O marfim, que costumava  ser vendido por US$ 10 o quilo há cinco anos, em vilarejos de países da bacia do Congo, é agora vendido por US$ 300. Com uma média de 6,8kg por presa, um elefante pode representar um incremento na renda média para muitas pessoas, na África Central.

O aumento em grande escala de apreensões de marfim africano na África e, mais ainda, na Ásia, é evidência do crescente envolvimento do crime organizado no mercado ilegal da vida selvagem. Essa atividade tem se tornado um crime transnacional organizado, de significativa violência, e está desestabilizando sociedades e pondo em risco as reputações de países africanos como lugares de investimentos e negócios.

Se nada for feito a respeito do crime contra a vida selvagem, os esforços para combater outros mercados ilícitos, como o tráfico de armas e drogas, serão minados e isso facilitará o crescimento do crime organizado e dará combustível a conflitos regionais.

A operação chamada “Paz em Bouba N’Djida” cobrirá uma área de 12.000 quilômetros quadrados, incluindo o parque e seus arredores, de aproximadamente 200.000 hectares, e que é patrulhado por brigadas antiterrorismo do Batalhão de Elite de Rápida Intervenção. Todas as atividades têm o objetivo de apoiar os 60 ecoguardas que atuam na região e não têm  capacidade para enfrentar essa ameaça, segundo Tumenta.

Desde que a operação começou, há um mês, “não houve sinais de caçadores ilegais”, disse ele, informando ainda que o Batalhão de Elite de Rápida Intervenção ficará na área até os caçadores desistirem.

“Essas forças serão permanentes – digo e repito, permanentes – nesse território.”

“Eu sugiro aos caçadores que, devido à quantidade de recursos à nossa disposição, não ponham os pés neste país”, conclui Tumenta.

“Vamos esperar que a atitude de Camarões em relação a essa última ameaça seja suficiente para dissuadir as gangues de caçadores ilegais a invadir o seu território”, disse Leape.

O WWF está em campanha para uma maior proteção a espécies ameaçadas, como rinocerontes, tigres e elefantes. Para salvar animais ameaçados, os países onde vivem esses animais precisam envidar esforços para o cumprimento da lei e aperfeiçoar os controles aduaneiros e sistemas judiciais. O WWF também está pedindo aos governos dos países consumidores para tomarem medidas a fim de diminuir a demanda, de modo a reduzir o uso de produtos provenientes de animais ameaçados.



Membros das forças de elite de Camarões patrulha suas fronteiras 
para assegurar que caçadores não entrem em seu território para matar elefantes.
© WWF-CARPO

Leia aqui o texto original.

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