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segunda-feira, 30 de março de 2015

‘Elefantes africanos estão a caminho da extinção’, ouvem os governantes da reunião de cúpula em Botsuana

Publicado pela DW - Deutsche Welle em 23 de Março de 2015.

A Reunião de Cúpula sobre os Elefantes Africanos, envolvendo 20 nações, começou em Botsuana com alertas renovados de que a população do maior mamífero terrestre está caindo dramaticamente. Caçadores suprem ilegalmente a Ásia, particularmente a China, com marfim. 


A conferência realizada num resort em Kasane, Botsuana, foi informada de que a caça ilegal dos elefantes africanos é insustentável, com mais de 100.000 mortos nos últimos quatro anos.

O número atual de elefantes, em todo o continente africano, está em torno de 420.000.  O pesquisador Dune Ives disse que, nesse ritmo, “a espécie pode ser extinta em uma ou duas décadas”.

O maior declínio ocorreu na África Oriental, onde os números caíram para 100.000. 

A abertura de reunião de cúpula coincidiu com a notícia vinda de Kinshasa de que 30 elefantes foram mortos por caçadores ilegais nas últimas duas semanas no Parque Nacional de Garamba, na região nordeste da República Democrática do Congo.

‘Assegurando comprometimentos’

O porta-voz do Ministério do Meio Ambiente de Botsuana, Elias Magosi, disse que o objetivo da reunião de cúpula – uma continuação da conferência de 2013 – é  assegurar comprometimentos “em altos níveis para efetivamente proteger os elefantes”

Magosi disse que os sindicatos de marfim se aproveitaram de conflitos, instabilidade social e governos débeis para suprir o mercado ilegal de marfim.

O grupo TRAFFIC, que monitora o comércio de vida selvagem, disse que o marfim certamente escoa do Quênia e da Tanzânia para países de trânsito, como Malásia, Vietnã e Filipinas, antes de chegar a China e Tailândia para ser vendido.

Na última sexta-feira, autoridades da Etiópia procuraram desencorajar a caça ilegal ateando fogo a seis toneladas de presas e badulaques de marfim confiscados ao longo dos últimos 20 anos.

O comércio de marfim está levando os elefantes à extinção.

Nos anos 70, a Etiópia tinha mais de 15.000 elefantes. Atualmente, restam 1.900. 

O Quênia e o Gabão também destruíram recentemente estoques de marfim.

No mês passado, a China impôs um ano de proibição nas importações de marfim, enquanto a Tailândia está sob pressão para seguir o pedido da CITES, ou Convention on International Trade in Endangered Species (convenção que regulariza o comércio de espécies ameaçadas).

O quilo do marfim atualmente é vendido a US$ 100 (92 euros ou 324 reais) por caçadores ilegais. Na China, ele é vendido por US$ 2.100 (1.927 euros ou 6.807 reais).

Elo entre a pobreza e a caça ilegal

Julian Blanc, especialista da CITES, disse que uma maneira de lidar com a caça ilegal é reduzir a pobreza humana “significativamente”. 

“Nós monitoramos uma relação direta entre a mortalidade infantil (uma medida de pobreza) em níveis distritais com os níveis da caça ilegal”, disse ele. 
“Em lugares onde há um alto nível de mortalidade infantil e pobreza, monitoramos um maior nível de caça ilegal aos elefantes”, disse Blanc.

Na África do Sul e em Botsuana, os elefantes sobrevivem melhor do que mais ao norte da África, pela simples questão de que, naqueles países, os caçadores ilegais se concentram em matar rinocerontes. 

A proteção dos rinocerontes também será um alvo importante da agenda da reunião de cúpula em Botsuana.

ipj/jr (AFP, dpa, AP)

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


Link para publicação original / Link to the original post

domingo, 22 de março de 2015

Etiópia destrói 6 toneladas de marfim apreendido

Publicado pela BBC, em 20 de Março de 2015.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes em três décadas.

A Etiópia destruiu todo o seu estoque de marfim apreendido, em um esforço para combater a caça ilegal.

As seis toneladas de presas, esculturas e joias foram queimadas na capital, Addis Ababa.

Este é o segundo país africano - o primeiro foi o Quênia - que queima seu estoque de marfim para desencorajar o comércio no mercado negro.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes desde a década de 80. Conservacionistas parabenizaram o país pela ação.

A polícia e funcionários dos parques nacionais colocaram gasolina no estoque em uma cerimônia em uma colina do Jardim Botânico Gulele, na capital.

O fogo foi aceso pelo Primeiro Ministro Demeke Mekonnen.






Mr Mekonnen descreveu o gesto simbólico como "pedra fundamental" na implementação de leis contra a caça. 

As autoridades afirmaram que nos últimos cinco anos foram presos mais de 700 suspeitos de caça e tráfico. 

Conservacionistas afirmam que a caça emergiu através da África Subsaariana nos últimos anos, com gangues matando elefantes e rinocerontes e arrancando suas presas e chifres, para suprir a crescente demanda da Ásia.

O relatório de 2014 da ONU e da Interpol estima que de 20.000 a 25.000 elefantes são mortos na África a cada ano, de uma população total de cerca de 650.000.

O vizinho Quênia queimou 15 toneladas de seu estoque no início deste mês.


A Etiópia tem cerca de 1.900 elefantes em nove regiões, afirma a African Wildlife Foundation, com base em um relatório do governo.

Entre 2011 e 2014,  conservacionistas estimam que 42 elefantes foram mortos, com mais três casos registrados em janeiro deste ano.

Dawud Mume Ali, do Ethiopian Wildlife Conservation Authority, disse à agência de notícias Reuters que 492 estrangeiros - do Oeste da África, Sudeste da Ásia e Extremo Oriente - foram presos ou multados nesses três anos.

No ano passado, líderes do Botsuana, Gabão, Chade e Tanzânia se comprometeram a honrar uma moratória de 10 anos na venda de marfim. 

Tradução, revisão e edição: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. 

Saiba mais sobre o comércio de marfim - recomendamos que você assista neste link a God's Ivory (Marfim de Deus), uma brilhante videorreportagem de 14 minutos de Bryan Christy para a Getty Images, legendado em Português. 


God's Ivory (Marfim de Deus)



terça-feira, 17 de setembro de 2013

Massacre de elefantes na Costa do Marfim choca aldeões

Mãe e filhote de elefantes africanos da floresta (Loxodonta cyclotis) 
descansam em uma clareira da África central (Foto: © Melissa Groo)

Abidjan, Costa do Marfim, 17 de Setembro de 2013 – Inúmeros elefantes foram mortos por caçadores armados na Reserva Nacional de Mount Peko, na Costa do Marfim, de acordo com residentes locais.

Aldeões de Bagohouo afirmaram, na segunda-feira, que ficaram aturdidos ao ver tantos elefantes mortos por tiros e com as presas removidas. 

“Nos últimos dias, os caçadores aumentaram os ataques noturnos contra os elefantes. Já informamos as autoridades florestais sobre a presença de indivíduos armados na reserva,” disse Gaspart Guei, residente local.

“De uma população de muitos elefantes há alguns anos atrás, temos agora apenas três elefantes,” Benoit Yrou, outro aldeão, afirmou sobre a área onde está sua aldeia.

A Reserva Nacional de Mount Peko, que tem 34.000 hectares, é um dos maiores parques da Costa do Marfim.

O massacre dos elefantes ocorre logo após a grande estrela do futebol internacional do país, Yaya Toure, ter prometido fazer “tudo o que for possível” para lutar contra a caça ilegal de elefantes na África.

O jogador do Manchester City, time inglês, afirmou que a caça ilegal é uma das mais sérias ameaças à estabilidade política, à economia, à herança cultural e ao gerenciamento adequado dos recursos naturais de muitos países.

Apenas em 2011, segundo uma estimativa das Nações Unidas, mais de 17 mil elefantes foram mortos dentro de áreas protegidas.

Na Costa do Marfim, onde o número de elefantes caiu drasticamente, remanescem apenas 800 elefantes.

Especialistas alertaram sobre essa grave ameaça aos elefantes na Costa do Marfim, pedindo que sejam feitos mais esforços para proteger essa ameaçada espécie.

Link para o artigo original.

Junte-se à nossa campanha "Cada Presa Custa uma Vida" e a compartilhe massivamente. É preciso acabar com o comércio de marfim o mais urgente possível, no mundo todo!

Uma das ilustrações criadas pela artista Asher Jay para a campanha
Cada Presa Custa uma Vida (2013)

Tradução, revisão e edição: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Vinte e seis elefantes africanos da floresta massacrados na África Central

Por: BBC NEWS - Ciência e Meio Ambiente
10 de maio de 2013




Homens armados com rifles Kalashnikov massacraram 26 elefantes no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana, afirmam conservacionistas.


A WWF reportou o número de carcaças, citando suas fontes na região.


A preocupação com o que estava ocorrendo no parque surgiu no início desta semana, quando afirmou-se que caçadores ilegais de marfim estariam usando as plataformas de observação de cientistas para atirarem nos animais.


Os elefantes se reúnem frequentemente em Dzanga Bai, uma grande clareira, para beberem.


Desde os tiros, nenhum elefante foi visto na área, reporta a WWF. 


O Parque Dzanga-Ndoki, considerado Patrimônio da Humaninade, é localizado na ponta sudoeste da República Centro-Africana (RCA, ou CAR, por sua sigla em Inglês), fazendo fornteira com Camarões e a República do Congo.


É descrito como um habitat único para os elefantes da floresta, em particular. 


A RCA tem testemunhado níveis crescentes de violência desde o início do ano, e grupos conservacionistas como a WWF retiraram suas equipes da área da clareira Dzanga Bai, por razões de segurança.


Na segunda-feira, o grupo conservacionista soltou um alerta de que 17 indivíduos armados, alguns com rifles de alto calibre, haviam entrado no parque e se dirigiam para a clareira Bai, conhecida localmente como a "aldeia dos elefantes".


Quando os homens armados saíram, Dzanga Bai parecia um "necrotério de elefantes", disse a WWF.


Jim Leape, Diretor Geral Internacional da WWF, acrescentou: "A República Centro-Africana precisa agir imediatamente para proteger esse Patrimônio da Humaninade”.


"A violência brutal a que estamos testemunhando em Dzanga Bai ameaça destruir um dos maiores tesouros naturais, e coloca em risco o futuro das pessoas que vivem aqui.


"A comunidade internacional precisa agir para ajudar a República Centro Africana a reestabelecer a paz e a ordem neste país, para defender sua popoulação e seu patrimônio natural.


Caçadores sudaneses de marfim foram responsabilizados pela matança.


Leia mais: "O Novo Ouro Branco e a Extinção dos Elefantes Africanos", no Blog do Planeta, da Revista Época.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos

Alimentada pelo aumento da demanda por marfim, a grande matança de elefantes africanos chegou a um nível monumental. Em uma entrevista com a Yale Environment 360, o repórter do New York Times Jeffrey Gettleman discute a sua investigação a fundo sobre o fatal comércio do marfim, que envolve o apoio das forças militares americanas em várias nações africanas.

Por Christina M. Russo, Yale Environment 360

Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.

Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano. 

 
Gettleman, que recebeu o prêmio Pulitzer 2012 de Jornalismo Internacional, também discutiu sobre como grupos infames – incluindo o Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army – LRA); o janjaweed, em Darfur; e o grupo islamita Shabab – participam da caça ilegal de elefantes.

Jeffrey Gettleman
Gettleman observa que a atual dizimação de manadas de elefantes é emblemática, que deriva de um problema ainda maior que assola o povo africano e seu patrimônio natural, que um dia foi tão rico: a omissão do Estado. “É por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central”, ele diz, “porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há áreas enormes completamente sem lei”.

Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?

Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.

O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.

Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.


e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?

Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.

(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim. 


Elefantes massacrados por causa de suas presas de marfim no Parque Nacional de  Bouba Ndjida, em Camarões, em Fevereiro de 2012. Conforme o preço do marfim sobe, dezenas de milhares de elefantes Africanos estão sendo mortos anualmente por causa de suas presas. (AFP/Getty Images)

e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?

Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.

E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.

e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?

Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.

Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam  usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando? 



Guardas florestais inspecionam um Elefante Africano da Floresta morto por caçadores no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana. (Foto: TRAFFIC/Martin Harvey/WWF-Canon)

e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?

Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.

Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.

Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.


Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.

e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?

Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.



Funcionária do grupo de conservação Traffic inspeciona marfim apreendido na Malásia. O mercado global de marfim é fortemente impulsionado pela demanda da China e de várias outras nações asiáticas. (Foto: TRAFFIC)

e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?

Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.

e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?

Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais.  Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.

Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro. 


Um elefante morto por causa de seu marfim, no Chade. (Foto: SOS Elephants of Chad/Stephanie Verignault)

Link para o artigo original.

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terça-feira, 24 de abril de 2012

Conhecendo Mr. Nick

Machos mais velhos são vitais para a sobrevivência e a saúde funcional das populações de elefantes, e tanto a caça por troféus como a caça por marfim podem causar sérios danos por décadas.

Por: Joyce Poole, ElephantVoices (11 de fevereiro de 2008)

Mr. Nick, ou M86 (Male 86, ou Macho 86), foi assim chamado pela enorme quantidade de falhas e pequenos cortes em suas orelhas. Ele tem o que chamamos de orelhas ”serrilhadas”. De fato, suas orelhas são tão serrilhadas quanto seria possível.

 Mr. Nick no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia (© Petter Granli/ElephantVoices)

Nomeei Mr. Nick em 1976, quando ambos tínhamos 20 anos de idade - éramos jovens, nós dois. Eu já era crescida, estava ainda na universidade, e havia apenas começado a estudar machos que estavam em período de alto apetite sexual (“musth”). Ele havia deixado sua família alguns anos antes e, embora fosse maior e mais alto do que todas as fêmeas adultas, ele era insignificante, comparado aos outros machos.

Envelhecemos juntos, apesar de que Mr. Nick, aos 52, ainda estava no ápice de sua fase reprodutiva, enquanto que eu, não mais. O Parque Nacional do Amboseli é um dos poucos locais onde você ainda pode ver machos mais velhos e Mr. Nick tem tido sorte por viver tantos anos.

Elefantes machos chegam a seu ápice reprodutivo entre 45 e 50 anos de idade, mas, se são poucos os que vivem o suficiente para procriar, menos ainda são os que conseguem atingir esse ápice. A expectativa de vida de elefantes machos no Parque Amboseli é de apenas 24 anos. Se desconsiderarmos a morte causada por pessoas, sua expectativa de vida sobe para 39 anos. Você deve estar surpreso de saber que num local seguro como o Amboseli as pessoas têm tanta influência na sobrevivência dos elefantes. 

Nos outros locais, o impacto na mortalidade dos elefantes é ainda maior, especialmente em áreas onde o conflito humanos-elefantes é intenso, onde há caça ilegal por marfim, ou onde a caça por troféus é permitida.

As presas de um macho de 50 anos são sete vezes mais pesadas que as de uma fêmea da mesma idade, e, assim, tanto os caçadores ilegais em busca de marfim como os caçadores por esporte os têm como alvo. Os caçadores por marfim costumavam argumentar que os elefantes mais idosos estavam “muito velhos para se reproduzir” e que, portanto, eram dispensáveis, mas meu trabalho anterior com elefantes em seu ápice reprodutivo e em acasalamentos bem sucedidos derrubaram esse argumento. E, num estudo genético recente de paternidade, mostramos que 80% dos filhotes são filhos de machos mais velhos em seu ápice de apetite sexual (“musth”).

Estudos científicos de longo prazo, como aquele levado a cabo no Amboseli, são importantes porque proveem argumentos essenciais para a conservação e a gestão de elefantes. Machos mais velhos são vitais para a sobrevivência e a saúde funcional das populações de elefantes, e tanto a caça por troféus como a caça por marfim podem causar sérios danos por décadas.

 Mr. Nick no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia (© Petter Granli/ElephantVoices)

Leia o texto original em Inglês, no website da ElephantVoices

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O massacre de 500 elefantes na República dos Camarões e a guerrilha africana

Não poderia ser pior a situação dos  elefantes no Bouba Ndjida National Park, em Camarões. Os animais, já ameaçados, estão sendo massacrados por caçadores em busca de marfim. Muitos filhotes de elefantes órfãos foram avistados e correm o risco de morrer de sede e fome.

Com o dinheiro resultante da venda do marfim nos mercados asiático e europeu, armas são compradas para abastecer os conflitos regionais que acontecem, particularmente, no Sudão e na república Centro-Africana. Camarões possui uma fronteira muito permeável com o Chade, e é através dele que os rebeldes armados do Sudão e da República Centro-Africana avançam em gangues, montados à cavalo, à procura de elefantes.

Desde janeiro deste ano, aproximadamente 500 elefantes foram vítimas desse comércio ilegal. De acordo com oficiais da República Centro-Africana, uma repressão massiva foi lançada sobre os furtivos caçadores. Quantos elefantes ainda estarão em sua mira até que os governos coloquem um fim ao comércio de marfim? 

A CNN entrevista o Diretor do Santuário de Elefantes do Tennesse
Rob Atkinson, sobre a matança de elefantes na África, causada 
pelo consumo de marfim, e o que deve ser feito a esse respeito.

O mercado de marfim e a população mundial de elefantes

Em 20 de julho de 2011 o governo do Quênia queimou, no Tsavo West National Park, em uma importante cerimônia, aproximadamente 5 toneladas de marfim contrabandeado apreendido, originárias principalmente no Malawi e na Zambia. Foi a quarta queima de marfim desse gênero (duas já haviam sido feitas no Kenya - 1898 e 1991 - e uma na Zambia - 1992). Em 2010, na CoP 15 da  Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Flora e da Fauna (CITES), em Doha, Qatar, a ElephantVoices estava entre as organizações que se opunham fortemente a qualquer comércio de marfim - numa importante vitória dos elefantes, a CITES votou contra a requisição da Tanzania e da Zambia de vender seus estoques de marfim.

A ElephantVoices parte do fundamento de que o mercado global potencial para o marfim é, de longe, muito maior do que toda a população de elefantes do mundo seria capaz de suprir. Qualquer mercado para o marfim estimula o aumento da demanda e, consequentemente, o mercado ilegal e a matança de elefantes. As vendas de estoques de marfim realizadas em 2007 pela África do Sul, Botswana, Namibia e Zimbábue para a China e o Japão, a depeito de um caloroso debate, apenas estimularam a demanda, o desenvolvimento de novas rotas de caça e as manufaturas de artefatos de marfim, com consequências devastadoras para os elefantes africanos nos anos subsequentes.

A ElephantVoices solicita que os governos e as instituições às quais compete a  aplicação da lei, no mundo todo, ajam com firmeza na contenção da escalada do mercado de marfim, do contrabando e da matança ilegal dos elefantes. E esperamos que a queima simbólica de marfim do dia 20 de julho de 2011 inspire pessoas e países a trabalharem juntos pela proteção dos elefantes. 




Saiba mais sobre o mercado de marfim e compartilhe as informações com seus amigos, colegas, imprensa. Ajude a colocar um fim ao mercado de marfim. Os elefantes precisam desesperadamente de ajuda.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Elefantes têm Vida Longa

Elefantes são mamíferos que crescem devagar e vivem cerca de 70 anos, na natureza. A longevidade de um indivíduo e seu sucesso reprodutivo caminham juntos. Fêmeas mais velhas têm mais êxito em criar seus filhotes do que as fêmeas mais jovens, e machos mais velhos são os reprodutores principais.

Mr. Nick, elefante do Parque Nacional do Amboseli, nascido em 1957 (©ElephantVoices)

Esses indivíduos mais velhos e mais experientes são frequentemente alvos de caçadores de marfim e daqueles que praticam a caça esportiva, por causa de suas presas, que são geralmente maiores, e a perda desses indivíduos pode ter sérias consequências. Elefantes dependem de membros mais velhos para que possam adquirir conhecimento social e ecológico, assim como habilidades de liderança, e famílias inteiras e até mesmo populações podem ser prejudicadas pela perda de alguns poucos indivíduos-chave.

Fêmeas mais velhas são repositórios de conhecimento social

Ao longo de sua vida, o elefante precisa se adaptar constantemente a flutuações ambientais e a mudanças no seu mundo social. A aquisição e retenção de conhecimento ao longo da vida parece ser essencial para a sobrevivência de um indivíduo e para seu sucesso reprodutivo, assim como para o desenvolvimento da complexidade social e da comunicação do elefante. A longevidade também proporciona um ambiente que permite o desenvolvimento de fortes laços entre indivíduos de uma família.

Elefantes fêmeas passam suas vidas cercadas de outras famílias e são envolvidas em vários níveis de relacionamentos competitivos e colaborativos. Durante suas longas vidas, elefantes percorrem grandes distâncias, comem uma enorme variedade de plantas, interagem com um vasto número de outros elefantes e ganham muitas experiências valiosas. O avanço da idade entre as fêmeas está associado a um aumento de conhecimento social e ecológico e a habilidades discriminatórias. Fêmeas idosas mantêm seu lugar como líderes ou matriarcas de sua família na estrutura social feminina. Assim, fêmeas mais velhas são repositórios de conhecimento social e ecológico, influindo na sobrevivência e no sucesso de suas famílias.

Grace, matriarca do Parque Nacional do Amboseli, no Quênia, nascida em 1950 (©ElephantVoices)

Elefantes parecem confiar no melhor discernimento das fêmeas mais velhas: filhotes de fêmeas jovens passam um tempo significativo na companhia de suas avós; membros da família correm para as fêmeas mais idosas, em caso de perigo real; e grupos liderados por jovens matriarcas procuram se associar a famílias com líderes mais velhas.

Uma vida longa e uma maturação lenta estão correlacionadas e são como que pré-condições necessárias ao desenvolvimento da complexidade social e de um cérebro grande. Com um grande e complexo cérebro e uma boa memória, experiências aprendidas e complexidade social se multiplicam durante a longa vida dos elefantes. Fêmeas idosas, com um maior conhecimento social e ecológico, têm papéis sociais diferentes das fêmeas mais jovens. O aprendizado que sustenta a transmissão de tradições culturais ocorre no contexto de sucessivas gerações de animais que passam a maior parte de seu tempo juntos.

A longevidade é a chave do sucesso reprodutivo

O sucesso reprodutivo está diretamente relacionado à longevidade. Machos chegam ao auge da reprodução entre 40 e 55 anos de idade e continuam sexualmente ativos aos 60 anos, tendo o mesmo número de filhotes de um macho de 40 anos de idade.

Machos precisam de tamanho, força e experiência para acasalar com sucesso. A cópula é bastante complicada para os machos, e montar a fêmea é uma atividade que requer experiência. Um macho deve aprender a técnica apropriada, para poder manipular um pênis comprido, curvo e móvel. O trato reprodutivo da fêmea também é longo e curvo, e um macho precisa primeiramente montar a fêmea e depois posicionar seu pênis corretamente enquanto a fêmea se mantém imóvel. Fêmeas preferem machos mais velhos e frequentemente recusam os mais jovens. Além disso, machos jovens têm pênis bem mais curtos, e o tamanho do pênis é provavelmente um impedimento a mais para que esses machos consigam fecundar as fêmeas com sucesso.

Adicionalmente, o posto ocupado por machos que não se encontram no cio é determinado por força e tamanho. Um macho de 15 anos pesa a metade de um macho de 40. Machos grandes frequentemente desbancam os jovens quando estão competindo por uma fêmea no cio. Se um macho jovem tem a sorte de montar uma fêmea, provavelmente ele será forçado a desmontar ou será empurrado! Machos no cio ocupam um posto superior a todos os que não estão e, por esta razão, conseguem um número maior de acasalamentos. Machos jovens precisam equilibrar a energia  para o seu crescimento com os recursos necessários para sustentar períodos de cio. Machos mais velhos têm a vantagem de não estarem crescendo tanto como os jovens e, portanto, podem direcionar mais energia em períodos de cio mais longos. Machos jovens são desbancados pelos mais velhos. Eles têm menos e menores períodos de cio, e tais períodos acontecem em épocas em que poucas fêmeas entram no cio.

Machos só começam a reproduzir regularmente aos 40 anos, idade em que 75% dos machos já morreram. A idade avançada está associada a corpos mais avantajados, maior massa corporal e experiência. Machos mais velhos no cio são pais de três quartos dos filhotes. A longevidade dá suporte tanto à manutenção da estratégia do cio quanto ao completo sucesso reprodutivo dos machos.

Machos que chegam a uma idade avançada ocupam um posto muito superior ao de outros e, quando no cio, geram muitos filhotes e passam seus genes para gerações futuras. Dionysus, por exemplo, foi um macho de Amboseli que morreu aos 63 anos de idade. Ele era incomum porque foi um dos poucos machos a escapar da matança epidêmica dos anos 1970, que abasteceu, na época, o mercado de marfim.  Ele foi um dos maiores machos e ocupou um alto posto na população dos elefantes de Amboseli por quase 30 anos. Quando Dionysus morreu, em 2003, estimou-se que 51 filhotes tinham sido gerados por ele.

Dionysus logo antes de morrer, em 2003, aos 63 anos (©ElephantVoices)

Bad Bull foi outro macho com alto sucesso reprodutivo, devido, em parte, à sua longevidade. Ele foi visto pela última vez no cio em 2002, aos 63 anos, e supõe-se que tenha gerado cerca de 62 filhotes. Aristotle teve menos sorte. Embora da mesma idade de Dionysus e Bad Bull, ele morreu mais cedo, aos 49 anos, e gerou 27 filhotes. A maioria dos machos não vive o suficiente para gerar um único filhote.

Saiba mais sobre a vida dos elefantes aqui.







quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Identificando Elefantes Africanos


Os elefantes são muito diferentes entre si e com um pouco de conhecimento, prática e observação, não é difícil identificá-los.

Além da sexagem, a determinação da idade e as características do corpo também estão entre os oito módulos que a ElephantVoices disponibilizou para explicar como observar e entender as características de cada elefante, também utilizados no banco de dados  “Mara Elephants Who’s Who”, do projeto de conservação Elephant Partners.

 

Determinação da idade

O trabalho pode ser facilitado se conseguirmos dividir os elefantes em categorias referentes ao tamanho, determinadas de acordo com a idade aproximada. As categorias que usamos são: novos (0-4
anos), juvenis (5-9 anos), pequenos adultos (10-19 anos), médios adultos (20-34 anos) e grandes adultos (35 anos ou mais). Colocar elefantes em categorias de tamanho requer prática, por isso não
recomendamos que essa característica seja usada para identificá-los, até que você tenha adquirido uma certa experiência.

É bom lembrar que um macho adulto cresce o suficiente para atingir o dobro do tamanho de uma fêmea adulta. Portanto, o tamanho é relativo, quando julgamos um pequeno, um médio ou um grande adulto – sempre dependerá do sexo do animal considerado.

Usamos o termo “infante” para designar um elefante novo com menos de um ano de idade. Ele normalmente não possui presas e é suficientemente pequeno para andar embaixo do abdômen da mãe. É necessário recorrer à genitália para sexar infantes.

As características do corpo

Assim como os humanos, alguns elefantes são longos e esguios, enquanto outros são pequenos e curvos. De fato, é possível utilizar a forma do corpo para identificar elefantes, uma vez que você já tenha alguma experiência.

Elefantes das mais diversas populações (como a da Reserva de Maasai Mara) carregam velhos abscessos decorrentes de feridas de lanças e flechas utilizadas por caçadores e que, hoje em dia, se parecem com um inchaço ou um caroço e são muito úteis na identificação de marcas. Outros aparentam estar fisicamente limitados – mancando ou com outros tipos de deficiência.

É importante sempre considerar a presença/ausência das presas e se há algum tipo de dano às mesmas. A tromba também pode ser um bom indicador de conflitos com humanos e, consequentemente, ser um caráter de diferenciação entre os indivíduos.

Saiba mais sobre a identificação de elefantes africanos.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Sexagem de Elefantes Africanos


Identificar elefantes não é difícil, porém exige prática e um bom poder de observação. Há muitas características que podem ser utilizadas para a identificação: sexo, tamanho e forma do corpo, comprimento e configuração das presas, tamanho e formato das orelhas, padrão de venação das orelhas, cortes, lágrimas e orifícios nas orelhas. A ElephantVoices disponibilizou oito módulos educacionais explicando como observar e entender essas características, também utilizados no banco de dados  “Mara Elephants Who’s Who”, do projeto de conservação Elephant Partners.


 Observando a forma do corpo, formato das orelhas, espessura das presas e na genitália. 
Da esquerda para a direita: um macho adulto, uma fêmea adulta e uma fêmea jovem (©ElephantVoices)

É recomendado que foquemos principalmente no tamanho e forma do corpo e da cabeça, na espessura das presas e na genitália. Os machos são maiores e tendem a permanecer com a cabeça ereta acima dos ombros, enquanto as fêmeas são menores e tendem a deixar suas cabeças abaixo da linha dos ombros.

Fêmeas tendem a deixar suas cabeças abaixo da linha dos ombros 
e seus abdomens são mais curvados (©ElephantVoices)

Aprenda mais sobre sexagem de elefantes africanos aqui. 
  
Tradução de Tiago Esteves Carvalhaes.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Inteligência dos Elefantes

Uma família investiga ossos de elefante (C) ElephantVoices

A fabricação e a utilização de ferramentas, a compreensão da morte, a empatia e sua memória notável.

Por ElephantVoices – tradução livre de Andrea Schmidt.

Os elefantes estão entre os animais não humanos mais inteligentes e complexos, tanto do ponto de vista emocional como social. Como regra, podemos ver que as espécies que possuem os maiores cérebros têm um melhor desenvolvimento do córtex cerebral e uma melhor capacidade de aprendizagem, além da habilidade de reter informações por mais tempo. Décadas de estudos compõem uma literatura com pesquisas e acompanhamentos científicos sobre a inteligência e as habilidades cognitivas desses animais.

Família explorando a Reserva de Kitirua, no Kenya (C) JuniaMachado/ElephantVoices

Os elefantes possuem uma memória notável, acumulando conhecimentos sociais e ecológicos, lembrando-se de aromas e vozes de outros indivíduos, rotas migratórias, lugares especiais e habilidades aprendidas. Há alguns relatos de histórias reais de elefantes que se lembraram de pessoas com quem tinham tido uma relação social e que não viam há anos. Joyce Poole tem sua própria experiência sobre a extraordinária memória desses gigantes da natureza. Em meados de 1980, ela estabeleceu uma relação especial com um jovem macho chamado Vladimir. Quando parava seu carro e o chamava, ele vinha até sua janela, deixando que ela tocasse sua tromba e suas presas. Por cinco anos, interagiram dessa forma provavelmente oito ou dez vezes. Depois de 1991, ficaram 12 anos sem se ver. Quando ela se encontrou novamente com ele, em maio de 2003, ele já era um adulto de 34 anos, e foi difícil para ela reconhecê-lo. Mas algo na maneira pela qual ele se movimentava lhe disse que era seu velho amigo. Parou o carro (um carro que era novo para ele) e o chamou. Ele deixou seu caminho, caminhou em direção a ela, rodeou o carro, foi até sua janela e deixou que ela tocasse sua tromba e suas presas, como fazia 12 anos atrás.

A memória dos elefantes é ainda melhor quando se trata de sua própria espécie. Carol Buckley relata um caso em que duas elefantas – Shirley (53 anos) e Jenny (30 anos) – que haviam trabalhado juntas em um circo foram reunidas no Santuário de Elefantes do Tennessee, após 23 anos separadas. A saudação exuberante de ambas, quando foram reunidas, foi a primeira indicação de que já se conheciam. A partir de então, Shirley, que tinha 30 anos quando foi separada de Jenny, ainda um bebê, começou a se comportar de modo maternal. Sempre que Jenny se deitava, Shirley ficava a seu lado, fazendo sombra com seu corpo para protegê-la do sol e se tornando uma barreira contra algum perigo. Seu relacionamento no santuário mostrava claramente que não só se lembravam uma da outra, como também do relacionamento especial de adulto e bebê que haviam experimentado no passado.

Mãe ajuda seu filhote, que estava atolado em uma poça de lama (©ElephantVoices)
A complexidade social dos elefantes decorre, em parte, dessa capacidade que promove o desenvolvimento de múltiplas camadas de relações sociais. Estudos com “playback" realizados no Parque Nacional do Amboseli fornecem boas evidências para a grande rede e a memória social dos elefantes. Quando estão a uma longa distância, sem contato visual, os elefantes usam chamados de sons para se comunicar, e Karen McComb e outros pesquisadores descobriram que fêmeas de elefantes são capazes de se lembrar dos chamados de sons das fêmeas que fazem parte da família e do grupo e distingui-los dos sons das fêmeas que não fazem parte de seu grupo social, reconhecendo também chamados de grupos de famílias mais distantes, dependendo da frequência.

Dados importantes também foram descobertos em Amboseli com famílias lideradas por jovens matriarcas que procuravam por grupos familiares liderados por matriarcas mais velhas, provando a inteligência delas ao reconhecer que indivíduos mais velhos possuem um amplo conhecimento sobre diversos recursos, como a localização de áreas e regiões com alimentos sazonalmente disponíveis. Além disso, devido ao conhecimento ecológico e social adquirido com o aumento da idade, as fêmeas mais velhas têm maior sucesso reprodutivo do que as fêmeas mais jovens. Tais comportamentos podem ser de muita importância para momentos de dificuldades, diminuindo assim o índice de mortalidade no grupo.

Jovem fêmea utilizando um graveto para se coçar (©ElephantVoices)

Ainda podemos dizer que os elefantes utilizam e até mesmo fabricam ferramentas simples, conseguindo também manipular e modificar objetos de pequeno e grande porte. Comportamento interessante, visto que muitos pensam ser este um procedimento exclusivo de primatas. Não poderíamos deixar de falar então de outro comportamento muito complexo, relacionado a empatia. Comportamentos empáticos são comumente observados entre os elefantes, incluindo a formação de coalizões para ajudar outros indivíduos que precisam de auxílio; a proteção aos elefantes jovens ou feridos (ou até mesmo a outras espécies); o conforto aos indivíduos angustiados; o cuidado de filhotes que estão separados de suas mães; a recuperação de filhotes que estão separados de sua família natal; a ajuda a indivíduos que caíram, precisam de assistência física ou estão imobilizados; e a remoção de objetos estranhos de um elefante.

Uma discussão sobre a inteligência dos elefantes seria incompleta se não mencionasse sua compreensão sobre a morte. Os elefantes demonstram variadas reações à morte de amigos e familiares, e reagem até mesmo a carcaças encontradas no caminho.

Saiba ainda mais sobre a inteligência dos elefantes, acessando o texto completo original da ElephantVoices.