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quinta-feira, 15 de maio de 2014

Caçadores Massacram Dúzias de Elefantes em Importante Parque Africano

O Garamba National Park está sob ataque de caçadores, possivelmente do grupo terrorista Lord's Resistance Army.

Por Bryan Christy
Publicado em 13 de maio de 2014

Patrulheiros anti-caça protegem a vida selvagem no Garamba National Park,
na República Democrática do Congo
(Fotografia de Frans Lanting, National Geographic Creative)

Um dos mais antigos parques nacionais da África anunciou nesta terça-feira que tem sido atingido por uma onda incomum de ataques por caçadores de elefantes armados. Dúzias de carcaças foram encontradas e três suspeitos foram mortos.

Garamba National Park, um parque remoto de quase 500 mil hectares na República Democrática do Congo, soltou um alerta urgente na terça-feira, de que tem sido atacado por caçadores vindos de uma área conhecida por abrigar o grupo terrorista Lord's Resistance Army.

De acordo com o African Parks Network (APN), ONG que gerencia o Garamba, em acordo com o Instituto Congolês de Conservação da Natureza, 33 carcaças de elefantes foram descobertas até agora. A maior parte parece ser de elefantes mortos em abril, mas dez carcaças foram descobertas na sexta-feira, com as presas removidas.

A caça ilegal na África Central, a região mais instável do continente, tem sido a fonte do marfim que deixa o continente através de seus principais portos, incluindo os do Quênia, da Tanzania e do Togo.

A APN afirma que durante o final de semana suas equipes anticaça conseguiram capturar um grupo de oito caçadores, dos quais três foram mortos. Um segundo grupo de caçadores escapou. Os esforços anticaça prosseguem.

Pode-se se dizer que os ataques no Garamba adquiriram um perverso caráter sazonal. Este ataque vem exatamente dois anos depois de outro ataque significativo no Garamba, que deixou duas dúzias de elefantes mortos, e de outro incidente atribuído ao Lord's Resistance Army no ano passado.

Buracos à bala no topo das cabeças dos elefantes durante o incidente de 2012 indicaram que os animais tinham sido atingidos do ar, reforçando alegações de que eles foram mortos pelos helicópteros militares de Uganda.  

Em 2009, um ataque do LRA no Garamba deixou pelo menos oito pessoas mortas.

O Rio Garamba segue seu curso através dos pastos do
Garamba National Park (Fotografia de Nigel Pavitt, John Warburton-Lee Photography/Corbis)
Possíveis links terroristas

Em seu comunicado distribuído hoje, o chefe executivo da APN, Peter Fearnhead, escreveu: “Embora não possamos confirmar a fonte do perigo, temos razões para acreditar que a principal pressão de caça ilegal emana de uma área de densa floresta a oeste do parque - um setor de caça chamado Azande Domaine de Chasse. Azande tem sido uma base tradicional para o Lord's Resistance Army (LRA) por muitos anos, mas ainda não podemos confirmar se os ataques atuais de caça vêm do LRA, de gangues de caça sudanesas, de caçadores locais congoleses, ou de uma combinação deles. O nível extremamente elevado de caça ilegal sugere um grupo organizado ou grupos de caçadores focando seus esforços no Garamba."

Garamba é o lar de cerca de 2 mil a 3 mil elefantes, uma das maiores populações de elefantes remanescentes na África Central.  É também o lar de muitas outras espécies, incluindo hipopótamos, leões e búfalos. O parque fica na borda do Sudão do Sul, de onde grupos de caçadores armados têm aterrorizado os países vizinhos.

Saiba mais: assista à videorreportagem de Bryan Christy para a Getty Images, Marfim de Deus, e conheça as raízes e os bastidores do comércio internacional de marfim e seus efeitos sobre as populações de elefantes.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Elefantes são extraordinários

Tolstoy. (©ElephantVoices)

- Elefantes têm vida muito longa e exibem um alto grau de complexidade social. Sua rede social é excepcionalmente grande, irradiando-se a partir de sua família de sangue e abrangendo grupos, clãs, machos adultos independentes e até mesmo estranhos, com os quais formam laços. As relações sociais cooperativas, próximas e duradouras, que funcionam entre indivíduos e famílias dentro dessa sociedade fluida e de muitas camadas são raras no reino animal.

- Elefantes têm cérebros muito grandes e complexos. Com uma média de 4,8kg, o cérebro do elefante é o maior entre os mamíferos terrestres vivos ou extintos. Elefantes têm o maior volume de córtex cerebral disponível para o processo cognitivo, entre todos os mamíferos terrestres. O neocórtex , que em humanos é o local da função cognitiva melhorada,  como memória ativa, planejamento, orientação espacial, fala e linguagem, é grande e muito torcido.

- Elefantes têm uma memória excepcionalmente boa. Eles acumulam e retêm conhecimentos ecológicos e sociais, lembrando-se dos cheiros e das vozes de muitos outros indivíduos e lugares por décadas.


- Elefantes são capazes de fazer discriminações sutis entre predadores, até mesmo entre diferentes grupos de pessoas, mostrando que eles compreendem os diferentes níveis de ameaça que cada um apresenta.

- O comportamento dos elefantes, tanto na natureza quanto em cativeiro, sugere que eles são capazes de usar suas memórias de longo prazo para “contar pontos” e extrair vingança por erros cometidos.




- Elefantes conseguem diferenciar as ossadas de elefantes das de outros animais e respondem às ossadas de elefantes com uma contemplação especial.

- Seu desenvolvimento inclui aprendizagem social e inovação comportamental, manifestadas no uso e na modificação de ferramentas rudimentares e no aprendizado vocal.

- O autorreconhecimento no espelho sugere que elefantes têm consciência própria, e numerosas observações de empatia e outros comportamentos sugerem que os elefantes têm uma rudimentar teoria da mente (habilidade de atribuir estados mentais – crenças, desejos, intenções, conhecimentos etc. – para si próprios e para os outros e entender que os outros têm crenças, desejos e intenções diferentes dos seus).

- Elefantes são renomados por sua memória, inteligência e sociabilidade, e, assim como nos humanos, esses traços os tornam particularmente vulneráveis ao estresse e ao trauma e a  consequências psicológicas de longo prazo.

- Elefantes produzem uma ampla variedade de vocalizações, muitas contendo frequências abaixo da audição humana. Elefantes utilizam alguns desses chamados de baixa frequência para se comunicarem com outros elefantes através de longas distâncias.



"Elefantes podem usar suas habilidades de aprendizagem para desenvolverem vocalizações similares às de membros do grupo," afirma Joyce Poole, líder do estudo do Projeto de Pesquisa dos Elefantes do Amboseli, no Quênia. Leia reportagem da BBC.
 
- Elefantes também conseguem detectar a vocalização de outros companheiros sismicamente. Quando um elefante vocaliza, uma réplica exata desse sinal se propaga separadamente no solo. Elefantes são capazes de discriminar entre essas vocalizações através de seus sensíveis pés. Eles podem detectar tremores terrestres, trovões e batidas dos pés de animais distantes, da mesma maneira.

- Elefantes têm um extraordinário olfato, que dizem ser mais discriminatório do que o de um cão de caça.

- Enquanto muitas outras espécies podem rivalizar com os elefantes em uma capacidade ou outra, há apenas algumas que se igualam ou superam os elefantes na totalidade de sua complexidade social e comportamental.

- Elefantes são espécies fundamentais – eles têm um papel central na estrutura de comunidades animais e vegetais, contribuindo para a biodiversidade através da dispersão de sementes e da criação de mosaicos de habitats (áreas com múltiplos tipos de habitats, muito importantes para a criação e a manutenção da biodiversidade). 


- Eles são espécies -símbolo – em outras palavras, sendo os elefantes “megavertebrados tão carismáticos”, isso faz deles o símbolo da necessidade da conservação da vida selvagem e da natureza.


Encontro de mentes, elefante - homem. (©ElephantVoices)
- Elefantes são colaboradores significativos da receita em turismo em muitos países da África e da Ásia. Eles são parte substancial da nossa herança cultural e histórica e nos dão prazer de contemplação.

- Elefantes são valiosos por seus próprios méritos!


 Acesse aqui o texto original em inglês.

Tradução, revisão e edição: Laura Loureiro, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Uma Caminhada pela Vida Selvagem e Pelo Fim do Comércio de Marfim


Jim Nyamu, do Elephant Neighbours Centre, no Quênia, caminhou entra sexta-feira e sábado de Mombasa a Nairobi, por 490 km, num apelo global a todas as pessoas no mundo todo que se preocupam com elefantes e conservação. 



Na foto, sua chegada a Nairobi e o banner da campanha CADA PRESA CUSTA UMA VIDA - NÃO COMPRE MARFIM. O elefante em ideogramas chineses significa “China”. 




"
Nosso objetivo é sensibilizar os jovens sobre os valores da vida selvagem, engajá-los para que atenuem o conflito entre humanos e elefantes e conduzam um patrulhamento, a fim de mapear e reportar os incidentes de caça. A partir da perspectiva da comunidade, a caça aos elefantes na África, por seu valor, é uma caça a um tesouro social", afirmou ele.

Acompanhe e divulgue massivamente a campanha contra o comércio de marfim,  disponível neste link.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ou a venda de marfim para agora ou os elefantes da África estarão extintos em breve, diz Jane Goodall

Obrigado, Jane Goodall, por levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes. Obrigado por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada.

A conservacionista acusa a China de insuflar a caça ilegal, enquanto presas são contrabandeadas em malas diplomáticas.

Por John Vidal - The Guardian 
Publicado em 16 de dezembro de 2012

Elefantes na Reserva de Maasai Mara, no Quênia. 
Fotografia: Anup Shah/ Anup Shah/Corbis

Jane Goodall, uma das maiores conservacionistas do mundo, fez um apelo arrebatado a favor da proibição mundial da venda de marfim, a fim de evitar a extinção do elefante Africano.

O apelo foi feito após a apreensão de 24 toneladas de marfim ilegal na Malásia, na semana passada, e um relatório de conservacionistas advertir que o comércio ilegal de marfim agora ameaça governos porque grupos rebeldes usam as presas de elefantes para financiar suas guerras.

“Uma grande tragédia está acontecendo em algumas partes da África. Isso é desesperadamente sério, sem precedentes”, disse ela. “Acreditamos que a Tanzânia tenha perdido metade de seus elefantes nos últimos três anos. Aviões militares de Uganda foram vistos na República Democrática do Congo atirando, do ar, nos elefantes. Agora, milícias armadas estão atirando nos elefantes.”

Ela acusou a China de ser essencialmente responsável, porque é para lá que a maioria do marfim vai, para ser transformado em ornamentos. “Os mercados principais são a China e o oriente. Parece que o marfim está sendo contrabandeado nas malas dos diplomatas chineses ou em aviões não registrados, ou ainda através da fronteira, para a República Democrática do Congo. Gangues armadas e guardas florestais estão se unindo no contrabando ou sendo mortos. Temo estarmos perdendo a batalha em alguns países. É chocante”, disse ela.

O aumento da presença chinesa na África está relacionado ao crescimento sem precedentes da caça ilegal. A descoberta, por oficiais alfandegários da Malásia, de 1.500 presas, na semana passada, escondidas em compartimentos secretos dentro de 10 contêineres que supostamente carregavam pisos de madeira foi a maior apreensão já vista, equivalendo a todo o marfim ilegal apreendido no ano passado.


Os contêineres estavam indo do Togo para a China, via Espanha. O Togo é o destino popular do contrabando feito por gangues armadas. Essa apreensão veio após a descoberta de 1.000 presas de marfim em Hong Kong, e de 200 presas na própria Tanzânia.

Goodall, que ficou famosa por seu trabalho como primatologista, estudando chimpanzés na África, comparou a deterioração da situação dos elefantes com o declínio drástico das populações de primatas nos últimos 40 anos. “ Estamos testemunhando a devastação de populações de elefantes em vários países. É uma  situação similar à dos grandes primatas. Todo mundo deveria estar preocupado. Estamos lutando por uma total proibição da venda do marfim.”

Ela vai fazer uma campanha, junto com David Attenborough, para persuadir a ONU a proibir a venda do marfim. “O mundo precisa acordar. Governos precisam apertar o cerco. Ninguém, em lugar nenhum, deve comprar marfim. Países têm que ser ajudados no esforço de controle da caça ilegal,” disse Goodall.

Um relatório entregue à ONU, na semana passada, pela WWF Internacional, adverte que o comércio ilegal de marfim ameaça governos, uma vez que grupos rebeldes usam a venda para financiar suas guerras. “A situação ultrapassa a questão da vida selvagem. Essa crise está ameaçando a estabilidade de governos. É uma ameaça à segurança nacional”, disse Jim Leape, diretor -geral da WWF Internacional.

Em alguns países a caça ilegal está fora de controle. No sul do Sudão, a população de elefantes, estimada em 130.000 em 1986, caiu para 5.000, disse Paul Elkan, diretor da Wildlife Conservation Society. “Com esses níveis de caça ilegal, daqui a cinco anos eles não existirão mais. Até as forças de segurança estão envolvidas no tráfico”, disse ele.

Conservacionistas acusam as autoridades da Tanzânia de não controlarem a caça ilegal e o tráfico. “Um enorme massacre de elefantes está ocorrendo na Tanzânia, agora. Está fora de controle”, disse Iain Douglas-Hamilton, conservacionista veterano. “Não há proteção para os elefantes, assim como não houve para os bisões na América, no século passado, quando foram exterminados. As pessoas então não devem se enganar.”

A Tanzânia, com 70.000 - 80.000 elefantes em 2009, tem perto de um quarto dos elefantes de toda a África. Mas Peter Msigwa, um parlamentar da Tanzânia, disse, na semana passada, que a caça ilegal está “fora de controle”, com uma média de 30 elefantes sendo mortos por dia, por causa do marfim.

“No fim do ano, são 10.000 elefantes mortos”, disse James Lembeli, dirigente da comissão dos recursos naturais da Tanzânia. “Em locais onde este país tem elefantes, há carcaças por todos os lados”, disse ele.

No Ano passado, a polícia da Tanzânia apreendeu mais de 1.000 presas de elefantes escondidas em sacos de peixe salgado, no porto de Zanzibar.
 

Em junho, a Convenção do Comércio Internacional de Espécies em Extinção (CITES) descreveu a difícil situação dos elefantes da África como “crítica” e disse que a caça ilegal atingiu o maior índice da década, com milhares de elefantes mortos por ano por causa de suas presas. 


Marfim sangrento - um massacre fora de controle

Por: ElephantVoices

Os fatos que marcaram 2012 já foram vistos antes por Joyce Poole, da ElephantVoices. É o retorno de um pesadelo. No final dos anos 80, quando os elefantes estavam sendo massacrados em uma quantidade sem precedentes, ela conduziu pesquisas sobre as populações de elefantes africanos para documentar o impacto que a caça ilegal estava causando em sua reprodução e comportamento social. Joyce ajudou a escrever a proposta que culminou na proibição do comércio internacional de marfim, em 1989. Nos 17 anos que se seguiram, ela assistiu à recuperação das populações de elefantes, tanto em termos numéricos como sociais. Isso durou até 2007, quando o organismo internacional que regulamenta o comércio de espécies ameaçadas, a CITES, permitiu a exportação de marfim por cinco países do sul da África, incluindo a China como parceiro comercial. 


Então, assistimos ao inevitável: o inferno começou a aflorar. Em 2010, expressamos nossa grave preocupação em um documento publicado na Revista Science e demos uma palestra na CoP15, em Doha, Qatar, nos posicionando contra qualquer nova venda. Na ocasião, as autoridades não concordaram com nossa preocupação. Mas agora foi diferente. Com a matança totalmente fora de controle, as Nações Unidas afirmaram recentemente que a matança de elefantes é uma ameaça à segurança global.


No ecossistema de Maasai Mara, onde trabalhamos, os elefantes estão parcialmente protegidos pela presença de turistas. Mas apenas nos primeiros três meses de 2012, 42 elefantes foram mortos ilegalmente ali.  No segundo semestre de 2012, nossa adorada “Goodness” (“Bondade”, cujo nome foi dado por Derrick Nabaala devido à sua natureza gentil) foi morta por possuir longas e assimétricas presas, deixando para trás sua jovem filha, f0361, e outros filhos (veja o álbum de fotografias de Goodness no facebook). No final de Agosto, encontramos f0361 parada sozinha sob uma árvore, desolada. Uma família de cinco membros foi reduzida a apenas um, pelo assassinato da matriarca, por causa de suas presas. A morte dos dependentes - filhotes de até 10 anos de idade - é o custo não revelado do mercado de marfim. O marfim é dentina, dente que pertence aos elefantes, não ao aparador da lareira.


Goodness, matriarca morta por possuir grandes e assimétricas presas, fotografada com sua família
no ecossistema de Maasai Mara, no Quênia (Foto: ElephantVoices)

Graças a uma combinação de vozes protestando e ao trabalho duro de muitas pessoas no mundo todo, a informação está, finalmente, sendo transmitida. O artigo “Culto ao Marfim”, da National Geographic, alarmou a opinião pública, em outubro de 2012. Em dezembro, foi a vez de Jane Goodall levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes.


A declaração de Jane chega na hora certa, enquanto muitos de nós estão se preparando para uma grande batalha na CoP 16 da CITES, em Bangcoc, em Março de 2013. Esperamos que a China perceba que é de seu interesse policiar seu crescente mercado de marfim, a indústria de entalhe e seus nocivos compatriotas na África. É hora de entrar na batalha para parar a matança dos elefantes. A China tem muito a perder e pouco a ganhar,  se não fizer isso. Apoiadores do mercado de marfim, atenção ao que está escrito na parede: “O mundo quer elefantes e não um estoque de marfim!”. Obrigado, Jane Goodall, por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada. 

Saiba mais sobre nosso trabalho na Reserva de Maasai Mara, no Quênia.


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terça-feira, 24 de abril de 2012

Conhecendo Mr. Nick

Machos mais velhos são vitais para a sobrevivência e a saúde funcional das populações de elefantes, e tanto a caça por troféus como a caça por marfim podem causar sérios danos por décadas.

Por: Joyce Poole, ElephantVoices (11 de fevereiro de 2008)

Mr. Nick, ou M86 (Male 86, ou Macho 86), foi assim chamado pela enorme quantidade de falhas e pequenos cortes em suas orelhas. Ele tem o que chamamos de orelhas ”serrilhadas”. De fato, suas orelhas são tão serrilhadas quanto seria possível.

 Mr. Nick no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia (© Petter Granli/ElephantVoices)

Nomeei Mr. Nick em 1976, quando ambos tínhamos 20 anos de idade - éramos jovens, nós dois. Eu já era crescida, estava ainda na universidade, e havia apenas começado a estudar machos que estavam em período de alto apetite sexual (“musth”). Ele havia deixado sua família alguns anos antes e, embora fosse maior e mais alto do que todas as fêmeas adultas, ele era insignificante, comparado aos outros machos.

Envelhecemos juntos, apesar de que Mr. Nick, aos 52, ainda estava no ápice de sua fase reprodutiva, enquanto que eu, não mais. O Parque Nacional do Amboseli é um dos poucos locais onde você ainda pode ver machos mais velhos e Mr. Nick tem tido sorte por viver tantos anos.

Elefantes machos chegam a seu ápice reprodutivo entre 45 e 50 anos de idade, mas, se são poucos os que vivem o suficiente para procriar, menos ainda são os que conseguem atingir esse ápice. A expectativa de vida de elefantes machos no Parque Amboseli é de apenas 24 anos. Se desconsiderarmos a morte causada por pessoas, sua expectativa de vida sobe para 39 anos. Você deve estar surpreso de saber que num local seguro como o Amboseli as pessoas têm tanta influência na sobrevivência dos elefantes. 

Nos outros locais, o impacto na mortalidade dos elefantes é ainda maior, especialmente em áreas onde o conflito humanos-elefantes é intenso, onde há caça ilegal por marfim, ou onde a caça por troféus é permitida.

As presas de um macho de 50 anos são sete vezes mais pesadas que as de uma fêmea da mesma idade, e, assim, tanto os caçadores ilegais em busca de marfim como os caçadores por esporte os têm como alvo. Os caçadores por marfim costumavam argumentar que os elefantes mais idosos estavam “muito velhos para se reproduzir” e que, portanto, eram dispensáveis, mas meu trabalho anterior com elefantes em seu ápice reprodutivo e em acasalamentos bem sucedidos derrubaram esse argumento. E, num estudo genético recente de paternidade, mostramos que 80% dos filhotes são filhos de machos mais velhos em seu ápice de apetite sexual (“musth”).

Estudos científicos de longo prazo, como aquele levado a cabo no Amboseli, são importantes porque proveem argumentos essenciais para a conservação e a gestão de elefantes. Machos mais velhos são vitais para a sobrevivência e a saúde funcional das populações de elefantes, e tanto a caça por troféus como a caça por marfim podem causar sérios danos por décadas.

 Mr. Nick no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia (© Petter Granli/ElephantVoices)

Leia o texto original em Inglês, no website da ElephantVoices

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Elefantes têm Vida Longa

Elefantes são mamíferos que crescem devagar e vivem cerca de 70 anos, na natureza. A longevidade de um indivíduo e seu sucesso reprodutivo caminham juntos. Fêmeas mais velhas têm mais êxito em criar seus filhotes do que as fêmeas mais jovens, e machos mais velhos são os reprodutores principais.

Mr. Nick, elefante do Parque Nacional do Amboseli, nascido em 1957 (©ElephantVoices)

Esses indivíduos mais velhos e mais experientes são frequentemente alvos de caçadores de marfim e daqueles que praticam a caça esportiva, por causa de suas presas, que são geralmente maiores, e a perda desses indivíduos pode ter sérias consequências. Elefantes dependem de membros mais velhos para que possam adquirir conhecimento social e ecológico, assim como habilidades de liderança, e famílias inteiras e até mesmo populações podem ser prejudicadas pela perda de alguns poucos indivíduos-chave.

Fêmeas mais velhas são repositórios de conhecimento social

Ao longo de sua vida, o elefante precisa se adaptar constantemente a flutuações ambientais e a mudanças no seu mundo social. A aquisição e retenção de conhecimento ao longo da vida parece ser essencial para a sobrevivência de um indivíduo e para seu sucesso reprodutivo, assim como para o desenvolvimento da complexidade social e da comunicação do elefante. A longevidade também proporciona um ambiente que permite o desenvolvimento de fortes laços entre indivíduos de uma família.

Elefantes fêmeas passam suas vidas cercadas de outras famílias e são envolvidas em vários níveis de relacionamentos competitivos e colaborativos. Durante suas longas vidas, elefantes percorrem grandes distâncias, comem uma enorme variedade de plantas, interagem com um vasto número de outros elefantes e ganham muitas experiências valiosas. O avanço da idade entre as fêmeas está associado a um aumento de conhecimento social e ecológico e a habilidades discriminatórias. Fêmeas idosas mantêm seu lugar como líderes ou matriarcas de sua família na estrutura social feminina. Assim, fêmeas mais velhas são repositórios de conhecimento social e ecológico, influindo na sobrevivência e no sucesso de suas famílias.

Grace, matriarca do Parque Nacional do Amboseli, no Quênia, nascida em 1950 (©ElephantVoices)

Elefantes parecem confiar no melhor discernimento das fêmeas mais velhas: filhotes de fêmeas jovens passam um tempo significativo na companhia de suas avós; membros da família correm para as fêmeas mais idosas, em caso de perigo real; e grupos liderados por jovens matriarcas procuram se associar a famílias com líderes mais velhas.

Uma vida longa e uma maturação lenta estão correlacionadas e são como que pré-condições necessárias ao desenvolvimento da complexidade social e de um cérebro grande. Com um grande e complexo cérebro e uma boa memória, experiências aprendidas e complexidade social se multiplicam durante a longa vida dos elefantes. Fêmeas idosas, com um maior conhecimento social e ecológico, têm papéis sociais diferentes das fêmeas mais jovens. O aprendizado que sustenta a transmissão de tradições culturais ocorre no contexto de sucessivas gerações de animais que passam a maior parte de seu tempo juntos.

A longevidade é a chave do sucesso reprodutivo

O sucesso reprodutivo está diretamente relacionado à longevidade. Machos chegam ao auge da reprodução entre 40 e 55 anos de idade e continuam sexualmente ativos aos 60 anos, tendo o mesmo número de filhotes de um macho de 40 anos de idade.

Machos precisam de tamanho, força e experiência para acasalar com sucesso. A cópula é bastante complicada para os machos, e montar a fêmea é uma atividade que requer experiência. Um macho deve aprender a técnica apropriada, para poder manipular um pênis comprido, curvo e móvel. O trato reprodutivo da fêmea também é longo e curvo, e um macho precisa primeiramente montar a fêmea e depois posicionar seu pênis corretamente enquanto a fêmea se mantém imóvel. Fêmeas preferem machos mais velhos e frequentemente recusam os mais jovens. Além disso, machos jovens têm pênis bem mais curtos, e o tamanho do pênis é provavelmente um impedimento a mais para que esses machos consigam fecundar as fêmeas com sucesso.

Adicionalmente, o posto ocupado por machos que não se encontram no cio é determinado por força e tamanho. Um macho de 15 anos pesa a metade de um macho de 40. Machos grandes frequentemente desbancam os jovens quando estão competindo por uma fêmea no cio. Se um macho jovem tem a sorte de montar uma fêmea, provavelmente ele será forçado a desmontar ou será empurrado! Machos no cio ocupam um posto superior a todos os que não estão e, por esta razão, conseguem um número maior de acasalamentos. Machos jovens precisam equilibrar a energia  para o seu crescimento com os recursos necessários para sustentar períodos de cio. Machos mais velhos têm a vantagem de não estarem crescendo tanto como os jovens e, portanto, podem direcionar mais energia em períodos de cio mais longos. Machos jovens são desbancados pelos mais velhos. Eles têm menos e menores períodos de cio, e tais períodos acontecem em épocas em que poucas fêmeas entram no cio.

Machos só começam a reproduzir regularmente aos 40 anos, idade em que 75% dos machos já morreram. A idade avançada está associada a corpos mais avantajados, maior massa corporal e experiência. Machos mais velhos no cio são pais de três quartos dos filhotes. A longevidade dá suporte tanto à manutenção da estratégia do cio quanto ao completo sucesso reprodutivo dos machos.

Machos que chegam a uma idade avançada ocupam um posto muito superior ao de outros e, quando no cio, geram muitos filhotes e passam seus genes para gerações futuras. Dionysus, por exemplo, foi um macho de Amboseli que morreu aos 63 anos de idade. Ele era incomum porque foi um dos poucos machos a escapar da matança epidêmica dos anos 1970, que abasteceu, na época, o mercado de marfim.  Ele foi um dos maiores machos e ocupou um alto posto na população dos elefantes de Amboseli por quase 30 anos. Quando Dionysus morreu, em 2003, estimou-se que 51 filhotes tinham sido gerados por ele.

Dionysus logo antes de morrer, em 2003, aos 63 anos (©ElephantVoices)

Bad Bull foi outro macho com alto sucesso reprodutivo, devido, em parte, à sua longevidade. Ele foi visto pela última vez no cio em 2002, aos 63 anos, e supõe-se que tenha gerado cerca de 62 filhotes. Aristotle teve menos sorte. Embora da mesma idade de Dionysus e Bad Bull, ele morreu mais cedo, aos 49 anos, e gerou 27 filhotes. A maioria dos machos não vive o suficiente para gerar um único filhote.

Saiba mais sobre a vida dos elefantes aqui.







quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Identificando Elefantes Africanos


Os elefantes são muito diferentes entre si e com um pouco de conhecimento, prática e observação, não é difícil identificá-los.

Além da sexagem, a determinação da idade e as características do corpo também estão entre os oito módulos que a ElephantVoices disponibilizou para explicar como observar e entender as características de cada elefante, também utilizados no banco de dados  “Mara Elephants Who’s Who”, do projeto de conservação Elephant Partners.

 

Determinação da idade

O trabalho pode ser facilitado se conseguirmos dividir os elefantes em categorias referentes ao tamanho, determinadas de acordo com a idade aproximada. As categorias que usamos são: novos (0-4
anos), juvenis (5-9 anos), pequenos adultos (10-19 anos), médios adultos (20-34 anos) e grandes adultos (35 anos ou mais). Colocar elefantes em categorias de tamanho requer prática, por isso não
recomendamos que essa característica seja usada para identificá-los, até que você tenha adquirido uma certa experiência.

É bom lembrar que um macho adulto cresce o suficiente para atingir o dobro do tamanho de uma fêmea adulta. Portanto, o tamanho é relativo, quando julgamos um pequeno, um médio ou um grande adulto – sempre dependerá do sexo do animal considerado.

Usamos o termo “infante” para designar um elefante novo com menos de um ano de idade. Ele normalmente não possui presas e é suficientemente pequeno para andar embaixo do abdômen da mãe. É necessário recorrer à genitália para sexar infantes.

As características do corpo

Assim como os humanos, alguns elefantes são longos e esguios, enquanto outros são pequenos e curvos. De fato, é possível utilizar a forma do corpo para identificar elefantes, uma vez que você já tenha alguma experiência.

Elefantes das mais diversas populações (como a da Reserva de Maasai Mara) carregam velhos abscessos decorrentes de feridas de lanças e flechas utilizadas por caçadores e que, hoje em dia, se parecem com um inchaço ou um caroço e são muito úteis na identificação de marcas. Outros aparentam estar fisicamente limitados – mancando ou com outros tipos de deficiência.

É importante sempre considerar a presença/ausência das presas e se há algum tipo de dano às mesmas. A tromba também pode ser um bom indicador de conflitos com humanos e, consequentemente, ser um caráter de diferenciação entre os indivíduos.

Saiba mais sobre a identificação de elefantes africanos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A Inteligência dos Elefantes

Uma família investiga ossos de elefante (C) ElephantVoices

A fabricação e a utilização de ferramentas, a compreensão da morte, a empatia e sua memória notável.

Por ElephantVoices – tradução livre de Andrea Schmidt.

Os elefantes estão entre os animais não humanos mais inteligentes e complexos, tanto do ponto de vista emocional como social. Como regra, podemos ver que as espécies que possuem os maiores cérebros têm um melhor desenvolvimento do córtex cerebral e uma melhor capacidade de aprendizagem, além da habilidade de reter informações por mais tempo. Décadas de estudos compõem uma literatura com pesquisas e acompanhamentos científicos sobre a inteligência e as habilidades cognitivas desses animais.

Família explorando a Reserva de Kitirua, no Kenya (C) JuniaMachado/ElephantVoices

Os elefantes possuem uma memória notável, acumulando conhecimentos sociais e ecológicos, lembrando-se de aromas e vozes de outros indivíduos, rotas migratórias, lugares especiais e habilidades aprendidas. Há alguns relatos de histórias reais de elefantes que se lembraram de pessoas com quem tinham tido uma relação social e que não viam há anos. Joyce Poole tem sua própria experiência sobre a extraordinária memória desses gigantes da natureza. Em meados de 1980, ela estabeleceu uma relação especial com um jovem macho chamado Vladimir. Quando parava seu carro e o chamava, ele vinha até sua janela, deixando que ela tocasse sua tromba e suas presas. Por cinco anos, interagiram dessa forma provavelmente oito ou dez vezes. Depois de 1991, ficaram 12 anos sem se ver. Quando ela se encontrou novamente com ele, em maio de 2003, ele já era um adulto de 34 anos, e foi difícil para ela reconhecê-lo. Mas algo na maneira pela qual ele se movimentava lhe disse que era seu velho amigo. Parou o carro (um carro que era novo para ele) e o chamou. Ele deixou seu caminho, caminhou em direção a ela, rodeou o carro, foi até sua janela e deixou que ela tocasse sua tromba e suas presas, como fazia 12 anos atrás.

A memória dos elefantes é ainda melhor quando se trata de sua própria espécie. Carol Buckley relata um caso em que duas elefantas – Shirley (53 anos) e Jenny (30 anos) – que haviam trabalhado juntas em um circo foram reunidas no Santuário de Elefantes do Tennessee, após 23 anos separadas. A saudação exuberante de ambas, quando foram reunidas, foi a primeira indicação de que já se conheciam. A partir de então, Shirley, que tinha 30 anos quando foi separada de Jenny, ainda um bebê, começou a se comportar de modo maternal. Sempre que Jenny se deitava, Shirley ficava a seu lado, fazendo sombra com seu corpo para protegê-la do sol e se tornando uma barreira contra algum perigo. Seu relacionamento no santuário mostrava claramente que não só se lembravam uma da outra, como também do relacionamento especial de adulto e bebê que haviam experimentado no passado.

Mãe ajuda seu filhote, que estava atolado em uma poça de lama (©ElephantVoices)
A complexidade social dos elefantes decorre, em parte, dessa capacidade que promove o desenvolvimento de múltiplas camadas de relações sociais. Estudos com “playback" realizados no Parque Nacional do Amboseli fornecem boas evidências para a grande rede e a memória social dos elefantes. Quando estão a uma longa distância, sem contato visual, os elefantes usam chamados de sons para se comunicar, e Karen McComb e outros pesquisadores descobriram que fêmeas de elefantes são capazes de se lembrar dos chamados de sons das fêmeas que fazem parte da família e do grupo e distingui-los dos sons das fêmeas que não fazem parte de seu grupo social, reconhecendo também chamados de grupos de famílias mais distantes, dependendo da frequência.

Dados importantes também foram descobertos em Amboseli com famílias lideradas por jovens matriarcas que procuravam por grupos familiares liderados por matriarcas mais velhas, provando a inteligência delas ao reconhecer que indivíduos mais velhos possuem um amplo conhecimento sobre diversos recursos, como a localização de áreas e regiões com alimentos sazonalmente disponíveis. Além disso, devido ao conhecimento ecológico e social adquirido com o aumento da idade, as fêmeas mais velhas têm maior sucesso reprodutivo do que as fêmeas mais jovens. Tais comportamentos podem ser de muita importância para momentos de dificuldades, diminuindo assim o índice de mortalidade no grupo.

Jovem fêmea utilizando um graveto para se coçar (©ElephantVoices)

Ainda podemos dizer que os elefantes utilizam e até mesmo fabricam ferramentas simples, conseguindo também manipular e modificar objetos de pequeno e grande porte. Comportamento interessante, visto que muitos pensam ser este um procedimento exclusivo de primatas. Não poderíamos deixar de falar então de outro comportamento muito complexo, relacionado a empatia. Comportamentos empáticos são comumente observados entre os elefantes, incluindo a formação de coalizões para ajudar outros indivíduos que precisam de auxílio; a proteção aos elefantes jovens ou feridos (ou até mesmo a outras espécies); o conforto aos indivíduos angustiados; o cuidado de filhotes que estão separados de suas mães; a recuperação de filhotes que estão separados de sua família natal; a ajuda a indivíduos que caíram, precisam de assistência física ou estão imobilizados; e a remoção de objetos estranhos de um elefante.

Uma discussão sobre a inteligência dos elefantes seria incompleta se não mencionasse sua compreensão sobre a morte. Os elefantes demonstram variadas reações à morte de amigos e familiares, e reagem até mesmo a carcaças encontradas no caminho.

Saiba ainda mais sobre a inteligência dos elefantes, acessando o texto completo original da ElephantVoices.