sábado, 6 de abril de 2013

O mais incrível horticultor do mundo, por Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz

Continuação de "Elefantes: os jardineiros das florestas asiáticas e africanas", publicado em 26 de Março de 2013.

Em uma entrevista, em Abril de 2011, Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz discutiram a importância de elefantes africanos e asiáticos para a dispersão de sementes tropicais, as várias ameaças que os elefantes estão enfrentando e as formas de salvar o mais incrível horticultor do mundo.

Fruta da Dilenia indica, uma iguaria para os elefantes. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Entrevista com Ahimsa Campos-Arceiz e Stephen Blake

Mongabay: Qual é sua experiência anterior?

Ahimsa Campos-Arceiz: Eu sou da Espanha, mas me mudei para a Ásia quase uma década atrás. Desde então tenho estudado grandes herbívoros asiáticos, principalmente elefantes, em Sri Lanka, mas também gazelas da Mongólia, veado sika Japonês e antas da Malásia. Depois de muitos anos com base na Universidade de Tóquio e de um curto período na Universidade Nacional de Cingapura, estou agora em Kuala Lumpur, Malásia, trabalhando no campus da Universidade de Nottingham.

Stephen Blake: Eu sou Britânico. Comecei trabalhando na Bacia do Congo, em 1990, em um orfanato de gorilas e, depois, com a Wildlife Conservation Society, em 1993. Fiz um mestrado (1993) e um doutorado (2002) na Universidade de Edimburgo – Um PhD em ecologia de elefantes africanos da floresta. Agora sou um pesquisador para o Max Planck Institute de Ornitologia, trabalhando com tartarugas de Galápagos.

Elefantes: os megajardineiros

 Leguminosas brotando das fezes de elefantes em Bago Yoma, Myanmar. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: Por que elefantes são importantes para as florestas que eles habitam?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes são importantes porque eles têm uma função única nessas florestas. Todos os animais estão envolvidos de alguma forma nos processos do ecossistema, mas os elefantes, sendo os maiores animais da floresta, estão envolvidos de formas únicas. Elefantes alteram a estrutura física da vegetação quando se alimentam, mobilizam grandes quantidades de nutrientes com suas fezes, fornecem comida e geram habitats para um grande número de vertebrados e invertebrados e, é claro, dispersam as sementes de muitas plantas que consomem, promovendo, portanto, a manutenção e a regeneração da floresta.

Stephen Blake: Lembremo-nos também de que, em uma densidade natural,  elefantes podem formar a maior parte da biomassa de mamíferos em florestas tropicais. Portanto, os elefantes usam uma grande parte da energia que flui dos animais. O tamanho de seu corpo significa que fazem coisas que outros animais simplesmente não podem fazer, como transportar sementes por distâncias maiores do que outros dispersores.

Mongabay: Qual das espécies de elefantes é a melhor dispersora de sementes?

Ahimsa Campos-Arceiz: No nosso artigo, mostramos que elefantes africanos da floresta são os melhores dispersores de sementes. eles dispersam um enorme número de sementes, de uma grande variedade de plantas, de uma forma muito eficaz (ex.: por distâncias muito grandes e melhorando sua capacidade de germinação). Elefantes africanos da savana e asiáticos também dispersam muitas sementes e podem ser extremamente importantes, mas parecem ser menos frugívoros (nós também sabemos menos sobre suas funções em dispersão de sementes).

Mongabay: Por que você acha que elefantes asiáticos dispersam menos sementes?

Ahimsa Campos-Arceiz: De certa forma, isso me surpreende. Acho que a maior diferença está nas florestas asiáticas, em vez de nos elefantes. No sudeste asiático, florestas são dominadas por dipterocarpáceas – árvores que são dispersadas pelo vento e que têm complexos ciclos supra-anuais (menos de um ciclo por ano) de frutificação em massa, conhecido como mast fruiting. Árvores que não são dipterocarpáceas constantemente seguem esses ciclos de frutificação em massa também. Para animais frugívoros, isso significa que frutas são uma fonte de comida menos abundante e confiável do que em outras florestas tropicais. Isso, provavelmente, é umas das razões que fazem os elefantes asiáticos parecerem ser menos frugívoros do que seus parentes, os elefantes africanos da floresta, apesar de, fora isso, terem muitas semelhanças em suas ecologias. De qualquer forma, elefantes asiáticos gostam muito de frutas grandes e suculentas e seria bem interessante estudar sua importância como um dispersor de sementes durante os episódios de frutificação em massa.   

Stephen Blake: Concordo: são a composição e a estrutura da floresta, não uma escolha inerente feita pelos elefantes. Elefantes africanos da savana geralmente não dispersam muitas sementes, mas coloque-os na floresta de Kibale, em Uganda, onde há acesso a frutas, e eles se tornarão formidáveis dispersores de sementes... nenhum mamífero de grande porte  que é generalista em sua dieta vai recusar uma boa alimentação de frutas, se esta estiver disponível.

Montes velhos de fezes de elefantes se tornam áreas férteis para a germinação de sementes. Foto: Stephen Blake.

Mongabay: Há evidência de que os elefantes sejam os únicos dispersores de algumas espécies?

Ahimsa Campos-Arceiz: Sim, há vários exemplos de plantas cujas sementes são dispersadas somente por elefantes. O melhor caso documentado é a relação entre a Balanites wilsoniana e o elefante africano da savana, em Uganda. Vários estudos descobriram que elefantes consomem e dispersam muitas sementes de Balanites; que nenhum outro animal dispersa essas sementes que, ao serem consumidas por elefantes, têm sua capacidade de germinação aumentada; e, ainda, que, em lugares sem elefantes, não há árvores jovens de Balanites longe de árvores adultas. Steve Blake também documentou 13 espécies que, em grande parte, dependem dos elefantes africanos da floresta para dispersarem suas sementes na floresta de Ndoki, no Congo. 

Na Ásia, não temos um caso bem documentado. Estou atualmente preparando estudos no Sri Lanka e na Malásia, observando espécies que dependem obrigatoriamente de elefantes asiáticos para sua dispersão. Definitivamente, precisamos de mais pessoas estudando a relação entre elefantes e as chamadas frutas da síndrome da megafauna (as espécies que supostamente se adaptaram para serem dispersadas pela megafauna). E, sim, isso é um chamado para os estudantes asiáticos que se interessem pelo tópico!

Stephen Blake: Humanos têm uma sobreposição considerável com as coisas relacionadas a grandes sementes. nossa estimativa de 13, no Congo, foi provavelmente muito alta, principalmente se humanos estiverem incluídos – e eles têm que estar incluídos. Para mim, o ponto principal não é saber de  quantas espécies os elefantes são os únicos dispersores, mas o impacto cumulativo da dispersão por elefantes... é claro que a diminuição da quantidade de algumas árvores por causa do desaparecimento de elefantes é prejudicial, mas, se a Balanites for extinta, é improvável que isso tenha um grande impacto no ecossistema da floresta. Entretanto, o fato de elefantes se tornarem extintos significa que o equilíbrio competitivo de muitas e muitas espécies – indiscutivelmente mais de 100, na África Central – favorecerá aquelas que têm sua dispersão feita por fatores abióticos (não biológicos, como o vento). Isso é um fator fundamental, de um ponto de vista ecológico.

Broto de Sandoricum Koetjape, em Taman Negara, na Malásia. Foto por: Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: Como a inteligência dos elefantes os ajuda a acharem alimentos e, consequentemente, dispersarem sementes?

Stephen Blake: O quão importante a inteligência é, é difícil dizer, sem estudos específicos, mas é provável que seja muito importante.

Ahimsa Campos-Arceiz: Deve ter uma função importante. Encontrar frutas na floresta é bem desafiador porque fruta é um recurso muito cumulativo – em espaço e tempo –, e as plantas com frutas grandes que são dispersadas por elefantes frequentemente ocorrem em densidades bem baixas. Em nosso artigo, nós especulamos que elefantes provavelmente possuem mapas cognitivos que permitem que eles lembrem onde e quando frutas estão provavelmente disponíveis, muito parecido com o fato de os elefantes da savana saberem onde encontrar água durante épocas de seca. Chimpanzés são conhecidos por usar esses mapas cognitivos em sua busca por frutas.

Fora a memória individual, elefantes têm uma “memória espacial societal” na forma de trilhas permanentes, abertas na floresta por gerações de elefantes movendo-se de e para fontes confiáveis. Como Steve descreveu em um artigo anterior, essas trilhas “aprisionam” árvores frutíferas e outros recursos importantes. É claro que, através de seus movimentos por essas trilhas, elefantes também dispersam um maior número de sementes em volta delas, em um processo de “aperfeiçoamento” do habitat que se autorreforça.

Mongabay: Quão longe os elefantes dispersam sementes? Por que isso importa?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes dispersam sementes grandes por vários quilômetros regularmente. Em meu estudo com elefantes asiáticos, descobri que, em Sri Lanka e Myanmar, eles dispersam 57% de sementes por mais de 1 quilômetro de distância da planta- mãe, com uma distância máxima de até aproximadamente 6 quilômetros (observando dados não publicados de uma população birmanesa diferente, descobri distâncias de dispersão de mais de 20 quilômetros!). Mas essas distâncias parecem curtas, comparadas com o que Steve descreve sobre o Congo, onde elefantes africanos de floresta dispersam 82% de sementes por distâncias maiores que 1 quilômetro, e algumas sementes por distâncias de até 57 quilômetros!! Essas são realmente distâncias de dispersão sem precedentes para sementes grandes de floresta – a maioria dos animais dispersores de sementes em florestas tropicais soltam as sementes apenas a uns 10 ou 100 metros da fonte.

Distância de dispersão é um dos fatores mais determinantes de distribuição espacial de sementes, o que tem uma influência importante no padrão de distribuição de árvores e, consequentemente, na estrutura da floresta. Árvores dispersadas por longas distâncias pelos elefantes têm uma ampla distribuição geográfica, baixo nível de agregação espacial e ocorrem em baixas densidades. Dispersão de sementes por longas distâncias também tem um fator chave em processos como migração de plantas (ex.: em resposta à mudança climática), conexão de populações isoladas (ex.: em cenários de florestas fragmentadas), e recolonização de habitats degradados (ex.: depois do abandono de campos de agricultura).

Mongabay: Se elefantes não estiverem mais presentes, outras espécies os substituirão, em termos de dispersão de sementes?

Stephen Blake: A perda de elefantes é precursora do colapso das populações de mamíferos de grande porte, geralmente devido ao comércio da carne de caça. então, espécies que poderiam  substituir um pouco o papel dos elefantes, com esse alívio da competição – gorilas, chimpanzés, antílopes de floresta  etc., também não estarão presentes. Na Bacia do Congo, isso é agravado pelo vírus Ebola, por exemplo, que acaba com os gorilas em vastas áreas de floresta. Assim, nós não deveríamos ver o desaparecimento dos elefantes como um evento isolado, mas sim como um sinal mais óbvio de um amplo colapso ecológico.

Ahimsa Campos-Arceiz: Plantas raramente colocam “todos os ovos de sua dispersão em uma única cesta”’ – elas geralmente têm vários mecanismos complementares para dispersão. A maioria das frutas suculentas são dispersadas por uma variedade de animais, os quais continuam dispersando sementes, na falta de elefantes. Geralmente há algum nível de redundância funcional.

No caso dos elefantes, entretanto, por causa de suas características funcionais exclusivas, há menos redundância e mecanismos para compensar sua perda. Algumas plantas com sementes muito grandes talvez não achem nenhum outro animal dispersor (ex.: Balanites wilsoniana, na África, ou Borassus flabelifer, na Ásia). E mesmo que haja animais que ainda dispersem as sementes (ex.: roedores acumuladores de alimentos), o padrão espacial de dispersão poderia mudar drasticamente, resultando em uma trajetória ecológica diferente para a planta (ex.: restrição da distribuição geográfica da espécie, distribuição espacial mais aglomerada dos adultos, aumento da estrutura genética local e,  principalmente, desaparecimento de muitas populações).



Estradas secundárias, estradas terciárias e trilhas para equipamentos de extração de madeira (como esta acima) abrem muitas esquinas na floresta no Congo, ameaçando elefantes e outras espécies. Foto: D. Wilkie.

Mongabay: Como você acredita que florestas irão mudar, se populações de elefantes diminuírem rapidamente ou se até forem extintas localmente?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes já desapareceram de áreas grandes da África, da Ásia e das Américas, então florestas já devem ter mudado. As mudanças principais que podemos esperar são: plantas com frutas e sementes grandes (especializadas em dispersão por megafauna) fracassarão em sua propagação e se tornarão cada vez mais raras, até que eventualmente desapareçam; plantas que são dispersadas por elefantes e outros animais verão seu padrão de dispersão modificado, o que resultará em diminuição de distribuição geográfica, aumento de agregação espacial e de estrutura genética de populações e  maior risco de desaparecimento local; e plantas que não são dispersadas por animais de grande porte (principalmente as que são dispersadas por fatores abióticos (não biológicos, como o vento) ganharão vantagem competitiva e se tornarão mais dominantes.

No geral, podemos esperar uma perda de biodiversidade e de simplificação da estrutura e da função da floresta.

Conservação de Elefantes

Mongabay: Qual é a diferença entre elefantes africanos da floresta e da savana? Um estudo recente descobriu que o elefante africano da floresta é uma espécie distinta. Você acredita nisso?

Stephen Blake: Tudo ainda é discutível. Um novo artigo acabou de sair no PLOS Biology, falando sobre “especiação profunda entre elefantes africanos”, mas tudo ainda é uma questão de opinião. No momento, o grupo especialista em elefantes africanos ainda considera duas subespécies para os elefantes africanos.

Mongabay: Se eles são espécies diferentes, quais são as implicações disso para conservação?

Stephen Blake: Com relação à conservação, eu não tenho certeza de que ter duas espécies distintas definidas fará muita diferença em termos práticos, mas, no curto e médio prazo, isso pode tornar as coisas mais difíceis para o elefante da floresta: A CITES imediatamente abriria o mercado para elefantes da savana, o que aumentaria o preço do marfim no mercado mundial, aumentando assim sua demanda. O aumento na demanda e nos preços tornaria as operações no mercado negro ainda mais lucrativas e viáveis, na falta de uma implementação eficaz da lei. O fator -chave é a implementação da lei, já que, porque esta é muitas vezes fraca em países exportadores e importadores,  por causa da corrupção e da falta de fundos e de competência, fica mais fácil transferir marfim ilegal da bacia do Congo para o mercado mundial. No momento, comerciantes dizem que esse não é o caso, e que o mercado legal seria bem controlado, mas suas evidências para isso são escassas


Elefante asiático macho atravessando uma estrada perto do Parque Nacional de Bundala, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Mongabay: Qual é o status das populações de elefantes africanos da floresta?

Stephen Blake: O status das populações de elefantes africanos varia muito entre diferentes regiões e grupos taxonômicos. As populações de Elefantes do sul da África estão estáveis ou, em geral, aumentando; as do leste africano, também; e as de elefantes africanos da floresta e da savana da África central estão em rápido declínio, por causa da caça ilegal e da perda de habitat. Elefantes do oeste africano parecem estar relativamente estáveis, mas eles estão muito fragmentados e geralmente são encontrados em populações pequenininhas, então a perspectiva para eles é bem ruim. Eu acho que as nações do sul da África estão satisfeitas com a perspectiva de estabilidade para seus elefantes. No entanto, com o enriquecimento da classe média Chinesa e com a Ásia comprando cada vez mais da África, nós veremos um aumento dramático na demanda por marfim e no seu preço no mercado negro, independentemente do que aconteça com o mercado legal. Combine isso com influência política e corrupção, e nós estamos prontos para ver elefantes serem muito afetados em áreas que são seguras agora. (obs.: esta entrevista é de abril de 2011, e, como previsto, nos últimos dois anos houve aumento da demanda por marfim, e os elefantes enfrentam hoje uma matança sem precedentes.)


Este elefante, no campo de óleo de Gamba, no Gabão, tem uma armadilha presa à sua pata dianteira esquerda. Capturar elefantes com armadilhas é uma forma eficaz de matá-los, em partes da África central. Foto: Stephen Blake.


Mongabay: E qual é o status das populações de elefantes asiáticos?

Ahimsa Campos-Arceiz: A situação das populações de elefantes asiáticos é complexa. Algo fácil de entender é que o número de elefantes asiáticos está diminuindo rapidamente, e, hoje, eles existem principalmente em populações pequenas e fragmentadas. Elefantes asiáticos perderam a maior parte – provavelmente 95% –  da extensão territorial que eles ocupavam historicamente. Esse declínio ainda está acontecendo, com uma estimativa de 80% de perda da extensão geográfica durante o século 20 (!!). Hoje em dia, um, em cada três elefantes asiáticos, é um animal de cativeiro. E países como Myanmar e Tailândia talvez tenham mais elefantes em cativeiro do que selvagens. Então as coisas não estão parecendo boas para os elefantes asiáticos.

Além disso, elefantes asiáticos habitam alguns dos países mais populosos do mundo. A atual densidade local de elefantes asiáticos em áreas do Sri Lanka, da Índia e de outros países é, no momento, insustentavelmente alta, porque elefantes que moram perto de pessoas inevitavelmente recorrem à invasão de terras cultiváveis, gerando vários conflitos entre humanos e elefantes (HEC), levando ao assassinato desses animais por retaliação e, eventualmente, à eliminação de populações inteiras. Em muitas áreas, os elefantes asiáticos são vistos como “as pestes muito abundantes da agricultura”. Porque elefantes são animais de vida longa, nós precisamos incutir, em nossa mente, que os efeitos demográficos aparecem muito tempo depois de mudanças ambientais. Muitas populações de elefantes asiáticos que atualmente estão sofrendo intensos conflitos entre humanos e elefantes (HEC) podem ser consideradas populações mortas-vivas, com poucas esperanças para o futuro, a longo prazo.


Mongabay: Que medidas de conservação você sugeriria para os elefantes asiáticos?

Ahimsa Campos-Arceiz: Na minha opinião, a prioridade na Ásia é aprender a lidar com os conflitos entre humanos e elefantes. Até agora, esses conflitos sempre levaram à extinção local de elefantes. Com as populações humanas se expandindo, há cada vez menos elefantes que conseguem viver sem interagir com as pessoas. Nós precisamos aprender maneiras de minimizar o dano causado por elefantes em comunidades locais (através da compreensão de fatores ecológicos e comportamentais que levam à invasão de campos de agricultura) e de aumentar o nível de tolerância das pessoas (morar com elefantes envolve riscos e consequências que não podem ser completamente ignoradas). Não vai ser fácil, mas compreender os reais impactos dos conflitos entre humanos e elefantes na vida das pessoas e os fatores socioculturais por trás de suas percepções e atitudes será muito importante.

 Ahimsa Campos-Arceiz checa um elefante morto, vítima de conflitos entre humanos e elefantes, no sudeste do Sri Lanka. Foto:  Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: E que medidas de conservação você sugeriria para o elefante africano da floresta?

Stephen Blake: Sempre gira sobre os mesmos pontos: proteção, manejo de animais selvagens, educação e divulgação , trabalho com os lideres de comunidades para gerar suporte local e bom manejo dos recursos naturais. Infelizmente isso tem fracassado e continua fracassando porque os recursos simplesmente não estão presentes. Você sabe, a África central está afundando cada dia mais em relação aos problemas ambientais e sociais: no Congo, estamos vendo uma geração que está começando a amadurecer, teve pouca educação e tem tido poucas oportunidades de trabalho. Os grandes impulsionadores das atividades econômicas – os chineses, por exemplo – estão trazendo sua própria mão de obra para as operações de extração de madeira e mineração, ao mesmo tempo em que o desejo mundial de ajuda internacional e filantropia está diminuindo rapidamente.

Então, trabalhar com o setor privado é importantíssimo para a conservação do cenário. Investimentos em conservação têm que estar ligados às forças do mercado de venda de madeira, minerais e óleo. Companhias sem consideração pelo meio ambiente devem ser penalizadas, enquanto as que são “boas” têm que ser recompensadas. No entanto, como nós vemos  todos os dias, isso é difícil, na prática. Você já viu as últimas noticias sobre a British Petroleum? sua estratégia de crescimento permanece a mesma, depois do enorme derramamento de óleo no desastre do Golfo do México. Sempre há um mercado por aí, mesmo que a companhia seja “boa” ou “ruim,” e, com o crescente aumento da demanda global, principalmente em mercados asiáticos, serão os preços da matéria -prima no mercado em crescimento, e não os produtos ambientais de luxo e top de linha, que contarão. Preços baixos não podem ser mantidos, se as companhias têm que investir em bom manejo de estradas, em combate à caça ilegal e em outras práticas ambientais e sociais.

Monyaka é um típico pigmeu caçador ilegal de elefantes. Monyaka já matou bem mais de 100 elefantes, valendo milhares de dólares em marfim. Na maioria das vezes, ele foi pago por seu marfim com bebidas alcoólicas ou cigarros. Foto: Stephen Blake.
Receio que uma forte mentalidade não politicamente correta deve ser imposta em parques nacionais até que haja uma nova ordem mundial de avaliação do valor dos recursos naturais... simplesmente não há um incentivo financeiro ou outros benefícios para fazer com que as comunidades locais se interessem em conservar elefantes, exceto em poucas áreas bem subsidiadas, como vilas onde a população é empregada por parques, mas o desafio é como fazer isso com os constantemente decrescentes recursos financeiros e as crescentes ameaças externas, que, a cada dia,  se aproximam mais das bordas dos parques nacionais. Um plano de uso da terra que respeite as necessidades de espécies que percorrem espaços muito amplos, como os elefantes, um forte reforço nas leis e estabilidade socioeconômica, política e ambiental estão entre as possíveis soluções, mas a África Central (assim como o resto do mundo) está bem longe de alcançar essas coisas.

Mongabay: O que você gostaria de ver como o próximo passo para pesquisas sobre elefantes como megajardineiros?

Stephen Blake: Acho que muitas pesquisas devem ser feitas agora. Nós precisamos olhar para coisas como o benefício de carbono gerado por dispersão feita por elefantes. qual é o ganho geral de carbono de ter elefantes plantando espécies de árvores de madeira de lei, que têm alta densidade de madeira, comparativamente com espécies que têm baixa densidade de madeira e são dispersadas por outros meios ? Há alguns trabalhos interessantes sobre isso que estão começando. Manter uma floresta rica em mamíferos intacta pode fornecer benefícios de carbono tangíveis, e, já que a única moeda que o mundo entende atualmente é dinheiro baseado em uma economia lastreada no petróleo, nós temos de aproveitar isso, por mais imperfeito que seja. 

Ahimsa Campos-Arceiz: Precisamos de muita pesquisa de base. Precisamos que estudantes asiáticos estudem frugivoria e dispersão de sementes por elefantes em diferentes ambientes, principalmente em florestas tropicais do sul e do sudeste asiático. Precisamos identificar os mecanismos de dispersão de muitas plantas com a síndrome da megafauna. E também precisamos identificar mudanças que estão ocorrendo na estrutura da floresta depois da perda de elefantes e de outros herbívoros de grande porte (ex.: rinocerontes da floresta). 

Mongabay: O que o público em geral pode fazer para ajudar?

Ahimsa Campos-Arceiz: Essa é uma pergunta difícil. Eu incentivaria muito que pessoas morando perto de elefantes entendessem que conflitos entre humanos e elefantes fazem parte, e não tem como isso ser solucionado, a não ser que todos os elefantes sejam removidos.

Para os que não moram perto de elefantes, eu os incentivaria a fazer contribuições financeiras para organizações de conservação e pesquisa,  porque fundos são uma limitação séria na realização de projetos para a conservação de elefantes; a tornarem-se  consumidores bem informados e diminuírem o consumo de produtos que prejudicam os habitats de elefantes (ex.: produtos que contêm óleo de palma produzido sem sustentabilidade, ou madeira proveniente de extrações ilegais); e a ficarem cientes de que alguns shows e atividades com elefantes na Ásia dependem do fornecimento insustentável de animais que vêm de populações selvagens, e isso não deve ser incentivado.

Uma vítima da matança ilegal dos elefantes. A mãe desse filhote foi morta enquanto invadia plantações em uma concessão de petróleo. Foto: S. Deem.
Stephen Blake: Além de tudo isso, precisamos gerar ideais maiores na população, que vão além do próximo carro e de uma grande casa, como objetivo de vida... precisamos fazer com que as pessoas pensem na conexão entre a compra de um produto barato e a razão pela qual ele é barato. Por que comidas orgânicas são caras? Porque elas vêm de fontes que são administradas ecologicamente. No primeiro mundo, todas as comidas deveriam custar isso, e, como sociedade, nós deveríamos comer menos e consumir menos. Mas essa não é a realidade econômica. Por que os carros nos Estados Unidos são tão grandes? Porque o preço do combustível é muito barato. Quais são as consequências de gasolina barata e carros enormes? Quantos americanos e europeus entram em suas grandes SUVs quando saem de suas enormes casas e param um segundo para pensar nas consequências do que eles estão fazendo, e se tudo isso não significa um pouquinho de desperdício? Elefantes são simplesmente mais um recurso natural que envolve, por um lado, a ganância humana, e, por outro, a necessidade humana. De alguma forma, nós precisamos que as pessoas se refamiliarizem com a natureza, ou elas não terão a menor ideia da interrelação entre causa e efeito. Essa mudança filosófica será tarde demais para os elefantes, isso se ela realmente acontecer, e, com a estimativa de 9 bilhões de pessoas no mundo daqui a pouco, o tsunami vai simplesmente varrer as últimas nobres áreas selvagens e levar, no processo, seus recursos naturais, elefantes e todo o resto.   

CITAÇÃO: Ahimsa Campos-Arceiz and Stephen Blake. Megagardeners of the forest – the role of elephants in seed dispersal. Acta Oecologica. 2011. doi:10.1016/j.actao.2011.01.014.


Uma elefanta asiática de cativeiro, Milennium Elephant Foundation, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Casa atacada por elefantes, para consumir arroz armazenado, Sudeste do Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Um jovem macho curioso de elefante de floresta reestabelecendo sua presença em uma área de conservação de sucesso, Nouable-Ndoki, Norte do Congo. Foto: Stephen Blake.


Loja na rua principal em Bangassou, na República Centro-Africana, com uma propaganda para a caça de elefantes. Essa loja fica a 180 metros de um serviço de proteção de animais selvagens. Foto: L. Williamson.
A não implementação da lei resulta em que a carne de elefante é oferecida para venda abertamente em mercados de vilas e vilarejos, na República Centro-Africana. Foto: L. Williamson.
Comércio de marfim no aeroporto de Lagos, na Nigéria. Foto: D. Stiles.

O entalhe de marfim tem uma longa história na Europa e na Ásia. Foto: D. Stiles.
Dois elefantes asiáticos machos brincando no Parque Nacional de Udawalawe, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Link para o artigo original

terça-feira, 26 de março de 2013

Elefantes: os jardineiros das florestas asiáticas e africanas

Jeremy Hance 
Mongabay.com
Publicado em 25 de Abril de 2011 


Elefante africano da floresta. Foto: Carlton Ward Junior.

Parece difícil imaginar elefantes cuidando delicadamente de um jardim, mas esses paquidermes podem muito bem ser os horticultores mais pesados do mundo. Elefantes, na África e na Ásia, comem quantidades abundantes de frutas quando estas estão disponíveis. As sementes passam por seus intestinos e, depois de expelidas – às vezes a muitos quilômetros de distância –, germinam uma nova planta, se as condições forem favoráveis. Esse processo é conhecido pelos ecologistas como “dispersão de sementes”, e os cientistas têm estudado há muito tempo a capacidade de “jardinagem” de macacos, pássaros, morcegos e roedores. Entretanto, recentemente pesquisadores começaram a documentar a capacidade de dispersão de sementes do maior animal terrestre do mundo – o elefante –, provando que essa espécie pode estar entre os mais importantes jardineiros tropicais do planeta.

“Em nosso artigo, mostramos que elefantes africanos da floresta são os melhores dispersores de sementes – eles dispersam um vasto número de sementes, de uma grande diversidade de plantas, de uma forma muito eficaz [...] Elefantes asiáticos e africanos da savana também dispersam muitas sementes [...] mas aparentam ser menos frugívoros (comedores de frutas)”, conta Ahimsa Campos-Arceiz, o coautor de um artigo recentemente publicado na Acta Oecologica sobre dispersão de sementes por elefantes africanos e asiáticos, para o mongabay.com, em uma entrevista. 

Stephen Blake, o outro coautor do estudo, diz que, nesse contexto, o comportamento de diferentes espécies de elefantes tem mais a ver com o habitat do que com as preferências da espécie. 

“Elefantes africanos da savana normalmente não dispersam muitas sementes, mas coloque-os na floresta de Kibale, em Uganda, onde há acesso a frutas, e eles se tornarão formidáveis dispersores de sementes”, Explica Blake. “Nenhum mamífero de grande porte que é generalista em sua alimentação vai recusar uma boa refeição de frutas, se esta estiver disponível.”


Essas Myrianthus arboreus são frutas típicas procuradas por grandes mamíferos e elefantes no Congo. Foto por J.P. Vandeweghe.

Blake e Campos-Arceiz ressaltam em seu estudo que algumas espécies de plantas dependem completamente de elefantes para a sua dispersão, do mesmo modo que algumas orquídeas dependem inteiramente de um único inseto polinizador para propagação. 

“O melhor caso documentado é a relação entre a Balanites wilsoniana e o elefante da savana, em Uganda. Vários estudos descobriram que elefantes consomem e dispersam muitas sementes de Balanites e que nenhum outro animal dispersa essas sementes”, explica Campos-Arceiz.

Entretanto, Blake acrescenta que “o impacto cumulativo de dispersão por elefantes” é mais importante do que a conexão deles com uma única espécie: “é claro que a diminuição da quantidade de algumas árvores por causa do desaparecimento de elefantes é prejudicial, mas se a Balanites for extinta, é improvável que isso tenha um grande impacto no ecossistema da floresta. No entanto, se os elefantes forem extintos, significará que o equilíbrio competitivo de muitas espécies, indiscutivelmente mais de 100 na África Central, favorecerá aquelas que têm sua dispersão feita por fatores abióticos (isto é, não biológicos, como o vento). Isso é um fator fundamental, de um ponto de vista ecológico.” 

Uma das razões de elefantes serem tão importantes em um ecossistema florestal é que, ao contrário de muitas outras espécies, eles são capazes de dispersar sementes longe da árvore -mãe (a que produz as sementes). De acordo com pesquisadores, elefantes asiáticos espalham sementes num raio de 1km a 6km, enquanto, no Congo, elefantes da  floresta são capazes de espalhar sementes por um raio de até 57km.

A semente de Borassus flabelifer, recuperada de fezes de elefantes.
Foto por Ahimsa Campos-Arceiz.
 

“Essas são realmente distâncias de dispersão sem precedentes para sementes grandes de floresta. a maioria dos animais dispersores de sementes em florestas tropicais solta as sementes apenas a uns 10 ou 100 metros da fonte”, explica Campos-Arceiz.

Apesar de sua importância ecológica, elefantes asiáticos e africanos estão ameaçados. Enquanto que algumas poucas populações de elefantes africanos da savana ainda estão estáveis, Blake diz que todas as populações de elefantes africanos da floresta – os maiores animais frugívoros do mundo – estão em “rápido declínio por causa da caça ilegal”.

Elefantes asiáticos enfrentam pressões por causa da caça ilegal, além de conflitos entre humanos e elefantes e a perda de habitat. 

“O número de elefantes asiáticos está diminuindo rapidamente e hoje eles existem principalmente em populações pequenas e fragmentadas. Elefantes asiáticos perderam a maior parte – provavelmente mais de 95% – da extensão territorial que eles ocupavam historicamente. [...] Hoje em dia, um, a cada três elefantes asiáticos, é um animal de cativeiro”, explicou Campos-Arceiz, que diz que a prioridade na conservação de elefantes asiáticos é lidar com o aparecimento de conflitos entre humanos e elefantes. 

Blake diz que a situação econômica, educacional e social ficou tão pobre na África Central que talvez sejam necessárias medidas drásticas para que elefantes de floresta sobrevivam. 

“Receio que uma forte mentalidade não politicamente correta deve ser imposta em parques nacionais até que haja uma nova ordem mundial de avaliação do valor dos recursos naturais... simplesmente não há um incentivo financeiro ou outros benefícios para fazer com que as comunidades locais se interessem em conservar elefantes [...] mas o desafio é como fazer isso, com os constantemente decrescentes fundos e crescentes ameaças externas, que, a cada dia,  se aproximam mais das bordas de parques nacionais”, diz Blake, acrescentando que “um plano de uso da terra que respeite as necessidades de espécies que percorrem espaços muito amplos, como os elefantes, um forte reforço nas leis e estabilidade socioeconômica, política e ambiental estão entre as possíveis soluções, mas a África Central (assim como o resto do mundo) está bem longe de alcançar essas coisas”.

Blake acredita que a difícil situação do elefante dispersor de sementes é, de alguma forma, emblemática de problemas mais amplos do planeta, como  conservação, meio ambiente, consumo, e até mesmo de problemas filosóficos.

Elefante asiático macho na água, em Bundula National Park, Sri Lanka.
Foto por: Ahimsa Campos-Arceiz.

“Precisamos gerar ideais maiores na população, que vão além do próximo carro e de uma grande casa como objetivo de vida... precisamos fazer com que pessoas pensem na conexão entre a compra de um produto barato e a razão pela qual ele é barato”, diz Blake. 
“Elefantes são simplesmente mais um recurso natural que envolve, por um lado, a ganância humana, e, por outro, a necessidade humana. De alguma forma, nós precisamos que as pessoas se refamiliarizem com a natureza, ou elas não terão a menor ideia da interrelação entre causa e efeito. Essa mudança filosófica será tarde demais para os elefantes, isso se ela realmente acontecer, e, com a estimativa de 9 bilhões de pessoas no mundo daqui a pouco, o tsunami vai simplesmente varrer as últimas nobres áreas selvagens e levar, no processo, seus recursos naturais, elefantes e todo o resto.”

E se Blake estiver certo, e os elefantes desaparecerem de vez das florestas que um dia eles dominaram?

“No geral, nós podemos esperar uma perda de biodiversidade e uma simplificação da estrutura e da função da floresta”, explicou sucintamente Campos-Arceiz. E, então, o jardineiro terá abandonado seu pedaço de terra, deixando-o exposto para uma crescente monocultura de ervas daninhas.  

Continuação: O mais incrível horticultor do mundo - uma entrevista com Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz.


quinta-feira, 21 de março de 2013

86 elefantes mortos em massacre por caçadores ilegais no Chade

Caçadores armados, em busca de marfim, mataram 86 elefantes em menos de uma semana, incluindo fêmeas grávidas e filhotes.





Cerca de 650 elefantes foram mortos no Parque Nacional de Bouba N’Djida, em Fevereiro de 2012. Fotografia: Anônimo/AP

Caçadores no sudeste do Chade mataram pelo menos 86 elefantes, incluindo 33 fêmeas grávidas, em menos de uma semana, num golpe potencialmente devastador para uma das últimas populações remanescentes de elefantes da África Central.


Grupos de elefantes seguem rotas migratórias tradicionais durante a época da seca, desde a República Centro-Africana, através do Chade, em direção a Camarões. Estima-se que 150 mil elefantes habitavam a região há trinta anos. Hoje, a quantidade pode ser tão pequena como 2 mil.


De acordo com a IFAW (International Fund for Animal Welfare), os elefantes foram mortos perto de Fianga, próximo da fronteira entre o Chade e Camarões, e suas presas, arrancadas. Fianga é perto de uma área transfronteiriça do parque – Sene Oura, no Chade, e Bouba N'Djida, em Camarões –, onde muitos elefantes passam a época das secas antes que as chuvas comecem, em abril. Acredita-se que os animais tenham sido mortos por caçadores sudaneses e chadienses, viajando a cavalo, munidos de fuzis AK47 para matá-los e serrotes para remover suas presas. 


"Os caçadores mataram fêmeas grávidas e todos os filhotes", disse Celine Sissler-Bienvenu, da IFAW. "Mesmo se as condições fossem boas, o que não são, levaria mais de 20 anos para essa população se recuperar."


A organização SOS Elephants, com base no Chade, reportou, no final do ano passado, que centenas de elefantes tinham se movido para o Chade, numa tentativa de fugir da matança no parque Nacional de Bouba N'Djida, onde 650 elefantes foram mortos em questão de dias, em Fevereiro de 2012.


A região da África Central tem sido palco de conflitos e governos ruins, e os esforços anti-caça anunciados pelo presidente do Chade, Idriss Déby Itno, incluindo a assinatura de um acordo com a IFAW para fornecer guardas em Sene Oura, mostraram poucos resultados.


Equipes anticaça são frequentemente mal equipadas e os guardas também são, eles mesmos, alvos dos caçadores. Dez foram mortos tentando proteger elefantes entre 2006 e 2009, no Parque Nacional de Zakouma, no sudeste do Chade. Conforme o conflito de Darfur se alastrou pela fronteira do Chade com o Sudão, cavaleiros cruzaram para Zakouma, matando cerca de 3.000 elefantes em três anos. A certa altura, três elefantes por dia, em média, estavam sendo mortos.


As gangues de caçadores estão em busca dos elefantes devido a seu marfim valioso, com objetivo de traficá-lo para os mercados chineses, através de portos no Sudão e na Nigéria. Jornais locais no Chade reportaram casos de chineses sendo pegos carregando marfim no aeroporto de N'Djamena, embora nenhum processo tenha sido aberto.


Saiba mais: Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos

O jornalista Bryan Christy, autor da reportagem "Culto ao Marfim", publicada na National Geographic, comenta o massacre em seu blog e publica um vídeo onde aparecem objetos de marfim e duas grandes presas expostas numa sala do palácio papal. 

Junte-se à nossa campanha de conservação e compartilhe as ilustrações nas redes sociais: Cada Presa Custa uma Vida. Não compre marfim.


Uma das imagens da campanha - Valores de Família. NÃO COMPRE MARFIM. Download de artes finais em diversas resoluções neste link, para qualquer objetivo não comercial, para reduzir o comércio de marfim e a matança de elefantes.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Eslovênia proíbe o uso de animais selvagens em circos


Parlamento esloveno aprova emenda à Lei de Bem-Estar Animal, e o país se torna o quarto na União Europeia a colocar um fim à exploração de animais selvagens em circos


Elefantes asiáticos (Elephas maximus) aguardam a hora do espetáculo em um caminhão de circo, onde passam quase todo o seu tempo
(Foto: ©Four Paws/Fred Dott)

Na última sexta-feira, a Eslovênia deu um grande passo e estabeleceu um novo padrão para a proteção de animais no país. O Parlamento esloveno aprovou uma emenda à Lei de Bem-Estar Animal que proíbe o uso de animais selvagens em circos e em eventos similares e contempla também a proteção de animais ligados a outras atividades no país, como indústria de peles, laboratórios e frigoríficos, além de estabelecer um registro central para cães.

Além da Eslovênia, já proibiram o uso de animais em circos Holanda, Áustria, Bolívia, Bósnia-Herzegovina, Costa Rica, Croácia, Grécia, Israel, Paraguai, Peru e Cingapura. Na Alemanha, há forte pressão sobre o Ministério da Agricultura para que aprove uma lei similar. No Brasil, o Projeto de Lei 7.291, de 2006, aguarda votação no Plenário da Câmara dos Deputados. Leia mais sobre isso em "Holanda anuncia a proibição do uso de animais silvestres em circos".

Em circos, os elefantes, seres altamente sociáveis e inteligentes cuja saúde física e mental depende essencialmente da constante movimentação de seus grandes corpos e de desafios intelectuais, vivem confinados e acorrentados, durante toda a vida, e são forçados a realizar truques tolos e inadequados a seus organismos.

O uso de animais em circos tem sido objeto de críticas no mundo todo. Já foram amplamente documentados maus-tratos brutais aos animais, incluindo  confinamento perpétuo em jaulas apertadas, transporte inadequado por longas distâncias, sofrimento contínuo, surras. É comum que os animais sofram surtos e firam ou matem seus tratadores, colocando também em risco o próprio público dos espetáculos. 

Elefantes são seres extremamente adaptáveis e, quando resgatados e enviados a santuários de vida selvagem, onde podem viver na natureza e na companhia de outros elefantes, sua recuperação é extraordinária. Saiba mais em  "A nova vida de Lucky".

Lucky, resgatada de um circo, em sua nova vida no santuário ENP,
na Tailândia (Foto: © Lek Chailert) 
 

Leia o estudo da ElephantVoices sobre elefantes em cativeiro e na natureza "Mente e Movimento - Indo ao Encontro dos Interesses dos Elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices.

domingo, 10 de março de 2013

Little Fellow, o pequeno companheiro que nada sabia sobre a CITES

A conexão entre o que aconteceu com Little Fellow no Maasai Mara e decisões tomadas na CoP 16 da CITES, ocorrendo agora em Bangcoc, DEVERIA estar clara. Essa conexão é o tema do texto publicado por Joyce Poole e Petter Granli no blog da National Geographic, "Uma Voz para os Elefantes", que reproduzimos abaixo. A economia do Quênia (através do turismo) e sua estabilidade estão intimamente ligadas ao comércio de marfim e ao futuro dos elefantes. Todos queremos e precisamos da paz: os elefantes e suas famílias também, desesperadamente. 


Little Fellow (Pequeno Companheiro) era um lindo e jovem macho. (Foto: Joyce Poole/ElephantVoices)
 
Em 22 de fevereiro, passamos algumas horas com um elefante adolescente chamado Little Fellow (Pequeno Companheiro), em uma reserva fora da Reserva Nacional de Maasai Mara, no Quênia.


Little Fellow era um macho jovem muito bonito, com presas oblíquas e lóbulos de orelha que se curvavam para fora. Estimamos que ele tivesse seus 16 anos de vida, tendo acabado de atingir a puberdade.


Mas Little Fellow não viveria muito para poder passar seus genes para a próxima geração. 


Por um período de seis semanas, foi tratado diversas vezes por um veterinário do Kenya Wildlife Service por causa de uma ferida ocasionada por uma lança. Os “bips” do detector de metais indicaram que parte da ponta de metal da lança ainda estava acomodada em sua perna da frente. 


Sua perna machucada tinha o dobro do tamanho que deveria ter. Apenas de olhar para ela, sabíamos que ele não conseguiria se recuperar, a despeito dos esforços do heroico veterinário e da vigília daqueles que vieram confortá-lo, tanto humanos quanto elefantes.
O pus transbordava pela ferida aberta. A septicemia havia se estabelecido, e a infecção se espalhava por seu corpo.


Exausto, Little Fellow descansava sua cabeça na forquilha de uma árvore para poder aliviar um pouco do peso de seu corpo, especialmente sobre sua perna frontal direita. Sua perna infeccionada estava inchando em proporções gigantescas.



Exausto, Little Fellow descansava sua cabeça na forquilha de uma árvore para poder aliviar um pouco do peso de seu corpo, especialmente sobre sua perna frontal direita. (Foto: Petter Granli/ElephantVoices).
Sua perna infeccionada estava inchando em proporções gigantescas. (Foto: Petter Granli/ElephantVoices)
Little Fellow já não podia andar. Com um esforço tremendo, podia juntar forças para dar um tipo de pulo, arrastando sua enorme perna com ele. Descansava com frequência, com sua tromba enrolada numa árvore, buscando alívio momentâneo para seu sofrimento.

Ele sabia que não poderia se deitar novamente — ele havia entendido isso quando, durante seu tratamento, precisou da ajuda de um veículo com cordas para se levantar. 


A despeito da exaustão e da agonia, Little Fellow estava lutando por sua vida com dignidade e propósito, mantendo-se próximo da água e de um bom pasto, numa área sombreada, a apenas alguns metros de distância da residência do gerente da Reserva. 


Ele não era o primeiro macho que vinha até ali para morrer, já sabíamos disso. Lekuta, um elefante maduro atingido duas vezes por flechas e tratado diversas vezes por causa de suas feridas, também tinha vindo morrer ali, pertinho da casa do gerente. Seus ossos estavam espalhados ali perto, e os excrementos de elefantes à sua volta indicavam que não havia sido esquecido. 


Na segunda-feira, 25 de Fevereiro, Little Fellow faleceu. Como Lekuta, não será esquecido pelas pessoas e pelos elefantes que cuidaram dele.



Assista: Little Fellow, jovem elefante de Maasai Mara morto por flechadas de caçadores em Fevereiro de 2013. 

A Urgência é Real

Nascido no final da década de 1990, Little Fellow entrou em um mundo que era bastante seguro para os elefantes. Mas, hoje, certamente não é. A matança corrente está ameaçando a sobrevivência da espécie e do turismo, as economias e a estabilidade em diversos países africanos.


Little Fellow nada sabia sobre a CoP 16 da CITES, o encontro que está ocorrendo agora em Bangcoc, na Tailândia. Nada sabia também sobre os muitos documentos, argumentos e palavras que os participantes e especialistas da CITES haviam dedicado aos elefantes.


CITES é a organização cuja função é assegurar que as espécies não sejam ameaçadas pelo comércio internacional. É o único instrumento que o mundo tem para estabelecer limites à exploração de espécies e decidir, com base em ações globais, quando uma delas está sob cerco cerrado.


As delegações da CITES nada sabem sobre Little Fellow. Mas sabem sobre os chocantes números de, no mínimo, 25 mil elefantes mortos anualmente, no decorrer dos últimos anos, por causa de suas presas.


Com base no que sabemos e no que escutamos, os números atuais podem ser tão elevados como 50 mil. Isso é cerca de dez por cento de todos os elefantes remanescentes na África — uma terrível e aterrorizante redução em apenas um único ano.
Acreditamos que as vendas isoladas de marfim aprovadas pela CITES para a China e o Japão contribuíram para a atual matança de elefantes, estimulando um brutal aumento da demanda por marfim. 


Podemos apenas esperar que Little Fellow não tenha morrido em vão e que, desta vez, a CITES e os países que dela fazem parte coloquem os elefantes acima do comércio e do lucro, para que seja possível reduzir essa matança.


Não estamos em Bangcoc. Mas do Quênia, estamos acompanhando de perto os confrontos da CITES nessa crise em curso. A Primeira-Ministra da Tailândia, Yingluck Shinawatra, deu o tom certo na abertura da CoP16 no domingo, 3 de Março, ao prometer proibir o comércio interno de marfim no país. Esperamos que tenha inspirado líderes de outros países também. Se uma ação similar for tomada pela China, a vida de milhares de elefantes pode ser salva.


Desejamos a todas as delegações uma conferência de sucesso, e pedimos que seja permitido que a prevaleça a ciência, e não a política, ou o comércio.

NOTÍCIAS direto da CoP16 da CITES, Bangcoc

No dia 7 de Março/2013, soubemos, através do jornalista Bryan Christy, autor da reportagem “Culto ao Marfim”, publicada na National Geographic de Out/2012, que um documento importante está circulando na convenção. 


Nele, o Presidente anterior do Comitê Permanente da CITES declara abertamente que a “experiência” de vendas isoladas de estoques de marfim apreendido “obviamente falhou” e que o comércio de marfim, incluindo todos os mercados domésticos, tem que ser proibido com urgência. Isto é exatamente o que temos argumentado junto à CITES por muitos anos. Agradecemos a Robert Hepworth pela coragem de apresentar essa honesta carta. Será que finalmente a CITES irá agir de modo conjunto e fazer seu trabalho?

Documento em circulação na CITES declara abertamente que a “experiência” de vendas isoladas de estoques de marfim apreendido “obviamente falhou” e que o comércio de marfim, incluindo todos os mercados domésticos, tem que ser proibido com urgência. (Foto: Bryan Christy)

Saiba mais: leia, no Blog do Planeta, da Revista Época, "O novo ouro branco e a extinção dos elefantes africanos", um artigo da ElephantVoices Brasil.


"O novo ouro branco e a extinção dos elefantes africanos", um artigo da ElephantVoices Brasil.
Leia o texto original da ElephantVoices no Blog da National Geographic, "Uma Voz para os Elefantes".

Junte-se à nossa campanha pelo fim do comércio de marfim, Cada Presa Custa uma Vida,  neste link.



terça-feira, 5 de março de 2013

Atualização sobre Shankar – O pobre e solitário Elefante Africano no zoológico de Nova Délhi


A situação de Shankar, o solitário Elefante Africano do Zimbábue no zoo de Nova Délhi, continua deixando os apaixonados pela vida selvagem e os ativistas pelos direitos e bem-estar dos animais perplexos e aturdidos nacional e internacionalmente. Três anos depois de destacarmos sua situação precária na página da ElephantVoices, Shankar ainda está acorrentado, apanha e não tem nenhuma companhia de outro membro da própria espécie. A melhor opção seria o governo indiano enviar Shankar a um refúgio de animais selvagens na África, de preferência no Quênia, onde ele poderia viver com membros da mesma espécie. Para conseguirmos isso, deve haver um modo de superar a glória ligada a seu status, por ter sido um presente diplomático. 


No zoo de Nova Délhi, Shankar passa a maior parte de sua vida acorrentado e apanha com frequência (notem sua grande cicatriz na testa). Shankar foi dado em 1998 pelo Zimbábue ao Governo na Índia, com seu par. Hoje, ele tem aproximadamente 14 anos de idade; sua companheira morreu poucos anos depois do embarque. Foto: cortesia de Nina Kanderian, da Wildlife Conservation Society Afghanistan.

A situação de Shankar demonstra o estado sórdido dos Elefantes Africanos que estão em cativeiro na Índia, com mais dois animais em condições deploráveis no Zoo de Mysore, além de outros exemplos repugnantes, declara Shubhobroto Ghosh, autor do The Indian Zoo Inquiry. Numa sinopse, Ghosh descreve a sina dos Elefantes Africanos nos zoos indianos e, em particular, de um par do Zimbábue que foi dado como presente diplomático, em 1998, ao presidente da Índia. Pedimos a todos os amigos do Zimbábue que façam o que for possível para convencer o Governo de que o que estão fazendo é um desserviço também para seu setor de turismo e seu povo.

Na sinopse, Ghosh pede a todos os países que têm elefantes Africanos e Asiáticos que os mantenham no lugar a que pertencem - a natureza. No final de 2009, a Índia deu um passo brilhante ao proibir elefantes Asiáticos em zoos - e foi aplaudida pelo mundo todo.

Elefantes de zoos são privados de suas necessidades básicas

O Dr. Sunil Srivastava, médico veterinário com 25 anos de experiência e representante de Nova Délhi na organização internacional de direitos dos animais Animal Equality, afirma: “Na natureza, os elefantes têm suas regras e tarefas para preencherem suas vidas. O comportamento natural exercido por eles provê a necessária estimulação física e mental.  No entanto, os elefantes dos zoos são privados de suas necessidades básicas, e Shankar não é uma exceção. Quando estava no início de minha carreira e trabalhei como voluntário no zoo de Nova Délhi, notei ferimentos profundos nos tornozelos dos elefantes, como um resultado de seu esforço para se livrar das correntes. Um dos tratadores do zoo de Nova Délhi acredita que os elefantes devem ser acorrentados no perído de seu frenesi sexual”. 

Amruta Ubale, da Animal Equality, acrescenta: “Numa atividade informal no zoo, perguntamos a visitantes leigos sobre comportamentos esteriotipados em elefantes, como o sacudir ou o balançar da cabeça etc. A resposta comum que recebemos foi que os elefantes parecem felizes e que estão dançando”. 

Elefantes Asiático e Africano no zoo de Nova Délhi. Apesar da proibição (de 2009) da manutenção de Elefantes Asiáticos em zoos na Índia, apenas alguns Elefantes Asiáticos tiveram a sorte de já terem sido enviados a parques nacionais; muitos ainda aguardam nos zoos. Mas Shankar e os outros Elefantes Africanos na Índia não são considerados por essa lei e continuam numa situação deplorável. Foto por Basav Bhattacharya, 
tirada em 10 de Novembro de 2012.

A horrível prática de exportar bebês elefantes

Enquanto isso, o Zimbábue continua nas manchetes dos jornais, pelas razões erradas. Seu recente envio de quatro bebês elefantes à China mostra que o bem-estar dos elefantes não está em sua pauta. Um deles já morreu. Está previsto o embarque de mais quatorze elefantes, dependentes de leite materno, para breve. Assim como em 2010, o Zimbábue mostra pouca preocupação com as trágicas consequências dessa horrorosa prática. Muitos países aparentemente expressaram interesse na importação de mais elefantes do Zimbábue. Podemos esperar apenas que sólidos argumentos, compaixão e decência prevaleçam, mas não estamos tão otimistas.

Os documentos de autoria de Shubhobroto Ghosh mencionados neste artigo estão disponíveis aqui para download:  The Indian Zoo Inquiry(1.14 MB) e a Sinopse (1.36 MB).

Leia mais sobre elefantes em cativeiro e na natureza em "Mente e Movimento - Indo ao Encontro dos Interesses dos Elefantes", escrito por Joyce Poole e Petter Granli, da ElephantVoices.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Cuidados durante o início da infância modelam o futuro dos Elefantes Africanos

Um estudo sugere que a capacidade de uma mãe elefanta de alimentar e cuidar de seu filhote tem “consequências a longo prazo” até a sua fase adulta.

Por Mark Kinver
Repórter ambiental, BBC News
Publicado em 13 de Fevereiro de 2013.


Estudo sugere que um bom começo de vida é vital para questões como, por exemplo,
o tamanho dos Elefantes Africanos.

Pesquisadores identificaram uma conexão entre a qualidade dos cuidados maternais durante os primeiros dois anos de vida de um filhote de Elefante Africano com a redução do crescimento e o atraso da maturidade.

Eles acrescentam que a projetada mudança climática e a perda de habitat poderiam ter um impacto profundo na espécie.

Detalhes dessa descoberta aparecem no periódico Biology Letters. 
“Cuidados maternais durante os primeiros dois anos de vida de fato afetam a sobrevivência de um elefante por mais de 40 anos, gerando consequências de longo prazo”, explicou a coautora Phyllis Lee, da Universidade de Stirling.

“É um problema que costumamos deixar de lado, a não ser que estejamos pensando em seres humanos: como animais respondem, a longo prazo, a eventos aparentemente pequenos que acontecem em suas vidas.”

A professora Lee e colegas da equipe internacional de pesquisadores disseram que mães inexperientes frequentemente proporcionam “cuidados inapropriados”.  

“Muitas vezes, elas não são apenas inexperientes. Se uma elefanta tem um filhote aos 10-12 anos, ela é muito pequena fisicamente e não tem estrutura física para dedicar-se ao seu filhote.Isso tem consequências imediatas porque é mais provável que os filhotes morram, mas aqueles bebês que conseguem sobreviver tendem, então, a ter uma desvantagem pelo resto de suas vidas, principalmente os filhotes machos.” 

Atraso no desenvolvimento

Essas desvantagens incluem atraso no desenvolvimento sexual e físico. 

“Isso é verdade principalmente para os machos, que se tornam adultos menores do que a média”, relatou a Professora Lee à BBC News.

“Como resultado, eles demoram mais para entrar em um estado reprodutivo, chamado frenesi sexual, e como nunca serão tão grandes quanto os outros machos da mesma idade, talvez fiquem sempre em desvantagem reprodutiva.Se você perde alguns anos de seu potencial reprodutivo e seu tempo de vida não é tão longo, isso pode diminuir drasticamente o seu sucesso reprodutivo.”

Elefantes têm uma característica incomum entre os mamíferos: continuam a crescer
por toda a sua vida, apesar de que, após a maturidade sexual, o ritmo seja mais lento.

Frenesi sexual refere-se a um período em que elefantes machos ficam com as glândulas temporais inchadas, por onde sai um fluido de cheiro forte, rico em testosterona, que escorre por suas bochechas. Durante o frenesi sexual, machos se tornam muito agressivos e sexualmente atraentes. 

Ela explicou que as fêmeas de Elefantes Africanos (Loxodonta africana) são capazes de ter filhotes desde os 10-12 anos, mas machos não atingem maturidade sexual antes dos 25-30 anos.

“A razão dessa demora é que os custos fisiológicos do estado reprodutivo são tão altos que o macho realmente tem que ser grande, forte e resistente para entrar em frenesi sexual.”

Entretanto, a Professora Lee explicou que os bem documentados fortes laços sociais que os elefantes formam com outros indivíduos do grupo proporcionam exceções para a regra. 

“O que achamos que acontece é que os que sobrevivem bem, no início de suas vidas, é porque tiveram uma mãe presente no grupo ou uma matriarca com muitos conhecimentos.”

“Esses são dois fatores importantes que ajudam o bebê de uma mãe de primeira viagem a sobreviver – mães inexperientes que têm uma mãe ou avó no grupo têm muito mais vantagem do que mães sem um suporte social.”

A Professora Lee disse, ainda, que pressões induzidas por humanos, como a caça, além da projetada mudança climática e da perda de habitat, têm o potencial de mudar as relações dinâmicas entre as populações de elefantes e prejudicar a sobrevivência da espécie a longo prazo. 

“Na ausência de mortalidades induzidas por humanos, ainda temos consequências causadas por mudanças ambientais antropogênicas”, sugere ela.

“Isso significa que quanto mais períodos de seca tivermos, mais as mães de primeira viagem terão dificuldades para criar seus filhotes sem um suporte social, e portanto, nesse caso, poderemos ter uma maior propensão de perder animais no decorrer de suas vidas.” 

“Isso mudará a composição do grupo, já que você muda as estruturas de conhecimento, muda o suporte social e muda a sobrevivência de cada indivíduo naqueles grupos de laços sociais muito fortes.”


Conheça e compartilhe com seus amigos nossa campanha "Cada Presa Custa uma Vida", pelo fim do comércio de marfim.