terça-feira, 14 de maio de 2013

A Comunicação Acústica dos Elefantes

Os sinais acústicos (ou sons) são omnidirecionais (viajam em todas as direções) e podem ser transmitidos a uma grande audiência, incluindo ouvintes intencionais e não intencionais, que podem estar à vista ou não. Como os sinais acústicos são propositais e de curto prazo, são utilizados para informar sobre situações imediatas, em vez de estados constantes. Através da reflexão, refração e absorção, os sinais acústicos são reduzidos pelo meio ambiente, de modo muito mais intenso nos casos de sons de alta frequência do que nos casos de sons de baixa frequência. Os elefantes são especialistas na produção de sons de baixa frequência e no uso da comunicação de longa distância.


Erin vocaliza depois de acasalar com Ed. (©ElephantVoices)

A gama de sons produzidos pelos elefantes

Os elefantes produzem uma grande variação de sons, que vão desde bramidos de baixa frequência a sons de frequência mais alta, como  trombeteios, roncos, latidos, rugidos e gritos, além de outros chamados idiossincráticos. Os elefantes asiáticos também produzem chilros. O som mais frequente, pelo menos no caso dos elefantes africanos, é o bramido. Você pode encontrar, ouvir e ler a respeito dos sons produzidos no nosso Banco de Dados de Chamados – Tipos de Chamados e Contextos.


Para compreendermos melhor a variação de sons utilizados por elefantes, podemos compará-los à variação utilizada pelos humanos. Uma típica voz humana masculina conversando flutua em torno de 110 Hertz (Hz, ou ciclos/seg.); a voz feminina, ao redor de 220Hz, e a voz de uma criança, em torno de 300Hz. Nos elefantes, o bramido do macho flutua em torno de 12Hz (mais de 3 oitavas abaixo da voz humana masculina); o de uma fêmea, em torno de 13Hz; e o de um filhote, em torno de 22Hz.

Na fala humana, o índice de vibração pode variar acima da proporção de 2:1, ou seja, mais que 1 oitava, enquanto a voz de um cantor pode variar mais que 2 oitavas. Comparando com os elefantes, um único chamado pode variar mais de 4 oitavas, começando com um bramido de 27Hz, que evolui para um rugido de 470Hz! Incluindo a harmonia, o chamado dos elefantes pode variar mais de 10 oitavas, indo de um baixo de 10Hz e alcançando um alto de mais de 10.000Hz. Imaginem uma composição musical com alguns elefantes líricos!

Os elefantes podem produzir sons bastante sutis, como também sons extremamente poderosos. Você pode ouvir dois exemplos clicando nas figuras que aparecem ao lado da tabela, neste link. Alguns dos chamados produzidos por elefantes podem chegar a 112 decibéis (dB) gravados a um metro da fonte. Os decibéis são medidos em escala logarítmica, e, para podermos exemplificar o quão alto o som de alguns elefantes pode chegar, copiamos a informação de uma tabela do The Science of Sound, por T. D. Rossing, que fornece exemplos de sons mais comuns.



Como os elefantes produzem uma variedade tão grande de sons?

O som é produzido na medida em que o ar é expelido dos pulmões, passando pelas cordas vocais ou pela laringe, uma estrutura que mede 7,5cm nos elefantes. O ar em movimento leva à vibração das cordas vocais em uma determinada frequência, dependendo do tipo de som que está sendo produzido. A variedade de frequências produzidas resulta do encompridar ou do encurtar das cordas vocais. A coluna de ar vibra no trato vocal estendido ou câmara ressonante e, dependendo da maneira em que o elefante mantém os vários componentes da câmara (tromba, boca, bolsa faríngea, laringe), ele pode modificar e amplificar os diferentes componentes do som.


Alguns chamados dos elefantes estão associados a determinadas posturas da cabeça e da orelha. Acreditamos que, colocando sua cabeça em determinada posição e movimentando suas orelhas em um determinado ritmo e ângulo, o elefante pode afetar a musculatura em torno da laringe a fim de modificar um chamado e atingir um som desejado. Ouçam um bramido associado ao frenesi sexual, que também está associado a uma forma de movimentar suas orelhas, conhecida como orelhas em ondulação.

Masaku fazendo movimento de ondas com as orelhas, ou Orelhas em Ondulação / Ear-Waving. (©ElephantVoices)

Resultados bem diferentes são alcançados com um mesmo tipo de duração e frequência de bramido, dependendo se a boca se encontra aberta ou fechada, se a cabeça está alta ou baixa, as orelhas fixas ou movimentando-se devagar ou rapidamente, ou levantadas ou dobradas. E, dependendo da posição da tromba e da velocidade e duração do ar movimentando-se dentro dela, os elefantes podem produzir uma impressionante gama de sons de alta frequência.

Os elefantes podem produzir sons de baixa frequência por vários motivos. Em primeiro lugar, produzem sons baixos devido ao tamanho de seu corpo, pois, como nos instrumentos musicais, quanto mais longa e solta a corda vocal, e quanto maior a câmara ressonante, mais baixa será a frequência produzida. Além do tamanho avantajado, os elefantes possuem várias adaptações que os permitem tornar suas câmaras ressonantes ainda maiores e suas cordas vocais mais compridas, produzindo sons ainda mais baixos que os esperados.

A primeira adaptação é a sua tromba, que, no caso de um macho adulto, pode adicionar até 2m no comprimento da câmara ressonante. 


Handsome, macho do Amboseli. (©ElephantVoices)
Em segundo lugar, as estruturas do aparelho hioideo (uma série de ossos na base da língua) e a musculatura que dá suporte à língua e à laringe nos elefantes são diferentes dos outros mamíferos. O aparelho hioideo dos elefantes contém cinco, em vez de nove ossos, que são ligados ao crânio por músculos, tendões e ligamentos, e não por ossos, como ocorre na maioria dos outros mamíferos. Isso permite uma maior flexibilidade e movimentação da laringe, o que facilitaria a produção e a ressonância de sons de baixa frequência.

Em terceiro lugar, na maioria dos mamíferos, o aparelho hioideo dá suporte à língua e à laringe. A estrutura menos rígida nos elefantes também contém uma bolsa faríngea, estrutura única dos elefantes, localizada na base da língua que, além de providenciar uma fonte de água emergencial, também parece auxiliar na formação de sons de baixa frequência.

Nos seres humanos e, por inferência, também nos elefantes, os músculos da laringe auxiliam na contração e no relaxamento das cordas vocais. Quanto maior a flexibilidade da laringe, maior será a habilidade desses músculos se esticarem e relaxarem, o que afeta a contração e o relaxamento das cordas vocais e, consequentemente, a altura ou a frequência do som produzido. Portanto, a modificação do aparelho hioideo nos elefantes permite acomodar a bolsa faríngea, além de, ao abaixar a laringe que se encontra fixada de forma frouxa, levar também ao aumento da câmara ressonante. Como consequência, os elefantes são capazes de produzir sons de baixíssima frequência.

A bolsa faríngea


Diante de temperaturas extremamente altas, os elefantes parecem inserir suas trombas em sua cavidade bucal a fim de retirar água de suas gargantas. O que ocorre é que eles são capazes de armazenar muitos litros de água em sua bolsa faríngea, estrutura essa exclusiva desses animais e localizada na base da língua. Os elefantes são capazes de retirar água armazenada, ao inserir sua tromba na faringe, contrair os músculos periféricos, lacrar a região da ponta da tromba e, então, contrair os músculos da bolsa faríngea de forma que a água seja esguichada para cima, permitindo que o animal encha a sua tromba.

A transmissão do som

Os bramidos representam os sons mais frequentemente produzidos pelos elefantes. Esses sons, de baixíssima frequência, foram  denominados de bramidos estomacais, pois se acreditava que eles eram originados no trato digestivo! Esses sons atraíram muito interesse e foram pesquisados, principalmente, por dois motivos. Primeiro, porque seus componentes mais baixos se situam a uma ou duas oitavas abaixo do limite da audição humana. E, em segundo lugar, como esses sons percorrem distâncias maiores do que sons de frequências mais elevadas, os elefantes usam os mais poderosos desses chamados para se comunicarem a longas distâncias. 



Belinda responde a um chamado de contato de sua família. (©ElephantVoices)
Quando atravessa o ar, o som é atenuado pela lei do inverso do quadrado, em 6 decibéis (dB), para cada vez que se dobra a distância da fonte de som. Portanto, um som de 100dB a um metro da fonte será reduzido a 94dB a 2 metros, a 88dB a 4 metros, a 82dB a 8 metros, e assim por diante. O som também é atenuado, à medida que passa pelo meio ambiente, através da “atenuação excessiva”. O grau de atenuação é afetado pela frequência do som e também pelo tipo de ambiente que ele está percorrendo. Mas, no caso de um som de frequência muito baixa, como no caso do bramir dos elefantes, ocorre muito pouca atenuação excessiva. Em savanas verdejantes ou em florestas, elefantes se comunicando a distâncias superiores a 100m percebem chamados de baixa frequência melhor que chamados de frequência mais alta. Grupos de elefantes muitas vezes têm mais de 100m de diâmetro, e subgrupos são frequentemente separados por vários quilômetros. Eles se comunicam através de seus poderosos bramidos.

Alguns desses chamados são tão poderosos que chegam a alcançar até 112dB a 1m da fonte. Esses chamados seriam classificados como intoleráveis, na tabela apresentada anteriormente. Qual a distância que este som pode percorrer? Usando a lei do inverso do quadrado, podemos estimar que um som de 112dB a 1m chegaria a aproximadamente 46dB a 2.048m da fonte. Através de gravações, Karen McComb demonstrou que, durante o dia, os elefantes não só detectam, como também reconhecem as vozes de indivíduos a 1-1,5km, podendo chegar até a 2,5km da fonte!


Em condições propícias, um elefante pode ter uma abrangência de 300 quilômetros quadrados em seu chamado. (©ElephantVoices)
Algo interessante acontece na transmissão do som, dependendo da hora do dia. Na savana, foi demonstrado que as condições do meio ambiente apresentam um ciclo diurno bastante regular. Já na caída da noite, normalmente ocorre uma grande inversão na temperatura, e isto permanece até o amanhecer. Os momentos mais propícios aos chamados ocorrem durante a formação e a dissipação dessas inversões térmicas, especialmente quando as condições do tempo estão favoráveis (céu claro, tempo firme). Nessa situação, o chamado de um elefante pode abranger uma área de 300km2, que corresponde quase ao tamanho do Parque Nacional Amboseli! Em outras palavras, um elefante pode detectar um chamado de outro elefante a quase 10km de distância. Durante o dia, sem o auxílio da inversão e sob a ação de sol forte com a presença de vento, o alcance do chamado diminui sensivelmente, atingindo uma área de até 150km2.

Além dos bramidos de baixa frequência serem bastante adequados à comunicação a longa distância, a estrutura harmônica do som permite que os elefantes calculem a distância daquele chamado. Quando próximos, a estrutura harmônica do som permanecerá intacta, mas, à medida que a distância aumentar, as frequências mais altas enfraquecerão, até o ponto em que somente as frequências médias e baixas persistirão.

A Detecção do Som


O limite máximo de audição através do ar, em mamíferos, varia de 12 kHz (elefantes) a 114kHz (morcego marrom), e o limite mínimo varia de menos de 0,016kHz (elefantes) a 10,3kHz (morcego marrom), uma variação de mais de 9 oitavas.

Mamíferos com pequenas cabeças e orelhas próximas têm uma melhor percepção de sons de alta frequência, se comparados a animais com grandes cabeças e orelhas bem espaçadas. Os grandes mamíferos geralmente são especializados em sons de baixa frequência, pois um crânio maior acomoda canais auditivos mais longos, membranas timpânicas maiores (a membrana que separa o ouvido médio do ouvido externo), além de ouvidos médios maiores. De que maneira estes fatores favorecem uma maior sensibilidade aos sons de baixas frequências?



Fêmea reagindo a um som. (©ElephantVoices)
Na audição normal, as ondas sonoras causam a vibração do tímpano e dos ossículos do ouvido médio, produzindo movimentos na janela oval e mudando o gradiente de pressão do fluido coclear.

Uma dificuldade com sons de baixa frequência é o nível do sinal para a proporção de ruído. Em frequências mais baixas, há uma tendência de haver mais ruído ao fundo. Desse modo, os animais especializados em escutar sons de baixa frequência têm que ter um modo de distinguir sinal de ruído. A quantidade de energia de som coletada pela membrana timpânica aumenta conforme aumenta a área da membrana, aumentando assim o sinal para a proporção de ruído ao nível do ouvido interno. Assim, quanto maior a membrana timpânica, mais o animal está apto a ouvir sons de baixa frequência. Os pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) têm que resistir às forças maiores produzidas pela vibração de uma membrana timpânica maior, então animais com membranas timpânicas maiores também têm ossículos do ouvido médio relativamente maciços. Uma bigorna de uma elefanta africana adulta (coletada por Joyce do crânio de uma elefanta chamada Emily, que morreu em setembro de 1989, quando tinha 39 anos) pesava 237mg. O martelo e o estribo dessa elefanta foram estimados por Numella e seus colegas em 278mg e 22,6mg, respectivamente, e a membrana timpânica teria 866mm quadrados.

Membranas timpânicas maiores apresentam, entretanto, um problema:  as membranas timpânicas dos mamíferos são extremamente finas, e o risco de se ferirem e se machucarem deve ser a razão pela qual as membranas timpânicas da maioria dos adultos maiores tenham se tornado grandes demais. O enorme crânio dos elefantes, contudo, permitiu uma evolução do canal do ouvido externo para aproximadamente 20cm de comprimento, provendo proteção adequada para essa grande membrana timpânica. Uma vez que os grandes ossos do ouvido médio dos elefantes não impedem a transmissão dos sons de baixa frequência e a grande membrana timpânica permite sinais altos para a proporção de ruídos, o ouvido médio dos elefantes reflete uma adaptação especial para ouvir sons de baixas frequências.

Finalmente, mais uma estrutura do ouvido dos elefantes – a cóclea – pode facilitar a audição de sons de baixa frequência. Junto com seus parentes, os sirênios (obs.: a ordem dos sirênios é composta por mamíferos aquáticos predominantemente herbívoros, parentes próximos dos atuais elefantes) – peixes-boi e dugongos –, os elefantes são os únicos entre os mamíferos modernos a terem retrocedido a uma estrutura da cóclea parecida com a dos répteis, o que pode facilitar uma grande sensibilidade a baixas frequências. Uma vez que a estrutura da cóclea dos répteis facilita uma aguçada sensibilidade a vibrações, foi sugerido que uma estrutura similar nos elefantes também pode ajudá-los a detectar sinais de vibração.


Elefantes agrupados e tentando estimar o nível de perigo, ao ouvir uma gravação de chamados de hienas. (©ElephantVoices)
Então, com todas essas adaptações especiais, o quão baixo os elefantes podem ouvir? O único estudo sobre a sensibilidade auditiva dos elefantes foi desenvolvido com os elefantes asiáticos. Infelizmente, o estudo foi concluído dois anos antes de se descobrir que os elefantes produziam sons de baixíssima frequência e, portanto, não foram testados esses sons. Mas sabemos, através desse estudo, que os elefantes ouvem muito bem nas frequências de ultrassom (abaixo da audição humana). Uma elefanta asiática em particular podia ouvir sons tão baixos como 16Hz a 65dB. Uma vez que 65dB pode ser descrito como um som de moderado a barulhento, presumivelmente elefantes podem ouvir significativamente mais baixo do que isso. Joyce tem gravações de chamados de elefantes tão baixos como 8Hz, e outros reportaram sons de 5Hz, então parece que os elefantes têm um modo de detectar esses sons de baixíssimas frequências, pois, de outro modo, por que os produziriam? Estudos recentes mostraram que os bramidos dos elefantes também são transmitidos através do solo, ou sismicamente. Se algum dia descobrirmos que os elefantes não podem ouvir sons tão baixos quanto 5Hz, então poderemos concluir que eles os recebem com a ajuda de seus sensíveis pés (você pode ler mais sobre isso em Comunicação Sísmica).

Por outro lado, os elefantes não podem escutar acima de 12 kHz, tornando-se os animais com o mais baixo limite de audição de alta frequência entre qualquer mamífero testado.

Localização do Som

Elefantes são muito bons para localizar sons. Foi sugerido que quanto maior o espaço entre as orelhas do animal (distância interauricular), maior sua habilidade de localizar sons, pois a diferença entre o tempo e a intensidade em que atingem cada ouvido pode ser usada como pista para a localização do som. Os elefantes estendem suas orelhas perpendicularmente a suas cabeças para melhor localizarem os sons. 


Elefante do Amboseli tentando localizar um chamado de outro elefante. (©ElephantVoices)
Uma elefanta asiática jovem cuja audição foi testada era capaz de localizar cliques e estouros ruidosos com alcance de 1 grau. Ela era menos eficiente para distinguir tons, mas era mais capacitada para distinguir tons de baixa frequência do que de frequência mais elevada. Abaixo de aproximadamente 300Hz ela era capaz de localizar tons de 10 graus com 75% de precisão; de 20 graus, com cerca de 80% de precisão; e de 30 graus, com cerca de 90% de precisão.

Clique aqui para ler o texto original, em Inglês. 


Leia também: "Elefantes são capazes de aprender comunicação vocal".

Saiba mais sobre a comunicação dos elefantes:
"A Comunicação Tátil dos Elefantes", "A Comunicação Sísmica dos Elefantes", "A Comunicação Química dos Elefantes".


Tradução, revisão e edição: Cristina Wunderlich, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


sexta-feira, 10 de maio de 2013

Vinte e seis elefantes africanos da floresta massacrados na África Central

Por: BBC NEWS - Ciência e Meio Ambiente
10 de maio de 2013




Homens armados com rifles Kalashnikov massacraram 26 elefantes no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana, afirmam conservacionistas.


A WWF reportou o número de carcaças, citando suas fontes na região.


A preocupação com o que estava ocorrendo no parque surgiu no início desta semana, quando afirmou-se que caçadores ilegais de marfim estariam usando as plataformas de observação de cientistas para atirarem nos animais.


Os elefantes se reúnem frequentemente em Dzanga Bai, uma grande clareira, para beberem.


Desde os tiros, nenhum elefante foi visto na área, reporta a WWF. 


O Parque Dzanga-Ndoki, considerado Patrimônio da Humaninade, é localizado na ponta sudoeste da República Centro-Africana (RCA, ou CAR, por sua sigla em Inglês), fazendo fornteira com Camarões e a República do Congo.


É descrito como um habitat único para os elefantes da floresta, em particular. 


A RCA tem testemunhado níveis crescentes de violência desde o início do ano, e grupos conservacionistas como a WWF retiraram suas equipes da área da clareira Dzanga Bai, por razões de segurança.


Na segunda-feira, o grupo conservacionista soltou um alerta de que 17 indivíduos armados, alguns com rifles de alto calibre, haviam entrado no parque e se dirigiam para a clareira Bai, conhecida localmente como a "aldeia dos elefantes".


Quando os homens armados saíram, Dzanga Bai parecia um "necrotério de elefantes", disse a WWF.


Jim Leape, Diretor Geral Internacional da WWF, acrescentou: "A República Centro-Africana precisa agir imediatamente para proteger esse Patrimônio da Humaninade”.


"A violência brutal a que estamos testemunhando em Dzanga Bai ameaça destruir um dos maiores tesouros naturais, e coloca em risco o futuro das pessoas que vivem aqui.


"A comunidade internacional precisa agir para ajudar a República Centro Africana a reestabelecer a paz e a ordem neste país, para defender sua popoulação e seu patrimônio natural.


Caçadores sudaneses de marfim foram responsabilizados pela matança.


Leia mais: "O Novo Ouro Branco e a Extinção dos Elefantes Africanos", no Blog do Planeta, da Revista Época.

sábado, 27 de abril de 2013

Uma Lição Sobre Sexo de Elefantes

Em meados dos anos 70, quando começou a estudar elefantes no Parque Nacional do Amboseli, no Quênia, junto com Cynthia Moss, a Dra. Joyce Poole logo descobriu que os elefantes africanos entram em períodos de frenesi sexual (musth), durante os quais seu comportamento sexual fica exacerbado, assim como sua agressividade. Aos 25 anos, Joyce publicou seu primeiro estudo científico sobre o tema, no periódico Nature. Essa foi a primeira de muitas descobertas sobre esses fascinantes e inteligentes animais. Os elefantes asiáticos também entram em períodos de frenesi sexual, e as manifestações ocorrem de modo similar.

O escritor Carl Safina conta para o Huffington Post, direto do Quênia, onde está escrevendo um livro sobre a vida dos animais, como é o acasalamento dos elefantes.


Foto: Shifra Goldenberg

Hoje, eu assisti a elefantes acasalando. Eu não sei se você já viu, mas, para mim, foi a primeira vez. 

Eu estou no Quênia, escrevendo um livro sobre a vida dos animais.

Elefantes têm um sistema de acasalamento bem diferente. Primeiro, as fêmeas vivem juntas em uma família: a matriarca, suas filhas adultas e todos os seus filhotes. Os Machos vivem em grupos separados ou vagam sozinhos. Eles não vivem em famílias.

Em geral, os machos não começam a procriar antes dos 20 anos. E uma coisa estranha acontece. Machos mais velhos e dominantes, geralmente por volta dos 30 anos, entram em um período de aumento do apetite sexual e da agressividade chamado “frenesi sexual”. Os elefantes machos em “frenesi sexual” são um pouco parecidos com os antílopes machos no estro. Mas todos os antílopes de uma mesma espécie começam a época de acasalamento ao mesmo tempo. Com os elefantes, não há como prever que os machos vão entrar em “frenesi sexual” ou quando isso vai acontecer. Machos que não estão em “frenesi sexual” podem acasalar. Mas machos em “frenesi sexual” são dominantes e agressivos, e as fêmeas os preferem.

Fêmeas amadurecem por volta dos 13 anos e, então, entram em estro por três ou quatro dias. Elas concebem quase todas as vezes que entram em estro e ficam grávidas por dois anos. Mais ou menos dois anos depois que o filhote nasce, elas entram em estro novamente, e então ficam grávidas por mais dois anos, enquanto ainda amamentam o último filhote. (Se elas têm um filhote que sobrevive, elas continuam amamentando-o até ele ter uns quatro anos.) Em outras palavras, elas estão prontas para acasalar apenas durante três ou quatro dias a cada quatro ou cinco anos.

Então, quando uma fêmea está pronta para acasalar, os machos ficam superanimados e há muita competição.

Machos em “frenesi sexual” ficam perambulando e visitando várias famílias, com um líquido escorrendo pelas glândulas que ambos os sexos têm nas têmporas. (Ambos os sexos secretam um líquido por essas glândulas quando há um aumento de tensão emocional ou qualquer tipo de excitação. acho que é como se nós tivéssemos axilas suadas na lateral do nosso rosto.) Eles também ficam constantemente pingando urina para alertar sobre o seu estado – dá para sentir o cheiro, que é parecido com o cheiro de urina de gato –, e o pênis apresenta uma cor esverdeada.

Pesquisadores só entenderam tudo isso sobre os elefantes africanos nos anos 70. Antes, eles achavam que os machos estavam doentes e chamavam aquele evento todo, que pode durar algumas semanas, de “a doença do pênis verde”.


Os machos em “frenesi sexual” andam por todo lado cheirando o ar e as manadas, à procura de fêmeas em estro. Eles vão até uma fêmea adulta e, em vez de dizerem “Qual é o seu estado?”, eles tocam a ponta de suas trombas em sua vulva, sentem o cheiro e muitas vezes colocam a tromba na boca para sentir o gosto.

Esse brusco excesso de familiaridade não perturba as damas nem um pouco, e elas lidam com essa situação com muita calma  e compreensão, andando e comendo como se nada estivesse acontecendo. Elefantes são, de várias maneiras, muito parecidos com os humanos, mas há limites para as comparações. Ou, pelo menos, para as regras de etiqueta.

Se a fêmea estiver em estro, vários machos a seguirão, acompanhada de sua família. Se um macho em “frenesi sexual” chegar, ele afasta todos os seus rivais e passa a  escoltar a fêmea em estro. Ela parecerá bem atraída pelo macho em “frenesi sexual”.

Hoje, apareceram um macho em “frenesi sexual” e vários outros machos onde estavam algumas fêmeas que eu estava observando. Duas famílias, chamadas os Zodiacs e os Rivers, estavam se misturando. Famílias que se misturam são chamadas de “grupos com laços” e são muitas vezes formadas por parentes de famílias que cresceram e se separaram durante décadas.

Bom, depois de ficar observando os machos, percebi que duas fêmeas –   Taurus Zodiac e Yangtze Rivers – estavam em estro. Eu sei o nome delas porque estou ficando no acampamento “Save the Elephants”, e a estudante de pós -graduação Shifra Goldenberg consegue reconhecer centenas de elefantes só de vista. 

Primeiro, um macho chamado Bigfoot começou a perseguir Taurus. Geralmente, o jogo é assim: se um macho adulto adequado consegue alcançar uma fêmea em estro e colocar sua tromba ao longo de suas costas,  ela para, e eles acasalam. Mas Taurus devia ter acabado de ficar em estro e não parecia estar pronta para acasalar. Ou então ela só não queria acasalar com Bigfoot. Quando Bigfoot a alcançou e colocou sua tromba em suas costas, tudo certinho, ela continuou correndo. Ele não ficou nada satisfeito e foi correndo ao lado dela, parecendo que ia cravar nela suas presas. Mas, em vez disso, ele só rugiu de frustração e parou a perseguição.

Depois, Suzuki perseguiu Taurus e recebeu exatamente a mesma resposta e o mesmo resultado.

Logo após, um macho em “frenesi sexual”, que não parece estar no banco de dados de machos que são reconhecidos, espantou esses dois machos. Havia mais ou menos uma dúzia de machos na área, e todas as fêmeas e machos estavam agitados, correndo e bramindo por todo lado. Isto se chama “pandemônio do acasalamento”.

Os meninos ficaram tão envolvidos na situação que perderam Taurus de vista, que, da última vez que a vi, estava indo rumo ao leste. Então todos eles botaram suas trombas para cima, como se elas fossem periscópios, procurando o seu cheiro.

Foi somente aí que percebi que  Yangtze também estava em estro. O macho desconhecido que estava em “frenesi sexual” alcançou-a, e ela o deixou iniciar a monta.

Todos pareceram ficar muito quietos. Os outros machos olhavam com admiração, espantados. O acasalamento durou uns dois minutos.

Depois disso, todos se acalmaram e voltaram a descansar – eles devem ter gasto muita energia correndo para cima e para baixo no calor tropical do meio do dia – e comer.

E fui embora, sabendo que essa exaltação vai se repetir sem parar pelos próximos dias. 


Link para o artigo original.

Assista ao vídeo Comportamento de elefante macho no período de frenesi sexual - Reserva Nacional de Maasai Mara, Quênia.




Tradução, revisão e edição: Ruby Malzoni, Maria Cristina Mullins, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


sábado, 6 de abril de 2013

O mais incrível horticultor do mundo, por Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz

Continuação de "Elefantes: os jardineiros das florestas asiáticas e africanas", publicado em 26 de Março de 2013.

Em uma entrevista, em Abril de 2011, Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz discutiram a importância de elefantes africanos e asiáticos para a dispersão de sementes tropicais, as várias ameaças que os elefantes estão enfrentando e as formas de salvar o mais incrível horticultor do mundo.

Fruta da Dilenia indica, uma iguaria para os elefantes. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Entrevista com Ahimsa Campos-Arceiz e Stephen Blake

Mongabay: Qual é sua experiência anterior?

Ahimsa Campos-Arceiz: Eu sou da Espanha, mas me mudei para a Ásia quase uma década atrás. Desde então tenho estudado grandes herbívoros asiáticos, principalmente elefantes, em Sri Lanka, mas também gazelas da Mongólia, veado sika Japonês e antas da Malásia. Depois de muitos anos com base na Universidade de Tóquio e de um curto período na Universidade Nacional de Cingapura, estou agora em Kuala Lumpur, Malásia, trabalhando no campus da Universidade de Nottingham.

Stephen Blake: Eu sou Britânico. Comecei trabalhando na Bacia do Congo, em 1990, em um orfanato de gorilas e, depois, com a Wildlife Conservation Society, em 1993. Fiz um mestrado (1993) e um doutorado (2002) na Universidade de Edimburgo – Um PhD em ecologia de elefantes africanos da floresta. Agora sou um pesquisador para o Max Planck Institute de Ornitologia, trabalhando com tartarugas de Galápagos.

Elefantes: os megajardineiros

 Leguminosas brotando das fezes de elefantes em Bago Yoma, Myanmar. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: Por que elefantes são importantes para as florestas que eles habitam?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes são importantes porque eles têm uma função única nessas florestas. Todos os animais estão envolvidos de alguma forma nos processos do ecossistema, mas os elefantes, sendo os maiores animais da floresta, estão envolvidos de formas únicas. Elefantes alteram a estrutura física da vegetação quando se alimentam, mobilizam grandes quantidades de nutrientes com suas fezes, fornecem comida e geram habitats para um grande número de vertebrados e invertebrados e, é claro, dispersam as sementes de muitas plantas que consomem, promovendo, portanto, a manutenção e a regeneração da floresta.

Stephen Blake: Lembremo-nos também de que, em uma densidade natural,  elefantes podem formar a maior parte da biomassa de mamíferos em florestas tropicais. Portanto, os elefantes usam uma grande parte da energia que flui dos animais. O tamanho de seu corpo significa que fazem coisas que outros animais simplesmente não podem fazer, como transportar sementes por distâncias maiores do que outros dispersores.

Mongabay: Qual das espécies de elefantes é a melhor dispersora de sementes?

Ahimsa Campos-Arceiz: No nosso artigo, mostramos que elefantes africanos da floresta são os melhores dispersores de sementes. eles dispersam um enorme número de sementes, de uma grande variedade de plantas, de uma forma muito eficaz (ex.: por distâncias muito grandes e melhorando sua capacidade de germinação). Elefantes africanos da savana e asiáticos também dispersam muitas sementes e podem ser extremamente importantes, mas parecem ser menos frugívoros (nós também sabemos menos sobre suas funções em dispersão de sementes).

Mongabay: Por que você acha que elefantes asiáticos dispersam menos sementes?

Ahimsa Campos-Arceiz: De certa forma, isso me surpreende. Acho que a maior diferença está nas florestas asiáticas, em vez de nos elefantes. No sudeste asiático, florestas são dominadas por dipterocarpáceas – árvores que são dispersadas pelo vento e que têm complexos ciclos supra-anuais (menos de um ciclo por ano) de frutificação em massa, conhecido como mast fruiting. Árvores que não são dipterocarpáceas constantemente seguem esses ciclos de frutificação em massa também. Para animais frugívoros, isso significa que frutas são uma fonte de comida menos abundante e confiável do que em outras florestas tropicais. Isso, provavelmente, é umas das razões que fazem os elefantes asiáticos parecerem ser menos frugívoros do que seus parentes, os elefantes africanos da floresta, apesar de, fora isso, terem muitas semelhanças em suas ecologias. De qualquer forma, elefantes asiáticos gostam muito de frutas grandes e suculentas e seria bem interessante estudar sua importância como um dispersor de sementes durante os episódios de frutificação em massa.   

Stephen Blake: Concordo: são a composição e a estrutura da floresta, não uma escolha inerente feita pelos elefantes. Elefantes africanos da savana geralmente não dispersam muitas sementes, mas coloque-os na floresta de Kibale, em Uganda, onde há acesso a frutas, e eles se tornarão formidáveis dispersores de sementes... nenhum mamífero de grande porte  que é generalista em sua dieta vai recusar uma boa alimentação de frutas, se esta estiver disponível.

Montes velhos de fezes de elefantes se tornam áreas férteis para a germinação de sementes. Foto: Stephen Blake.

Mongabay: Há evidência de que os elefantes sejam os únicos dispersores de algumas espécies?

Ahimsa Campos-Arceiz: Sim, há vários exemplos de plantas cujas sementes são dispersadas somente por elefantes. O melhor caso documentado é a relação entre a Balanites wilsoniana e o elefante africano da savana, em Uganda. Vários estudos descobriram que elefantes consomem e dispersam muitas sementes de Balanites; que nenhum outro animal dispersa essas sementes que, ao serem consumidas por elefantes, têm sua capacidade de germinação aumentada; e, ainda, que, em lugares sem elefantes, não há árvores jovens de Balanites longe de árvores adultas. Steve Blake também documentou 13 espécies que, em grande parte, dependem dos elefantes africanos da floresta para dispersarem suas sementes na floresta de Ndoki, no Congo. 

Na Ásia, não temos um caso bem documentado. Estou atualmente preparando estudos no Sri Lanka e na Malásia, observando espécies que dependem obrigatoriamente de elefantes asiáticos para sua dispersão. Definitivamente, precisamos de mais pessoas estudando a relação entre elefantes e as chamadas frutas da síndrome da megafauna (as espécies que supostamente se adaptaram para serem dispersadas pela megafauna). E, sim, isso é um chamado para os estudantes asiáticos que se interessem pelo tópico!

Stephen Blake: Humanos têm uma sobreposição considerável com as coisas relacionadas a grandes sementes. nossa estimativa de 13, no Congo, foi provavelmente muito alta, principalmente se humanos estiverem incluídos – e eles têm que estar incluídos. Para mim, o ponto principal não é saber de  quantas espécies os elefantes são os únicos dispersores, mas o impacto cumulativo da dispersão por elefantes... é claro que a diminuição da quantidade de algumas árvores por causa do desaparecimento de elefantes é prejudicial, mas, se a Balanites for extinta, é improvável que isso tenha um grande impacto no ecossistema da floresta. Entretanto, o fato de elefantes se tornarem extintos significa que o equilíbrio competitivo de muitas e muitas espécies – indiscutivelmente mais de 100, na África Central – favorecerá aquelas que têm sua dispersão feita por fatores abióticos (não biológicos, como o vento). Isso é um fator fundamental, de um ponto de vista ecológico.

Broto de Sandoricum Koetjape, em Taman Negara, na Malásia. Foto por: Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: Como a inteligência dos elefantes os ajuda a acharem alimentos e, consequentemente, dispersarem sementes?

Stephen Blake: O quão importante a inteligência é, é difícil dizer, sem estudos específicos, mas é provável que seja muito importante.

Ahimsa Campos-Arceiz: Deve ter uma função importante. Encontrar frutas na floresta é bem desafiador porque fruta é um recurso muito cumulativo – em espaço e tempo –, e as plantas com frutas grandes que são dispersadas por elefantes frequentemente ocorrem em densidades bem baixas. Em nosso artigo, nós especulamos que elefantes provavelmente possuem mapas cognitivos que permitem que eles lembrem onde e quando frutas estão provavelmente disponíveis, muito parecido com o fato de os elefantes da savana saberem onde encontrar água durante épocas de seca. Chimpanzés são conhecidos por usar esses mapas cognitivos em sua busca por frutas.

Fora a memória individual, elefantes têm uma “memória espacial societal” na forma de trilhas permanentes, abertas na floresta por gerações de elefantes movendo-se de e para fontes confiáveis. Como Steve descreveu em um artigo anterior, essas trilhas “aprisionam” árvores frutíferas e outros recursos importantes. É claro que, através de seus movimentos por essas trilhas, elefantes também dispersam um maior número de sementes em volta delas, em um processo de “aperfeiçoamento” do habitat que se autorreforça.

Mongabay: Quão longe os elefantes dispersam sementes? Por que isso importa?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes dispersam sementes grandes por vários quilômetros regularmente. Em meu estudo com elefantes asiáticos, descobri que, em Sri Lanka e Myanmar, eles dispersam 57% de sementes por mais de 1 quilômetro de distância da planta- mãe, com uma distância máxima de até aproximadamente 6 quilômetros (observando dados não publicados de uma população birmanesa diferente, descobri distâncias de dispersão de mais de 20 quilômetros!). Mas essas distâncias parecem curtas, comparadas com o que Steve descreve sobre o Congo, onde elefantes africanos de floresta dispersam 82% de sementes por distâncias maiores que 1 quilômetro, e algumas sementes por distâncias de até 57 quilômetros!! Essas são realmente distâncias de dispersão sem precedentes para sementes grandes de floresta – a maioria dos animais dispersores de sementes em florestas tropicais soltam as sementes apenas a uns 10 ou 100 metros da fonte.

Distância de dispersão é um dos fatores mais determinantes de distribuição espacial de sementes, o que tem uma influência importante no padrão de distribuição de árvores e, consequentemente, na estrutura da floresta. Árvores dispersadas por longas distâncias pelos elefantes têm uma ampla distribuição geográfica, baixo nível de agregação espacial e ocorrem em baixas densidades. Dispersão de sementes por longas distâncias também tem um fator chave em processos como migração de plantas (ex.: em resposta à mudança climática), conexão de populações isoladas (ex.: em cenários de florestas fragmentadas), e recolonização de habitats degradados (ex.: depois do abandono de campos de agricultura).

Mongabay: Se elefantes não estiverem mais presentes, outras espécies os substituirão, em termos de dispersão de sementes?

Stephen Blake: A perda de elefantes é precursora do colapso das populações de mamíferos de grande porte, geralmente devido ao comércio da carne de caça. então, espécies que poderiam  substituir um pouco o papel dos elefantes, com esse alívio da competição – gorilas, chimpanzés, antílopes de floresta  etc., também não estarão presentes. Na Bacia do Congo, isso é agravado pelo vírus Ebola, por exemplo, que acaba com os gorilas em vastas áreas de floresta. Assim, nós não deveríamos ver o desaparecimento dos elefantes como um evento isolado, mas sim como um sinal mais óbvio de um amplo colapso ecológico.

Ahimsa Campos-Arceiz: Plantas raramente colocam “todos os ovos de sua dispersão em uma única cesta”’ – elas geralmente têm vários mecanismos complementares para dispersão. A maioria das frutas suculentas são dispersadas por uma variedade de animais, os quais continuam dispersando sementes, na falta de elefantes. Geralmente há algum nível de redundância funcional.

No caso dos elefantes, entretanto, por causa de suas características funcionais exclusivas, há menos redundância e mecanismos para compensar sua perda. Algumas plantas com sementes muito grandes talvez não achem nenhum outro animal dispersor (ex.: Balanites wilsoniana, na África, ou Borassus flabelifer, na Ásia). E mesmo que haja animais que ainda dispersem as sementes (ex.: roedores acumuladores de alimentos), o padrão espacial de dispersão poderia mudar drasticamente, resultando em uma trajetória ecológica diferente para a planta (ex.: restrição da distribuição geográfica da espécie, distribuição espacial mais aglomerada dos adultos, aumento da estrutura genética local e,  principalmente, desaparecimento de muitas populações).



Estradas secundárias, estradas terciárias e trilhas para equipamentos de extração de madeira (como esta acima) abrem muitas esquinas na floresta no Congo, ameaçando elefantes e outras espécies. Foto: D. Wilkie.

Mongabay: Como você acredita que florestas irão mudar, se populações de elefantes diminuírem rapidamente ou se até forem extintas localmente?

Ahimsa Campos-Arceiz: Elefantes já desapareceram de áreas grandes da África, da Ásia e das Américas, então florestas já devem ter mudado. As mudanças principais que podemos esperar são: plantas com frutas e sementes grandes (especializadas em dispersão por megafauna) fracassarão em sua propagação e se tornarão cada vez mais raras, até que eventualmente desapareçam; plantas que são dispersadas por elefantes e outros animais verão seu padrão de dispersão modificado, o que resultará em diminuição de distribuição geográfica, aumento de agregação espacial e de estrutura genética de populações e  maior risco de desaparecimento local; e plantas que não são dispersadas por animais de grande porte (principalmente as que são dispersadas por fatores abióticos (não biológicos, como o vento) ganharão vantagem competitiva e se tornarão mais dominantes.

No geral, podemos esperar uma perda de biodiversidade e de simplificação da estrutura e da função da floresta.

Conservação de Elefantes

Mongabay: Qual é a diferença entre elefantes africanos da floresta e da savana? Um estudo recente descobriu que o elefante africano da floresta é uma espécie distinta. Você acredita nisso?

Stephen Blake: Tudo ainda é discutível. Um novo artigo acabou de sair no PLOS Biology, falando sobre “especiação profunda entre elefantes africanos”, mas tudo ainda é uma questão de opinião. No momento, o grupo especialista em elefantes africanos ainda considera duas subespécies para os elefantes africanos.

Mongabay: Se eles são espécies diferentes, quais são as implicações disso para conservação?

Stephen Blake: Com relação à conservação, eu não tenho certeza de que ter duas espécies distintas definidas fará muita diferença em termos práticos, mas, no curto e médio prazo, isso pode tornar as coisas mais difíceis para o elefante da floresta: A CITES imediatamente abriria o mercado para elefantes da savana, o que aumentaria o preço do marfim no mercado mundial, aumentando assim sua demanda. O aumento na demanda e nos preços tornaria as operações no mercado negro ainda mais lucrativas e viáveis, na falta de uma implementação eficaz da lei. O fator -chave é a implementação da lei, já que, porque esta é muitas vezes fraca em países exportadores e importadores,  por causa da corrupção e da falta de fundos e de competência, fica mais fácil transferir marfim ilegal da bacia do Congo para o mercado mundial. No momento, comerciantes dizem que esse não é o caso, e que o mercado legal seria bem controlado, mas suas evidências para isso são escassas


Elefante asiático macho atravessando uma estrada perto do Parque Nacional de Bundala, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Mongabay: Qual é o status das populações de elefantes africanos da floresta?

Stephen Blake: O status das populações de elefantes africanos varia muito entre diferentes regiões e grupos taxonômicos. As populações de Elefantes do sul da África estão estáveis ou, em geral, aumentando; as do leste africano, também; e as de elefantes africanos da floresta e da savana da África central estão em rápido declínio, por causa da caça ilegal e da perda de habitat. Elefantes do oeste africano parecem estar relativamente estáveis, mas eles estão muito fragmentados e geralmente são encontrados em populações pequenininhas, então a perspectiva para eles é bem ruim. Eu acho que as nações do sul da África estão satisfeitas com a perspectiva de estabilidade para seus elefantes. No entanto, com o enriquecimento da classe média Chinesa e com a Ásia comprando cada vez mais da África, nós veremos um aumento dramático na demanda por marfim e no seu preço no mercado negro, independentemente do que aconteça com o mercado legal. Combine isso com influência política e corrupção, e nós estamos prontos para ver elefantes serem muito afetados em áreas que são seguras agora. (obs.: esta entrevista é de abril de 2011, e, como previsto, nos últimos dois anos houve aumento da demanda por marfim, e os elefantes enfrentam hoje uma matança sem precedentes.)


Este elefante, no campo de óleo de Gamba, no Gabão, tem uma armadilha presa à sua pata dianteira esquerda. Capturar elefantes com armadilhas é uma forma eficaz de matá-los, em partes da África central. Foto: Stephen Blake.


Mongabay: E qual é o status das populações de elefantes asiáticos?

Ahimsa Campos-Arceiz: A situação das populações de elefantes asiáticos é complexa. Algo fácil de entender é que o número de elefantes asiáticos está diminuindo rapidamente, e, hoje, eles existem principalmente em populações pequenas e fragmentadas. Elefantes asiáticos perderam a maior parte – provavelmente 95% –  da extensão territorial que eles ocupavam historicamente. Esse declínio ainda está acontecendo, com uma estimativa de 80% de perda da extensão geográfica durante o século 20 (!!). Hoje em dia, um, em cada três elefantes asiáticos, é um animal de cativeiro. E países como Myanmar e Tailândia talvez tenham mais elefantes em cativeiro do que selvagens. Então as coisas não estão parecendo boas para os elefantes asiáticos.

Além disso, elefantes asiáticos habitam alguns dos países mais populosos do mundo. A atual densidade local de elefantes asiáticos em áreas do Sri Lanka, da Índia e de outros países é, no momento, insustentavelmente alta, porque elefantes que moram perto de pessoas inevitavelmente recorrem à invasão de terras cultiváveis, gerando vários conflitos entre humanos e elefantes (HEC), levando ao assassinato desses animais por retaliação e, eventualmente, à eliminação de populações inteiras. Em muitas áreas, os elefantes asiáticos são vistos como “as pestes muito abundantes da agricultura”. Porque elefantes são animais de vida longa, nós precisamos incutir, em nossa mente, que os efeitos demográficos aparecem muito tempo depois de mudanças ambientais. Muitas populações de elefantes asiáticos que atualmente estão sofrendo intensos conflitos entre humanos e elefantes (HEC) podem ser consideradas populações mortas-vivas, com poucas esperanças para o futuro, a longo prazo.


Mongabay: Que medidas de conservação você sugeriria para os elefantes asiáticos?

Ahimsa Campos-Arceiz: Na minha opinião, a prioridade na Ásia é aprender a lidar com os conflitos entre humanos e elefantes. Até agora, esses conflitos sempre levaram à extinção local de elefantes. Com as populações humanas se expandindo, há cada vez menos elefantes que conseguem viver sem interagir com as pessoas. Nós precisamos aprender maneiras de minimizar o dano causado por elefantes em comunidades locais (através da compreensão de fatores ecológicos e comportamentais que levam à invasão de campos de agricultura) e de aumentar o nível de tolerância das pessoas (morar com elefantes envolve riscos e consequências que não podem ser completamente ignoradas). Não vai ser fácil, mas compreender os reais impactos dos conflitos entre humanos e elefantes na vida das pessoas e os fatores socioculturais por trás de suas percepções e atitudes será muito importante.

 Ahimsa Campos-Arceiz checa um elefante morto, vítima de conflitos entre humanos e elefantes, no sudeste do Sri Lanka. Foto:  Ahimsa Campos-Arceiz.

Mongabay: E que medidas de conservação você sugeriria para o elefante africano da floresta?

Stephen Blake: Sempre gira sobre os mesmos pontos: proteção, manejo de animais selvagens, educação e divulgação , trabalho com os lideres de comunidades para gerar suporte local e bom manejo dos recursos naturais. Infelizmente isso tem fracassado e continua fracassando porque os recursos simplesmente não estão presentes. Você sabe, a África central está afundando cada dia mais em relação aos problemas ambientais e sociais: no Congo, estamos vendo uma geração que está começando a amadurecer, teve pouca educação e tem tido poucas oportunidades de trabalho. Os grandes impulsionadores das atividades econômicas – os chineses, por exemplo – estão trazendo sua própria mão de obra para as operações de extração de madeira e mineração, ao mesmo tempo em que o desejo mundial de ajuda internacional e filantropia está diminuindo rapidamente.

Então, trabalhar com o setor privado é importantíssimo para a conservação do cenário. Investimentos em conservação têm que estar ligados às forças do mercado de venda de madeira, minerais e óleo. Companhias sem consideração pelo meio ambiente devem ser penalizadas, enquanto as que são “boas” têm que ser recompensadas. No entanto, como nós vemos  todos os dias, isso é difícil, na prática. Você já viu as últimas noticias sobre a British Petroleum? sua estratégia de crescimento permanece a mesma, depois do enorme derramamento de óleo no desastre do Golfo do México. Sempre há um mercado por aí, mesmo que a companhia seja “boa” ou “ruim,” e, com o crescente aumento da demanda global, principalmente em mercados asiáticos, serão os preços da matéria -prima no mercado em crescimento, e não os produtos ambientais de luxo e top de linha, que contarão. Preços baixos não podem ser mantidos, se as companhias têm que investir em bom manejo de estradas, em combate à caça ilegal e em outras práticas ambientais e sociais.

Monyaka é um típico pigmeu caçador ilegal de elefantes. Monyaka já matou bem mais de 100 elefantes, valendo milhares de dólares em marfim. Na maioria das vezes, ele foi pago por seu marfim com bebidas alcoólicas ou cigarros. Foto: Stephen Blake.
Receio que uma forte mentalidade não politicamente correta deve ser imposta em parques nacionais até que haja uma nova ordem mundial de avaliação do valor dos recursos naturais... simplesmente não há um incentivo financeiro ou outros benefícios para fazer com que as comunidades locais se interessem em conservar elefantes, exceto em poucas áreas bem subsidiadas, como vilas onde a população é empregada por parques, mas o desafio é como fazer isso com os constantemente decrescentes recursos financeiros e as crescentes ameaças externas, que, a cada dia,  se aproximam mais das bordas dos parques nacionais. Um plano de uso da terra que respeite as necessidades de espécies que percorrem espaços muito amplos, como os elefantes, um forte reforço nas leis e estabilidade socioeconômica, política e ambiental estão entre as possíveis soluções, mas a África Central (assim como o resto do mundo) está bem longe de alcançar essas coisas.

Mongabay: O que você gostaria de ver como o próximo passo para pesquisas sobre elefantes como megajardineiros?

Stephen Blake: Acho que muitas pesquisas devem ser feitas agora. Nós precisamos olhar para coisas como o benefício de carbono gerado por dispersão feita por elefantes. qual é o ganho geral de carbono de ter elefantes plantando espécies de árvores de madeira de lei, que têm alta densidade de madeira, comparativamente com espécies que têm baixa densidade de madeira e são dispersadas por outros meios ? Há alguns trabalhos interessantes sobre isso que estão começando. Manter uma floresta rica em mamíferos intacta pode fornecer benefícios de carbono tangíveis, e, já que a única moeda que o mundo entende atualmente é dinheiro baseado em uma economia lastreada no petróleo, nós temos de aproveitar isso, por mais imperfeito que seja. 

Ahimsa Campos-Arceiz: Precisamos de muita pesquisa de base. Precisamos que estudantes asiáticos estudem frugivoria e dispersão de sementes por elefantes em diferentes ambientes, principalmente em florestas tropicais do sul e do sudeste asiático. Precisamos identificar os mecanismos de dispersão de muitas plantas com a síndrome da megafauna. E também precisamos identificar mudanças que estão ocorrendo na estrutura da floresta depois da perda de elefantes e de outros herbívoros de grande porte (ex.: rinocerontes da floresta). 

Mongabay: O que o público em geral pode fazer para ajudar?

Ahimsa Campos-Arceiz: Essa é uma pergunta difícil. Eu incentivaria muito que pessoas morando perto de elefantes entendessem que conflitos entre humanos e elefantes fazem parte, e não tem como isso ser solucionado, a não ser que todos os elefantes sejam removidos.

Para os que não moram perto de elefantes, eu os incentivaria a fazer contribuições financeiras para organizações de conservação e pesquisa,  porque fundos são uma limitação séria na realização de projetos para a conservação de elefantes; a tornarem-se  consumidores bem informados e diminuírem o consumo de produtos que prejudicam os habitats de elefantes (ex.: produtos que contêm óleo de palma produzido sem sustentabilidade, ou madeira proveniente de extrações ilegais); e a ficarem cientes de que alguns shows e atividades com elefantes na Ásia dependem do fornecimento insustentável de animais que vêm de populações selvagens, e isso não deve ser incentivado.

Uma vítima da matança ilegal dos elefantes. A mãe desse filhote foi morta enquanto invadia plantações em uma concessão de petróleo. Foto: S. Deem.
Stephen Blake: Além de tudo isso, precisamos gerar ideais maiores na população, que vão além do próximo carro e de uma grande casa, como objetivo de vida... precisamos fazer com que as pessoas pensem na conexão entre a compra de um produto barato e a razão pela qual ele é barato. Por que comidas orgânicas são caras? Porque elas vêm de fontes que são administradas ecologicamente. No primeiro mundo, todas as comidas deveriam custar isso, e, como sociedade, nós deveríamos comer menos e consumir menos. Mas essa não é a realidade econômica. Por que os carros nos Estados Unidos são tão grandes? Porque o preço do combustível é muito barato. Quais são as consequências de gasolina barata e carros enormes? Quantos americanos e europeus entram em suas grandes SUVs quando saem de suas enormes casas e param um segundo para pensar nas consequências do que eles estão fazendo, e se tudo isso não significa um pouquinho de desperdício? Elefantes são simplesmente mais um recurso natural que envolve, por um lado, a ganância humana, e, por outro, a necessidade humana. De alguma forma, nós precisamos que as pessoas se refamiliarizem com a natureza, ou elas não terão a menor ideia da interrelação entre causa e efeito. Essa mudança filosófica será tarde demais para os elefantes, isso se ela realmente acontecer, e, com a estimativa de 9 bilhões de pessoas no mundo daqui a pouco, o tsunami vai simplesmente varrer as últimas nobres áreas selvagens e levar, no processo, seus recursos naturais, elefantes e todo o resto.   

CITAÇÃO: Ahimsa Campos-Arceiz and Stephen Blake. Megagardeners of the forest – the role of elephants in seed dispersal. Acta Oecologica. 2011. doi:10.1016/j.actao.2011.01.014.


Uma elefanta asiática de cativeiro, Milennium Elephant Foundation, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.

Casa atacada por elefantes, para consumir arroz armazenado, Sudeste do Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Um jovem macho curioso de elefante de floresta reestabelecendo sua presença em uma área de conservação de sucesso, Nouable-Ndoki, Norte do Congo. Foto: Stephen Blake.


Loja na rua principal em Bangassou, na República Centro-Africana, com uma propaganda para a caça de elefantes. Essa loja fica a 180 metros de um serviço de proteção de animais selvagens. Foto: L. Williamson.
A não implementação da lei resulta em que a carne de elefante é oferecida para venda abertamente em mercados de vilas e vilarejos, na República Centro-Africana. Foto: L. Williamson.
Comércio de marfim no aeroporto de Lagos, na Nigéria. Foto: D. Stiles.

O entalhe de marfim tem uma longa história na Europa e na Ásia. Foto: D. Stiles.
Dois elefantes asiáticos machos brincando no Parque Nacional de Udawalawe, Sri Lanka. Foto: Ahimsa Campos-Arceiz.
Link para o artigo original

terça-feira, 26 de março de 2013

Elefantes: os jardineiros das florestas asiáticas e africanas

Jeremy Hance 
Mongabay.com
Publicado em 25 de Abril de 2011 


Elefante africano da floresta. Foto: Carlton Ward Junior.

Parece difícil imaginar elefantes cuidando delicadamente de um jardim, mas esses paquidermes podem muito bem ser os horticultores mais pesados do mundo. Elefantes, na África e na Ásia, comem quantidades abundantes de frutas quando estas estão disponíveis. As sementes passam por seus intestinos e, depois de expelidas – às vezes a muitos quilômetros de distância –, germinam uma nova planta, se as condições forem favoráveis. Esse processo é conhecido pelos ecologistas como “dispersão de sementes”, e os cientistas têm estudado há muito tempo a capacidade de “jardinagem” de macacos, pássaros, morcegos e roedores. Entretanto, recentemente pesquisadores começaram a documentar a capacidade de dispersão de sementes do maior animal terrestre do mundo – o elefante –, provando que essa espécie pode estar entre os mais importantes jardineiros tropicais do planeta.

“Em nosso artigo, mostramos que elefantes africanos da floresta são os melhores dispersores de sementes – eles dispersam um vasto número de sementes, de uma grande diversidade de plantas, de uma forma muito eficaz [...] Elefantes asiáticos e africanos da savana também dispersam muitas sementes [...] mas aparentam ser menos frugívoros (comedores de frutas)”, conta Ahimsa Campos-Arceiz, o coautor de um artigo recentemente publicado na Acta Oecologica sobre dispersão de sementes por elefantes africanos e asiáticos, para o mongabay.com, em uma entrevista. 

Stephen Blake, o outro coautor do estudo, diz que, nesse contexto, o comportamento de diferentes espécies de elefantes tem mais a ver com o habitat do que com as preferências da espécie. 

“Elefantes africanos da savana normalmente não dispersam muitas sementes, mas coloque-os na floresta de Kibale, em Uganda, onde há acesso a frutas, e eles se tornarão formidáveis dispersores de sementes”, Explica Blake. “Nenhum mamífero de grande porte que é generalista em sua alimentação vai recusar uma boa refeição de frutas, se esta estiver disponível.”


Essas Myrianthus arboreus são frutas típicas procuradas por grandes mamíferos e elefantes no Congo. Foto por J.P. Vandeweghe.

Blake e Campos-Arceiz ressaltam em seu estudo que algumas espécies de plantas dependem completamente de elefantes para a sua dispersão, do mesmo modo que algumas orquídeas dependem inteiramente de um único inseto polinizador para propagação. 

“O melhor caso documentado é a relação entre a Balanites wilsoniana e o elefante da savana, em Uganda. Vários estudos descobriram que elefantes consomem e dispersam muitas sementes de Balanites e que nenhum outro animal dispersa essas sementes”, explica Campos-Arceiz.

Entretanto, Blake acrescenta que “o impacto cumulativo de dispersão por elefantes” é mais importante do que a conexão deles com uma única espécie: “é claro que a diminuição da quantidade de algumas árvores por causa do desaparecimento de elefantes é prejudicial, mas se a Balanites for extinta, é improvável que isso tenha um grande impacto no ecossistema da floresta. No entanto, se os elefantes forem extintos, significará que o equilíbrio competitivo de muitas espécies, indiscutivelmente mais de 100 na África Central, favorecerá aquelas que têm sua dispersão feita por fatores abióticos (isto é, não biológicos, como o vento). Isso é um fator fundamental, de um ponto de vista ecológico.” 

Uma das razões de elefantes serem tão importantes em um ecossistema florestal é que, ao contrário de muitas outras espécies, eles são capazes de dispersar sementes longe da árvore -mãe (a que produz as sementes). De acordo com pesquisadores, elefantes asiáticos espalham sementes num raio de 1km a 6km, enquanto, no Congo, elefantes da  floresta são capazes de espalhar sementes por um raio de até 57km.

A semente de Borassus flabelifer, recuperada de fezes de elefantes.
Foto por Ahimsa Campos-Arceiz.
 

“Essas são realmente distâncias de dispersão sem precedentes para sementes grandes de floresta. a maioria dos animais dispersores de sementes em florestas tropicais solta as sementes apenas a uns 10 ou 100 metros da fonte”, explica Campos-Arceiz.

Apesar de sua importância ecológica, elefantes asiáticos e africanos estão ameaçados. Enquanto que algumas poucas populações de elefantes africanos da savana ainda estão estáveis, Blake diz que todas as populações de elefantes africanos da floresta – os maiores animais frugívoros do mundo – estão em “rápido declínio por causa da caça ilegal”.

Elefantes asiáticos enfrentam pressões por causa da caça ilegal, além de conflitos entre humanos e elefantes e a perda de habitat. 

“O número de elefantes asiáticos está diminuindo rapidamente e hoje eles existem principalmente em populações pequenas e fragmentadas. Elefantes asiáticos perderam a maior parte – provavelmente mais de 95% – da extensão territorial que eles ocupavam historicamente. [...] Hoje em dia, um, a cada três elefantes asiáticos, é um animal de cativeiro”, explicou Campos-Arceiz, que diz que a prioridade na conservação de elefantes asiáticos é lidar com o aparecimento de conflitos entre humanos e elefantes. 

Blake diz que a situação econômica, educacional e social ficou tão pobre na África Central que talvez sejam necessárias medidas drásticas para que elefantes de floresta sobrevivam. 

“Receio que uma forte mentalidade não politicamente correta deve ser imposta em parques nacionais até que haja uma nova ordem mundial de avaliação do valor dos recursos naturais... simplesmente não há um incentivo financeiro ou outros benefícios para fazer com que as comunidades locais se interessem em conservar elefantes [...] mas o desafio é como fazer isso, com os constantemente decrescentes fundos e crescentes ameaças externas, que, a cada dia,  se aproximam mais das bordas de parques nacionais”, diz Blake, acrescentando que “um plano de uso da terra que respeite as necessidades de espécies que percorrem espaços muito amplos, como os elefantes, um forte reforço nas leis e estabilidade socioeconômica, política e ambiental estão entre as possíveis soluções, mas a África Central (assim como o resto do mundo) está bem longe de alcançar essas coisas”.

Blake acredita que a difícil situação do elefante dispersor de sementes é, de alguma forma, emblemática de problemas mais amplos do planeta, como  conservação, meio ambiente, consumo, e até mesmo de problemas filosóficos.

Elefante asiático macho na água, em Bundula National Park, Sri Lanka.
Foto por: Ahimsa Campos-Arceiz.

“Precisamos gerar ideais maiores na população, que vão além do próximo carro e de uma grande casa como objetivo de vida... precisamos fazer com que pessoas pensem na conexão entre a compra de um produto barato e a razão pela qual ele é barato”, diz Blake. 
“Elefantes são simplesmente mais um recurso natural que envolve, por um lado, a ganância humana, e, por outro, a necessidade humana. De alguma forma, nós precisamos que as pessoas se refamiliarizem com a natureza, ou elas não terão a menor ideia da interrelação entre causa e efeito. Essa mudança filosófica será tarde demais para os elefantes, isso se ela realmente acontecer, e, com a estimativa de 9 bilhões de pessoas no mundo daqui a pouco, o tsunami vai simplesmente varrer as últimas nobres áreas selvagens e levar, no processo, seus recursos naturais, elefantes e todo o resto.”

E se Blake estiver certo, e os elefantes desaparecerem de vez das florestas que um dia eles dominaram?

“No geral, nós podemos esperar uma perda de biodiversidade e uma simplificação da estrutura e da função da floresta”, explicou sucintamente Campos-Arceiz. E, então, o jardineiro terá abandonado seu pedaço de terra, deixando-o exposto para uma crescente monocultura de ervas daninhas.  

Continuação: O mais incrível horticultor do mundo - uma entrevista com Stephan Blake e Ahimsa Campos-Arceiz.