sexta-feira, 28 de março de 2014

Elefantes são Quase Humanos

Reproduzimos aqui um artigo muito interessante publicado originalmente em um livro de 1966, com curiosos relatos sobre o comportamento de elefantes em diversas ocasiões e em diferentes países. Os estudos científicos sobre os elefantes evoluíram bastante desde então, mas é inegável que sua inteligência, memória, astúcia, empatia, senso de humor e sociabilidade já eram reconhecidos há quase cinco décadas atrás. 

Elefantes são Quase Humanos
Por: Brian O'Brien
Publicado originalmente no livro: "Maravilhas e Mistérios do Mundo Animal" - Seleções do Reader's Digest, Rio de Janeiro, Brasil, 1966


Um elefante africano macho do tipo gigante pode pesar até sete toneladas. Suas presas são seus dentes incisivos; crescem enquanto ele vive, tornando-se pesadas demais mesmo para um animal do seu grande porte, quando não são desgastadas pelo uso.

No Parque Nacional Rainha Elizabeth, de Uganda, o Superintendente R. C Bere e eu atravessávamos uma planície, de automóvel, uma bela tarde, quando avistamos um grupo de elefantas com seus filhotes. Olhando ao redor, elas abanaram as orelhas, e foi como se não nos tivessem visto, de modo que Bere parou o carro para que eu pudesse fotografá-las. De repente, a maior de todas esticou as orelhas, sacudiu malévola a cabeça e, rugindo desafiadoramente, avançou. Deteve-se a menos de seis metros de onde estávamos.

- Por que isso? – indaguei. – Ela estava tão calma!

- Talvez se tenha zangado ao ver os carros do safari - respondeu Bere. – Pode ser também que tenha comido algo que lhe fez mal. Ou foram os mosquitos; às vezes eles enlouquecem os elefantes. Nunca se pode saber o que os elefantes farão. Eles são imprevisíveis... como as pessoas.

Bill Ryan, veterano caçador de Ker & Downey, a famosa firma de Nairóbi, no Quênia, especializada em organizar safaris, observa os elefantes há mais de quarenta anos.

- Eles imaginam coisas, como nós - disse-me. – E às vezes são mais espertos. Num dos nossos acampamentos fixos, um bando de elefantes costumava invadir a horta. Levantamos uma cerca. Atravessaram-na. Ligamos então a nova cerca ao gerador, eletrificando-a. Bastaram algumas noites para que os elefantes percebessem que, quando as nossas luzes se apagavam, a corrente deixava de passar pela cerca - e lá se foi de novo a cerca. Mantivemos o gerador ligado a noite inteira. Mas os paquidermes continuaram por ali, brincando com o fio, até que um deles descobriu que suas presas eram maus condutores de eletricidade. Acabamos tendo de colocar sentinelas armados para mantê-los afastados do campo. 

Quando as cabanas para visitantes do Parque Nacional das Quedas Murchison estavam sendo construídas em Paraa, em Uganda, os carpinteiros eram constantemente afugentados do seu serviço por um elefante de três toneladas e meia conhecido como o Prefeito de Paraa. Era como se o elefante considerasse aquela área seu domínio privado; e mesmo depois de acabadas as cabanas ele prosseguiu no patrulhamento, detendo-se gentilmente para se deixar fotografar. Uma bela noite ele farejou pombe, uma cerveja que os nativos faziam de bananas fermentadas, e arrancou o teto de uma cabana para descobrir as frutas de infusão. Não tardou que passasse a procurar bananas em todos os automóveis que chegavam a Paraa. Se era um conversível, ele rasgava a capota para alcançar as frutas; os sedans ele revistava pelas janelas, quando não erguia o carro no ar e o sacudia.

Perto de Amboseli, umas das reservas nacionais do Quênia, vivia um elefante que tinha senso de humor. Gostava de ficar de tocaia numa curva apertada do caminho até aparecer um automóvel. Então investia, as orelhas em pé, com um guincho ensurdecedor. Contentando-se com aterrorizar todas as pessoas que vinham no carro, recuava e ficava a vê-las passarem com evidente cintilar nos olhinhos marotos.

No Parque Nacional Rainha Elizabeth, onde milhares de elefantes podem ser vistos pelos visitantes em perfeita segurança, desde que obedecidos os regulamentos do parque, tive ocasião de ver uma cena de amor entre elefantes. Um dia, eu e o Superintendente Bere observávamos um bando que pastava numa encosta, sobre o Lago Eduardo, quando um belo macho ainda jovem emergiu do seu abrigo, a cerca de duzentos metros do grupo. Quase imediatamente uma fêmea se desgarrou do bando, volvendo a cabeça timidamente de um lado para o outro, enquanto caminhava ao encontro dele. Quando seus olhos se encontraram, o macho envolveu a tromba da aliá na sua, e suas cabeças se ergueram, as trombas enlaçadas, até que suas bocas se tocaram num inconfundível beijo. Depois, a elefanta começou a dar cabeçadas no macho, de brincadeira. O macho arrancou um tufo de grama com a tromba, sacudiu-o de encontro aos joelhos, para limpá-lo, e ofereceu-o à fêmea. Esta o enfiou na boca, e lá se foram os dois, os ombros se tocando, só se detendo para trocarem beijos, até desaparecerem numa moita.

- Há mais de uma semana que eles estão de namoro firme - comentou Bere. – E continuarão namorando-se até a fêmea entrar no cio. Então, numa clareira remota - porque os elefantes, como as criaturas humanas, preferem o amor na intimidade - ela corresponderá de bom grado aos galanteios.

O casal se mantém junto o dia inteiro, nas imediações do bando, e à noite se esgueira para dentro da floresta, prosseguindo no romance, até que a fêmea emprenha e perde o interesse pelo companheiro. Alguns meses depois a fêmea procura a companhia de uma elefante mais velha, que zelará por ela quando nascer o filhote; o período de gestação é de aproximadamente 21 meses. A “titia” permanece de guarda, avançando furiosamente contra quem quer que se aproxime enquanto o filhote está nascendo. O filhote pesa uns 60 quilos, e poucos minutos depois de nascer já consegue sustentar-se nas pernas ainda bambas. A dedicação dos elefantes pelos seus filhotes é, comovedoramente, quase humana. Transportam-nos quando passam por água, arrancam as vergônteas altas demais para que eles alcancem e, quando preciso, castigam-nos por desobediência.

Uma tarde eu e Bere estávamos apreciando um bando de quatro elefantas com cinco filhotes às margens do Canal Kasinga, que liga o Lago Eduardo ao Lago George. Quando um dos filhotes, pequenino e gorducho, se afastou para a margem do canal, umas das fêmeas deu um grito de advertência. O elefantezinho não lhe deu atenção, prosseguindo ao longo da margem como um meninozinho a ver quão perto da borda poderia chegar. De repente a terra cedeu sob as suas patas e, com um grito lancinante, ele caiu dentro da água.

As elefantas grunhiram, de orelhas em pé, e no mesmo instante se precipitaram para o canal, estendendo as trombas solícitas. Porém o elefantezinho, lutando para não submergir, estava aterrorizado demais para se agarrar às trombas que se lhe ofereciam. Duas das fêmeas se ajoelharam na margem, trombas no ar, enquanto as outras duas entravam cuidadosamente dentro da água. Entre aquelas, grunhindo para encorajar o filhote que espadanava, estas duas enfiaram as presas por baixo do elefantezinho e ergueram-no até que as duas da margem o puderam arrastar para a terra, pondo-o fora de perigo. Uma das fêmeas, evidentemente a mãe do elefantezinho, aconchegou-o mais para si, gorjeando e dando gritinhos estridentes enquanto o cheirava todo com a tromba, ansiosa, conservando-se ele bem juntinho a ela, encolhido, ganindo e fungando água. Depois, contente por ver que o filho nada sofrera, a mãe pespegou-lhe um tremendo golpe com a tromba e, grunhindo de raiva, pô-lo para longe da água.

Um exemplo patético de pesar materno se registrou há algum tempo no Parque Nacional das Quedas Murchison. O Superintendente do parque, o coronel C. D. Trimmer, avistou um fêmea carregando nas presas um filhote recém-nascido, que sustentava com a tromba. O filhote estava morto. Durante três dias a elefanta-mãe andou com o pequeno cadáver, só o pousando no chão para beber água. Mais tarde foi vista sem o filhote, parada ao lado de uma árvore. Ali permaneceu vários dias, sem comer e avançando para quem quer que se aproximasse. Finalmente se foi. Trimmer veio a saber depois que ela cavara uma sepultura sob a árvore, onde enterrara o filhote.

Ao que parece, quase todos os elefantes são dotados desse característico instinto protetor. Um macho envelhecido demais para alimentar-se deixará o bando, talvez por ter-se tornado demasiado vagaroso para segui-lo nas longas marchas. Um ou dois elefantes de menos idade talvez o acompanhem. Os jovens defensores o advertirão dos perigos, empurrando-o delicadamente para onde esteja abrigado, voltando sem seguida para desafiar o inimigo. Os guardiães ficam em geral com o elefante envelhecido até ele morrer, o que pode ocorrer aos 60 anos.

Os elefantes se incluem entre os melhores nadadores de todos os animais terrestres. Sabe-se de uma caravana de 79 elefantes de carga asiáticos que atravessaram trechos inundados do Ganges nos quais tiveram que nadar seis horas sem pôr os pés no fundo do rio. Os elefantes asiáticos, cujas orelhas são muito menores do que as dos seus irmãos africanos, não raro se deixam domesticar, sendo utilizados para ajudar o homem em suas tarefas.

Um elefante necessita de muito pouco sono- cerca da metade do que necessita o homem- o que aliás é bom, porque ele precisa passar a maior parte do tempo procurando alimento. Para ingerir os 800 quilos de folhas e grama que constituem sua ração diária, ele precisa alimentar-se durante as 16 horas em cada 24. Além disso, precisa também estar constantemente à procura de água, pois necessita de 100 a 180 litros por dia.

É verdade que o elefante não esquece nunca. Uma das coisas de que ele sempre se lembra é o cheiro das pessoas. Dizem os observadores que, tendo sido perseguido por caçadores, o dentuço é capaz de, com a tromba, sentir a diferença entre o cheiro de um branco e o de um negro a duas milhas de distância. Sydney Downey conta o caso de um elefante solitário que ele perseguiu durante anos, no Norte do Quênia:

- Ele se alimentava em ziguezague, desviando-se ora para a esquerda ora para a direita, mas voltando sempre à própria trilha. Ali parava, farejava a terra com a tromba e, se não sentia nenhum cheiro, prosseguia. Se sentia o cheiro de um nativo na trilha, recuava para abrigar-se e ficar à espreita até certificar-se de que estava sem segurança. Se o cheiro era de branco, pateava com estrondo, enfurecido, e partia de carreira, percorrendo 80 quilômetros ou mais em linha reta. Ele sabia que espécie de armas portam os brancos.

O coronel Bruce-Smith, conhecido colono do Quênia, sustentava que os elefantes tanto se lembram do bem que lhe fazem como dos perigos por que passam. Certa vez ele capturou um pequeno elefante que tinha uma chaga feia numa das pernas traseiras. Bruce-Smith fez com que metessem o animal num cercado de troncos grossos, estreito demais para que ele pudesse mover-se, enquanto lhe tratou a ferida. À primeira ardência do antisséptico o elefante rugiu de dor e raiva, quase libertando-se da paliçada. Mas Bruce-Smith terminou o curativo e deixou-o sossegar. Após três ou quatro curativos o elefante passou a submeter-se ao tratamento com paciência, embora tivesse de continuar confinado para que não arrancasse os pensos. Afinal foi solto. Desde então, até ser embarcado para Nairóbi, o animal corria para Bruce-Smith toda vez que o via, tomava-lhe a mão na tromba e levava-a ao ponto em que houvera a feriada agora cicatrizada.

As grandes manadas de elefantes estão sendo exterminadas. Porém, nos parques nacionais da África os visitantes ainda podem ver por si mesmos que esses imprevisíveis animais na verdade se comportam muitas vezes como as próprias pessoas que os contemplam.




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O Custo para os Elefantes se Refrescarem

Nicola Stead, Inside JEB



Elefante africano refresca-se em uma poça de lama no
Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)


Durante os quentes meses de verão, não há nada como um bom e refrescante mergulho numa piscina, e parece que os elefantes concordam com isso. De fato, em algumas áreas, os elefantes raramente afastam-se da água, e até mesmo têm sido chamados - ainda que haja controvérsias - de espécies dependentes da água.



Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Mas eles serão mesmo dependentes de água? E, se forem, o que os leva a essa dependência? Robin Dunkin, uma pesquisadora da Universidade da Califórnia, Santa Cruz, E.U.A., explica que, apesar de os elefantes terem numerosos truques para se refrescarem, como, por exemplo, usar suas enormes orelhas como ventiladores, algumas vezes isso simplesmente não é suficiente. “Assim que a temperatura ambiente ultrapassa a temperatura corporal, essas formas não evaporativas de perder calor realmente não funcionam mais. Eles podem verdadeiramente ganhar calor através desses mesmos truques, e então acabam tendo que contar com o resfriamento por evaporação.” Muito embora os elefantes não possam usar a evaporação do suor para se refrescarem, Dunkin descobriu que sua pele parece ser mais permeável à água do que a maioria das peles de animais. Com a ajuda de sua supervisora, Terrie Willians, ela decidiu investigar se a capacidade de eles se manterem frescos seria um fator para a sua dependência da água e, se isso fosse verdadeiro, como o excesso de elefantes numa mesma área - o que causa danos - poderia ser potencialmente controlado, através do gerenciamento da disponibilidade de água. 


Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Dunkin começou medindo a quantidade de água que os elefantes perdem por evaporação de sua pele em uma gama variada de temperaturas, desde gelados 8° C até escaldantes 33° C. Para fazer isso, ela recrutou 13 elefantes treinados - africanos e asiáticos - de três zoos das redondezas. Dunkin mediu a perda de água por evaporação passando uma corrente de ar sobre suas peles e medindo a quantidade de água no ar antes e depois disso. 



Parque Nacional de Tsavo, Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Dunkin descobriu que, conforme a temperatura subia, a quantidade de água perdida por evaporação a partir da pele aumentava exponencialmente. Entretanto, Dunkin explica que ar quente pode carregar mais água e que isso, por si só, pode levar a uma maior evaporação. Dunkin observou que, mesmo fazendo as correções necessárias, a evaporação cutânea total ainda era elevada, a altas temperaturas. Depois de oferecer aos elefantes um refrescante e revigorante banho de chuveiro, Dunkin viu as taxas de evaporação subirem ainda mais – presumivelmente, os elefantes estavam usando essa fonte de água adicional para aumentar o resfriamento por evaporação. Acima de tudo, Dunkin também descobriu, que durante os meses de verão, os elefantes aumentam a permeabilidade de sua pele. Colocadas todas juntas, as descobertas de Dunkin sugerem que os elefantes estão mais preocupados em usar a água para se manterem frescos do que conservá-la, e que qualquer água extra, como a proveniente de rolar na lama ou a de tomar um banho, é agradavelmente aceita. 



Parque Nacional de Tsavo, no Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

A seguir, Dunkin usou seus dados para demonstrar o quão importante era o resfriamento por evaporação para o controle térmico de um elefante. Até mesmo em baixas temperaturas, o resfriamento por evaporação tinha uma função, mas, quando as temperaturas alcançavam 29–32°C, essa era a única opção que restava para os elefantes se refrescarem. Nessas altas temperaturas, é como se eles ficassem dependentes de água para, praticamente, qualquer resfriamento. As descobertas de Dunkin sugerem que "a dependência da água é uma ideia muito simples, e está realmente vinculada ao clima. Então, eles estão ligados à água, mas a extensão disso depende do clima". Por exemplo, Dunkin estimou que um elefante no clima subtropical da África do Sul precisaria de apenas 22l de água por dia para se refrescar, enquanto que um elefante na semiárida savana da Namíbia precisaria de quase cinco vezes essa quantidade, incorrendo um débito de água de cerca de 100l por dia. Dunkin explica: “Entendendo como o clima leva os elefantes à dependência da água, podemos tornar acessíveis estratégias de melhor manejo para reservas que enfrentem problemas de alta concentração de elefantes em uma mesma área”. Porque, no final das contas, você pode ter uma quantidade excessiva de uma coisa boa, seja ela água ou elefantes.  



Parque Nacional de Tsavo, no Quênia (Foto: ©ElephantVoices)

Referências:

• Dunkin, R. C.,

• Wilson, D.,

• Way, N.,

• Johnson, K. and

• Williams, T. M.


(2013). O clima influencia o balanço térmico e o uso da água por elefantes africanos e asiáticos: fisiologia pode oferecer prognósticos de condução da distribuição dos elefantes. J. Exp. Biol. 216, 2939-2952. (2013). Climate influences thermal balance and water use in African and Asian elephants: physiology can predict drivers of elephant distribution. J. Exp. Biol. 216, 2939-2952.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.





quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Declínio dos Elefantes Vastamente Subestimado

Publicado por Trevor Jones e Katarzyna Nowak, em "A Voice for Elephants" (Uma voz para os elefantes), da National Geographic, em 16 de Dezembro de 2013.

Excrementos de abutre mancham mais uma vítima de caça ilegal em Ruaha-Rungwa, ao sul da Tanzânia (fotografia: Udzungwa Elephant Project).
No início deste mês, a mídia internacional publicou uma estimativa divulgada pela International Union for the Conservation of Nature (IUCN) de que “um quinto dos elefantes da África poderá ser eliminado nos próximos dez anos, se a taxa de caça ilegal for mantida”.

Essa é uma subestimativa prejudicial, que nivela por baixo a gravidade do atual desastre e os esforços que têm sido feitos para contornar a situação. 

Dada a vasta matança de elefantes por caçadores ilegais em busca de suas presas de marfim ao longo dos últimos cinco a dez anos e a falta de pesquisas acuradas e atualizadas das populações de elefantes em toda a África, é muito difícil fazer estimativas regionais dos números totais e projeções para o futuro, ainda mais para todo o continente.

No entanto, vamos considerar algumas sólidas informações que foram fornecidas recentemente em artigos analisados ​​por especialistas e relatórios de cientistas in loco.

Machos passeiam diante de uma câmera escondida no 
Ruaha National Park (fotografia: Udzungwa Elephant Project).
Grave Declínio

Na Tanzânia, que até recentemente abrigou o segundo maior número de elefantes de savana de todo o continente (depois de Botsuana), os resultados de um censo aéreo do ecossistema Selous realizado em outubro do ano passado acabaram de ser anunciados na 9ª Conferência Científica do Tanzania Wildlife Research Institute (TAWIRI), que aconteceu entre 4 e 6 de dezembro, em Arusha.

O ecossistema Selous (31.040km²) é a maior área protegida da África e possui a maior população de elefantes da África Oriental. No início dos anos 70, o número de elefantes foi estimado em mais de 100 mil, mas, depois da última grande crise de caça ilegal de marfim, no fim dos anos 80, a população caiu para cerca de 20 mil.

Após a proibição mundial do comércio de marfim, promulgada em 1989, a população se recuperou para cerca de 55 mil elefantes em 2007, quando a onda de matanças aumentou. Em 2009, o número de elefantes do Selous já tinha diminuído para cerca de 39 mil.

A mais recente estimativa da população é de 13.084. O resultado indica um declínio sem precedentes de quase 80% nos últimos seis anos.

Aguardamos com receio os resultados iminentes da segunda maior população da África Oriental, Ruaha-Rungwa (13.384km²), também no sul da Tanzânia, onde um grande número de carcaças frescas foi relatado na reserva de Rungwa Game e partes do Parque Nacional Ruaha.

O cenário tende a ser igualmente sombrio na Tanzânia Ocidental (Katavi-Rukwa, Ugalla, Moyowosi-Kigosi), onde pesquisas demográficas realizadas em 2009/2010 indicaram níveis de caça semelhantes ou mesmo piores do que no Selous.

Na África Central, um extenso estudo que reúne dados de pesquisa a partir de 80 locais estimou um declínio de 62% nas populações de elefantes africanos da floresta entre 2002 e 2011, e estes dados já são de dois anos atrás.

Elefantes no leito do Rio Ruaha (fotografia: Trevor Jones)

Manadas do Sul estão cada vez mais vulneráveis

A África do Sul não foi atingida tão duramente quanto o resto do continente - ainda -, mas todos os relatórios indicam que a situação está piorando.

A caça ilegal é intensa em Moçambique e agora está afetando também o Parque Nacional Kruger, na África do Sul, que é, parcialmente, uma continuação do Parque Nacional do Limpopo, em Moçambique. É uma parte do transfronteiriço Peace Park.


Como a África Oriental e a África Central foram esvaziadas de seus elefantes, é razoável esperar que os responsáveis pela caça ilegal se concentrem cada vez mais sobre as populações do Sul. 

O comunicado de imprensa da IUCN foi divulgado durante o Encontro Internacional de Elefantes, realizado há algumas semanas em Gaborone, Botsuana. 

O que está acontecendo nesse país, que é extremamente importante para os elefantes, não está claro, mas o presidente Khama, em seu discurso de boas-vindas aos representantes, adotou um tom que era ao mesmo tempo comovente e mais realista do que o da IUCN: 

“Os recursos humanos e naturais da África foram pilhados e saqueados durante gerações por pessoas de terras distantes. Escravidão, pilhagem de artefatos arqueológicos, de minerais, da fauna e da flora... O continente e seu povo foram vítimas, durante muito tempo, de interesses egoístas de outros continentes. E hoje continua... Nossos marfins de elefante e chifres de rinoceronte estão indo para países onde são usados Deus sabe como! Só para satisfazer crenças obsoletas ridículas, enquanto continuamos com carcaças, como prova de que um dia possuímos estes magníficos animais.”

Números enganosos
Então no que se baseou a previsão da IUCN?
Parece ter se baseado numa combinação de análise de dados de carcaças do programa MIKE (Monitoring the Illegal Killing of Elephants) da CITES e uma estimativa da população de elefantes no continente africano apresentada pelo AfESG (African Elephant Specialist Group) da IUCN, no African Elephant Database (AED).
O banco de dados do MIKE tem como objetivo indicar níveis de caça ilegal em 42 localidades em todo o continente, com exceção de um pequeno número de áreas bem monitoradas (notavelmente Laikipia-Samburu, no Quênia), entretanto, geralmente os esforços de monitoramento e níveis reportados são inadequados, e esses dados devem ser tratados com extrema cautela. 
Enquanto que o AED coleta estimativas de populações a partir de pesquisas científicas, a maioria desses dados estão agora significativamente ultrapassados, dada a atual rapidez de declínio demonstrada no Selous e em todos os lugares.
Por exemplo, a maioria das estimativas para a Tanzania são de 2009; para Botswana, de 2006; e para o Zimbábue, Gabão, e República Democrática do Congo, são ainda mais antigas do que 2006.
A realidade é que esse banco de dados não consegue acompanhar as taxas atuais de declínio das populações.
Com base nessas informações ultrapassadas, o AfESG e a IUCN citam um número de 500 mil elefantes africanos restantes na natureza. 
Suspeitamos que a metade desse número seja mais próxima na verdade. 
Uma família de elefantes em uma poça de lama em Ruaha (fotografia: Trevor Jones)

Caindo na Realidade
O amplamente divulgado trecho da IUCN não é apenas uma grave subestimativa de quantos elefantes provavelmente perderemos nos próximos dez anos, “se os níveis atuais de caça ilegal persistirem,” mas também desvia a atenção das perdas sem precedentes de elefantes que já ocorreram durante a última década. 
Observando o método de previsão da IUCN/MIKE, temos a obrigação moral de apontar que, de acordo com as mais recentes e confiáveis informações científicas, muitas das antigas grandes populações podem ter sido 100% eliminadas nos próximos cinco anos. 
Entre as localidades que nesse prazo tão próximo poderão não ter mais elefantes estão: Zakouma, no Chade; Yankari, na Nigeria; Virunga, na República Democrática do Congo; Caprivi, na Namibia; Garamba, na República Democrática do Congo; Queen Elizabeth, em Uganda; e, agora, Selous-Mikumi, na Tanzania.
Numa era de tantas espécies ameaçadas e em declínio, todas justificadamente motivando nossa preocupação e proteção, uma previsão de perda de 20 porcento dos elefantes africanos na próxima década parece, superficialmente, relativamente insensível.
A realidade é muito pior, e o problema muito mais urgente, e declarações enganosas vindas de respeitadas organizações de conservação podem fazer retroceder os esforços de recuperar o importante apoio internacional e as ações em solo que são necessárias para que se tome uma nova direção.
Nunca é fácil saber quantos elefantes ainda restam, nem fazer previsões —e proteção e bem-estar de elefantes são muito mais do que uma questão de números. De fato, em muitos locais onde sabemos que as populações estão sendo dizimadas, não temos tempo para esperar por mais informações. Temos que, simplesmente, agir.
Na política moderna de conservação, entretanto, os números são imensamente importantes — Esperamos que o recentemente anunciado censo aéreo pan-africano, agendado para 2014, traga uma visão mais clara do que já perdemos em todo o continente. 
Mais do que tudo, temos que assegurar que a informação levada ao domínio público seja a mais real possível.
Drs. Trevor Jones e Katarzyna Nowak são diretores do Udzungwa Elephant Project, no sul da Tanzania.

Link para o texto original da National Geographic. 

Tradução, revisão e edição: Amanda Lourenço, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Minas Gerais se torna o 10º estado brasileiro a proibir animais em circos

Com a aprovação da lei estadual 21.159/2014, Minas Gerais acaba de se unir a outros nove estados brasileiros que já proíbem o uso de animais em circos - Alagoas, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo. O projeto de lei aguardava aprovação há vinte anos na assembleia legislativa. 

Apoiamos todas as organizações e profissionais envolvidos nessa importante conquista e parabenizamos o Governo de Minas Gerais pela aprovação. 


Esperamos que a aprovação do projeto de lei federal 7291/2006, que visa a proibição do uso de animais em circos em todo o território nacional, siga pelo mesmo caminho e que, em breve, o Brasil possa se juntar a outros países que já aprovaram leis similares, como Colombia, El Salvador, Eslovenia, Holanda, Áustria, Bolívia, Bósnia-Herzegovina, Costa Rica, Croácia, Grécia, Israel, Paraguai, Peru e Cingapura.


Leia, abaixo, o depoimento da diretora da ElephantVoices, Dra. Joyce Poole, sobre o uso de elefantes em circos, entregue aos Deputados e ao Governador Antonio Anastasia pelo Movimento Mineiro pelos Direitos Animais, na ocasião da votação e sanção do projeto. 


Depoimento da Dra. Joyce Poole sobre elefantes em circos


Elefantes resgatados de circo e de trabalho em campings de turismo 
na Tailândia em sua nova vida, no santuário Elephant Nature Park.

Quênia, 12 de Dezembro de 2013.
Aos Deputados de Minas Gerais.

Tenho estudado elefantes e trabalhado por sua conservação e bem-estar há 38 anos. Sou considerada uma especialista de ponta no campo de comportamento e conservação de elefantes. Em meu julgamento, elefantes não deveriam ser usados em circos. Elefantes na natureza caminham por grandes áreas e percorrem distâncias consideráveis ​​a cada dia. Eles são animais inteligentes, altamente sociais, com um complexo sistema de comunicação. Nenhuma situação de cativeiro pode fornecer o espaço de que os elefantes necessitam para se movimentarem ou o tipo e a complexidade de estímulos sociais que eles experimentariam na natureza. Observar uma família de elefantes na natureza é uma experiência gloriosa. Liderados pela fêmea mais velha - a matriarca - a família é ligada por laços de parentesco, filiação, experiência, grande lealdade e afeto. Elefantes em circos são confinados e acorrentados por horas, são comprados e vendidos, separados de companheiros e, com freqüência, transportados de um lado para o outro. Em resumo, eles são tratados como objetos de entretenimento para os seres humanos.

Acredito que esses animais tão inteligentes, socialmente complexos e de vida longa devam ser tratados com respeito e empatia. O lugar de um elefante é na natureza, com seus parentes e companheiros. A existência totalmente anti-natural de elefantes cativos em um circo é grotesca, e permitir que essa prática continue é injustificado e anti-ético.

Joyce H. Poole, PhD
Scientific Director, ElephantVoices

Leia o depoimento de Scott Blais, CEO do Global Sanctuary for Elephants, também encaminhado em Dezembro de 2013 a Minas Gerais.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Uma crise silenciosa: elefantes do Vietnã à beira da extinção

Publicado por Christina Russo em “A Voice for the Elephants” (Uma Voz para os Elefantes), da National Geographic, em 5 de dezembro de 2013.


Elefantes asiáticos, como este da Tailândia fotografado por Jodi Cobb, da NGS, já circularam livremente em um território do tamanho dos Estados Unidos, mas, hoje, estão restritos a espaços fragmentados e isolados, onde são constantemente ameaçados. No Vietnã, eles estão à beira da extinção.

Os elefantes asiáticos não se beneficiam da atenção da mídia e de tantas ONGs como os elefantes africanos, que também continuam a ser abatidos ilegalmente. Por isso, as espécies do Vietnã estão desaparecendo discretamente.

Vítimas de um habitat cada vez mais fragmentado, de fracas leis ambientais, de conflitos com os homens, da exploração florestal e da caça ilegal, os elefantes do Vietnã correm risco de extinção.

De acordo com relatórios, em 1980 existiam, aproximadamente, entre 1.500 e 2.000 elefantes. Hoje, esse número pode ser de apenas 70.

“A situação é extremamente cruel”, diz Barney Long, diretor do Programa de Espécies no Fundo Mundial para a Natureza (WWF – World Wildlife Fund, em inglês). “Eles estão no limite. E vai demorar muito tempo para se recuperarem. É preciso não apenas um grande plano na mudança de conservação, mas também uma grande mudança cultural.”

Long passou muitos anos trabalhando para a WWF no Vietnã e explica que, de maneira geral, o país “não demonstrou um compromisso real com a conservação. Fizeram algumas declarações impactantes e também conseguiram criar algumas áreas de proteção, mas que ainda são pequenas demais e com uma gestão muito ineficaz”.

De acordo com Cao Thi Ly, chefe do Departamento de Recursos Florestais e Gestão do Meio Ambiente (FREM), na Universidade de Tay Nguyen, no Vietnã, elefantes vivem em oito ou nove trechos de floresta distribuídos pelo país, incluindo as fronteiras com o Laos e o Camboja.

Segundo o relatório de Ly, os poucos elefantes do Vietnã estão extremamente isolados. Em algumas províncias, como Nghe An, de seis a dez elefantes vagueiam em um pedaço de terra.

Em outras províncias, como Son La ou Lam Dong, por exemplo, há até menos: apenas um ou dois indivíduos. Seu habitat é altamente fragmentado e existem poucos corredores ligando um território ao outro, quando existem.

Biologicamente, as manadas de elefantes são quase todas compostas de fêmeas da mesma família, como explica Long: “Então, mesmo se o Vietnã conseguisse resolver o problema do espaço e da população, ainda teríamos o problema da genética. Com exceção das populações misturadas com as manadas do Laos e do Camboja, os grupos isolados são realmente grupos isolados. A longo prazo, a viabilidade genética deles deve ser questionada”.

Long acrescenta que não há, atualmente, nenhuma ONG trabalhando especialmente para salvar os elefantes selvagens do Vietnã.

Meenakshi Nagendran é bióloga especialista em vida selvagem e trabalha para o Fundo de Conservação para os Elefantes Asiáticos, do Serviço Americano de Pesca e Vida Selvagem (USFWS – U.S. Fish and Wildlife Service, em inglês). Quando perguntada se 70 elefantes seria um número viável para a população restante, ela respondeu que é possível: “Se o Vietnã tem 70 elefantes, e o país realmente protegesse seu habitat e criasse corredores, poderia haver uma recuperação da população”.  

Quantos elefantes existem?

No entanto, Nagendran acrescenta que não tem certeza se 70 é um número preciso. “Não sabemos se ainda existem realmente 70 elefantes selvagens. Há muitas incógnitas.”
Sobre o número exato, a bióloga começa dizendo que o Vietnã é como um “buraco cinza. Não um buraco negro, mas um buraco cinza”. Em seguida, afirma que, apesar de não ser confirmada, a informação que chega de ONGs é a de que haja apenas 10 ou 15 elefantes selvagens restantes no Vietnã.

Ly argumenta que coletar informações é um desafio e que “são fornecidos dados insuficientes”.

Atualmente, os elefantes estão listados como “em perigo crítico” no Red Data Book of Vietnã. O país é signatário da CITES, o que significa que “toda exportação e importação de elefantes e produtos para fins comerciais são proibidos”.

No entanto, em março de 2013, a CITES também identificou o Vietnã como um dos oito principais países envolvidos no comércio ilegal de marfim, seja como fonte, trânsito ou consumo. 

Em outubro, duas grandes apreensões de marfim aconteceram no Vietnã. Em uma delas, 2,4 toneladas de presas estavam escondidas dentro de sacos de conchas e, em ambos os casos, o marfim havia sido importado da Malásia.

Um passo positivo?

Fontes oficiais da província de Dong Nai anunciaram recentemente um fundo de emergência de 3,5 milhões de dólares para ajudar na proteção dos elefantes e no reforço do cumprimento da lei na região.

“Esta é uma iniciativa fantástica”, diz Long. “Pode se tornar um grande exemplo e deve ser aplaudida.”

De acordo com Long, nove elefantes foram mortos na província nos últimos anos. “Há desmatamento nessa área. Existe plantação de café e de caju e também diversos conflitos entre humanos e elefantes.”

Para que o programa de Dong Nai funcione, Long acredita que o projeto deveria ser integrado aos departamentos governamentais da província, inclusive à polícia.

“Esta é a área onde o último rinoceronte de Java no Vietnã foi alvejado e morto, sem que nenhuma prisão tenha sido feita. Então, quando falam sobre o fortalecimento da aplicação da lei, eles realmente não têm um bom histórico sobre o assunto”, explica o diretor.

Crueldade no cativeiro

Segundo o relatório de Ly, o Vietnã tem 81 elefantes cativos, quase todos explorados para entretenimento, como circos, zoológicos e acampamentos turísticos. É comum esses animais estarem sobrecarregados e desnutridos.

De acordo com uma reportagem, os elefantes, depois de trabalharem o dia todo e passarem a noite acorrentados, “ganham apenas algumas varas de cana-de-açúcar ou bananeira” para se alimentarem.

A pesquisa de Ly aponta que os animais, muitas vezes, “não têm cuidado veterinário e serviços de saúde apropriados”.

As condições dos animais em cativeiro refletem uma atitude de laissez-faire (“deixe estar”) sobre elefantes. “Não há uma ética de conservação real”, diz Long. “Ter elefantes na floresta não é algo que inspire orgulho ou senso de responsabilidade.”

No início deste ano, uma elefanta de 63 anos de idade morreu por excesso de trabalho depois de ter sido “forçada a transportar turistas em suas costas durante anos”.

Em 2011, um elefante de 38 anos foi encontrado morto em um acampamento turístico, amarrado a uma árvore com seus tendões cortados. Mais tarde, a mídia informou que o dono do elefante e seu cuidador foram detidos pelo assassinato. A venda do marfim parece ter sido um fator de motivação.

Por que elefantes asiáticos estão em perigo

Um relatório do USFWS de 2008 citou uma série de causas para a crise que os elefantes enfrentam não só no Vietnã, mas em outras partes da Ásia: a falta de compreensão da biologia do elefante, a falta de esforços para uma conservação específica e apropriada, políticas governamentais e leis fracas, má aplicação da legislação em vigor e uma “falta de vontade política para a conservação dos elefantes em todos os níveis de governo”.

O relatório também observou que “a estimativa da população global de elefantes asiáticos, calculada diversas vezes em cerca de 30.000, 40.000 ou 50.000 indivíduos, na realidade não passa de um palpite, permanecendo inalterada durante 25 anos, apesar da grande perda de habitat dos elefantes durante esse período”.

Meenakshi Nagendran, do USFWS, afirma sem rodeios que nós, seres humanos, somos os culpados: “É incrível ainda termos tigres, rinocerontes e elefantes (na Ásia). Mas ninguém aborda a questão da população humana. Esse é o ponto delicado”.

A caça novamente em alta

Enquanto elefantes africanos de ambos os sexos têm presas, na espécie asiática apenas os machos têm.

"Durante a crise da caça ilegal, há uns 20, 30 anos, a maioria dos grandes elefantes da Ásia foi perdida. Agora as pessoas estão vendo a nova geração crescendo com presas, e isso acaba gerando um aumento da caça ilegal”, explica Barney Long.

“Ninguém fala sobre a caça ilegal na Ásia como falam sobre a África e, no entanto, na Ásia, provavelmente o impacto é ainda maior, já que quanto mais machos desaparecem, menor é a viabilidade genética.”

De acordo com Longo, os elefantes do Vietnã estão enfrentando uma “crise silenciosa”.

Seu prognóstico é sombrio: “O Vietnã provavelmente será o primeiro país da Ásia a perder seus elefantes selvagens”.

Tradução, revisão e edição: Amanda Lourenço, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

Link para o texto original da National Geographic.


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

“Precisamos abolir todos os zoológicos”, diz o mais famoso dono de zoológico da Grã-Bretanha, Damian Aspinall


Um dos mais famosos donos de parques de animais selvagens na Grã-Bretanha chamou o governo para ajudá-lo a realizar seu sonho de longo prazo: abolir todos os zoológicos.


Aspinall, 53 anos, diz que os milhões de libras que são gastos em novos cativeiros poderiam ser melhor utilizados reproduzindo espécies ameaçadas de extinção para retorná-las à natureza

Damian Aspinall quer que seu próprio “negócio” seja gradativamente eliminado nos próximos 20-30 anos, dizendo que é errado manter criaturas sencientes como “prisioneiras sem liberdade condicional” por toda a vida.

Ele diz: “Nós brincamos de Deus quando trazemos esses animais das florestas para os zoológicos, então com certeza podemos brincar de Deus novamente e tentar retornar alguns desses animais a seus lares.”

Por volta de 80% de animais em zoológicos não estão ameaçados de extinção, ele argumenta, adicionando que ou eles são criaturas “híbridas”, sem nenhum valor para conservação, ou eles estão tomando pílulas anticoncepcionais para prevenir que se reproduzam, consequentemente aumentando os custos.

O Sr. Aspinall, 53 anos, diz que os milhões de libras que são gastos em novos cativeiros poderiam ser melhor utilizados reproduzindo espécies ameaçadas de extinção para retorná-las à natureza.

É uma políitica que ele segue com sucesso em seu parque de animais selvagens, Port Lympne and Howletts, em Kent, onde ele diz que “animais estão em primeiro lugar”.

A decisão de alugar uma terra próxima ao parque para dois festivais de música em Port Lympne, como foi reportado no Sunday Express ano passado, foi um “erro”, ele acrescenta.

A Fundação Aspinall, fundada por seu falecido pai John, o famoso magnata dos cassinos e amigo próximo de Lord Lucan, acaba de retornar nove gorilas para as florestas do Gabão, um momento que ele descreveu como “lindo”.

“Eles simplesmente andaram pela floresta e começaram a explorar”, disse ele.

“Se você é um real conservacionista e realmente acredita na natureza, o objetivo final é que você não precisará de zoológicos.

“Eles sempre jogam educação na sua cara, mas isso é um total e completo absurdo.

“Nos próximos 20-30 anos, seria um objetivo encantador ver zoológicos acabarem gradativamente, ou, se eles não acabarem, observá-los fazendo o que eu acredito que seja um real trabalho de conservação.

“O que eu quero dizer com isso é que eles mantenham apenas animais que estejam realmente ameaçados de extinção.

“Zoológicos estão presos numa armadilha porque eles precisam do consenso do público já que, se não, eles irão falir.


Damien Aspinall quer ver zoológicos sendo eliminados nos próximos 20-30 anos.
Macacos na Fundação Aspinall.
“E a única razão de eles ainda conseguirem o apoio do público é simplesmente porque as pessoas estão viciadas em shows de animais: elas anseiam por ver animais em exibição.

“A verdade é que se zoológicos fizessem o que é melhor para os animais, não o que é melhor para o público, eles seriam lugares bem diferentes.

“Eu fico com o estômago embrulhado ao ver zoológicos fazendo shows com animais.

“No meu ponto de vista, nenhum animal deveria estar aqui para nos entreter.

“Nós supostamente somos espécies inteligentes. Com certeza não precisamos ter animais entretendo nossas crianças.”

“O que estamos fazendo é disseminar uma cultura em que nossas crianças acham normal que o homem seja a espécie dominante.”

“Isso é simplesmente errado. Nós precisamos acabar com essa cultura enraizada no público e acabar com os zoológicos.”

“Há um espaço para a atuação do governo nisso.”

Mas no entanto, a Associação Britânica e Irlandesa de Zoológicos e Aquários diz que seus membros já fazem um trabalho significantivo de conservação na natureza.

“Populações em cativeiro podem ser usadas em defesa da conservação e de outros aspectos relacionados ao meio ambiente por aumentarem nossa consciência sobre o problema, e poderiam, um dia, ser devolvidas a seus habitats naturais, se isso for apropriado”, adiciona seu website.

Link para o artigo original.

Leia mais: 




Tradução, revisão e edição: Ruby Malzoni, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.