sexta-feira, 10 de abril de 2015

Descoberto massacre de elefantes na República Democrática do Congo; 30 animais mortos em 15 dias

Publicado pelo “The Huffington Post” em 26/3/2015
Por Ed Mazza


Elefantes mortos por caçadores ilegais, em uma foto de 2014. 
Novos relatórios dizem que mais elefantes estão 
sendo mortos; foram 30 em apenas 15 dias / ASSOCIATED PRESS

Dúzias de elefantes estão sendo chacinados num parque nacional na República Democrática do Congo por militantes armados que estão entrando no comércio de caça ilegal. O dinheiro proveniente da venda do marfim ilegal é usado para comprar comida, armas e munição.

O Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (The International Fund for Animal Welfare – IFAW) disse esta semana que 68 elefantes foram mortos nos últimos dois meses no Parque Nacional de Garamba, e a AFP (Agence Française de Développement) denunciou que 30 foram mortos em apenas duas semanas.

“Existe um grupo de sudaneses do norte adentrando o parque, dividindo-se em pequenos grupos, que, durante 15 dias, mataram 30 elefantes”, disse o diretor de Conservação do African Parks, Jean Marc Froment, que cuida da manutenção do parque. “Esses caçadores de elefantes têm muita experiência”, acrescentou.

Existem apenas 150 guardas florestais patrulhando os mais de 12.949 quilômetros quadrados de Garamba, disse a AFP. Como resultado, os 1.700 elefantes do parque se tornaram um alvo fácil para os caçadores ilegais e militantes armados, alguns entrando no parque através de países vizinhos.

Desde abril de 2014 até janeiro deste ano, 131 elefantes foram encontrados mortos em Garamba, relata o Enough Project. O grupo diz que o guerrilheiro de Uganda Joseph Kony, do Lord’s Resistance Army, renegados do exército nacional do Congo e caçadores ilegais armados do Sudão do Sul e do Sudão estão matando os elefantes no parque.


O Enough Project disse que o preço do marfim no mercado negro da Ásia gira em torno de US$ 1.000,00 a US$ 1.300,00 por libra e que uma única presa, dependendo do tamanho, pode ser adquirida por um preço que varia de US$ 20.000,00 a US$ 175.000,00. A organização preparou um relatório interativo sobre a caça ilegal em Garamba, que pode ser visto aqui.

Na África, as presas nem sempre são trocadas apenas por dinheiro. Guerrilheiros, às vezes, as trocam por munição: uma única presa pode comprar 18.000 balas, disse Sasha Lezhnev, diretora associada do Enough Project, ao Daily Mail.

Ano passado, representantes de 41 nações assinaram uma declaração em Londres, jurando proteger animais ameaçados, como os elefantes.
Entretanto, o IFAW disse que 15 desses países não deram qualquer evidência de que estão comprometidos com essa causa. “É aterrador que países como Chade, Camarões e República Democrática do Congo, cujas populações de elefantes estão altamente ameaçadas por causa do marfim, não demonstrem qualquer iniciativa ou progresso para diminuir a matança”, disse Jason Bell, diretor do Programa para Elefantes do IFAW.

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

Link para o texto original.

segunda-feira, 30 de março de 2015

‘Elefantes africanos estão a caminho da extinção’, ouvem os governantes da reunião de cúpula em Botsuana

Publicado pela DW - Deutsche Welle em 23 de Março de 2015.

A Reunião de Cúpula sobre os Elefantes Africanos, envolvendo 20 nações, começou em Botsuana com alertas renovados de que a população do maior mamífero terrestre está caindo dramaticamente. Caçadores suprem ilegalmente a Ásia, particularmente a China, com marfim. 


A conferência realizada num resort em Kasane, Botsuana, foi informada de que a caça ilegal dos elefantes africanos é insustentável, com mais de 100.000 mortos nos últimos quatro anos.

O número atual de elefantes, em todo o continente africano, está em torno de 420.000.  O pesquisador Dune Ives disse que, nesse ritmo, “a espécie pode ser extinta em uma ou duas décadas”.

O maior declínio ocorreu na África Oriental, onde os números caíram para 100.000. 

A abertura de reunião de cúpula coincidiu com a notícia vinda de Kinshasa de que 30 elefantes foram mortos por caçadores ilegais nas últimas duas semanas no Parque Nacional de Garamba, na região nordeste da República Democrática do Congo.

‘Assegurando comprometimentos’

O porta-voz do Ministério do Meio Ambiente de Botsuana, Elias Magosi, disse que o objetivo da reunião de cúpula – uma continuação da conferência de 2013 – é  assegurar comprometimentos “em altos níveis para efetivamente proteger os elefantes”. 

Magosi disse que os sindicatos de marfim se aproveitaram de conflitos, instabilidade social e governos débeis para suprir o mercado ilegal de marfim.

O grupo TRAFFIC, que monitora o comércio de vida selvagem, disse que o marfim certamente escoa do Quênia e da Tanzânia para países de trânsito, como Malásia, Vietnã e Filipinas, antes de chegar a China e Tailândia para ser vendido.

Na última sexta-feira, autoridades da Etiópia procuraram desencorajar a caça ilegal ateando fogo a seis toneladas de presas e badulaques de marfim confiscados ao longo dos últimos 20 anos.

O comércio de marfim está levando os elefantes à extinção.

Nos anos 70, a Etiópia tinha mais de 15.000 elefantes. Atualmente, restam 1.900. 

O Quênia e o Gabão também destruíram recentemente estoques de marfim.

No mês passado, a China impôs um ano de proibição nas importações de marfim, enquanto a Tailândia está sob pressão para seguir o pedido da CITES, ou Convention on International Trade in Endangered Species (convenção que regulariza o comércio de espécies ameaçadas).

O quilo do marfim atualmente é vendido a US$ 100 (92 euros ou 324 reais) por caçadores ilegais. Na China, ele é vendido por US$ 2.100 (1.927 euros ou 6.807 reais).

Elo entre a pobreza e a caça ilegal

Julian Blanc, especialista da CITES, disse que uma maneira de lidar com a caça ilegal é reduzir a pobreza humana “significativamente”. 

“Nós monitoramos uma relação direta entre a mortalidade infantil (uma medida de pobreza) em níveis distritais com os níveis da caça ilegal”, disse ele. 
“Em lugares onde há um alto nível de mortalidade infantil e pobreza, monitoramos um maior nível de caça ilegal aos elefantes”, disse Blanc.

Na África do Sul e em Botsuana, os elefantes sobrevivem melhor do que mais ao norte da África, pela simples questão de que, naqueles países, os caçadores ilegais se concentram em matar rinocerontes. 

A proteção dos rinocerontes também será um alvo importante da agenda da reunião de cúpula em Botsuana.

ipj/jr (AFP, dpa, AP)

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


Link para publicação original / Link to the original post

domingo, 22 de março de 2015

Etiópia destrói 6 toneladas de marfim apreendido

Publicado pela BBC, em 20 de Março de 2015.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes em três décadas.

A Etiópia destruiu todo o seu estoque de marfim apreendido, em um esforço para combater a caça ilegal.

As seis toneladas de presas, esculturas e joias foram queimadas na capital, Addis Ababa.

Este é o segundo país africano - o primeiro foi o Quênia - que queima seu estoque de marfim para desencorajar o comércio no mercado negro.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes desde a década de 80. Conservacionistas parabenizaram o país pela ação.

A polícia e funcionários dos parques nacionais colocaram gasolina no estoque em uma cerimônia em uma colina do Jardim Botânico Gulele, na capital.

O fogo foi aceso pelo Primeiro Ministro Demeke Mekonnen.






Mr Mekonnen descreveu o gesto simbólico como "pedra fundamental" na implementação de leis contra a caça. 

As autoridades afirmaram que nos últimos cinco anos foram presos mais de 700 suspeitos de caça e tráfico. 

Conservacionistas afirmam que a caça emergiu através da África Subsaariana nos últimos anos, com gangues matando elefantes e rinocerontes e arrancando suas presas e chifres, para suprir a crescente demanda da Ásia.

O relatório de 2014 da ONU e da Interpol estima que de 20.000 a 25.000 elefantes são mortos na África a cada ano, de uma população total de cerca de 650.000.

O vizinho Quênia queimou 15 toneladas de seu estoque no início deste mês.


A Etiópia tem cerca de 1.900 elefantes em nove regiões, afirma a African Wildlife Foundation, com base em um relatório do governo.

Entre 2011 e 2014,  conservacionistas estimam que 42 elefantes foram mortos, com mais três casos registrados em janeiro deste ano.

Dawud Mume Ali, do Ethiopian Wildlife Conservation Authority, disse à agência de notícias Reuters que 492 estrangeiros - do Oeste da África, Sudeste da Ásia e Extremo Oriente - foram presos ou multados nesses três anos.

No ano passado, líderes do Botsuana, Gabão, Chade e Tanzânia se comprometeram a honrar uma moratória de 10 anos na venda de marfim. 

Tradução, revisão e edição: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. 

Saiba mais sobre o comércio de marfim - recomendamos que você assista neste link a God's Ivory (Marfim de Deus), uma brilhante videorreportagem de 14 minutos de Bryan Christy para a Getty Images, legendado em Português. 


God's Ivory (Marfim de Deus)



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O lado negro do turismo com elefantes na Tailândia

Por: Jeanne Kim
Publicado no website de notícias da economia global Quartz, em 28 de Julho de 2014 

As candidatas a Miss Universo 2005 não captaram a mensagem. Foto: Darren Decker

Os folhetos de turismo da Tailândia mostram suas maravilhosas praias com águas límpidas e azuis, carrinhos coloridos de frutas frescas em mercados ao ar livre e elefantes caminhando pela selva com visitantes animados ​​em suas costas. Mas acontece que há um lado obscuro nesses passeios de elefante. 
A Tailândia é um dos 13 países da Ásia que comercializam elefantes asiáticos – a maioria do vizinho Mianmar –, para abastecer seu mercado de turismo. E um relatório recente descobriu abusos generalizados nessa indústria. 
O TRAFFIC, um grupo de fiscalização do comércio de vida selvagem controlado pelo World Wide Fund (WWF) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), divulgou os resultados de uma investigação sobre 108 centros turísticos de elefantes, hotéis e instalações governamentais examinados entre 2011 e 2013. Eles encontraram cerca de 80 elefantes nessas instalações que haviam sido capturados ilegalmente para a indústria do turismo. E entre aqueles cujas origens eram identificáveis​​, nove em cada 10 eram de Mianmar. Estimativas indicam que o número de elefantes em acampamentos turísticos na Tailândia é de 1.688 no total. 
No século passado, os elefantes asiáticos eram utilizados para extração de madeira e caçados por sua pele, sua carne e seu marfim. Mas, depois de o governo tailandês proibir o desmatamento em áreas protegidas, em 1989, não demorou muito para que os elefantes fossem utilizados como atração turística, o que se tornou um novo motivo para o comércio ilegal desses animais. Para prepará-los para o trabalho, eles são arrancados de suas famílias ainda jovens e entregues aos treinadores, que “quebram seus espíritos”,  acorrentando-os e privando-os de comida e água, diz o relatório da TRAFFIC. Eles são constantemente espancados com varas de bambu para se tornarem criaturas dóceis e controláveis​​. 
O Thai Elephant Conservation Center, criado pelo governo, refuta as denúncias dos abusos descritos: "A maioria dos elefantes tailandeses é muito bem cuidada, em parte porque a maioria dos tailandeses é de natureza amável e humana, mas também porque os elefantes são simplesmente valiosos demais para serem maltratados.” Em fevereiro de 2012, o governo tailandês apertou o cerco ao comércio ilegal de elefantes, o que parece ter parado a maior parte dele. Ainda assim, a TRAFFIC conclui que "não se pode descartar a chance de o tráfico ainda estar ocorrendo". Afinal, um elefante bebê saudável está atualmente avaliado em 33.000 dólares, e o número de visitantes na Tailândia está prestes a aumentar para 28 milhões em 2014, contra 26,7 milhões em 2013. 
Claro que alguns fracassos internos, como o golpe deste ano na Tailândia, colocaram um freio no turismo do país. O número de turistas caiu quase 5% entre janeiro e abril deste ano. Mas passeios de elefante, no entanto, não mostram nenhum sinal de perder seu apelo: o turismo usando esses animais segue forte na Índia, no Camboja e no Laos. 

Link para o artigo original em Inglês.

Saiba mais no website da ElephantVoices: "The ugly truth about elephant back rides" ("A terrível verdade sobre os passeios em elefantes"). 

Tradução, revisão e edição: Simone Frattini, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. 



terça-feira, 15 de julho de 2014

O significado dos chamados dos elefantes

Uma das características de comportamento fundamentais dos elefantes é sua natureza de demonstrar seus sentimentos e desejos. Expressões de satisfação, raiva, tolice e de total indignação, por exemplo, são vistas frequentemente. Os elefantes são, essencialmente, bastante expressivos e dramáticos. Por exemplo, se um membro da família sente-se ofendido, familiares e amigos correm até ele, para comentar, concordar e dar apoio emocional e também assistência física, se necessário. 

Os elefantes vocalizam em uma ampla gama de situações. Fazem isso para anunciar estados emocionais ou hormonais, alertar e intimidar outros elefantes, demonstrar emoções fortes, expressar seus desejos ou necessidades, propor, negociar ou discutir um plano de ação, coordenar a movimentação do grupo, assegurar a defesa do mesmo, cuidar dos filhotes, solicitar cuidados ou apoio, reforçar laços entre familiares e amigos, reconciliar diferenças e defender dominância. Elefantes comunicam-se uns com os outros usando uma variedade de tipos de chamados e, entre esses, sub-tipos, ou o que chamamos de “tipos baseados em contextos”.
Neste artigo ilustrado publicado pela National Geographic, você pode ler mais sobre os estudos da comunicação dos elefantes conduzidos pela Diretora Científica da ElephantVoices, Dra. Joyce Poole, e as gravações e bancos de dados organizados por ela e por Petter Granli, codiretor da ElephantVoices. 

O Significado dos Chamados dos Elefantes - Um Guia do Usuário

Publicado na National Geographic
Por Christy Ullrich Barcus
Ilustrações por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño; Áudio por Joyce Poole e Petter Granli, ElephantVoices
Os elefantes usam uma variedade de sons para se comunicar, desde poderosos rugidos a grunhidos de baixa frequência. Os sons emitidos por eles também incluem fungadas, latidos, grunhidos, barridos, bramidos e até imitações de sons. Esses sons são dicas cruciais para a sobrevivência de uma família de elefantes. A bióloga especializada em elefantes Joyce Poole, da National Geographic Explorer, juntamente com o codiretor da ElephantVoices, Petter Granli, gravou milhares de sons de elefantes.
Eles dividiram esses sons em várias categorias, ou “tipos de sons” (ex: grunhidos versus bramidos), e os inseriram em um banco de dados (elephant acoustic database) e, com base no contexto de comportamento, entonação e duração, interpretaram os significados das pequenas diferenças entre cada tipo de chamado, criando um banco de dados de chamados classificados por tipo de contextos.
“O que é realmente notável a respeito dos elefantes é o fato de eles trabalharem em equipe de forma extraordinária”, diz Poole. “Para que uma família de elefantes possa sobreviver, especialmente a predadores inteligentes como os humanos, é importante que eles se mantenham unidos e ajudem uns aos outros. Como parte desse esforço em equipe, eles desenvolveram uma comunicação complexa.”
Acesse o arquivo original enquanto você lê este artigo, para poder acionar os botões de “tocar” (play) e “pausar” (pause), escutando, assim, os sons relacionados. Recomenda-se o uso de fones de ouvido. 
Clique aquihttp://www.nationalgeographic.com/news-features/what-elephant-calls-mean/ para abrir uma nova janela e escutar os sons no arquivo original, enquanto lê este artigo traduzido.

Quando uma aliá (ou elefanta) propõe: “Quero ir para este lado; vamos juntos”, ela diz “vamos” com o som de um grunhido.
A aliá usará seu corpo para apontar na direção em que pretende ir, às vezes também levantando sua pata. Em intervalos de poucos minutos, ela faz o que Poole descreveu anteriormente como um grunhido que significa “vamos”, ao mesmo tempo em que abana suas orelhas. Nesta gravação, uma jovem fêmea faz o chamado do “vamos” 12 vezes dentro de um período de quase meia hora, para encorajar o grupo a tomar o rumo do pântano. “Os elefantes têm planos de ação que são bem separados de sua linguagem corporal e sons. Eles podem discutir, negociar ou até concordar em discordar.”
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Isso poderá acarretar em uma separação temporária na família, mas será apenas uma boa desculpa para que, depois, eles se reúnam com uma cerimônia de saudação.
A cerimônia de reencontro ou saudação é a chave para cimentar os laços em uma família de elefantes. Os elefantes vocalizam um som de saudação enquanto elevam suas cabeças, movimentam vigorosamente suas orelhas e tocam os membros de suas famílias com suas trombas. Eles soltam secreções por suas glândulas temporais, urinam e defecam. Às vezes, eles demonstram seu entusiasmo em estarem juntos novamente batendo suas presas e rodando, como se estivessem fazendo piruetas.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Essas cerimônias solidificam os laços de equipe necessários para uma família de elefantes se defender de predadores como leões ou humanos.
Os elefantes utilizam sons suaves e grunhidos para alertar sua família ampliada (que abrange não apenas elefantes com laços de sangue) sobre a presença de guerreiros Maasai e podem também emitir um rugido autoritário ou um bramido retumbante para intimidar um leão à espreita. Nesta gravação, um leão ataca um bebê elefante. O bebê grita, e imediatamente sua mãe e outras fêmeas adultas correm a seu encontro. Elas promovem uma espécie de “tumulto coletivo” (mobbing tactics), emitindo grunhidos poderosos, tipo rugidos, para espantar o leão. No meio de toda essa comoção, um jovem elefante brame e um adulto solta um bramido retumbante ameaçador.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Até o acasalamento é assunto da família mais próxima, durante o qual os elefantes jovens aprendem comportamentos vitais para seu sucesso reprodutivo no futuro. 
Os machos têm um período sexualmente ativo ao qual chamamos de “musth”, que dura meses. Já as fêmeas estão receptivas apenas por poucos dias. Durante o período do “musth”, os machos vão à procura das fêmeas, enquanto demonstram um estado sexual vigoroso e agressivo, com comportamentos típicos, secreções e um grunhido pulsante típico desse período, que é feito enquanto ele move uma orelha por vez. Uma fêmea que esteja receptiva (no cio) irá soltar secreções por suas glândulas temporais, urinar e fazer uma série de poderosos grunhidos depois do acasalamento, para atrair a atenção de qualquer outro macho que esteja em posição mais elevada no ranking e a alguma distância, como se pode ouvir aqui. Os membros da família somam suas vozes à dela, fazendo uma cacofonia de chamados, numa espécie de “pandemônio do acasalamento”.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

A proteção e cuidado extraordinários que a mãe proporciona a seu filhote formam os comportamentos e relacionamentos fundamentais que mantêm uma família unida.
Quando um elefante bebê está faminto, ele faz um grunhido insistente e anda em paralelo a sua mãe, levantando sua tromba, a fim de que possa acessar o leite de seu peito. Quase sempre, as mães pararão de andar e colocarão uma perna para frente, a fim de deixar seus bebês mamarem. 
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño
No entanto, até as mães aliás devem ser firmes com seus bebês na época de desmame.
Se a um filhote é negado o acesso ao peito, como pode ser ouvido nesta gravação, ele poderá aumentar sua exigência, combinando um choro com um bramido, produzindo, dessa forma, um “choro retumbante”. Caso isso não funcione, a demanda do filhote poderá escalar para um rugido.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Ainda assim, se um bebê elefante está realmente incomodado ou estressado, sua mãe, juntamente com a família toda, dará toda a atenção a ele, e todos se reunirão em torno dele para oferecer conforto.
A mãe de um filhote, assim como também as fêmeas jovens ou tias, agrupam-se em torno dele para oferecer consolo, tocando em sua boca, sua barriga, seus genitais e, ao mesmo tempo, emitindo sons tranquilizantes suaves, como bramidos retumbantes. Nesta gravação, um filhote ruge quando sua avó o chuta ao tentar afastá-lo de seu recém-nascido, que fora atacado por hienas no início do dia. O rugido do filhote chama imediatamente a atenção de sua mãe, que sai correndo do pântano e vai a seu encontro para consolá-lo. O filhote responde ao consolo da mãe com o que Poole chama de um “baroo” retumbante, que significa: pobre de mim, fizeram-me muito mal.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

Esse cuidado auxilia no desenvolvimento de suas personalidades, que podem ser observadas, por exemplo, durante a recreação, que é quando eles andam e correm livremente pela natureza, a esmo, emitindo sons de trombetas.  
Os elefantes gostam de relaxar e brincar. Eles trotam alegremente e de forma desengonçada, de cabeça baixa, balançando suas trombas, com a cauda elevada, fazendo sons brincalhões pulsantes e nasais, semelhantes a trompetes. Segundo Poole, em várias ocasiões os elefantes fingiram atacar seu carro, enquanto emitiam sons de trombetas e, em seguida, fingiam tropeçar e cair, tudo de forma muito brincalhona.
Ilustração por Emily M. Eng, Xaquín G.V., NG Staff; Arte por Álvaro Valiño

*Para saber mais sobre a comunicação acústica dos elefantes, entre em contato com a cientista em info@elephantvoices.org e peça o capítulo de Joyce Poole sobre comportamento e comunicação dos elefantes ("Joyce Poole’s chapter about elephant behavior and communication").
Poole, J.H. 2011. Behavioral contexts of elephant acoustic communication In: The Amboseli Elephants: A Long-Term Perspective on a Long-Lived Mammal. Moss, C.J., Croze, H.J & Lee, P.C. (Eds.) University of Chicago Press.

Link para o arquivo original da National Geographic.

Tradução, revisão e edição:  Carla Antunes, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

 

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Serão os elefantes quase humanos?

Por: Sarah Abraham
Publicado em 23 de Maio de 2014 em The Indian Republic

Elefante africano (Foto: The Indian Republic)
Humanos, aprendam com os elefantes a ter empatia

Aristóteles tinha grande consideração pelos elefantes. Ele dizia que eles “ultrapassavam todos os outros em capacidade mental e intelecto”.
Quando pensamos em animais inteligentes, pensamos em primatas. Isso provavelmente porque sempre estivemos acostumados a considerar os humanos como os mais inteligentes - então, pensamos que os primatas, nossos ancestrais, vêm em segundo. Mas não levamos em conta algo chamado “evolução convergente”. Para simplificar um pouco o que diz a ciência, isso indica que diferentes ramos evolutivos podem encontrar destinos similares. O fato de primatas serem inteligentes o suficiente para usarem ferramentas não significa que outro ramo evolutivo - paquidermes - não possa ser tão inteligente quanto. Também são inteligentes os golfinhos, claro, mas os elefantes, ao contrário dos golfinhos, que matam toninhas como diversão, são, além de tudo, gentis.
Eles realmente se lembram.
O que se diz sobre a memória dos elefantes é verdade. Eles têm excelente memória de longo prazo. Não têm a visão muito boa, mas ainda assim parecem não se esquecer de um rosto. Veja, por exemplo, o que ocorreu no Santuário de Elefantes do Tennessee, na chegada de uma nova elefanta chamada Shirley. Uma elefanta em particular, Jenny, ficou muito excitada e foi quase impossível mantê-la a alguma distância. Mas não se tratava de agressão - quando, finalmente, chegaram perto uma da outra, a cena pareceu muito mais com um encontro de velhas amigas depois de muito tempo, uma procurando cicatrizes na outra com sua tromba e muitas vocalizações. Os observadores, confusos, examinaram o passado de Shirley e descobriram que 23 anos antes elas haviam estado juntas no mesmo circo. Não apenas se lembravam uma da outra, como tinham uma ligação que não havia se rompido com o tempo.
Eles formam laços muito fortes uns com os outros
Os laços entre Shirley e Jenny não eram fora do comum. Elefantes geralmente formam unidades familiares matriarcais, que são costuradas de modo muito forte. Cada bebê que nasce é cuidado pela manada toda. Cynthia Moss, etologista especializada em elefantes, escreveu em seu livro sobre um incidente. Caçadores ilegais atiraram em duas elefantas da manada. Uma delas morreu, e a outra, atingida, ainda ficou em pé. Duas das elefantas da família (a mãe da elefanta ferida e um outra) foram até a elefanta ferida e tentaram segurá-la em pé. Quando ela acabou se ajoelhando, elas tentaram levantá-la. A elefanta ferida morreu, mas as outras ainda tentaram ajudá-la - com a tromba, a mãe tentou levantar seu corpo inerte. 
Quando tornou-se óbvio que ela havia morrido, elas a enterraram em uma cova rasa, cobrindo-a com folhas. Ficaram com ela a noite toda e, pela manhã, foram embora. A mãe foi a última a sair. Ah, e os caçadores que haviam atirado nas elefantas haviam sido afugentados pelo resto da família. Até mesmo esses três mosqueteiros puderam aprender sobre esse tipo de intimidade familiar.
Elefantes sentem grande empatia
Já falamos sobre como os elefantes formam fortes laços uns com os outros, que não se rompem com o tempo. Eles amam uns aos outros e sentem grande luto e desespero quando morre um membro da família, como tem sido observado por seu comportamento e linguagem corporal - eles até mesmo choram bastante seus mortos. E eles também têm ritos para o funeral, exatamente como nós.
Mas a compaixão dos elefantes não é limitada à sua própria espécie. Eles mostram grande empatia e se desviam de seu caminho para não machucar  nenhum animal ou pessoa. Há registros de casos em que os elefantes se recusaram a obedecer ordens que poderiam resultar em ferimentos a alguém ou a algum animal – como se recusar a derrubar um tronco de árvore se houvesse um animal sob ele. Também houve casos em que elefantes ficaram ao lado e cuidaram de pessoas feridas que estavam sozinhas, até que estas fossem encontradas por outras pessoas. 
É extremamente raro para um elefante atacar alguém, exceto durante o período de cio dos machos, quando eles se tornam extremamente comandados pela testosterona - e violentos. A maioria dos outros incidentes de violência ocorreu porque os elefantes foram repetidamente maltratados por pessoas, muito além de qualquer nível de tolerância humana. Esses incidentes são, geralmente, uma prova condenatória da maldade humana, não do comportamento dos elefantes.
Elefantes e arte
Quando se considera o expressionismo abstrato, os elefantes podem estar fazendo um trabalho melhor do que as pessoas. Há artistas célebres entre os elefantes cativos, dos quais um dos mais famosos é Ruby. Ruby segura seu pincel com sua tromba e dizem que ela mostra uma conhecimento aguçado sobre diferentes cores e sobre a sequência em que ela gostaria de aplicá-las na tela. Guiados pelos treinadores, os elefantes podem frequentemente também pintar objetos identificáveis. Dizem que os elefantes também podem reconhecer diferentes melodias e músicas. Shanthi, outro elefante, tocou gaita.
A vida e o crescimento de um elefante espelha-se na vida e no crescimento dos humanos. Filhotes de elefantes precisam da mesma quantidade de cuidados, ainda que possam caminhar muito antes que os bebês humanos possam fazê-lo. Eles crescem aproximadamente no mesmo ritmo, tornando-se totalmente adultos por volta dos 20 anos. Sua longevidade é de cerca de 70 anos, como os humanos. Seguindo as atuais evidências, diríamos que eles são capazes de sentir mais empatia do que os humanos - eles nunca tentaram roubar dentes bonitos de bocas humanas, para depois abandonar esses humanos à morte, enquanto que os humanos parecem determinados a caçar elefantes até sua extinção, por causa de suas presas. Quem são os reais montros aqui?
- Veja mais em: http://www.theindianrepublic.com/quirky-corner/elephants-almost-human-100036992.html#sthash.MTCuR0eB.dpuf

Leia também: Elefantes são Quase Humanos, publicado em 1966 por Brian O'Brien.

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Epidemia de rapto de bebês elefantes atinge o Sri Lanka, afirmam conservacionistas

Por:  Shreya Dasgupta 
Publicado em 21 de Maio de 2014 em mongabay.com

No Sri Lanka, um secreto crime organizado contra a vida selvagem tem sido lentamente conduzido. E um incidente ocorrido recentemente o trouxe à tona. 

Na noite de 1 de Maio, uma gangue tentou raptar um bebê elefante no Uduwalawe National Park. No entanto, alertados por moradores de vilarejos vizinhos, a polícia e oficiais da agência de proteção à vida selvagem fizeram com que o sequestro não tivesse êxito. A gangue escapou, mas não antes de ter supostamente assaltado um jornalista e levado sua fita de vídeo, com a filmagem da discussão daquela noite (assista à videorreportagem em link final deste artigo). O filhote foi encontrado no dia seguinte, perto do Parque Nacional. Mas muitos outros filhotes de elefantes sequestrados não têm tido tanta sorte assim.

Filhote de elefante confiscado pelos oficiais em Mirigama.
(Foto: Nadika Hapuarachchi)
Ambientalistas do Sri Lanka estimam que pelo menos 50-60 filhotes de elefantes tenham sido roubados da natureza desde 2011. Eles dizem que parece haver gangues altamente organizadas atendendo aos interesses de pessoas muito ricas e poderosas, com conexões com alguns políticos, oficiais da agência de vida selvagem e instituições religiosas.

Os sequestros de filhotes de elefantes têm ocorrido já há algum tempo. Apenas recentemente, entretanto, as pessoas foram impelidas a agir. Cerca de dois anos atrás, ambientalistas e ativistas do bem estar animal no Sri Lanka começaram a notar que o número de filhotes de elefantes em cativeiro era inconsistente - ele parecia aumentar, a despeito do baixíssimo número de nascimentos.

Um ano depois, um livro de registro de todos os elefantes cativos no Sri Lanka, mantido pelo Departamento de Conservação da Vida Selvagem, desapareceu misteriosamente.

“Muitos ambientalistas começaram a se mexer e a prestar atenção nisso, e descobriram que havia muitas discrepâncias entre as permissões emitidas e os elefantes que estavam sendo mantidos em cativeiro”, disse Prithiviraj Fernando, cientista no Centro de Conservação e Pesquisa do Sri Lanka, segundo o mongabay.com.

Para agravar ainda mais o suspeito processo de registro dos elefantes cativos, o Ministro da Conservação da Vida Selvagem do Sri Lanka decretou uma controversa anistia. De acordo com essa anistia, pessoas que possuam ilegalmente elefantes podem simplesmente pagar um milhão de Rúpias (U$ 7,6 mil ou R$ 16,8 mil) para legitimar sua posse. 

“Esta anistia, portanto, proporciona uma ‘carta branca’ para a captura ilegal de elefantes, e o subsequente pagamento de um milhão de Rúpias para legalizar o processo”, disse Srilal Miththapala, ativista de elefantes e da vida selvagem e ex-presidente da Associação de Hotéis do Sri Lanka. "Acho que essa controvérsia alimentou a escalada da captura ilegal de elefantes jovens nos últimos anos". 

O modo de agir das gangues parece muito especializado. Alguns especulam que esses grupos dão tranquilizantes aos bebês alvo e dão tiros para o ar para afugentar o restante da manada. De acordo com outros, esses grupos simplesmente matam a mãe para capturar o filhote.

Mas enquanto a estimativa atual de capturas ilegais é de 50-60, o número real de filhotes sequestrados da natureza pode ser muito maior.

“Capturar bebês da natureza em segredo, mantendo-os escondidos longe da floresta até que possam ser transportados clandestinamente por algum veículo, e mantê-los de modo sigiloso até que estejam subjugados, sem nenhum cuidado ou local adequado, provavelmente causa muitas mortes entre esses filhotes”, afirmou Fernando. “Portanto, na realidade, os números de elefantes roubados da natureza podem ser de 2 a 3 vezes mais altos do que o número de sobreviventes”.

E então, o que acontece com os filhotes capturados?

A venda e o aluguel de elefantes é um negócio muito lucrativo no Sri Lanka. Os filhotes capturados ilegalmente são vendidos em mercados clandestinos, frequentemente atraindo mais de 10 milhões de Rúpias (U$ 76 mil ou R$ 170 mil). E, uma vez vendidos, eles são, em sua maioria, alugados para festivais religiosos, desfiles e atividades turísticas, por cerca de 15 mil a 20 mil dólares por mês (R$ 33 mil a R$ 44 mil).

“No Sri Lanka, possuir elefantes é como ter uma Mercedes ou uma Ferrari”, disse Vimukthi Weeratunga, ativista da vida selvagem no país. “As pessoas associam a posse de elefantes a grande riqueza”. 

Perturbados com o incidente de 1 de Maio, Weeratunga e diversos outros ambientalistas se encontraram recentemente para discutir o problema. A reunião teve como foco a falta de transparência do Departamento de Conservação da Vida Selvagem, a organização das permissões e o confisco de elefantes ilegais.

Bebê elefante encontrado perto de Galgamuwa pouco antes de ser colocado em um caminhão, com as quatro patas amarradas. Graças a comunidades vigilantes nas proximidades, este bebê foi solto e se juntou à sua manada. (Foto: Vimukthi Weeratunga).
“Quando começamos a olhar para esse problema, não imaginamos que seria tão complicado”, afirmou Weeratung.”Mas logo percebemos que temos que lutar em muitas frentes diferentes, incluindo políticos. A mídia tem, seja como for, nos dado muito apoio, e o problema agora está no Parlamento”. 

A legislação de fauna e flora torna ilegal matar um elefante no Sri Lanka. Capturar ilegalmente um elefante representa uma multa de U$ 1,4 mil a U$ 4,5 mil (R$ 3 mil a R$ 10 mil) ou de dois a cinco anos de prisão, ou ambos. Porém, pessoas “influentes” continuam a proteger os envolvidos no crime organizado.

“É uma situação frustrante, onde há recursos legais adequados para se tomar atitudes contra esse problema, mas também há grandes e complexos obstáculos no atual contexto da estrutura administrativa. Acredito que a opinião pública intensiva e o debate possam criar mudanças”, disse ainda Miththapala.

O Sri Lanka sempre teve uma população de elefantes consideravelmente grande, bem como a maior densidade de elefantes asiáticos selvagens no continente. Com a crescente perda e fragmentação de habitat, humanos e elefantes estão em conflito constante, devido à invasão das plantações em busca de alimentos e à destruição de propriedades, o que resulta em mortes, tanto de humanos como de elefantes. Os raptos de filhotes de elefantes podem, simplesmente, intensificar esse conflito. 

“Atualmente, cerca de 250 elefantes morrem por ano no Sri Lanka devido ao conflito entre humanos e elefantes (HEC, ou human-elephant conflict),” afirma Fernando. “Uma quantidade adicional significativa morre de fome dentro de áreas cercadas depois de serem conduzidos até lá, e por contato com cercas elétricas em tentativas mal conduzidas de minimizar o HEC. Então, se somarmos a isso uma grande quantidade de bebês sendo removidos da natureza, isso se torna um problema de conservação dos mais importantes.”




Leia texto original em http://news.mongabay.com/2014/0521-dasgupta-elephant-calf-kidnapping.html#3bixSWJZZ1IvESmw.99

Leia também sobre a crise dos elefantes no Vietnã. 

Tradução, revisão e edição:  João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.