quarta-feira, 17 de julho de 2013

Elefantes são extraordinários

Tolstoy. (©ElephantVoices)

- Elefantes têm vida muito longa e exibem um alto grau de complexidade social. Sua rede social é excepcionalmente grande, irradiando-se a partir de sua família de sangue e abrangendo grupos, clãs, machos adultos independentes e até mesmo estranhos, com os quais formam laços. As relações sociais cooperativas, próximas e duradouras, que funcionam entre indivíduos e famílias dentro dessa sociedade fluida e de muitas camadas são raras no reino animal.

- Elefantes têm cérebros muito grandes e complexos. Com uma média de 4,8kg, o cérebro do elefante é o maior entre os mamíferos terrestres vivos ou extintos. Elefantes têm o maior volume de córtex cerebral disponível para o processo cognitivo, entre todos os mamíferos terrestres. O neocórtex , que em humanos é o local da função cognitiva melhorada,  como memória ativa, planejamento, orientação espacial, fala e linguagem, é grande e muito torcido.

- Elefantes têm uma memória excepcionalmente boa. Eles acumulam e retêm conhecimentos ecológicos e sociais, lembrando-se dos cheiros e das vozes de muitos outros indivíduos e lugares por décadas.


- Elefantes são capazes de fazer discriminações sutis entre predadores, até mesmo entre diferentes grupos de pessoas, mostrando que eles compreendem os diferentes níveis de ameaça que cada um apresenta.

- O comportamento dos elefantes, tanto na natureza quanto em cativeiro, sugere que eles são capazes de usar suas memórias de longo prazo para “contar pontos” e extrair vingança por erros cometidos.




- Elefantes conseguem diferenciar as ossadas de elefantes das de outros animais e respondem às ossadas de elefantes com uma contemplação especial.

- Seu desenvolvimento inclui aprendizagem social e inovação comportamental, manifestadas no uso e na modificação de ferramentas rudimentares e no aprendizado vocal.

- O autorreconhecimento no espelho sugere que elefantes têm consciência própria, e numerosas observações de empatia e outros comportamentos sugerem que os elefantes têm uma rudimentar teoria da mente (habilidade de atribuir estados mentais – crenças, desejos, intenções, conhecimentos etc. – para si próprios e para os outros e entender que os outros têm crenças, desejos e intenções diferentes dos seus).

- Elefantes são renomados por sua memória, inteligência e sociabilidade, e, assim como nos humanos, esses traços os tornam particularmente vulneráveis ao estresse e ao trauma e a  consequências psicológicas de longo prazo.

- Elefantes produzem uma ampla variedade de vocalizações, muitas contendo frequências abaixo da audição humana. Elefantes utilizam alguns desses chamados de baixa frequência para se comunicarem com outros elefantes através de longas distâncias.



"Elefantes podem usar suas habilidades de aprendizagem para desenvolverem vocalizações similares às de membros do grupo," afirma Joyce Poole, líder do estudo do Projeto de Pesquisa dos Elefantes do Amboseli, no Quênia. Leia reportagem da BBC.
 
- Elefantes também conseguem detectar a vocalização de outros companheiros sismicamente. Quando um elefante vocaliza, uma réplica exata desse sinal se propaga separadamente no solo. Elefantes são capazes de discriminar entre essas vocalizações através de seus sensíveis pés. Eles podem detectar tremores terrestres, trovões e batidas dos pés de animais distantes, da mesma maneira.

- Elefantes têm um extraordinário olfato, que dizem ser mais discriminatório do que o de um cão de caça.

- Enquanto muitas outras espécies podem rivalizar com os elefantes em uma capacidade ou outra, há apenas algumas que se igualam ou superam os elefantes na totalidade de sua complexidade social e comportamental.

- Elefantes são espécies fundamentais – eles têm um papel central na estrutura de comunidades animais e vegetais, contribuindo para a biodiversidade através da dispersão de sementes e da criação de mosaicos de habitats (áreas com múltiplos tipos de habitats, muito importantes para a criação e a manutenção da biodiversidade). 


- Eles são espécies -símbolo – em outras palavras, sendo os elefantes “megavertebrados tão carismáticos”, isso faz deles o símbolo da necessidade da conservação da vida selvagem e da natureza.


Encontro de mentes, elefante - homem. (©ElephantVoices)
- Elefantes são colaboradores significativos da receita em turismo em muitos países da África e da Ásia. Eles são parte substancial da nossa herança cultural e histórica e nos dão prazer de contemplação.

- Elefantes são valiosos por seus próprios méritos!


 Acesse aqui o texto original em inglês.

Tradução, revisão e edição: Laura Loureiro, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

A Comunicação Visual dos Elefantes

Farejando de modo direcionado. (©ElephantVoices)

Durante anos, naturalistas escreveram sobre o comportamento dos elefantes, sem perceber que estavam contribuindo para iniciar a fundamentação do conhecimento sobre suas demonstrações. Muitas dessas fazem parte da linguagem popular. Por exemplo, pessoas falam sobre um elefante bravo “atacando”, “sacudindo suas orelhas”, “chutando poeira” ou “sacudindo sua tromba”. No curso das pesquisas, os etologistas especializados em elefantes também escreveram sobre demonstrações específicas, usando expressões como “o andar no período de frenesi sexual”, “ficar de pé”, “atitude de permanecer de frente e a certa distância” ou “enrodilhar a tromba”, para nomear algumas. No entanto, até recentemente, ninguém havia tentado descrever sistematicamente essas demonstrações, sinais e gestos dos elefantes.

Tudo o que nós e os outros sabemos 

Em 1991, Phil Kahl e Billie Armstrong foram para o Zimbábue para fazer exatamente isso. Atualmente, estão pesquisando meticulosamente centenas de horas de gravações e milhares de fotografias para produzir um etograma detalhado do elefante africano. Quando for publicado, este etograma será a descrição mais compreensível dos sinais dos elefantes africanos.


Batendo as orelhas rapidamente. (©ElephantVoices)

Enquanto isso, juntamos tudo o que sabemos sobre as demonstrações e os gestos dos elefantes do trabalho acumulado durante o Projeto de Pesquisa  dos Elefantes do Amboseli. A esse conhecimento, acrescentamos demonstrações mencionadas em trabalhos publicados por outros cientistas. Durante esse processo, trocamos informações e interpretações com Phil e Billie. Publicamos esse conjunto de trabalhos, em 2003, como a Biblioteca de Sinais Táteis. Desde então, temos atualizado nosso trabalho para assinar um capítulo intitulado “Sinais, gestos e comportamentos dos elefantes africanos”, do livro “Os Elefantes do Amboseli: uma Perspectiva de Longo Termo sobre um Mamífero de Vida Longa” (The Amboseli Elephants: A Long-term Perspective on a Long-Lived Mammal), publicado em 2011. Nosso banco de dados atual inclui algumas mudanças baseadas nesse capítulo. 

Um número substancial de diferentes demonstrações 

Enquanto qualquer pessoa que tenha estudado o comportamento dos elefantes estará familiarizada com as demonstrações básicas, foi surpreendente, até mesmo para nós, a quantidade de gestos e demonstrações que os elefantes usam para se comunicarem uns com os outros. Dê uma olhada no Banco de Dados de Gestos da ElephantVoices, que contém dados, em sua maioria, acompanhados de imagens. Embora grande parte desses gestos e demonstrações sejam táteis (veja “Comunicação Tátil”), a maioria deles também envia uma mensagem visual. 

Então, como os elefantes mandam sinais visuais? A resposta, em sua forma mais simples, é: eles usam cabeça, olhos, boca, orelhas, tromba, presas, rabo, pés e até mesmo o corpo inteiro para sinalizar mensagens entre eles mesmos e para outras espécies. Por exemplo, uma elefanta ameaçadora ou dominante sinaliza seu estado parecendo maior, levantando a cabeça acima dos ombros e abrindo as orelhas, enquanto um elefante subordinado tem a cabeça baixa e as orelhas para trás. Uma elefanta assustada ou animada levanta o rabo e o queixo. Uma elefanta socialmente entusiasmada levanta e bate as orelhas rapidamente e arregala os olhos.


Abertura de orelhas. (©ElephantVoices)

Mas nós estaríamos prestando um desserviço no que diz respeito à complexidade da comunicação dos elefantes ao tentar resumir seus comportamentos visuais e gestos em alguns parágrafos. Recomendamos, em vez disso, que você tente pesquisar no banco de dados. Se você estiver interessado em comportamentos que envolvam as orelhas dos elefantes, por exemplo, é só pesquisar por “ears” (orelhas). Você irá encontrar quase uma dúzia de demonstrações listadas. Ou procure pela palavra “trunk” (tromba), e você também encontrará uma quantidade similar de resultados. Tente “sniff” (farejamento), “touch” (toque) ou “test” (experimento) e encontrará muitos outros. Ou, se você está interessado em como os elefantes demonstram agressividade, interesse sexual, interação brincalhona ou cuidado amigável, procure nos diferentes contextos.


Corrida desajeitada. (©ElephantVoices)

Visão 


Abertura de olhos de um elefante asiático. (©ElephantVoices)

Dizem que a visão dos elefantes é boa em luz suave, mas é consideravelmente reduzida na luz brilhante, quando alcança, no máximo, 46m. Por nossa experiência pessoal, no entanto, descobrimos que os elefantes são observadores muito seletivos, mostrando algumas vezes uma acuidade visual relativamente boa e, outras vezes, muito deficiente. Uma vez, quando Joyce estava observando um grupo de elefantes muito atentos, estacionou o veículo em uma estrada aberta, a dois quilômetros de onde eles estavam, e permitiu que andassem até ela. Eles se aproximaram menos de 15m, antes que pudessem vê-la e, então, fugiram assustados. 

Elefantes parecem enxergar silhuetas muito bem, mas não são tão bons em visualizar um objeto contra um fundo. No Amboseli, onde os elefantes estão habituados com os carros, mas ocasionalmente são mortos por pessoas a pé, eles ficam bastante alarmados quando avistam uma silhueta humana. No entanto, Joyce pode ficar a alguns metros de um grupo de elefantes, com o carro ao fundo, e, aparentemente,  eles não a veem. Isso não significa que eles não sabem que ela está fora do carro. Se nos deitarmos sob o carro, a posição das trombas dos elefantes, conforme eles passam pelo carro, indica claramente que eles sabem exatamente onde estamos! 


Abertura de olhos de um elefante africano. (©ElephantVoices)

Joyce também percebeu que os elefantes são sensíveis a movimentos e aparentam estar cientes sobre a maneira de as pessoas se moverem (e, presumivelmente, outros predadores). Andar em passo normal na frente de um grupo de elefantes irá atrair sua atenção imediatamente, e eles levantarão suas cabeças, alarmados. Mas Joyce pode passar por eles sem chamar a atenção, adotando uma postura abaixada e andando extremamente devagar, parando cada vez que seu movimento é percebido. 

Ao mesmo tempo em que parece que os elefantes não têm uma boa acuidade visual, eles enxergam claramente algumas coisas  que nós vemos com dificuldade! Por exemplo, quando um elefante ameaça outro seriamente, ele dobra para trás a parte de baixo de suas orelhas, criando o que se pode chamar de dobradura de orelha. Para os olhos humanos, essa postura é sutil e levou quase oito anos de observação no Amboseli para que a notássemos. Mas Joyce observou dois machos em frenesi sexual se encararem, com 50 metros entre eles. Cada vez que o macho dominante dobrava as orelhas, o macho subordinado olhava para baixo ou se afastava. O subordinado podia claramente ver o outro elefante dobrando as orelhas, enquanto Joyce teve dificuldade em ver a ameaça, da mesma distância, sem seus binóculos.


Link para o texto original.

Saiba mais sobre a comunicação dos elefantes acessando os seguintes links:

Tradução, revisão e edição: Carol Toledo, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


terça-feira, 28 de maio de 2013

Não Há Meio Ético de Manter Elefantes em Cativeiro

Postado por Ed Stewart, da Performing Animal Welfare Society, em 3 de maio de 2013.

Dois elefantes aposentados, Wanda e Gypsy, encontram
conforto no santuário PAWS. Foto por Lisa Jeffries, PAWS.

Depois de ler, no dia 23 de abril de 2013, o artigo da NewsWatch “Manejo de elefantes em cativeiro: Entrevista com o responsável pelos elefantes do Zoológico de Knoxville”, publicado na internet pelo bloguista convidado Jordan Carlton Schaul, me senti obrigado a responder. Sou o presidente e cofundador da Performing Animal Welfare Society (PAWS). Fundada em 1984, a PAWS opera três santuários para animais de cativeiro no norte da Califórnia. Esses santuários são, no momento, o lar para mais de 100 animais resgatados ou aposentados, incluindo 8 elefantes e 32 tigres, assim como leões, ursos, primatas e outras espécies.

Tenho mais de 32 anos de experiência cuidando de elefantes asiáticos e africanos, incluindo o manejo de filhotes e de perigosos elefantes machos. Minha parceira e cofundadora da PAWS, Pat Derby, tinha mais de 38 anos de experiência trabalhando com elefantes. Pat faleceu em fevereiro deste ano, após uma longa batalha contra o câncer.

A razão pela qual o manejo de elefantes em cativeiro está sob tamanha polêmica não é, como diz o autor, porque zoológicos e santuários oferecem ambientes diferentes para elefantes, mas porque zoológicos e santuários possuem filosofias diferentes sobre cativeiros. Nós já aprendemos muito sobre a complexidade das necessidades físicas, sociais e psicológicas desses animais, não necessariamente através dos zoológicos, mas por genuínos pesquisadores de campo. Você não precisa olhar mais além dos artigos e filmes da própria National Geographic documentando as grandes famílias, as complexas redes sociais de relações e as longas distâncias viajadas em enormes territórios, para ver que a vida em cativeiro não satisfaz as necessidades mais básicas dos elefantes. 

“As inadequações para elefantes em cativeiro serão sempre uma fonte de doenças e sofrimento para eles.”

Preocupações sobre o bem-estar de elefantes em instalações de cativeiro não deveriam ser, jamais, dispensadas descuidadamente. As inadequações para elefantes em cativeiro serão sempre uma fonte de doenças e sofrimento para eles. Recintos apertados e superfícies duras causam uma variedade de problemas, incluindo a fatal doença do pé, além de artrite, infertilidade, obesidade e comportamentos repetitivos anormais, como o balanço continuado do corpo e da cabeça. A vida em cativeiro pode criar estresse e, muitas vezes, situações perigosas para elefantes que não têm outra escolha a não ser conviver com outros elefantes que podem, ou não, ser compatíveis com eles. Isso resulta em ferimentos e até mesmo mortes de elefantes em cativeiro ao redor do mundo.

Alguns zoológicos da Associação de Zoológicos e Aquários (AZA) têm reconhecido a necessidade de mudar e expandir suas exposições para acomodar grupos sociais maiores e dar aos elefantes mais espaço para se moverem – ações que contradizem as declarações feitas há tempos por defensores de zoológicos, que afirmam que espaço não é um problema importante para elefantes. 

Contato Protegido 

Zoológicos mais progressistas nos Estados Unidos também mudaram suas práticas de manejo, mudando de um tipo de sistema estilo circo, o “contato livre”, para um sistema mais humano, de “contato protegido”. Contato protegido usa somente treinamentos de reforço positivo e uma barreira de proteção entre treinador e elefante. Isso encoraja comportamentos mais naturais, porque os elefantes não estão mais sob a ameaça de punição física, que é a “marca registrada” do manejo de contato livre. 

O autor está enganado quando ele diz: “...tanto faz se uma organização permite treinamento de elefantes com contato livre ou contato protegido, o condicionamento operante por reforço positivo ainda pode servir como base do treinamento comportamental”. Isto é absolutamente falso. A base do manejo com contato livre envolve o uso de uma haste com um gancho afiado em sua ponta (bullhook ou ankus, em inglês) – reforço negativo, não importa como se olhe para isto. 

Essa ferramenta é uma haste de aço que parece um cutucador usado em lareiras, afiada. É usada para cutucar, enganchar e bater nos elefantes para obter o comportamento desejado. O bullhook é usado para dominar e controlar elefantes através do medo da dor, e não tem por que ser usado em nenhum zoológico. 

Mais da metade dos zoológicos da AZA já rejeitaram o bullhook e o manejo com contato livre. Mais zoológicos estão mudando para contato protegido, desde que a AZA estabeleceu uma política de segurança ocupacional que, a partir de setembro de 2014, vai proibir tratadores de dividirem o mesmo espaço físico com elefantes. 

“Desde 1990, 31 tratadores foram feridos ou mortos por elefantes, todos eles em zoológicos que usavam contato livre.”

O autor não compartilha com seus leitores a informação de que um elefante que estava sendo manejado por contato livre matou um tratador no Zoológico de Knoxville, em 2010. Jim Naelitz, o entrevistado, é o responsável pelos elefantes nesse zoológico. Isso faz com que a afirmação do sr. Naelitz de que trabalhar com elefantes não é uma profissão perigosa seja ainda mais assombrosa. Desde 1990, 31 tratadores foram feridos ou mortos por elefantes, todos eles em zoológicos que usavam contato livre.

O elefante envolvido no incidente no Zoológico de Knoxville já tinha sido agressivo com os  tratadores, mas, de acordo com a Administração de Saúde e Segurança Ocupacional do Tenessee (TOSHA), o zoológico não conseguiu tomar uma ação preventiva. A TOSHA aplicou uma multa de mais de US$ 8.000 ao zoológico por causa da morte do tratador. 

Desde essa terrível tragédia, o Zoológico de Knoxville mudou para um sistema de manejo de contato protegido com todos os seus elefantes. Então é confuso para mim que a foto acompanhando o artigo mostre o sr. Naelitz sentado ao lado de, e em contato direto com um elefante no zoológico.

A aprovação do sr. Naelitz, em relação a circos e companhias de entretenimento, como a Have Trunk Will Travel – flagrada em vídeo batendo em elefantes com bullhooks e usando equipamentos elétricos de choque para treiná-los a realizar truques de circo –, é algo que deveria chocar e ofender todos aqueles que apoiam zoológicos. A noção de que elefantes, ou quaisquer outros animais selvagens em circos, são “embaixadores de sua espécie” é um velho argumento usado para justificar a ideia de manter animais em cativeiro. Deixa-me perplexo que qualquer zoológico credenciado à AZA apoie o uso de elefantes em circos, quando a evidência do sofrimento deles é muito bem documentada.

“Animais selvagens pertencem à natureza.”

A PAWS concorda com a afirmação do autor de que nem zoológicos nem santuários são o ambiente perfeito para quaisquer animais selvagens. A PAWS acredita que animais selvagens pertencem à natureza.

Mara e Maggie, elefantas africanas, na época da seca no 
santuário PAWS ARK 2000, na Califórnia. Foto por Lisa Jeffries, PAWS.


PAWS ARK 2000, um santuário de 2.300 acres em San Adreas, Califórnia, é, no momento, o lar de 3 elefantes africanos e 5 elefantes asiáticos, 26 tigres, 6 ursos e 5 leões. Foto por Lisa Jeffries, PAWS.
No santuário PAWS, proporcionamos aos elefantes ambientes amplos e naturais, que atendem melhor às suas necessidades físicas, sociais e psicológicas. Nunca usamos treinamento de dominância ou bullhooks para manipular os elefantes. Somos uma instalação que usa contato protegido. Atualmente, não existe nenhuma forma revolucionária para manter elefantes em cativeiro, e, porque nenhum filhote de elefante jamais foi reintroduzido na natureza e não há nenhum plano de se fazer isto, nós não achamos ético reproduzir elefantes.

Enquanto houver elefantes em cativeiro, somos obrigados a prover as melhores condições possíveis para eles. Isso inclui colocar um fim ao uso arcaico e cruel de bullhooks e ao sistema de manejo com contato livre, não manter mais elefantes em circos e outros tipos de “entretenimento” e um maior progresso em relação a fornecer aos elefantes instalações de cativeiro que atendam muito melhor às suas necessidades.

Saiba mais - "Mente e Movimento - Indo ao encontro dos interesses dos elefantes", escrito pela ElephantVoices: um estudo sobre o comportamento dos elefantes na natureza e uma opinião científica sobre o bem-estar dos elefantes em cativeiro. 



Tradução, revisão e edição: Ruby Malzoni, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Elefantes se comunicam com uma sofisticada linguagem de sinais, dizem pesquisadores.

Uma reportagem da National Geographic sobre os estudos científicos de Joyce Poole, da ElephantVoices, a respeito da linguagem de sinais dos elefantes. Publicada em A Voice for Elephants / News Watch, blog da National Geographic, por Christy Ullrich, em 14 de abril de 2013.

Um elefante pode tocar sua própria face para se reafirmar e se acalmar, um dos muitos gestos que a bióloga Joyce Poole tem observado durante décadas de estudos em campo. (©ElephantVoices)

Elefantes podem usar uma variedade de movimentos e gestos discretos para se comunicarem uns com os outros, de acordo com pesquisadores que estudam esses grandes mamíferos na natureza há décadas. Para o observador humano comum, uma curvatura da tromba, um passo para trás ou uma dobra na orelha podem não significar muita coisa, mas, para um elefante – e cientistas como Joyce Poole –, esses são sinais que transmitem informações essenciais para outro elefante e para a manada como um todo. 

A bióloga e conservacionista Joyce Poole e seu marido, Petter Granli, que dirigem a ElephantVoices, uma organização sem fins lucrativos que fundaram para pesquisar e promover a conservação de elefantes em vários santuários na África, desenvolveram um banco de dados on-line decodificando centenas de gestos e sinais distintos feitos por elefantes. As posturas e movimentos ressaltam a sofisticada comunicação dos elefantes, dizem eles. Poole e Granli também decifraram o significado da comunicação acústica feita por elefantes, interpretando os diferentes roncos, bramidos, gritos, barridos e outros sons peculiares que elefantes fazem junto com posturas como o posicionamento e o abano de suas orelhas. 


Poole tem estudado elefantes na África por mais de 37 anos, mas somente começou a desenvolver o banco de dados de gestos on-line na última década. Parte de sua pesquisa e trabalho de conservação foi patrocinado pela National Geographic Society.

“Notei que, quando eu saía para campo com convidados que estavam visitando o Amboseli (Parque Nacional do Amboseli, no Quênia) e estava narrando o comportamento de elefantes, chegava ao ponto de, durante 90%  do tempo, conseguir prever o que o elefante estava prestes a fazer”, disse Poole em uma entrevista. “Se eles estavam de pé de um certo jeito,  estavam com medo e prestes a recuar, ou (de um outro jeito) estavam bravos e prestes a avançar e ameaçar outro elefante.”

No decorrer de milhares de horas de observações, Poole começou a entender e basicamente traduzir o que elefantes estavam comunicando uns para os outros. Ela foi a primeira a descobrir musth (frenesi sexual) em elefantes africanos, um estado de elevada atividade sexual e agressividade em machos, durante o qual eles exibem comportamentos característicos como os gestos classificados no banco de dados, como ondulação de orelha (ear-wave), ricocheteio-arrastamento de tromba (trunk-bounce-drag), lançamento de cabeça (head-toss), queixo para dentro (chin-in) e o distinto andar do frenesi sexual (musth-walk), uma espécie de caminhar pomposo do elefante.

Enquanto Poole trabalhava no mato, seu marido, com formação na área de comunicação, percebeu imediatamente o valor de aumentar o conhecimento do público sobre o sofisticado comportamento desses animais carismáticos e ficou ansioso para compartilhar o que eles estavam aprendendo. “Petter disse: ‘Vamos espalhar isso e fazer com que fique acessível para as pessoas’”, explicou Poole.

Poole e Granli começaram o processo de caracterizar os gestos e manifestações que eles estavam vendo em seu trabalho de campo. Criaram nove categorias abrangentes para o banco de dados de gestos: atento, agressivo, ambivalente, defensivo, integração social, mãe-cria, sexual, brincadeira e morte (já que elefantes têm um comportamento evidente em torno de companheiros mortos).

“Elefantes podem ser dramáticos e muito expressivos ou incrivelmente sutis e discretos. Depende do que está acontecendo e das dinâmicas do grupo”, disse Poole. 

Pandemônio do Acasalamento

Alguns dos comportamentos mais dramáticos são vistos na categoria sexual, em uma manifestação que os pesquisadores chamam de pandemônio do acasalamento.

“A fêmea avança apressadamente depois de acasalar e começa uma manifestação incrível em que abana as orelhas, ronca, ruge e faz o maior escândalo, fazendo com que todos se aproximem – a família toda participa”, disse Poole. “Depois ela vai até o macho e fareja seu pênis e sêmen. Ela até recolhe sêmen do chão com sua tromba e joga nela mesma, roncando e rugindo. Esse é o tipo de coisa estilo ‘dramático’, se bem que, nesse caso, serve para atrair outros machos que estão mais distantes.”

E aí ocorrem os gestos mais sutis, como a postura estática, da categoria atento, que elefantes usam quando detectam uma possível ameaça. Os roncos de elefantes contêm frequências muito baixas, algumas das quais as pessoas não podem ouvir. Elefantes podem detectar os mais poderosos desses sons a milhares de quilômetros de distância, e essas mesmas vibrações se propagam sismicamente pelo chão, por distâncias ainda maiores. Perceber esses sinais pode fazer com que um grupo todo fique estático e os elefantes se mantenham completamente imóveis, explicou Poole. 

“Pode ser que alguém fique estático primeiro no fundo do grupo”, disse Poole, “e logo em seguida todos os outros percebem os sons que nós não conseguimos ouvir e as vibrações que nós não conseguimos sentir”. Elefantes já foram observados respondendo a sons como os de outros elefantes, de veículos e de uma debandada de zebras, a mais de um quilômetro e meio de distância, assim como de trovões e terremotos distantes. Reagir de forma apropriada a esses sons é importante para a sobrevivência deles. 

Senso de Humor

Pool lembra como elefantes que estavam brincando corriam atrás de seu carro, parecendo tropeçar e cair enquanto enterravam as presas no chão (gesto presa no chão) na frente de seu veículo. “Eu costumava achar que eles realmente caíam, mas não penso mais assim!”, disse Poole. “Eu já vi isso muitas vezes, o suficiente para saber que fingir que estão caindo na frente do carro faz parte da diversão. É um dos comportamentos que me levaram a dizer que elefantes têm uma percepção de si mesmos e senso de humor. Eles sabem que são engraçados.”

A seguir, estão exemplos das nove categorias abrangentes que Joyce Poole e Petter Granli categorizaram para decodificar os gestos dos elefantes.

(Todas as imagens e vídeos têm direitos autorais da ElephantVoices e estão incluídos aqui como cortesia de Joyce Poole e Petter Granli.)

Agressivo (Espalhamento da orelha)

(©ElephantVoices)

Um elefante jovem no Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique, ameaça o veículo de Poole, de onde ela o observa. Ele espalha as orelhas de uma forma exagerada para intimidá-la. Tipicamente em uma pose agressiva como essa, um elefante segura sua cabeça bem acima dos ombros e, com as presas levantadas, direciona seu olhar para seu adversário. Assim como é visto na manifestação de pé com postura erguida – outro gesto agressivo descrito no banco de dados –, um elefante pode aumentar sua altura ficando em cima de um tronco ou de um formigueiro para assumir uma estatura maior, tática usada por machos quando estão checando o tamanho um do outro.

Assista a um vídeo de elefantes brincando, enquanto Joyce Poole narra e explica seus comportamentos. Esse vídeo inclui alguns gestos de brincadeiras, como enterrar presas no chão, sacudida ou balanço de cabeça, brincadeira social de esfregar.



Mãe-filhote (Carinho)


(©ElephantVoices)

A relação entre uma mãe e seu filhote é de proteção, reafirmação e conforto. Mães e outros membros da família fazem carinho nos filhotes de várias formas, como enrolar a tromba na perna traseira do filhote, como pode ser visto na foto acima, no Parque Nacional de Amboseli, no Quênia. Mães também enrolam suas trombas em volta da barriga do filhote, em seus ombros e por baixo de seu pescoço, muitas vezes tocando sua boca. Geralmente elas emitem um gentil ronco enquanto fazem esses gestos de carinho. 

Atento (Farejo periscópico)


(©ElephantVoices)

Elefantes têm um olfato incrível. O jeito como um elefante ergue a ponta de sua tromba pode mostrar a um observador para onde sua atenção está voltada. Quando a tromba está levantada na forma de um “s”, postura chamada de farejo periscópico, o elefante está detectando odores carregados pelo vento. Esse movimento é usado quando eles querem informação adicional, como quando o elefante encontra estranhos ou percebe perigo. Um outro tipo de farejo é o farejo direcionado, em que o elefante segura sua tromba relativamente reta e aponta-a na direção de interesse. 

Defensivo (Avanço de grupo)


(©ElephantVoices)
Elefantes avançam em massa na direção do veículo de Poole em uma manobra coordenada de avanço de grupo. A primeira linha de defesa de elefantes é se juntarem, em resposta a uma ameaça que foi percebida, enquanto eles decidem que ação tomar. Na foto acima, uma velha matriarca chamada Provocadora – do grupo de elefantes Mabenzi, no Parque Nacional de Gorongosa, em Moçambique – tinha instigado o avanço de grupo. Depois, ela delegou o “trabalho sujo” para as outras fêmeas, segundo Poole. Tuskless, uma outra elefanta, liderou o ataque, com o suporte de outros 35 elefantes atrás dela. 

Sexual (Direcionamento)


(©ElephantVoices)

Quando um macho está em estado de frenesi sexual ou musth (o termo para um estado sexual elevado), como o elefante da direita na foto, e está pronto para acasalar, ele se aproxima de uma fêmea em estro (na esquerda) e começa a empurrá-la ou direcioná-la com sua testa, antes de montá-la. Essa fêmea está mantendo sua posição para indicar que ela está pronta para acasalar. Ela ativamente empurra o macho de volta, travando suas pernas. O acasalamento acontece quando o macho coloca suas pernas dianteiras nas costas da fêmea.

Morte


(©ElephantVoices)

Elefantes são empáticos e consolam, alimentam, ajudam ou tentam levantar um elefante caído ou machucado. Eles também têm um entendimento de morte e parecem prestar respeito aos mortos de sua própria espécie. Elefantes podem usar suas presas e trombas para tentar alimentar um elefante morto, ou tentar levantar ou até mesmo carregar um elefante doente, um elefante que está morrendo ou um elefante morto. 

Ambivalente (Toque de Rosto)


(©ElephantVoices)
Se um elefante está nervoso ou ambivalente em relação ao que fazer, ele (ou ela) pode iniciar o toque de rosto, tocando a própria face, boca, orelha, tromba, glândulas temporais, aparentemente para se reafirmar e se acalmar.  

Integração Social (Postura de “vamos embora”)


(©ElephantVoices)
Quando um membro da família quer ir em uma direção específica, ele fica com uma determinada postura, que Poole e Granli chamam de postura de “vamos embora”. A elefanta que inicia esse movimento ficará de pé na periferia do grupo e levantará ou balançará seu pé (gesto balanço de pé) na direção em que ela quer ir. Ela virará de propósito na direção desejada, enquanto ronca para chamar e dizer aos outros elefantes “eu quero ir nessa direção. Vamos juntos”, repetindo isto mais ou menos a cada minuto. Sua chamada persistente atrai a atenção de outros que podem, aos poucos, se mover para acompanhá-la. 

Todos os materiais de vídeo foram filmados na reserva de Maasai Mara, onde a National Geographic’s Northern European Fund está apoiando o projeto da ElephantVoices “Parceiros dos Elefantes: Conservação Através da Ciência de Cidadãos e Tecnologia da Internet” / "Elephant Partners". Neste link, saiba mais sobre o projeto Elephant Partners, em Maasai Mara, e acesse aqui a filmagem da palestra de Poole na National Geographic sobre a iniciativa.

Link para o texto original.

Saiba mais sobre a comunicação dos elefantes acessando os seguintes links:

Tradução, revisão e edição: Ruby Malzoni, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.



quinta-feira, 16 de maio de 2013

Ramba se prepara para seu primeiro encontro com outros elefantes

Por: Ecopolis Disciplinas Integradas, Chile

Entrevista: Jon Bays e seu dedicado trabalho com Ramba, a elefanta asiática resgatada de um circo no Chile há cerca de um ano e que aguarda, em um zoo, sua transferência para um santuário.

“Não se pode substituir a presença de outro elefante. Ela pode estar feliz com uma pessoa, mas nunca será a mesma coisa. Posso ser seu amigo, mas, para ela, nunca serei sua família, e ela necessita de uma família".

Foto: ©Ecópolis
Estas são as primeiras palavras de Jon ao iniciar a entrevista, para nos comunicar a maior necessidade de Ramba, que ainda não foi satisfeita: uma manada. 

Jon Bays é um jovem norte-americano que tem dedicado grande parte de sua vida ao cuidado dos animais, tendo se especializado em cavalos e elefantes e estudado seu  comportamento e necessidades com os mais renomados especialistas. Começou trabalhando em zoológicos e atualmente trabalha para a consultoria Active Environments, dedicada a melhorar o cuidado e o bem-estar dos animais em cativeiro ao redor do mundo.

Jon chegou ao Chile em 9 de março para cuidar de Ramba e ficará até 1° de junho, graças ao financiamento do The Elephant Sanctuary (Tennesse, Estados Unidos), que inclui seus honorários, alojamento no zoo Parque Safari e produtos para os cuidados  gerais da elefanta. 


Ramba poderia ficar relutante ao contato com outros elefantes, depois de todos esses  anos?

Inicialmente, talvez, mas em meia hora já se integraria a eles. Então, teria que buscar seu lugar em um grupo social, o qual, provavelmente, seria bem baixo. Vi elefantes que nunca estiveram com outros antes e praticamente não há problema algum ao serem apresentados pela primeira vez. Às vezes, dão umas duas patadas uns nos outros, mas logo percebem onde estão e param.

Então sua conexão é muito forte...?

Sim, é. Estou certo de que em algum lugar dentro dela, Ramba sabe que não deveria estar sozinha. Um elefante macho pode ficar sozinho, mas não as fêmeas, que formam  famílias matriarcais. É assim que vivem, e é assim que sabem o que devem fazer. Agora ela está sozinha e, pelo que sei, convivia no circo com um pequeno cavalo... Então será excitante vê-la conhecer outros elefantes pela primeira vez.

Como Ramba está respondendo ao treinamento de saúde?

Ramba é muito dócil e responde muito bem ao treinamento, fiquei surpreso de já no terceiro dia poder trabalhar em seus pés, pois isso não é comum em outros elefantes. Ela parece gostar muito de receber atenção. Mas ainda tem seus momentos em que decide que não quer fazer nada, e então se vai... deixo que vá fazer o quiser, e, mais tarde, ela volta. Não a forço, ela tem liberdade para fazer as coisas em seu tempo, quando se sinta confortável.



Foto: ©Ecópolis
O que falta para avançarmos em direção ao reencontro de Ramba com outros elefantes?

Necessitamos de exames de sangue, e também de treinamento. Se os exames de sangue forem bons, e sua saúde estiver boa, teremos que treiná-la a entrar no contêiner, o que deve levar pelo menos um mês. Alguns elefantes se adaptam rápido, outros não, principalmente porque eles não gostam de estar em um lugar fechado - talvez porque isso faça com que se lembrem do circo.  Também não gostam de serem movidos, por isso, haverá obstáculos mentais a serem superados, mas, finalmente, ela poderia estar com outros de sua espécie e ser definitivamente feliz.

O que podemos fazer de especial por ela enquanto isso não ocorre?
 

Ela precisa de algumas “brincadeiras” que a entretenham e façam sua vida melhor, algo com o que passar o tempo. Com o treinamento, ocupo seu tempo, isso é um benefício, mas quando eu partir, ela não terá nada para fazer o dia todo. Por isso, estou ensinando algumas pessoas aqui para que possam fazer um treinamento básico com ela, para lhe darem algo com o que ocupar seu tempo e para que não se esqueça das coisas que lhe ensinei. Assim, ela aproveita seu tempo e também aprende.

Também são bons para ela outros tipos de "brincadeiras", uma rede é uma boa ideia. Os elefantes são "resolvedores de problemas, um pneu com mel dentro ou  troncos de árvore com buracos são como quebra-cabeças para ela, coisas assim a manterão ocupada.



Foto: ©Ecópolis

Leia mais: conheça também a história de Lucky, elefanta cega resgatada recentemente de um circo na Tailândia, que agora vive no Santuário Elephant Nature Park e faz parte de um grupo social de quatro amigas inseparáveis.

Saiba mais sobre a inteligência dos elefantes.






terça-feira, 14 de maio de 2013

A Comunicação Acústica dos Elefantes

Os sinais acústicos (ou sons) são omnidirecionais (viajam em todas as direções) e podem ser transmitidos a uma grande audiência, incluindo ouvintes intencionais e não intencionais, que podem estar à vista ou não. Como os sinais acústicos são propositais e de curto prazo, são utilizados para informar sobre situações imediatas, em vez de estados constantes. Através da reflexão, refração e absorção, os sinais acústicos são reduzidos pelo meio ambiente, de modo muito mais intenso nos casos de sons de alta frequência do que nos casos de sons de baixa frequência. Os elefantes são especialistas na produção de sons de baixa frequência e no uso da comunicação de longa distância.


Erin vocaliza depois de acasalar com Ed. (©ElephantVoices)

A gama de sons produzidos pelos elefantes

Os elefantes produzem uma grande variação de sons, que vão desde bramidos de baixa frequência a sons de frequência mais alta, como  trombeteios, roncos, latidos, rugidos e gritos, além de outros chamados idiossincráticos. Os elefantes asiáticos também produzem chilros. O som mais frequente, pelo menos no caso dos elefantes africanos, é o bramido. Você pode encontrar, ouvir e ler a respeito dos sons produzidos no nosso Banco de Dados de Chamados – Tipos de Chamados e Contextos.


Para compreendermos melhor a variação de sons utilizados por elefantes, podemos compará-los à variação utilizada pelos humanos. Uma típica voz humana masculina conversando flutua em torno de 110 Hertz (Hz, ou ciclos/seg.); a voz feminina, ao redor de 220Hz, e a voz de uma criança, em torno de 300Hz. Nos elefantes, o bramido do macho flutua em torno de 12Hz (mais de 3 oitavas abaixo da voz humana masculina); o de uma fêmea, em torno de 13Hz; e o de um filhote, em torno de 22Hz.

Na fala humana, o índice de vibração pode variar acima da proporção de 2:1, ou seja, mais que 1 oitava, enquanto a voz de um cantor pode variar mais que 2 oitavas. Comparando com os elefantes, um único chamado pode variar mais de 4 oitavas, começando com um bramido de 27Hz, que evolui para um rugido de 470Hz! Incluindo a harmonia, o chamado dos elefantes pode variar mais de 10 oitavas, indo de um baixo de 10Hz e alcançando um alto de mais de 10.000Hz. Imaginem uma composição musical com alguns elefantes líricos!

Os elefantes podem produzir sons bastante sutis, como também sons extremamente poderosos. Você pode ouvir dois exemplos clicando nas figuras que aparecem ao lado da tabela, neste link. Alguns dos chamados produzidos por elefantes podem chegar a 112 decibéis (dB) gravados a um metro da fonte. Os decibéis são medidos em escala logarítmica, e, para podermos exemplificar o quão alto o som de alguns elefantes pode chegar, copiamos a informação de uma tabela do The Science of Sound, por T. D. Rossing, que fornece exemplos de sons mais comuns.



Como os elefantes produzem uma variedade tão grande de sons?

O som é produzido na medida em que o ar é expelido dos pulmões, passando pelas cordas vocais ou pela laringe, uma estrutura que mede 7,5cm nos elefantes. O ar em movimento leva à vibração das cordas vocais em uma determinada frequência, dependendo do tipo de som que está sendo produzido. A variedade de frequências produzidas resulta do encompridar ou do encurtar das cordas vocais. A coluna de ar vibra no trato vocal estendido ou câmara ressonante e, dependendo da maneira em que o elefante mantém os vários componentes da câmara (tromba, boca, bolsa faríngea, laringe), ele pode modificar e amplificar os diferentes componentes do som.


Alguns chamados dos elefantes estão associados a determinadas posturas da cabeça e da orelha. Acreditamos que, colocando sua cabeça em determinada posição e movimentando suas orelhas em um determinado ritmo e ângulo, o elefante pode afetar a musculatura em torno da laringe a fim de modificar um chamado e atingir um som desejado. Ouçam um bramido associado ao frenesi sexual, que também está associado a uma forma de movimentar suas orelhas, conhecida como orelhas em ondulação.

Masaku fazendo movimento de ondas com as orelhas, ou Orelhas em Ondulação / Ear-Waving. (©ElephantVoices)

Resultados bem diferentes são alcançados com um mesmo tipo de duração e frequência de bramido, dependendo se a boca se encontra aberta ou fechada, se a cabeça está alta ou baixa, as orelhas fixas ou movimentando-se devagar ou rapidamente, ou levantadas ou dobradas. E, dependendo da posição da tromba e da velocidade e duração do ar movimentando-se dentro dela, os elefantes podem produzir uma impressionante gama de sons de alta frequência.

Os elefantes podem produzir sons de baixa frequência por vários motivos. Em primeiro lugar, produzem sons baixos devido ao tamanho de seu corpo, pois, como nos instrumentos musicais, quanto mais longa e solta a corda vocal, e quanto maior a câmara ressonante, mais baixa será a frequência produzida. Além do tamanho avantajado, os elefantes possuem várias adaptações que os permitem tornar suas câmaras ressonantes ainda maiores e suas cordas vocais mais compridas, produzindo sons ainda mais baixos que os esperados.

A primeira adaptação é a sua tromba, que, no caso de um macho adulto, pode adicionar até 2m no comprimento da câmara ressonante. 


Handsome, macho do Amboseli. (©ElephantVoices)
Em segundo lugar, as estruturas do aparelho hioideo (uma série de ossos na base da língua) e a musculatura que dá suporte à língua e à laringe nos elefantes são diferentes dos outros mamíferos. O aparelho hioideo dos elefantes contém cinco, em vez de nove ossos, que são ligados ao crânio por músculos, tendões e ligamentos, e não por ossos, como ocorre na maioria dos outros mamíferos. Isso permite uma maior flexibilidade e movimentação da laringe, o que facilitaria a produção e a ressonância de sons de baixa frequência.

Em terceiro lugar, na maioria dos mamíferos, o aparelho hioideo dá suporte à língua e à laringe. A estrutura menos rígida nos elefantes também contém uma bolsa faríngea, estrutura única dos elefantes, localizada na base da língua que, além de providenciar uma fonte de água emergencial, também parece auxiliar na formação de sons de baixa frequência.

Nos seres humanos e, por inferência, também nos elefantes, os músculos da laringe auxiliam na contração e no relaxamento das cordas vocais. Quanto maior a flexibilidade da laringe, maior será a habilidade desses músculos se esticarem e relaxarem, o que afeta a contração e o relaxamento das cordas vocais e, consequentemente, a altura ou a frequência do som produzido. Portanto, a modificação do aparelho hioideo nos elefantes permite acomodar a bolsa faríngea, além de, ao abaixar a laringe que se encontra fixada de forma frouxa, levar também ao aumento da câmara ressonante. Como consequência, os elefantes são capazes de produzir sons de baixíssima frequência.

A bolsa faríngea


Diante de temperaturas extremamente altas, os elefantes parecem inserir suas trombas em sua cavidade bucal a fim de retirar água de suas gargantas. O que ocorre é que eles são capazes de armazenar muitos litros de água em sua bolsa faríngea, estrutura essa exclusiva desses animais e localizada na base da língua. Os elefantes são capazes de retirar água armazenada, ao inserir sua tromba na faringe, contrair os músculos periféricos, lacrar a região da ponta da tromba e, então, contrair os músculos da bolsa faríngea de forma que a água seja esguichada para cima, permitindo que o animal encha a sua tromba.

A transmissão do som

Os bramidos representam os sons mais frequentemente produzidos pelos elefantes. Esses sons, de baixíssima frequência, foram  denominados de bramidos estomacais, pois se acreditava que eles eram originados no trato digestivo! Esses sons atraíram muito interesse e foram pesquisados, principalmente, por dois motivos. Primeiro, porque seus componentes mais baixos se situam a uma ou duas oitavas abaixo do limite da audição humana. E, em segundo lugar, como esses sons percorrem distâncias maiores do que sons de frequências mais elevadas, os elefantes usam os mais poderosos desses chamados para se comunicarem a longas distâncias. 



Belinda responde a um chamado de contato de sua família. (©ElephantVoices)
Quando atravessa o ar, o som é atenuado pela lei do inverso do quadrado, em 6 decibéis (dB), para cada vez que se dobra a distância da fonte de som. Portanto, um som de 100dB a um metro da fonte será reduzido a 94dB a 2 metros, a 88dB a 4 metros, a 82dB a 8 metros, e assim por diante. O som também é atenuado, à medida que passa pelo meio ambiente, através da “atenuação excessiva”. O grau de atenuação é afetado pela frequência do som e também pelo tipo de ambiente que ele está percorrendo. Mas, no caso de um som de frequência muito baixa, como no caso do bramir dos elefantes, ocorre muito pouca atenuação excessiva. Em savanas verdejantes ou em florestas, elefantes se comunicando a distâncias superiores a 100m percebem chamados de baixa frequência melhor que chamados de frequência mais alta. Grupos de elefantes muitas vezes têm mais de 100m de diâmetro, e subgrupos são frequentemente separados por vários quilômetros. Eles se comunicam através de seus poderosos bramidos.

Alguns desses chamados são tão poderosos que chegam a alcançar até 112dB a 1m da fonte. Esses chamados seriam classificados como intoleráveis, na tabela apresentada anteriormente. Qual a distância que este som pode percorrer? Usando a lei do inverso do quadrado, podemos estimar que um som de 112dB a 1m chegaria a aproximadamente 46dB a 2.048m da fonte. Através de gravações, Karen McComb demonstrou que, durante o dia, os elefantes não só detectam, como também reconhecem as vozes de indivíduos a 1-1,5km, podendo chegar até a 2,5km da fonte!


Em condições propícias, um elefante pode ter uma abrangência de 300 quilômetros quadrados em seu chamado. (©ElephantVoices)
Algo interessante acontece na transmissão do som, dependendo da hora do dia. Na savana, foi demonstrado que as condições do meio ambiente apresentam um ciclo diurno bastante regular. Já na caída da noite, normalmente ocorre uma grande inversão na temperatura, e isto permanece até o amanhecer. Os momentos mais propícios aos chamados ocorrem durante a formação e a dissipação dessas inversões térmicas, especialmente quando as condições do tempo estão favoráveis (céu claro, tempo firme). Nessa situação, o chamado de um elefante pode abranger uma área de 300km2, que corresponde quase ao tamanho do Parque Nacional Amboseli! Em outras palavras, um elefante pode detectar um chamado de outro elefante a quase 10km de distância. Durante o dia, sem o auxílio da inversão e sob a ação de sol forte com a presença de vento, o alcance do chamado diminui sensivelmente, atingindo uma área de até 150km2.

Além dos bramidos de baixa frequência serem bastante adequados à comunicação a longa distância, a estrutura harmônica do som permite que os elefantes calculem a distância daquele chamado. Quando próximos, a estrutura harmônica do som permanecerá intacta, mas, à medida que a distância aumentar, as frequências mais altas enfraquecerão, até o ponto em que somente as frequências médias e baixas persistirão.

A Detecção do Som


O limite máximo de audição através do ar, em mamíferos, varia de 12 kHz (elefantes) a 114kHz (morcego marrom), e o limite mínimo varia de menos de 0,016kHz (elefantes) a 10,3kHz (morcego marrom), uma variação de mais de 9 oitavas.

Mamíferos com pequenas cabeças e orelhas próximas têm uma melhor percepção de sons de alta frequência, se comparados a animais com grandes cabeças e orelhas bem espaçadas. Os grandes mamíferos geralmente são especializados em sons de baixa frequência, pois um crânio maior acomoda canais auditivos mais longos, membranas timpânicas maiores (a membrana que separa o ouvido médio do ouvido externo), além de ouvidos médios maiores. De que maneira estes fatores favorecem uma maior sensibilidade aos sons de baixas frequências?



Fêmea reagindo a um som. (©ElephantVoices)
Na audição normal, as ondas sonoras causam a vibração do tímpano e dos ossículos do ouvido médio, produzindo movimentos na janela oval e mudando o gradiente de pressão do fluido coclear.

Uma dificuldade com sons de baixa frequência é o nível do sinal para a proporção de ruído. Em frequências mais baixas, há uma tendência de haver mais ruído ao fundo. Desse modo, os animais especializados em escutar sons de baixa frequência têm que ter um modo de distinguir sinal de ruído. A quantidade de energia de som coletada pela membrana timpânica aumenta conforme aumenta a área da membrana, aumentando assim o sinal para a proporção de ruído ao nível do ouvido interno. Assim, quanto maior a membrana timpânica, mais o animal está apto a ouvir sons de baixa frequência. Os pequenos ossos do ouvido médio (martelo, bigorna e estribo) têm que resistir às forças maiores produzidas pela vibração de uma membrana timpânica maior, então animais com membranas timpânicas maiores também têm ossículos do ouvido médio relativamente maciços. Uma bigorna de uma elefanta africana adulta (coletada por Joyce do crânio de uma elefanta chamada Emily, que morreu em setembro de 1989, quando tinha 39 anos) pesava 237mg. O martelo e o estribo dessa elefanta foram estimados por Numella e seus colegas em 278mg e 22,6mg, respectivamente, e a membrana timpânica teria 866mm quadrados.

Membranas timpânicas maiores apresentam, entretanto, um problema:  as membranas timpânicas dos mamíferos são extremamente finas, e o risco de se ferirem e se machucarem deve ser a razão pela qual as membranas timpânicas da maioria dos adultos maiores tenham se tornado grandes demais. O enorme crânio dos elefantes, contudo, permitiu uma evolução do canal do ouvido externo para aproximadamente 20cm de comprimento, provendo proteção adequada para essa grande membrana timpânica. Uma vez que os grandes ossos do ouvido médio dos elefantes não impedem a transmissão dos sons de baixa frequência e a grande membrana timpânica permite sinais altos para a proporção de ruídos, o ouvido médio dos elefantes reflete uma adaptação especial para ouvir sons de baixas frequências.

Finalmente, mais uma estrutura do ouvido dos elefantes – a cóclea – pode facilitar a audição de sons de baixa frequência. Junto com seus parentes, os sirênios (obs.: a ordem dos sirênios é composta por mamíferos aquáticos predominantemente herbívoros, parentes próximos dos atuais elefantes) – peixes-boi e dugongos –, os elefantes são os únicos entre os mamíferos modernos a terem retrocedido a uma estrutura da cóclea parecida com a dos répteis, o que pode facilitar uma grande sensibilidade a baixas frequências. Uma vez que a estrutura da cóclea dos répteis facilita uma aguçada sensibilidade a vibrações, foi sugerido que uma estrutura similar nos elefantes também pode ajudá-los a detectar sinais de vibração.


Elefantes agrupados e tentando estimar o nível de perigo, ao ouvir uma gravação de chamados de hienas. (©ElephantVoices)
Então, com todas essas adaptações especiais, o quão baixo os elefantes podem ouvir? O único estudo sobre a sensibilidade auditiva dos elefantes foi desenvolvido com os elefantes asiáticos. Infelizmente, o estudo foi concluído dois anos antes de se descobrir que os elefantes produziam sons de baixíssima frequência e, portanto, não foram testados esses sons. Mas sabemos, através desse estudo, que os elefantes ouvem muito bem nas frequências de ultrassom (abaixo da audição humana). Uma elefanta asiática em particular podia ouvir sons tão baixos como 16Hz a 65dB. Uma vez que 65dB pode ser descrito como um som de moderado a barulhento, presumivelmente elefantes podem ouvir significativamente mais baixo do que isso. Joyce tem gravações de chamados de elefantes tão baixos como 8Hz, e outros reportaram sons de 5Hz, então parece que os elefantes têm um modo de detectar esses sons de baixíssimas frequências, pois, de outro modo, por que os produziriam? Estudos recentes mostraram que os bramidos dos elefantes também são transmitidos através do solo, ou sismicamente. Se algum dia descobrirmos que os elefantes não podem ouvir sons tão baixos quanto 5Hz, então poderemos concluir que eles os recebem com a ajuda de seus sensíveis pés (você pode ler mais sobre isso em Comunicação Sísmica).

Por outro lado, os elefantes não podem escutar acima de 12 kHz, tornando-se os animais com o mais baixo limite de audição de alta frequência entre qualquer mamífero testado.

Localização do Som

Elefantes são muito bons para localizar sons. Foi sugerido que quanto maior o espaço entre as orelhas do animal (distância interauricular), maior sua habilidade de localizar sons, pois a diferença entre o tempo e a intensidade em que atingem cada ouvido pode ser usada como pista para a localização do som. Os elefantes estendem suas orelhas perpendicularmente a suas cabeças para melhor localizarem os sons. 


Elefante do Amboseli tentando localizar um chamado de outro elefante. (©ElephantVoices)
Uma elefanta asiática jovem cuja audição foi testada era capaz de localizar cliques e estouros ruidosos com alcance de 1 grau. Ela era menos eficiente para distinguir tons, mas era mais capacitada para distinguir tons de baixa frequência do que de frequência mais elevada. Abaixo de aproximadamente 300Hz ela era capaz de localizar tons de 10 graus com 75% de precisão; de 20 graus, com cerca de 80% de precisão; e de 30 graus, com cerca de 90% de precisão.

Clique aqui para ler o texto original, em Inglês. 


Leia também: "Elefantes são capazes de aprender comunicação vocal".

Saiba mais sobre a comunicação dos elefantes:
"A Comunicação Tátil dos Elefantes", "A Comunicação Sísmica dos Elefantes", "A Comunicação Química dos Elefantes".


Tradução, revisão e edição: Cristina Wunderlich, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.