terça-feira, 28 de julho de 2015

Salve o Elefante

Há cerca de 100 elefantes nesta foto. É essa a quantidade 
de elefantes massacrados a cada 24 horas na África, 
pelas taxas atuais.

Tyler Hicks/The New York Times
Ou podemos dizer que um elefante é morto 
a cada 14 minutos. 


Salve o Elefante
Por LYDIA MILLET, 26 de Julho de 2015, The New York Times

MAIS de dois milhões de anos atrás, os mamutes e os elefantes asiáticos tomaram caminhos evolutivos diferentes — e na mesma ocasião, de acordo com pesquisas de DNA, o mesmo ocorreu com seus parentes na África. Por muito tempo, os elefantes na África eram considerados como se pertencessem a uma única espécie, mas uma massa crítica de estudos genéticos agora prova que são duas.

Você poderia dizer que as duas espécies— elefantes da “floresta” e elefantes da “savana”— são diferentes apenas ao observá-las com cuidado, mas até 2010 faltavam evidências genéticas. Os elefantes da floresta são muito menores, pesam metade do peso dos elefantes da savana e se desenvolveram nas florestas tropicais da África Central e Ocidental; suas orelhas são mais arredondadas do que as de seus primos e têm presas mais retas. Os elefantes da savana, cujas orelhas são mais triangulares e cujas presas são mais espessas e curvadas, vagam pelas planícies abertas e cerrados de outras partes do vasto continente, desde a África Oriental até a África Austral, onde são mais abundantes. Em termos genéticos, as duas espécies são tão diferentes uma da outra, como são os leões dos tigres.

Durante a última década, emergiu um forte consenso científico sobre a biologia dos elefantes. Então, em junho, o Centro para a Diversidade Biológica, onde trabalho, preencheu uma petição, endereçada à United States Fish and Wildlife Service pedindo a reclassificação dos elefantes africanos em duas espécies diferentes e a inclusão de ambas como “endangered" (em perigo de extinção) no Endangered Species Act.

Pode parecer estranho que os Estados Unidos dê alguma classificação legal a todos os animais de outros países, mas a verdade é que a proteção americana de animais ou plantas “estrangeiros”  sob o poderoso Endangered Species Act pode trazer benefícios palpáveis a essas espécies, incluindo impedir que suas partes sejam vendidas nos Estados Unidos e impedindo nosso governo de sancionar ou pagar por ações que machuquem os animais. Isso também pode prover fundos para pesquisas e educação.

A questão entre uma contra duas espécies de elefantes africanos não é definir um enigmático argumento de DNA; é sobre a vida e a morte dessas extraordinárias criaturas. Sem elefantes, a paisagem da África ficaria irreconhecível, ainda que esses animais tenham declinado em centenas de milhares devido a duas enormes ondas de caça neste século - uma nas décadas de 1970 e 1980 e a outra com início em 2009 e ainda em curso. Se o ponto central da petição for atendido, pode ser a salvação. 

Aqui está como. Agora mesmo,  as duas espécies de elefantes africanos são protegidas sob o Endangered Species Act apenas como “threatened” (ameaçadas) — uma proteção menor que “endangered” (em perigo). O que “endangered” significa para os elefantes, ou para qualquer outro animal ou planta, é simples: não há muitos remanescentes, então a espécie corre risco de ser extinta. Reconhecer o fato de que os elefantes africanos pertencem a duas espécies distintas revela os verdadeiros números muito baixos — com relação a quantidades históricas — de cada uma delas. Ao invés de olharmos para meio milhão de elefantes remanescentes, é como se estivéssemos olhando para 100.000 (e possivelmente menos de 50.000) elefantes da floresta sobrevivendo no mundo e cerca de 400.000 elefantes da savana. É importante entender, entretanto, que os números reais podem ser ainda muito menores, já que elefantes são notavelmente difíceis de serem contados.

Populações de ambas as espécies estão em queda livre, enquanto o frenesi da caça impulsiona a matança e o massacre, para obtenção de suas presas, de dezenas de milhares de elefantes a cada ano. O número de elefantes africanos da floresta na África Central declinou 62 porcento em menos de uma década,  devastados por um coquetel mortal de caça ilegal, perda de habitat e guerra civil, fazendo com que seja a espécie mais ameaçada das duas. As populações de elefantes africanos da savana também tiveram um declínio significativo nos países onde vivem, com uma devastação maior na Tanzania, onde uma das maiores populações de elefantes — 109.000 animais — caiu para apenas 43.000 em apenas cinco anos, entre 2009 e 2014.

Se os EUA reconhecerem e protegerem as duas espécies, a International Union for Conservation of Nature e a CITES, o tratado que regulamenta  o comércio global da vida selvagem, podem dar o mesmo passo, trazendo uma nova e necessária ajuda para a populações em mais alto risco de elefantes.

Listá-los como “endangered” (em perigo) também afunilaria ainda mais as restrições para importar, exportar e vender produtos de marfim, a partir e dentro dos Estados Unidos. Depois da  China, os Estados Unidos é o segundo maior mercado de marfim, com o comércio legal de antiguidades de marfim sendo usado para acobertar o comércio ilegal de marfim novo. No mês passado, um oficial sênior de vida selvagem da China prometeu colocar um fim no comércio de marfim no país se os Estados Unidos fizerem o mesmo. 

Isso significa que a ação americana de reclassificar os elefantes africanos poderia transformar o modo como as duas maiores economias do planeta — que também são as duas nações que mais consomem marfim — estão lidando com a crise do massacre dos elefantes. 

Temos que agir agora, antes que seja tarde demais.


Link para o artigo original

Traduzido por Junia Machado. Revisão: João Paiva, Teca Franco. Edição: Junia Machado.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Fatos & Números



A matriarca Grace e alguns membros de sua família. (C) ElephantVoices

Com base no nosso conhecimento, listamos abaixo alguns fatos e números sobre as três espécies de elefantes existentes. Os dados relativos à população de elefantes são estimados - em parte devido a lacunas existentes nos relatórios das contagens confiáveis. Se você tiver qualquer informação para nos ajudar a preencher essas lacunas, por favor, avise-nos!

Elefantes africanos da savana (C) ElephantVoices


Elefante africano da floresta (C) Michael Nichols
Elefantes asiáticos (C) EephantVoices

A evidência genética apresentada em 2001 levou a aceitação da decisão de que a África é o lar de duas espécies de elefantes, e não uma: o elefante africano da savana, Loxodonta africana, e o elefante africano da floresta, Loxodonta cyclotis. Esta constatação é muito importante pois mostra que restam muito menos elefantes de cada espécie individualmente, sendo o elefante africano da floresta o mais ameaçado de extinção. Atualmente a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais) não considera essa decisão.

Ele phant – Grande Arco

É o maior mamífero terrestre do planeta.

Dividem-se em 3 espécies:
- Elefante africano da savana – Loxodonta africana
- Elefante africano da floresta – Loxodonta cyclotis
- Elefante asiático – Elephas maximus

São encontrados em 37 países da África e em 13 países da Ásia (2013). Antes eram encontrados em extensões contínuas através dos continentes, mas agora vivem em regiões cada vez mais fragmentadas.

São extremamente adaptáveis.

Seu tempo de vida máximo é de, aproximadamente, 70 anos.

O peso do seu cérebro varia de 4 a 6Kg – o maior de todos os mamíferos terrestres (vivos e extintos).

Como os seres humanos, são capazes de fazer e utilizar ferramentas, e mostram evidências de aprendizagem social.

Possuem avançada comunicação acústica, visual, química e tátil.

Possuem a habilidade de se comunicar e manter contato em longas distâncias com outros elefantes, usando sinais de comunicação sísmica, que absorvem através das suas patas.

São capazes de identificar as vozes de, pelo menos, outros 100 elefantes.

A tromba é uma mistura de lábio superior e nariz alongado, pesando mais de 140 Kg. É capaz de pegar um canudo, derrubar uma árvore e afastar um enorme tronco, tocar membros da família com ternura, jorrar 12 litros de água na própria boca e detectar cheiros a quilômetros de distância.

As presas são incisivos alongados. Os marfins são cobiçados pelos seres humanos por dezenas de milhares de anos com impacto duradouro na arte e na cultura.

A pele possui espessura maior de 32 mm em algumas regiões, e em outras, possui espessura próxima de uma folha de papel.

As fêmeas podem dar a luz a até 12 descendentes.

A quantidade de alimento ingerido por dia varia de 4 a 7% do seu peso corporal. 

Sua alimentação inclui grama, ervas, folhas de árvores, frutas, cascas externas e internas e lianes.

O intervalo entre as gestações varia de 4 a 6 anos.

A gestação dura, aproximadamente, 660 dias.

A idade da primeira reprodução varia de 8 a 15 anos.

A idade do primeiro cio dos machos, chamado de musth, varia de 15 a 28 anos.

Sua unidade social básica é a família, incluindo a mãe e as crias que ainda estejam sexualmente imaturas.

Vivem em uma sociedade de cisão-fusão complexa, que se separa e se reúne de acordo com as condições climáticas e a disponibilidade de alimentos.

As famílias são lideradas pelas matriarcas, que armazenam décadas de conhecimento ecológico fundamental para a sobrevivência da unidade familiar e seus membros, em situações de seca, ataque de predadores e outras ameaças.

Tendem a ter laços sociais de longa duração ou por toda a vida.

Demonstram complexidade sócio-emocional, como empatia e auto-reconhecimento.

Demonstram preocupação com elefantes que apresentam problemas ou estão morrendo, não restrito a apenas seus parentes.





Link para página em Inglês da ElephantVoices

Traduzido por Paula Duque Bertasi. Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

terça-feira, 9 de junho de 2015

População de elefantes na Tanzânia declina 60% em cinco anos, revela censo


Publicado no The Guardian, em 2 de junho de 2015
Por: Karl Mathiesen 

Dados do governo mostram a escalada industrial da caça por marfim, com queda do número de elefantes na Tanzânia, de 109.051, em 2009, para 43.330, em 2014.


Manada de elefantes caminha sob as primeiras luzes do dia, em frente ao 
Monte Kilimanjaro, a mais alta montanha da África. Cerca de 85.000 elefantes foram 
mortos na Tanzânia nos últimos cinco anos. Fotografia: Ben Curtis/AP

A Tanzânia emergiu como epicentro da crise de caça ilegal a elefantes na África, depois que um censo do governo revelou que o país perdeu “catastróficos” 60% de seus elefantes em apenas cinco anos. 

Os resultados pressionarão um governo que tem sido duramente criticado por sua inabilidade em brecar o intenso fluxo de marfim de elefantes caçados ilegalmente em seus parques nacionais.

A população de elefantes na Tanzânia é uma das maiores do continente. Entretanto, os dados divulgados na segunda-feira passada pelo governo mostram que, entre 2009 e 2014, o número caiu de 109.051 para 43.330. Considerando a taxa de natalidade de 5%, o número de elefantes mortos é de 85.181.

O censo da Tanzânia revela um declínio de elefantes na África muito maior que aquele reportado em Moçambique nas últimas semanas (que apontou uma perda de metade dos elefantes do país para a caça ilegal, em cinco anos, de 20.000 para 10.300).

O ministro de Recursos Naturais e Turismo da Tanzânia, Lazaro Nyalandu, afirmou que a situação “não surpreende”. 

“É evidente que a população de elefantes na Tanzânia baixou a um nível nunca visto antes”, disse ele. Os guarda-parques da Tanzânia podem receber treinamento paramilitar como parte do plano de ação do governo para combater a caça ilegal, que ele identifica como “provável razão” para o declínio.

John Scanlon, secretário geral da Cites, autoridade das Nações Unidas que supervisiona o comércio de espécies ameaçadas, disse: “Esses números reforçam nossa grave preocupação com a escalada, na Tanzânia, da caça aos elefantes, para extração do marfim, e com as rotas de tráfico através de Dar es Salaam e portos vizinhos.”

Steven Broad, diretor executivo do Traffic, órgão que monitora o comércio de vida selvagem, disse: “ É incrível como a caça ilegal em tamanha escala industrial não tenha sido enfrentada ainda.” 

Segundo o Traffic, os números eram “catastróficos” mas coerentes com as observações do fluxo de marfim para fora do país. Desde 2009, pelo menos 45 toneladas chegaram ao mercado negro internacional através da Tanzânia, fazendo o país ser considerado a principal fonte de marfim proveniente da caça ilegal.

As perdas não foram uniformes e foram piores nos ecossistemas de Ruaha-Rungwa, Malagarasi- Muyovosi, e Selous-Mikume, que perderam mais de dois terços de seus elefantes. Nessas reservas, a “proporção de carcaças”, número usado para avaliar as taxas de mortes dentro de populações, indicaram que elefantes estavam morrendo quatro vezes mais do que o normal. 

Existiam mais de 34.000 elefantes em Ruaha - Rungwa em 2009. O número caiu para 20.000 em 2013 e, em 2014, para apenas 8.000. Nyalandu disse que o declínio em Ruaha - Rungwa era “alarmante”.

Carlos Drew, diretor do programa de espécies globais do WWF, disse que o desaparecimento de tantos elefantes em Ruaha - Rungwa só pode ser explicado pelo envolvimento de gangues internacionais que industrializaram a matança da megafauna africana.

“A chacina de milhares de elefantes em Ruaha - Rungwa mostra claramente o envolvimento do crime organizado internacional, incrementado pela corrupção e pela fraca aplicação das leis na Tanzânia, e a urgente necessidade de aumentar os esforços para enfrentar a epidemia de caça ilegal, antes que as manadas de elefantes remanescentes nessa área sejam destruídas”, disse ele.


Na reserva de Selous, que foi identificada anteriormente como uma área intensa de caça ilegal, os números caíram de 45.000 para 15.000. Ano passado, a Unesco incluiu o Selous como Patrimônio da Humanidade na Lista de Perigo. 

Pilha de 15 toneladas de marfim apreendido é preparada 
para ser queimada no Parque Nacional de Nairobi, 
no Quênia, em 3 de Março de 2015.

Crise de caça a elefantes não melhora, um ano após compromisso mundial. Leia mais. 

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Tradução: Ana Zinger e Junia Machado; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Elefantes bebês aguardam seu destino, enquanto a África procura salvar a espécie


Publicado na National Geographic em 27 de Março de 2015
Por Paul Steyn


O mundo está perdendo a guerra contra a caça ilegal de elefantes por causa do mercado de marfim. Essa foi a descoberta crucial no encontro de cúpula em Botsuana, a respeito do comércio de elefantes e da vida selvagem.

Este jovem macho que definha no zoo de Taiyuan, na China, foi importado do Zimbábue em 2012. Tom de Meulenaer, cientista chefe do Secretariado da CITES, afirma que capturar elefantes selvagens e vendê-los para outros países é  "um problema de bem-estar". (Fotografia: cortesia da China Zoo Watch)

Kasane, Botsuana Em relação ao comércio de elefantes selvagens, o Zimbábue está “aberto a fazer negócio com o mundo inteiro”, disse Saviour Kasukuwere, ministro do Meio Ambiente, Água e Clima do país, numa entrevista exclusiva para a National Geographic.

Kasukuwere, que compareceu, junto com representantes de outros países, à Reunião de Cúpula para os Elefantes Africanos, em Botsuana, em 23 de março, seguida pela Conferência Sobre o Comércio Ilegal de Vida Selvagem, em 25 de março, respondia à pergunta sobre o plano do Zimbábue de exportar elefantes bebês africanos mantidos em cativeiro no Parque Nacional de Hwange (veja: "Imagens reveladas: a situação dos bebês eelfantes capturados no Zimbábue) . 

Embora essa questão não estivesse na agenda dos dois encontros, que tinham a intenção de discutir o progresso feito para deter o comércio ilegal de marfim e espécies ameaçadas e fazer recomendações para ações futuras, ela foi o “elefante na sala”, enquanto os representantes discutiam as implicações morais e políticas de vender elefantes selvagens para o exterior.

Kasukuwere assegurou que os bebês de Hwange não são para exportação e serão mandados para outras regiões do país para equilibrar as populações de elefantes do Zimbábue.

“Isso é normal”, disse ele. “Transferimos animais de uma área com alta concentração para áreas de baixa. Vez ou outra capturamos esses animais para tentar equilibrar as populações.” 

De acordo com um documento publicado pelo Ministério do Meio Ambiente, Água e Clima sob o título “A Posição do Zimbábue em Relação a Vendas de Elefantes e Outras Espécies de Vida Selvagem Vivos”, o Parque Nacional de Hwange tem 54.000 elefantes, 40.000 a mais do que o parque nacional pode suportar.

Esta manada de elefantes vive no Parque Nacional de Chobe, no Botsuana, perto de Kasane, onde os representantes se reuniram para discutir o destino da espécie. (Fotografia: Karine Aigner, 
NATIONAL GEOGRAPHIC CREATIVE)

Os últimos números do Elephant Database (Banco de Dados de Elefantes) – um website que mostra dados atuais das populações de elefantes no continente africano – estabelecem a população de Hwange em 34.000, segundo o censo de 2007.

“Nós temos muitos”, disse Kasukuwere. “Se você quiser alguns em Londres, por favor, nos diga. 

Nós somos obrigados a usar nossos recursos naturais de uma maneira sustentável, para podermos financiar o custo de manutenção da nossa equipe, que tem o dever de proteger os elefantes e a vida selvagem.”

O ministro deixou claro que o Zimbábue “não vendeu nenhum elefante ainda”.

A caça ilegal não diminuiu. Ainda cai o número de elefantes.

Na Reunião de Cúpula para os Elefantes Africanos, representantes da CITES apresentaram estatísticas do seu programa Monitoring the Ilegal Killing of Elephants MIKE (Monitoramento da Matança Ilegal de Elefantes), mostrando que os números da caça ilegal entre 2013 e 2014 não mudaram. (veja: 100 mil elefantes mortos por caçadores ilegais em apenas três anos)

O programa MIKE avalia os níveis relativos de caça ilegal com base na proporção de elefantes mortos ilegalmente, que é calculada através do número de elefantes mortos encontrados, dividido pelo número total de carcaças de elefantes encontradas por patrulhas ou outros meios, agregados por um ano, em cada localidade.

Segundo os representantes da CITES, as populações de elefantes na África devem chegar a um número de 434.000 indivíduos, com base nas estimativas de 2012. Mas, ao se levar em consideração os altos níveis da caça ilegal dos últimos três anos, esse número pode ser bem menor, uma vez que a mortandade ultrapassou a natalidade.

“Claramente, ainda estamos encarando uma crise”, disse à National Geographic o cientista-chefe do Secretariado da CITES, Tom de Meulenaer. “Não vencemos a batalha pelos elefantes. Os números da caça ilegal estagnaram num nível altíssimo em 2014, comparado a 2013.”

“Ao mesmo tempo, existem sinais de que estamos caminhando para uma melhor situação para os elefantes. Há indicações de que o cumprimento da lei – e existe um grande e sério esforço para o cumprimento da lei em diversos países – está começando a ter efeito”, disse de Meulenaer.

“Claramente, ainda estamos encarando uma crise. Não vencemos a batalha pelos elefantes”

Tom de Meulenaer, cientista-chefe da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Selvagens)

“Existe um esforço atual de comunicação com aqueles que investem no marfim ilegal na Ásia, especialmente a China, para que mudem de ideia. Essas pessoas sabem exatamente o que estão fazendo”. (leia sobre o mercado de marfim na China).

Mas Tshekedi Khama, ministro do Meio Ambiente, Vida Selvagem e Turismo de Botsuana e  anfitrião dos encontros em Kasane, culpou a corrupção e a falta de vontade política pelo flagelo contínuo da caça ilegal na África.

A população de elefantes em Botsuana – ainda robusta e estimada em 130.000 – por enquanto não foi atingida seriamente pela caça ilegal.

“A África tem que dizer NÃO”, disse Khama. “É nossa responsabilidade dizer NÃO. Mas, enquanto existir corrupção, levará mais tempo do que gostaríamos.”

Ele também levantou a questão da alta demanda na China. “O tipo de participação que queremos da China é o de eliminar qualquer venda de marfim. Uma vez retirado do mercado, o problema está resolvido”, disse ele.

“Queremos pegar os chefes”

O segundo encontro em Kasane, a Conferência Sobre o Comercio Ilegal de Vida Selvagem, deu seguimento à Declaração de Londres de 2014, da qual 46 países participaram. 

A Declaração de Kasane, com a participação de 32 países, inclusive a China e o Vietnã, reconhece o esforço realizado por governos para implementar as medidas discutidas em Londres, mas afirma que muito mais precisa ser feito.

“Este ano estamos determinados a encarar os crimes financeiros e a lavagem de dinheiro associados ao tráfico ilegal de vida selvagem”, disse o Lord de Mauley, ministro do Meio Ambiente, Alimentos e Questões Rurais da Grã-Bretanha, numa conferência de imprensa depois do encontro.

“Nós queremos pegar os chefes envolvidos, não apenas os caçadores ilegais. Temos que chegar aos cérebros desse comércio pernicioso.”

De Mauley realçou os esforços renovados de infiltração nas redes de transportes que movem os produtos pelo mundo. (Leia sobre estancar o comércio de marfim na Ásia através de portos de embarque).

“Existe uma operação criada pelo príncipe William, que irá engajar as companhias de transporte – particularmente as companhias aéreas e marinhas – que são crucialmente importantes.”

Países africanos também irão devotar mais atenção à necessidade de beneficiar pessoas nas áreas onde ocorre a caça ilegal, ele disse. “Dar às pessoas um motivo para apoiar a luta contra a caça ilegal, em vez de precisarem dela para sobreviver.”

Este jovem elefante, separado de sua mãe no Parque Nacional de Hwange, faz parte do grupo que está sendo mantido lá, possivelmente para ser embarcado a outro país, ou movido para outra área do Zimbábue. (Fotografia: cortesia de Elephants DC)

Críticos de conferências de alto nivel, como a de Kasane, dizem que só um pouco mais do que promessas são alcançadas por alguns Estados participantes.
Mas Khama enfatizou que ficar sentado discutindo e observando “não está na agenda. Temos que manter a pressão”.

“Não vamos analisar os progressos apenas uma vez por ano”, disse ele. “Temos que ter uma inspeção contínua para ver como estamos agindo e realizando.”

Realizar significa ser capaz de mirar um declínio na matança de elefantes de 2015 em diante.

Uma das maneiras de atingir isso é incentivar o turismo da vida selvagem que irá gerar empregos e possibilitar uma renda para que as pessoas não precisem recorrer à caça ilegal – especialmente num país como o Zimbábue, que ainda tem milhares de elefantes (leia: "Zimbábue planeja aumentar a venda de elefantes, afirma fonte").

“Visitantes vão bater os pés”

Numa entrevista depois dos encontros, Bill Travers, presidente da Born Free Foundation, uma organização global de conservação, disse que, se o Zimbábue continuar com esse plano de vender animais selvagens, ele pode perder muito mais do que alguns elefantes.
“Visitantes vão, na minha opinião, bater os pés e escolher não visitar os parques nacionais do Zimbábue, o que causará mais dano do que a injeção de dinheiro a curto prazo esperada pelo governo”, ele disse.

“Eu acho que o governo está começando a perceber que, seja qual for a renda, o custo para a imagem do Zimbábue será alto, e o objetivo de reativar o turismo ficará severamente comprometido”, disse Tom Milliken, líder do Programa de Elefantes e Rinocerontes do grupo TRAFFIC, que monitora o comércio da vida selvagem, durante uma entrevista depois da conferência. 

“Não vamos exportar nossos elefantes para lugares onde não são naturalmente encontrados”

Tshekedi Khama, Ministro do Meio Ambiente, Vida Selvagem e Turismo do Botsuana.

Milliken, que mora no Zimbábue, acrescentou: “Estava em Hwange outro dia e tentei conversar com a equipe do parque, mas ninguém quer conversar sobre os bebês capturados.”

Milliken diz que a captura dos elefantes bebês e o seu contínuo isolamento das manadas e confinamento no parque de Hwange, “são uma série de eventos horrorosos. Acho que vamos nos arrepender profundamente”.

De Meulenaer, da CITES, diz que a captura de alguns elefantes selvagens para o comércio legal é uma questão de ética.

“É uma questão de bem-estar, não de conservação”, ele disse numa entrevista do lado de fora do encontro de cúpula pelos elefantes.

O Zimbábue está abrindo um precedente?

Há uma preocupação, principalmente entre ativistas e ONGs, de que o Zimbábue possa estar abrindo um precedente na África que pode incitar outros países africanos a vender elefantes para o estrangeiro. (descubra por quê é tão difícil parar com a exportação de bebês elefantes no Zimbábue).

O ministro Khama disse que Botsuana é terminantemente contra.

“Nós sabemos o que os nossos vizinhos estão fazendo. Gostamos disso? Não! Nós não gostamos disso. Eu certamente não ouvi nenhum outro país pensando na mesma linha.”

“Nós não exportaremos nenhum elefante para lugares onde não são naturalmente encontrados”, Khama continuou. “Por que motivo eu iria submeter uma espécie que vive livre e selvagem a viver confinada em zoológicos? Isso não vai acontecer.”


Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

Link para o artigo original.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Descoberto massacre de elefantes na República Democrática do Congo; 30 animais mortos em 15 dias

Publicado pelo “The Huffington Post” em 26/3/2015
Por Ed Mazza


Elefantes mortos por caçadores ilegais, em uma foto de 2014. 
Novos relatórios dizem que mais elefantes estão 
sendo mortos; foram 30 em apenas 15 dias / ASSOCIATED PRESS

Dúzias de elefantes estão sendo chacinados num parque nacional na República Democrática do Congo por militantes armados que estão entrando no comércio de caça ilegal. O dinheiro proveniente da venda do marfim ilegal é usado para comprar comida, armas e munição.

O Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (The International Fund for Animal Welfare – IFAW) disse esta semana que 68 elefantes foram mortos nos últimos dois meses no Parque Nacional de Garamba, e a AFP (Agence Française de Développement) denunciou que 30 foram mortos em apenas duas semanas.

“Existe um grupo de sudaneses do norte adentrando o parque, dividindo-se em pequenos grupos, que, durante 15 dias, mataram 30 elefantes”, disse o diretor de Conservação do African Parks, Jean Marc Froment, que cuida da manutenção do parque. “Esses caçadores de elefantes têm muita experiência, acrescentou.

Existem apenas 150 guardas florestais patrulhando os mais de 12.949 quilômetros quadrados de Garamba, disse a AFP. Como resultado, os 1.700 elefantes do parque se tornaram um alvo fácil para os caçadores ilegais e militantes armados, alguns entrando no parque através de países vizinhos.

Desde abril de 2014 até janeiro deste ano, 131 elefantes foram encontrados mortos em Garamba, relata o Enough Project. O grupo diz que o guerrilheiro de Uganda Joseph Kony, do Lord’s Resistance Army, renegados do exército nacional do Congo e caçadores ilegais armados do Sudão do Sul e do Sudão estão matando os elefantes no parque.


O Enough Project disse que o preço do marfim no mercado negro da Ásia gira em torno de US$ 1.000,00 a US$ 1.300,00 por libra e que uma única presa, dependendo do tamanho, pode ser adquirida por um preço que varia de US$ 20.000,00 a US$ 175.000,00. A organização preparou um relatório interativo sobre a caça ilegal em Garamba, que pode ser visto aqui.

Na África, as presas nem sempre são trocadas apenas por dinheiro. Guerrilheiros, às vezes, as trocam por munição: uma única presa pode comprar 18.000 balas, disse Sasha Lezhnev, diretora associada do Enough Project, ao Daily Mail.

Ano passado, representantes de 41 nações assinaram uma declaração em Londres, jurando proteger animais ameaçados, como os elefantes.
Entretanto, o IFAW disse que 15 desses países não deram qualquer evidência de que estão comprometidos com essa causa. “É aterrador que países como Chade, Camarões e República Democrática do Congo, cujas populações de elefantes estão altamente ameaçadas por causa do marfim, não demonstrem qualquer iniciativa ou progresso para diminuir a matança”, disse Jason Bell, diretor do Programa para Elefantes do IFAW.

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. Edição: Junia Machado.

Link para o texto original.

segunda-feira, 30 de março de 2015

‘Elefantes africanos estão a caminho da extinção’, ouvem os governantes da reunião de cúpula em Botsuana

Publicado pela DW - Deutsche Welle em 23 de Março de 2015.

A Reunião de Cúpula sobre os Elefantes Africanos, envolvendo 20 nações, começou em Botsuana com alertas renovados de que a população do maior mamífero terrestre está caindo dramaticamente. Caçadores suprem ilegalmente a Ásia, particularmente a China, com marfim. 


A conferência realizada num resort em Kasane, Botsuana, foi informada de que a caça ilegal dos elefantes africanos é insustentável, com mais de 100.000 mortos nos últimos quatro anos.

O número atual de elefantes, em todo o continente africano, está em torno de 420.000.  O pesquisador Dune Ives disse que, nesse ritmo, “a espécie pode ser extinta em uma ou duas décadas”.

O maior declínio ocorreu na África Oriental, onde os números caíram para 100.000. 

A abertura de reunião de cúpula coincidiu com a notícia vinda de Kinshasa de que 30 elefantes foram mortos por caçadores ilegais nas últimas duas semanas no Parque Nacional de Garamba, na região nordeste da República Democrática do Congo.

‘Assegurando comprometimentos’

O porta-voz do Ministério do Meio Ambiente de Botsuana, Elias Magosi, disse que o objetivo da reunião de cúpula – uma continuação da conferência de 2013 – é  assegurar comprometimentos “em altos níveis para efetivamente proteger os elefantes”

Magosi disse que os sindicatos de marfim se aproveitaram de conflitos, instabilidade social e governos débeis para suprir o mercado ilegal de marfim.

O grupo TRAFFIC, que monitora o comércio de vida selvagem, disse que o marfim certamente escoa do Quênia e da Tanzânia para países de trânsito, como Malásia, Vietnã e Filipinas, antes de chegar a China e Tailândia para ser vendido.

Na última sexta-feira, autoridades da Etiópia procuraram desencorajar a caça ilegal ateando fogo a seis toneladas de presas e badulaques de marfim confiscados ao longo dos últimos 20 anos.

O comércio de marfim está levando os elefantes à extinção.

Nos anos 70, a Etiópia tinha mais de 15.000 elefantes. Atualmente, restam 1.900. 

O Quênia e o Gabão também destruíram recentemente estoques de marfim.

No mês passado, a China impôs um ano de proibição nas importações de marfim, enquanto a Tailândia está sob pressão para seguir o pedido da CITES, ou Convention on International Trade in Endangered Species (convenção que regulariza o comércio de espécies ameaçadas).

O quilo do marfim atualmente é vendido a US$ 100 (92 euros ou 324 reais) por caçadores ilegais. Na China, ele é vendido por US$ 2.100 (1.927 euros ou 6.807 reais).

Elo entre a pobreza e a caça ilegal

Julian Blanc, especialista da CITES, disse que uma maneira de lidar com a caça ilegal é reduzir a pobreza humana “significativamente”. 

“Nós monitoramos uma relação direta entre a mortalidade infantil (uma medida de pobreza) em níveis distritais com os níveis da caça ilegal”, disse ele. 
“Em lugares onde há um alto nível de mortalidade infantil e pobreza, monitoramos um maior nível de caça ilegal aos elefantes”, disse Blanc.

Na África do Sul e em Botsuana, os elefantes sobrevivem melhor do que mais ao norte da África, pela simples questão de que, naqueles países, os caçadores ilegais se concentram em matar rinocerontes. 

A proteção dos rinocerontes também será um alvo importante da agenda da reunião de cúpula em Botsuana.

ipj/jr (AFP, dpa, AP)

Tradução: Ana Zinger; Revisão: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.


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domingo, 22 de março de 2015

Etiópia destrói 6 toneladas de marfim apreendido

Publicado pela BBC, em 20 de Março de 2015.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes em três décadas.

A Etiópia destruiu todo o seu estoque de marfim apreendido, em um esforço para combater a caça ilegal.

As seis toneladas de presas, esculturas e joias foram queimadas na capital, Addis Ababa.

Este é o segundo país africano - o primeiro foi o Quênia - que queima seu estoque de marfim para desencorajar o comércio no mercado negro.

A Etiópia perdeu mais de 90% de seus elefantes desde a década de 80. Conservacionistas parabenizaram o país pela ação.

A polícia e funcionários dos parques nacionais colocaram gasolina no estoque em uma cerimônia em uma colina do Jardim Botânico Gulele, na capital.

O fogo foi aceso pelo Primeiro Ministro Demeke Mekonnen.






Mr Mekonnen descreveu o gesto simbólico como "pedra fundamental" na implementação de leis contra a caça. 

As autoridades afirmaram que nos últimos cinco anos foram presos mais de 700 suspeitos de caça e tráfico. 

Conservacionistas afirmam que a caça emergiu através da África Subsaariana nos últimos anos, com gangues matando elefantes e rinocerontes e arrancando suas presas e chifres, para suprir a crescente demanda da Ásia.

O relatório de 2014 da ONU e da Interpol estima que de 20.000 a 25.000 elefantes são mortos na África a cada ano, de uma população total de cerca de 650.000.

O vizinho Quênia queimou 15 toneladas de seu estoque no início deste mês.


A Etiópia tem cerca de 1.900 elefantes em nove regiões, afirma a African Wildlife Foundation, com base em um relatório do governo.

Entre 2011 e 2014,  conservacionistas estimam que 42 elefantes foram mortos, com mais três casos registrados em janeiro deste ano.

Dawud Mume Ali, do Ethiopian Wildlife Conservation Authority, disse à agência de notícias Reuters que 492 estrangeiros - do Oeste da África, Sudeste da Ásia e Extremo Oriente - foram presos ou multados nesses três anos.

No ano passado, líderes do Botsuana, Gabão, Chade e Tanzânia se comprometeram a honrar uma moratória de 10 anos na venda de marfim. 

Tradução, revisão e edição: João Paiva, Teca Franco, Junia Machado. 

Saiba mais sobre o comércio de marfim - recomendamos que você assista neste link a God's Ivory (Marfim de Deus), uma brilhante videorreportagem de 14 minutos de Bryan Christy para a Getty Images, legendado em Português. 


God's Ivory (Marfim de Deus)