domingo, 13 de janeiro de 2013

Jogando uma luz intensa sobre o massacre dos elefantes africanos

Alimentada pelo aumento da demanda por marfim, a grande matança de elefantes africanos chegou a um nível monumental. Em uma entrevista com a Yale Environment 360, o repórter do New York Times Jeffrey Gettleman discute a sua investigação a fundo sobre o fatal comércio do marfim, que envolve o apoio das forças militares americanas em várias nações africanas.

Por Christina M. Russo, Yale Environment 360

Com a matança dos elefantes africanos aumentando drasticamente nos últimos tempos, devido à escalada do preço global do marfim, poucos artigos têm transmitido a extensão e a brutalidade desse comércio tão vividamente quanto o artigo escrito no começo deste mês pelo jornalista do New York Times Jeffrey Gettleman. Intitulado “Elephants Dying in Epic Frenzy as Ivory Fuels Wars and Profits” (Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro), o relato de Gettleman descreve como milhares de elefantes estão sendo assassinados por causa de suas presas, com a carnificina sendo cada vez mais realizada pelos exércitos africanos ou por grupos armados e extremamente bárbaros que usam as presas dos elefantes para sustentar suas violências.

Em uma entrevista para a colaboradora da Yale Environment 360 Christina M. Russo, Gettleman, correspondente-chefe do New York Times no Leste Africano, explicou como as semanas que passou no campo o ajudaram a montar o quebra-cabeça do elaborado comércio de marfim que é largamente alimentado pela demanda chinesa e que envolve elementos de forças militares do Congo, do Sudão do Sul e de Uganda – todos eles recebendo algum financiamento ou treinamento do governo americano. 

 
Gettleman, que recebeu o prêmio Pulitzer 2012 de Jornalismo Internacional, também discutiu sobre como grupos infames – incluindo o Exército de Resistência do Senhor (Lord’s Resistance Army – LRA); o janjaweed, em Darfur; e o grupo islamita Shabab – participam da caça ilegal de elefantes.

Jeffrey Gettleman
Gettleman observa que a atual dizimação de manadas de elefantes é emblemática, que deriva de um problema ainda maior que assola o povo africano e seu patrimônio natural, que um dia foi tão rico: a omissão do Estado. “É por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central”, ele diz, “porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há áreas enormes completamente sem lei”.

Yale Environment 360: Esse artigo não é somente sobre a enorme matança dos elefantes na África, mas sim sobre a militarização dessa matança. Você identificou o exército de Uganda, do Congo e do Sudão do Sul, todos como participantes dessa matança. E ainda há os grupos de milícias. Então, o que aconteceu, aparentemente ao mesmo tempo, para que todos esses grupos se voltassem para o marfim como uma fonte de renda?

Jeffrey Gettleman: Eu não acho que foi tudo ao mesmo tempo. Eu acho que isso tem acontecido por muitos anos, desde que o preço do marfim atingiu recordes. O SPLA (Exercito Popular de libertação do Sudão), no Sudão do Sul, tem caçado animais selvagens por muitos anos... O SPLA tem caçado ilegalmente rinocerontes talvez há 20 ou 30 anos, para ajudar a financiar sua rebelião. Eles também têm caçado ilegalmente elefantes por causa do marfim, desde então. O exército do Congo também tem feito isso por muitos anos. E o LRA parece estar fazendo isso relativamente há pouco tempo. E eu acho que isso é porque eles estão circulando em uma parte do Congo onde existem elefantes – Parque Nacional de Garamba – e porque o preço do marfim está muito alto.

O que é interessante é que até mesmo esses grupos ralés, como o LRA, que estão operando em lugares super-remotos e de difícil acesso, onde há pouco contato com o resto do mundo – poucas estradas, poucas cidades, sem recepção de celular –, de algum modo descobriram que marfim agora vale muito dinheiro. E eles se aproveitaram disso. Então, em meio às informações que eles estão recebendo, também estão chegando notícias sobre o mercado mundial do marfim. É um exemplo muito interessante de globalização: há essa cobiça por marfim na China, a milhares de quilômetros de distância, e essa informação repercute nesses homens que estão se escondendo no mato e fugindo para salvar suas vidas. Eles estão sendo perseguidos pelo exército de Uganda e até mesmo por forças especiais americanas.

Então, a resposta mais curta é que isso é um fenômeno que tem acontecido por um bom tempo, mas que houve um aumento na atividade por causa do preço alto do marfim.


e360: Esses grupos estão brigando entre si para controlar os territórios onde os elefantes vivem?

Gettleman: Não, e eu pesquisei sobre isso. Eu acho que houve confrontos entre caçadores – quando eles, por acaso, se encontram no mato, acontecem tiroteios. Mas nós estamos falando de áreas enormes. Então há espaço suficiente para que todos esses grupos diversos se apropriem de uma área onde eles caçam elefantes e não haja muitos casos de encontros acidentais entre eles. Até mesmo no Parque Nacional de Garamba (República Democrática do Congo), a área onde o LRA estava caçando elefantes era um pouco afastada daquela onde o SPLA foi descoberto também caçando elefantes. E o exército do Congo circula nessa área também, mas ela é enorme. A gente está falando de milhares e milhares de quilômetros de terreno acidentado.

(No caso do massacre de Camarões) o interessante a respeito do janjaweed é que eles foram muito longe – pelo menos 960km numa longa jornada até Camarões, e depois voltaram. Isso sugere um certo apoio financeiro e possivelmente mesmo capacidade de planejamento para poder realizar uma jornada tão longa e retornar com o marfim. 


Elefantes massacrados por causa de suas presas de marfim no Parque Nacional de  Bouba Ndjida, em Camarões, em Fevereiro de 2012. Conforme o preço do marfim sobe, dezenas de milhares de elefantes Africanos estão sendo mortos anualmente por causa de suas presas. (AFP/Getty Images)

e360: Há algum grupo – militar ou de milícia – que é mais culpado que os outros?

Gettleman: Parece que o exército do Congo é o mais criminoso de todos esses diversos exércitos. Eu conversei com pessoas que estudam essas questões bem de perto e eles disseram que nenhum exército na África é tão ruim quanto o exército do Congo, quando se trata de caça ilegal. O exército do Congo é um verdadeiro caos. Eles estão implicados em inúmeras violações dos direitos humanos, abusando de civis, queimando vilas, roubando recursos naturais do Congo, como ouro, diamantes, coltan e outros minerais. Então não é uma surpresa que eles estejam caçando elefantes, que também são um recurso natural da área onde eles operam.

E então começamos a entrar em um problema ainda maior, que é a falência do Estado. A razão de o exército do Congo ser tão indisciplinado e atacar o próprio povo e o meio ambiente é que o Estado é extremamente fraco. O governo central do Congo praticamente não controla seu território, e, em algumas áreas, ele é completamente irrelevante. O Congo tem um legado de décadas de desgoverno, muitas vezes bastante brutal. E agora nós estamos vendo isso ser demonstrado contra os elefantes. O exército do Congo é notório por não receber salário, por ser indisciplinado e por fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro, mesmo que de maneira ilegal.

e360: Esses militares estão sendo financiados e até mesmo treinados pelo governo americano. Então quais são as implicações desse suporte e desse treinamento, se esses exércitos estão envolvidos na caça de espécies ameaçadas de extinção?

Gettleman: Isso levanta uma questão: será que os Estados Unidos deveriam estar trabalhando com militares que estão quebrando leis nacionais e internacionais? E será que os Estados Unidos deveriam usar sua posição de aliado para discutir algumas dessas questões? Os Estados Unidos são próximos de vários exércitos na África. Eles têm interesses em comum, como lutar contra o terrorismo e prevenir instabilidades. Os Estados Unidos doam milhões de dólares todos os anos para as forças de defesa de Uganda. Uganda está ajudando a Somália fornecendo forças de paz. Os Estados Unidos já providenciaram inúmeros programas de treinamento, levando para lá oficiais ugandenses e mandando oficiais americanos para Uganda. Então, essa situação de Uganda estar envolvida em alguns desses incidentes levanta a dúvida de se os recursos americanos estão sendo usados para matar elefantes. Porque os Estados Unidos estão pagando pelo combustível de helicópteros em Uganda como parte dessa operação para encontrar Joseph Kony e os líderes do LRA. Se o exército de Uganda realmente matou elefantes de um helicóptero (alegadamente na República Democrática do Congo), será que esse helicóptero não teria sido abastecido com combustível pago pelo governo americano? Algumas pessoas – que são citadas no meu artigo – fizeram essa pergunta. Os ugandenses negam. Não há nenhuma testemunha e ninguém achou a arma que os vincularia a esse incidente. Mas há muita suspeitas e muita evidência circunstancial.

Os exércitos do Congo e do Sudão do Sul também são treinados e parcialmente financiados por contribuintes de impostos americanos. Agora, então, a questão é esta: será que os Estados Unidos deveriam  usar sua posição de aliado para discutir esses abusos cometidos por militares que o governo americano está financiando? 



Guardas florestais inspecionam um Elefante Africano da Floresta morto por caçadores no Parque Nacional de Dzanga-Ndoki, na República Centro-Africana. (Foto: TRAFFIC/Martin Harvey/WWF-Canon)

e360: O seu artigo lançou luz sobre a complexidade dessa questão sobre a caça ilegal – ele fala sobre a política externa, o mercado global, o exército, a pobreza, a corrupção, a ganância. Os envolvidos são civis, soldados, oficiais e homens de negócios. Como essa situação pode parar, com tantas pessoas envolvidas, em tantos níveis?

Gettleman: Bom, essas são boas questões. Uma razão pela qual a gente fez essa história é porque ela se conecta com esses problemas mais amplos dessa parte da África. E não é somente sobre os animais que estão sendo mortos. É sobre pessoas que estão sendo mortas, sobre áreas que estão sendo desestabilizadas. É sobre grupos rebeldes que estão conseguindo mais recursos para financiar o caos que eles provocam. Como o LRA, que é um dos grupos mais brutais do mundo. Eles sequestram milhares de crianças. Eles matam centenas de pessoas de forma violentíssima. Eles aterrorizam essa grande área no meio da África e escapam mais ou menos impunes. E agora eles estão meio que encurralados nessa parte da África Central, sendo perseguidos por todas essas diferentes forças e usando o marfim como fonte de financiamento para continuar.

Então isso me interessou: como essa carnificina e a caça ilegal de elefantes se conectam com essas grandes questões que eu passei tanto tempo cobrindo. Eu já escrevi muitas histórias sobre o LRA. Eu já escrevi muitas histórias sobre o janjaweed. Eu escrevi histórias sobre os abusos feitos pelo exército congolês. Então é tudo muito interligado... Isso é o que faz esta questão ser tão difícil de resolver. Porque muitas dessas questões estão diretamente ligadas à falência do Estado. E é por isso que tantos elefantes estão sendo mortos na África Central, porque é provavelmente a parte mais instável da África e onde há várias áreas imensas completamente sem lei.

Então há duas questões: a da oferta e a da procura. A procura tem que ser discutida, porque o preço do marfim está tão alto, agora, que muitas pessoas estão entrando nesse negócio. Então todo mundo concorda que alguma coisa tem que ser feita na China para diminuir o seu apetite por marfim. Se não, é como o tráfico de drogas: enquanto houver uma demanda enorme, é impossível de ser controlado. Olha quanto dinheiro é gasto tentando evitar a entrada de drogas ilegais no país e, mesmo assim, o resultado não aparece.


Quanto à oferta, o problema é extremamente difícil, já que várias questões que conduzem à caça ilegal estão profundamente enraizadas na África, como a corrupção, a pobreza e as imensas áreas desprovidas de lei. Ninguém vai conseguir policiar a República Centro- Africana ou o Congo, de modo efetivo, tão cedo. Então, provavelmente, esse não é o melhor lugar para começar. Talvez pudéssemos proteger melhor os elefantes em áreas específicas, como parques nacionais, mas os elefantes se deslocam para dentro e para fora desses parques. E até mesmo a África do Sul, que tem mais recursos do que o resto da África, ainda tem problemas com a caça ilegal de rinocerontes e elefantes. É uma situação muito difícil de ser resolvida rapidamente, porque está ligada a muitas dessas questões.

e360: Para continuar com o lado da procura: a China é, obviamente, a maior culpada. O marfim é contrabandeado para lá e, depois, ironicamente, transformado nos objetos mais triviais, como marcadores de livros e palitos – agora com preço acessível para a classe média emergente chinesa. Robert Hormats, subsecretário de Estado para o Crescimento Econômico, Energia e Meio Ambiente, falou que a secretária de Estado Hillary Clinton estava postergando a questão do marfim com a China. Você já viu alguma evidência disso?

Gettleman: Eu não vi nenhuma evidência disso. Quando eu o entrevistei [Hormats], eu perguntei o que eles iam fazer sobre esse problema da caça ilegal de elefantes, e ele disse que estão tentando trabalhar com os governos nos locais onde isso está acontecendo, e então eu trouxe o problema da demanda na China. E a pergunta foi: como pressionar a China, que é famosa por sua resistência a pressões políticas em questões ligadas à sua soberania? As pessoas com quem eu falei e que conhecem bem a China dizem que, na discussão, o melhor é ser superdiplomático, com conversas discretas, íntimas. E não fazer uma campanha de grande exposição pública contra os chineses. Então talvez seja isso que eles estejam fazendo – ou talvez não.



Funcionária do grupo de conservação Traffic inspeciona marfim apreendido na Malásia. O mercado global de marfim é fortemente impulsionado pela demanda da China e de várias outras nações asiáticas. (Foto: TRAFFIC)

e360: O problema com o consumo de marfim da China é que não acontece somente no continente. Está também ligado ao crescimento da presença da China na África. Você pode explicar isso?

Gettleman: Então você tem a demanda proveniente da própria China, mas também há mais chineses trabalhando na África do que jamais houve antes – mais de um milhão de pessoas trabalhando em mineração, infraestrutura. E há alguma correlação entre o aumento de caças ilegais em certas áreas e a presença de chineses nessas mesmas áreas. Diz-se, até como piada, que, onde há chineses, o preço do marfim aumenta na região. Além disso, mais de cem chineses foram apanhados contrabandeando marfim. Da Nigéria para o Congo, para o Quênia, cidadãos chineses foram pegos levando marfim entre as fronteiras. Isso é um fato.

e360: Você cobriu a África por vários anos e frequentemente focou em assuntos muito intensos e emocionais, incluindo fome, doença e abusos. Você já tinha feito muitas reportagens sobre caça ilegal antes? E como isso se encaixa com todas essas histórias sobre sofrimento que você cobriu tão extensivamente?

Gettleman: Eu acho que isso é uma forma muito interessante de olhar para essa questão. Eu acho que existe muita brutalidade nessa parte do mundo em que eu atuo. Eu passei muito tempo buscando esses abusos horríveis que as pessoas sofrem, e, agora, estamos vendo esses abusos sendo cometidos contra animais – a mutilação sexual, a mutilação dos seus genitais. É uma matéria muito perturbadora de se lidar. Eu tento ter a mesma compaixão e empatia que eu tenho com outras histórias. Eu não vou ficar tão envolvido emocionalmente com o sofrimento de elefantes como eu fico com o de pessoas. Mas eu acho que elefantes são especiais, animais extremamente inteligentes, com qualidades muito parecidas com as nossas, e é importante lembrar às pessoas que existe essa questão envolvendo o abuso desses animais.  Os bebês de elefantes estão morrendo, e os adultos, sofrendo.

Eu vejo minha missão como a de tentar fazer com que as pessoas se sintam conectadas com o que eu estou escrevendo. Se é sobre mulheres sendo abusadas, ou pessoas sofrendo no Sudão, ou elefantes, eu quero dar a elas os detalhes e a emoção. É importante ser objetivo. A gente precisa olhar para ambos os lados da questão, ser um observador objetivo, porque esses lados têm uma participação. Mas dito isto, você não precisa ficar paralisado. Eu não quero ficar emocionalmente neutro. 


Um elefante morto por causa de seu marfim, no Chade. (Foto: SOS Elephants of Chad/Stephanie Verignault)

Link para o artigo original.

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sábado, 12 de janeiro de 2013

Família de elefantes é exterminada por caçadores ilegais no Parque Nacional de Tsavo, no Quênia

No último final de semana, uma família inteira de doze  elefantes foi morta e teve suas presas retiradas, em Bisadi,  uma área do Parque Nacional de Tsavo Leste. Acreditava-se que fossem onze elefantes, mas foi descoberta mais uma  carcaça, que pertencia a um elefante bebê, de aproximadamente dois meses de idade.  

Segundo o Serviço à Vida Selvagem do Quênia (KWS), um suspeito foi preso e está fornecendo informações que levarão as autoridades a outros membros da gangue.

Depois dessa última tragédia de caça ilegal, o Primeiro Ministro do Quênia, Raila Odinga, apelou à comunidade internacional por ajuda. “Peço à comunidade internacional que ajude a fortalecer o policiamento nacional e internacional para lidar com o tráfico de vida selvagem como uma séria ameaça à conservação, ao Estado de Direito, ao governo e ao desenvolvimento econômico”.  


 A menor vítima do massacre.
Foto: Kenya Wildlife Service

7 de Janeiro de 2013
Por Mary Purvis, examiner.com

Em apenas um dia. Onze elefantes. Mortos. Uma família inteira assassinada a tiros por caçadores ilegais.


De acordo com informações que o Serviço da Vida Selvagem do Quênia (KWS) acaba de divulgar, a família foi massacrada durante o final de semana, em Bisadi, uma área do Parque Nacional de Tsavo Leste.


O KWS está, neste momento, à procura da gangue responsável pelo massacre.


Tsavo está fazendo jus a seu nome, que, na língua Kamba, significa massacre. Durante os anos 70 e 80, as magníficas manadas de elefantes do parque foram praticamente reduzidas a zero, devido à caça ilegal. E agora, a história se repete.


Também durante o final de semana, patrulheiros da Save the Elephants (Salve os Elefantes) encontraram um de seus machos adultos morto. Changilla era muito amado por Iain e Oria Douglas-Hamilton. Os patrulheiros não haviam conseguido localizá-lo e quando, finalmente, ele foi descoberto, seu corpo estava escondido sob galhos. 


A Save the Elephants afirmou que nas últimas seis semanas quase 20 elefantes foram mortos na área próxima a Isiolo, no norte do Quênia.


Uma fonte alegou que uma família bastante rica e envolvida há muito tempo na política, suspeita de envolvimento no comércio ilegal de marfim durante os anos 70, está por trás deste recente holocausto de caça ilegal. Um membro dessa família foi acusado de cometer crimes contra a humanidade nas eleições de 2007 e é agora candidato à presidência nas próximas eleições de março. 


Dado o poder que essa família exerce, será que o mercado de marfim pode ser mesmo brecado no Quênia?


Mesmo assim, esses indivíduos representam apenas um entre os diversos grupos responsáveis pelo massacre da vida selvagem no Quênia.


Se a caça ilegal não diminuir, um dos tesouros mais valiosos do Quênia desaparecerá. Para sempre.


Leia o artigo original publicado na examiner.com

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

"Eles estão atrás dos nossos elefantes"

Camarões mobiliza 600 soldados de elite para defender o país contra caçadores ilegais


 600 soldados e um helicóptero das forças de elite Bataillon d´intervention rapide 
(BIR – Batalhão de Intervenção Rápida) foram mobilizados para impedir que os caçadores entrem em seu território para matar elefantes e retirar seu marfim.
© WWF-CARPO

Parque Nacional de Bouba N’Djida, norte de Camarões – A cinquenta quilômetros da fronteira com o Chade, na região norte do Parque Nacional de Bouba N’Djida, em Camarões, o general Martin Tumenta não mede as palavras ao se dirigir à mídia:

“Nós não estamos lidando com caçadores ilegais comuns”, disse ele para um grupo de repórteres nacionais e internacionais.

“Eles estão fortemente armados, com metralhadoras e rifles automáticos... Eles usam uniformes, são organizados e estão atrás dos nossos elefantes.”

“Nós estamos lidando com um exército – batalhões, pelotões –  que não hesita em cruzar nossas fronteiras para roubar nosso  patrimônio natural.”

“Meu dever é preservar a integridade territorial e a biodiversidade do nosso país”, disse o general, que lidera as operações militares no norte do país, ao anunciar, no fim de semana, a decisão de Camarões de mobilizar 600 soldados e um helicóptero do seu Batalhão de Elite de Rápida Intervenção para impedir que caçadores ilegais entrem em seu território para matar elefantes, em busca do marfim.

A ação foi uma resposta ao incidente ocorrido no começo do ano passado, quando caçadores ilegais sudaneses viajaram mais de 1.000 quilômetros a cavalo, do norte do Sudão e através da República Centro-Africana e do Chade, para matar mais de 300 elefantes no Parque Nacional de Bouba N’Djida.

Fontes do WWF disseram que vários grupos de caçadores ilegais resolveram começar suas ações mais cedo este ano, aproveitando a época das chuvas, quando uma maior cobertura do terreno está disponível, e para usar o elemento surpresa contra os guardas florestais, ao chegarem mais cedo do que o esperado.

A resposta militar de Camarões foi imediatamente aplaudida por Jim Leape, diretor-geral do WWF International, que chamou a ação de “audaciosa e corajosa, criando, com ela, um novo padrão para outros países na linha de frente contra a caça e o tráfico da vida selvagem”.

“O WWF gostaria de parabenizar o presidente de Camarões pela decisão de dispor das Forças Especiais para proteger áreas vulneráveis, pessoas e elefantes contra gangues estrangeiras altamente armadas de caça ilegal.”

“Esse incidente (em Bouba N’Djida, no começo do ano passado) sublinha o fato de que a caça ilegal e o tráfico de vida selvagem se tornou uma questão de segurança nacional, com sérias consequências econômicas e sociais para o país”, declarou ele.

A matança de elefantes africanos por causa do marfim tem uma longa história. Entre 1970 e 1989, metade dos elefantes africanos – talvez 700.000 indivíduos – foi morta em decorrência do mercado ilegal de marfim.

Mais recentemente, a caça ilegal de elefantes e o mercado ilegal relacionado a ela foram responsáveis pelo extermínio de metade dos elefantes remanescentes da África Central, entre 1995 e 2007. E, desde então, o grau de matança de elefantes subiu vertiginosamente.

A raiz do problema é uma demanda estratosférica por marfim, consequência do aumento de renda na Ásia, além de atitudes culturais relacionadas a esse bem. O marfim, que costumava  ser vendido por US$ 10 o quilo há cinco anos, em vilarejos de países da bacia do Congo, é agora vendido por US$ 300. Com uma média de 6,8kg por presa, um elefante pode representar um incremento na renda média para muitas pessoas, na África Central.

O aumento em grande escala de apreensões de marfim africano na África e, mais ainda, na Ásia, é evidência do crescente envolvimento do crime organizado no mercado ilegal da vida selvagem. Essa atividade tem se tornado um crime transnacional organizado, de significativa violência, e está desestabilizando sociedades e pondo em risco as reputações de países africanos como lugares de investimentos e negócios.

Se nada for feito a respeito do crime contra a vida selvagem, os esforços para combater outros mercados ilícitos, como o tráfico de armas e drogas, serão minados e isso facilitará o crescimento do crime organizado e dará combustível a conflitos regionais.

A operação chamada “Paz em Bouba N’Djida” cobrirá uma área de 12.000 quilômetros quadrados, incluindo o parque e seus arredores, de aproximadamente 200.000 hectares, e que é patrulhado por brigadas antiterrorismo do Batalhão de Elite de Rápida Intervenção. Todas as atividades têm o objetivo de apoiar os 60 ecoguardas que atuam na região e não têm  capacidade para enfrentar essa ameaça, segundo Tumenta.

Desde que a operação começou, há um mês, “não houve sinais de caçadores ilegais”, disse ele, informando ainda que o Batalhão de Elite de Rápida Intervenção ficará na área até os caçadores desistirem.

“Essas forças serão permanentes – digo e repito, permanentes – nesse território.”

“Eu sugiro aos caçadores que, devido à quantidade de recursos à nossa disposição, não ponham os pés neste país”, conclui Tumenta.

“Vamos esperar que a atitude de Camarões em relação a essa última ameaça seja suficiente para dissuadir as gangues de caçadores ilegais a invadir o seu território”, disse Leape.

O WWF está em campanha para uma maior proteção a espécies ameaçadas, como rinocerontes, tigres e elefantes. Para salvar animais ameaçados, os países onde vivem esses animais precisam envidar esforços para o cumprimento da lei e aperfeiçoar os controles aduaneiros e sistemas judiciais. O WWF também está pedindo aos governos dos países consumidores para tomarem medidas a fim de diminuir a demanda, de modo a reduzir o uso de produtos provenientes de animais ameaçados.



Membros das forças de elite de Camarões patrulha suas fronteiras 
para assegurar que caçadores não entrem em seu território para matar elefantes.
© WWF-CARPO

Leia aqui o texto original.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Ou a venda de marfim para agora ou os elefantes da África estarão extintos em breve, diz Jane Goodall

Obrigado, Jane Goodall, por levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes. Obrigado por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada.

A conservacionista acusa a China de insuflar a caça ilegal, enquanto presas são contrabandeadas em malas diplomáticas.

Por John Vidal - The Guardian 
Publicado em 16 de dezembro de 2012

Elefantes na Reserva de Maasai Mara, no Quênia. 
Fotografia: Anup Shah/ Anup Shah/Corbis

Jane Goodall, uma das maiores conservacionistas do mundo, fez um apelo arrebatado a favor da proibição mundial da venda de marfim, a fim de evitar a extinção do elefante Africano.

O apelo foi feito após a apreensão de 24 toneladas de marfim ilegal na Malásia, na semana passada, e um relatório de conservacionistas advertir que o comércio ilegal de marfim agora ameaça governos porque grupos rebeldes usam as presas de elefantes para financiar suas guerras.

“Uma grande tragédia está acontecendo em algumas partes da África. Isso é desesperadamente sério, sem precedentes”, disse ela. “Acreditamos que a Tanzânia tenha perdido metade de seus elefantes nos últimos três anos. Aviões militares de Uganda foram vistos na República Democrática do Congo atirando, do ar, nos elefantes. Agora, milícias armadas estão atirando nos elefantes.”

Ela acusou a China de ser essencialmente responsável, porque é para lá que a maioria do marfim vai, para ser transformado em ornamentos. “Os mercados principais são a China e o oriente. Parece que o marfim está sendo contrabandeado nas malas dos diplomatas chineses ou em aviões não registrados, ou ainda através da fronteira, para a República Democrática do Congo. Gangues armadas e guardas florestais estão se unindo no contrabando ou sendo mortos. Temo estarmos perdendo a batalha em alguns países. É chocante”, disse ela.

O aumento da presença chinesa na África está relacionado ao crescimento sem precedentes da caça ilegal. A descoberta, por oficiais alfandegários da Malásia, de 1.500 presas, na semana passada, escondidas em compartimentos secretos dentro de 10 contêineres que supostamente carregavam pisos de madeira foi a maior apreensão já vista, equivalendo a todo o marfim ilegal apreendido no ano passado.


Os contêineres estavam indo do Togo para a China, via Espanha. O Togo é o destino popular do contrabando feito por gangues armadas. Essa apreensão veio após a descoberta de 1.000 presas de marfim em Hong Kong, e de 200 presas na própria Tanzânia.

Goodall, que ficou famosa por seu trabalho como primatologista, estudando chimpanzés na África, comparou a deterioração da situação dos elefantes com o declínio drástico das populações de primatas nos últimos 40 anos. “ Estamos testemunhando a devastação de populações de elefantes em vários países. É uma  situação similar à dos grandes primatas. Todo mundo deveria estar preocupado. Estamos lutando por uma total proibição da venda do marfim.”

Ela vai fazer uma campanha, junto com David Attenborough, para persuadir a ONU a proibir a venda do marfim. “O mundo precisa acordar. Governos precisam apertar o cerco. Ninguém, em lugar nenhum, deve comprar marfim. Países têm que ser ajudados no esforço de controle da caça ilegal,” disse Goodall.

Um relatório entregue à ONU, na semana passada, pela WWF Internacional, adverte que o comércio ilegal de marfim ameaça governos, uma vez que grupos rebeldes usam a venda para financiar suas guerras. “A situação ultrapassa a questão da vida selvagem. Essa crise está ameaçando a estabilidade de governos. É uma ameaça à segurança nacional”, disse Jim Leape, diretor -geral da WWF Internacional.

Em alguns países a caça ilegal está fora de controle. No sul do Sudão, a população de elefantes, estimada em 130.000 em 1986, caiu para 5.000, disse Paul Elkan, diretor da Wildlife Conservation Society. “Com esses níveis de caça ilegal, daqui a cinco anos eles não existirão mais. Até as forças de segurança estão envolvidas no tráfico”, disse ele.

Conservacionistas acusam as autoridades da Tanzânia de não controlarem a caça ilegal e o tráfico. “Um enorme massacre de elefantes está ocorrendo na Tanzânia, agora. Está fora de controle”, disse Iain Douglas-Hamilton, conservacionista veterano. “Não há proteção para os elefantes, assim como não houve para os bisões na América, no século passado, quando foram exterminados. As pessoas então não devem se enganar.”

A Tanzânia, com 70.000 - 80.000 elefantes em 2009, tem perto de um quarto dos elefantes de toda a África. Mas Peter Msigwa, um parlamentar da Tanzânia, disse, na semana passada, que a caça ilegal está “fora de controle”, com uma média de 30 elefantes sendo mortos por dia, por causa do marfim.

“No fim do ano, são 10.000 elefantes mortos”, disse James Lembeli, dirigente da comissão dos recursos naturais da Tanzânia. “Em locais onde este país tem elefantes, há carcaças por todos os lados”, disse ele.

No Ano passado, a polícia da Tanzânia apreendeu mais de 1.000 presas de elefantes escondidas em sacos de peixe salgado, no porto de Zanzibar.
 

Em junho, a Convenção do Comércio Internacional de Espécies em Extinção (CITES) descreveu a difícil situação dos elefantes da África como “crítica” e disse que a caça ilegal atingiu o maior índice da década, com milhares de elefantes mortos por ano por causa de suas presas. 


Marfim sangrento - um massacre fora de controle

Por: ElephantVoices

Os fatos que marcaram 2012 já foram vistos antes por Joyce Poole, da ElephantVoices. É o retorno de um pesadelo. No final dos anos 80, quando os elefantes estavam sendo massacrados em uma quantidade sem precedentes, ela conduziu pesquisas sobre as populações de elefantes africanos para documentar o impacto que a caça ilegal estava causando em sua reprodução e comportamento social. Joyce ajudou a escrever a proposta que culminou na proibição do comércio internacional de marfim, em 1989. Nos 17 anos que se seguiram, ela assistiu à recuperação das populações de elefantes, tanto em termos numéricos como sociais. Isso durou até 2007, quando o organismo internacional que regulamenta o comércio de espécies ameaçadas, a CITES, permitiu a exportação de marfim por cinco países do sul da África, incluindo a China como parceiro comercial. 


Então, assistimos ao inevitável: o inferno começou a aflorar. Em 2010, expressamos nossa grave preocupação em um documento publicado na Revista Science e demos uma palestra na CoP15, em Doha, Qatar, nos posicionando contra qualquer nova venda. Na ocasião, as autoridades não concordaram com nossa preocupação. Mas agora foi diferente. Com a matança totalmente fora de controle, as Nações Unidas afirmaram recentemente que a matança de elefantes é uma ameaça à segurança global.


No ecossistema de Maasai Mara, onde trabalhamos, os elefantes estão parcialmente protegidos pela presença de turistas. Mas apenas nos primeiros três meses de 2012, 42 elefantes foram mortos ilegalmente ali.  No segundo semestre de 2012, nossa adorada “Goodness” (“Bondade”, cujo nome foi dado por Derrick Nabaala devido à sua natureza gentil) foi morta por possuir longas e assimétricas presas, deixando para trás sua jovem filha, f0361, e outros filhos (veja o álbum de fotografias de Goodness no facebook). No final de Agosto, encontramos f0361 parada sozinha sob uma árvore, desolada. Uma família de cinco membros foi reduzida a apenas um, pelo assassinato da matriarca, por causa de suas presas. A morte dos dependentes - filhotes de até 10 anos de idade - é o custo não revelado do mercado de marfim. O marfim é dentina, dente que pertence aos elefantes, não ao aparador da lareira.


Goodness, matriarca morta por possuir grandes e assimétricas presas, fotografada com sua família
no ecossistema de Maasai Mara, no Quênia (Foto: ElephantVoices)

Graças a uma combinação de vozes protestando e ao trabalho duro de muitas pessoas no mundo todo, a informação está, finalmente, sendo transmitida. O artigo “Culto ao Marfim”, da National Geographic, alarmou a opinião pública, em outubro de 2012. Em dezembro, foi a vez de Jane Goodall levantar sua forte voz contra o mercado de marfim e a matança dos elefantes.


A declaração de Jane chega na hora certa, enquanto muitos de nós estão se preparando para uma grande batalha na CoP 16 da CITES, em Bangcoc, em Março de 2013. Esperamos que a China perceba que é de seu interesse policiar seu crescente mercado de marfim, a indústria de entalhe e seus nocivos compatriotas na África. É hora de entrar na batalha para parar a matança dos elefantes. A China tem muito a perder e pouco a ganhar,  se não fizer isso. Apoiadores do mercado de marfim, atenção ao que está escrito na parede: “O mundo quer elefantes e não um estoque de marfim!”. Obrigado, Jane Goodall, por se juntar a nós no apelo por uma proibição total do mercado de marfim e por pedir que a China seja responsabilizada. 

Saiba mais sobre nosso trabalho na Reserva de Maasai Mara, no Quênia.


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sábado, 22 de dezembro de 2012

Elefantes Morrem num Frenesi Épico Enquanto o Marfim Abastece Guerras e dá Lucro


Por Jeffrey Gettleman
The New York Times


Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo – Em 30 anos de luta contra caçadores ilegais, Paul Onyango nunca vira nada parecido: vinte e dois elefantes mortos, incluindo vários filhotes, agrupados na savana aberta, muitos abatidos com uma única bala no topo da cabeça.
 

A Guerra do Marfim: pelotões fortemente armados de guardas florestais 
no Parque Nacional de Garamba, República Democrática do Congo, 
travam uma guerra contra os caçadores de elefantes.


Não havia pegadas ou rastros, nenhum sinal de que os caçadores espreitaram suas vítimas. As presas foram retiradas a machadadas, mas a carne continuava intacta – e caçadores de subsistência quase sempre talham um pouco de carne para a longa caminhada de volta para casa.

Vários dias depois, no começo de abril, guardas do Parque Nacional de Garamba localizaram um helicóptero militar de Uganda voando em baixa altitude sobre o parque, num voo não autorizado, e disseram que o helicóptero abruptamente fez a volta e foi embora ao ser detectado. Oficiais do parque, cientistas e autoridades congolesas agora acreditam que militares de Uganda – um dos parceiros mais próximos do Pentágono, na África – mataram os 22 elefantes de um helicóptero e levaram mais de um milhão de dólares em marfim.

“Foram tiros bons, tiros muito bons,” disse o sr. Onyango, chefe dos guardas florestais de Garamba. “Eles mataram até os bebês. Por quê? Parece que vieram só para destruir tudo.”

A África está no centro de uma chacina épica de elefantes. Grupos conservacionistas dizem que os caçadores ilegais estão matando milhares de elefantes por ano, mais do que em qualquer época nas últimas duas décadas, e o comércio ilegal de marfim está ficando cada vez mais militarizado.

Como os diamantes de sangue de Serra Leoa ou a pilhagem de minerais do Congo, o marfim, assim parece, é a mais recente fonte de conflitos na África, subtraído de zonas remotas de batalhas, facilmente convertido em dinheiro e agora abastecendo conflitos pelo continente.

Alguns dos grupos armados mais notórios da África, como o Lord’s Resistance Army e os janjaweeds de Shabab e Darfur, estão caçando elefantes e usando suas presas para sustentar sua desordem. Sindicatos do crime organizado estão se unindo a eles para movimentar o marfim pelo mundo, explorando estados turbulentos, fronteiras porosas e oficiais corruptos, da África Subsaariana para a China, dizem as forças policiais.

Mais não são só os fora da lei que estão envolvidos. Membros de alguns exércitos africanos treinados e sustentados pelo governo americano com milhões de dólares do contribuinte – como os militares de Uganda, o exército congolês e os militares do recentemente independente Sudão do Sul – estão implicados na caça ilegal de elefantes e no negócio do marfim.

Soldados congoleses são frequentemente presos por isso. Forças do Sudão do Sul frequentemente combatem guardas florestais. A Interpol, rede de polícia internacional, está ajudando a investigar a matança em massa de elefantes no Parque de Garamba, tentando comparar exemplos de DNA dos crânios dos animais com uma enorme carga de presas, marcadas como “utensílios domésticos”, recentemente confiscada no aeroporto de Uganda.

A grande maioria do marfim ilegal – 70%, segundo especialistas – vai para a China, e, embora o marfim seja cobiçado há séculos, nunca tantos chineses puderam adquiri-lo como agora. O boom econômico chinês criou uma vasta classe média, elevando o preço do marfim para estratosféricos US$ 1.000,00 por libra nas ruas de Pequim (o que equivale
equivale a 0,4536 kg).

 A África está no meio de uma matança épica de elefantes. Grupos de conservacionistas afirmam que os caçadores estão liquidando dezenas de milhares de elefantes por ano, mais do que em qualquer época nas duas décadas anteriores, com o mercado de marfim ilegal se tornando incrivelmente militarizado. O Parque Nacional de Garamba, na República Democrática do Congo, é um campo de batalha, com uma corrida armamentista acontecendo através da savana. 
Foto: Tyler Hicks/The New York Times


Oficiais de alto escalão do Exército da Liberação do Povo (ELP) chinês têm uma predileção por presentes feitos de badulaques de marfim. Fóruns na internet oferecem um mercado próspero e não regulamentado de palitos usados como talheres, marcadores de livro, anéis, cuias e pentes, além de dicas de como contrabandear os objetos (enrolá-los em papel-alumínio, segundo um dos sites, para enganar as máquinas de raio x dos aeroportos).

Ano passado, mais de 150 cidadãos chineses foram presos na África, do Quênia a Nigéria, por contrabando de marfim. Há evidências de que a caça ilegal aumentou em países com ricas populações de elefantes em áreas onde trabalhadores chineses constroem estradas.

“A China é o epicentro da demanda,” diz Robert Hormats, um oficial veterano do Departamento de Estado americano. “Sem a demanda da China, isso tudo acabaria”.

Hormats disse que a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton, que há alguns anos condenou os minerais vindos de zonas de conflito do Congo, levantou a lebre do marfim com os chineses e disse que iria “gastar tempo e esforço consideráveis nessa questão e discutiria o assunto ousadamente”.

Há gerações estrangeiros vêm dizimando as populações de elefantes africanos. O “ouro branco” foi uma das razões primordiais pela qual o rei Leopoldo II da Bélgica transformou o Congo em seu feudo pessoal no final do século XIX, levando as lutas pelo marfim a excessos de brutalidade. Esses fatos foram relatados, em forma de ficção, por Joseph Conrad em seu livro “O Coração das Trevas” e plantaram as sementes para a queda livre na qual o Congo se encontra hoje em dia.

A Costa do Marfim ganhou esse nome por causa das imensas manadas de elefantes que costumavam habitar suas florestas. Hoje, depois de décadas de carnificina, quase não existe mais marfim.

A demanda por marfim aumentou tanto que as presas de um único elefante adulto pode vir a valer dez vezes mais que o valor de um salário anual em muitos países africanos.
 

Na Tanzânia, aldeões pobres envenenam abóboras e as despejam nas estradas para os elefantes comerem. No Gabão, caçadores de subsistência estão sendo recrutados para matar elefantes nas profundezas da floresta, e as presas, às vezes, são trocadas por um punhado de sal.

Monitores internacionais começaram a manter registros detalhados da caça ilegal na África a partir de 2002, e, no ano passado, os números atingiram seu maior nível. Em 2011, foi quebrado o recorde de apreensões de marfim no mundo: 38,8 toneladas (equivalentes a mais de 4.000 elefantes mortos). Oficiais de Justiça dizem que o aumento de apreensões é um nítido sinal de que o crime organizado se uniu ao mercado de marfim, porque só uma máquina criminal bem azeitada – com a ajuda de oficiais corruptos – pode deslocar centenas de toneladas por milhares de milhas através do mundo, frequentemente usando compartimentos secretos em contêineres especialmente construídos para tal.

Os contrabandistas são “sindicatos criminosos asiáticos com bases na África, que se adaptam facilmente às intervenções da lei, mudando constantemente rotas e modus operandi”, diz Tom Milliken, diretor do Projeto de Monitoramento Internacional do Marfim. 


Conservacionistas dizem que as mortes em massa que estão ocorrendo na África são tão ruins ou até piores que as ocorridas na década de 80, quando caçadores ilegais mataram mais da metade dos elefantes africanos, isso antes que a proibição internacional do comércio de marfim fosse finalmente efetivada.

“Estamos vivenciando o que parece ser a maior perda de elefantes da História”, diz Richard G. Ruggiero, oficial do Serviço de Pesca e Vida Selvagem americano.

Especialistas dizem que a sobrevivência da espécie está em risco, principalmente quando membros dos serviços de segurança africanos incumbidos de proteger os animais estão matando-os.

“As grandes populações do oeste da África desapareceram e as do centro e do leste estão sumindo rapidamente,” diz Andrew Dobson, ecólogo de Princeton. “A questão é: Você quer que seus filhos cresçam num mundo sem elefantes?”


Guardas florestais descobrem um elefante assassinado, sem o marfim, nas profundezas do parque. Alguns dos elefantes assasinados recentemente têm sido sexualmente mutilados, tendo seus genitais ou mamilos arrancados, possivelmente para venda — um fenômeno que os pesquisadores afirmam não ter visto antes. 
Foto: Tyler Hicks/The New York Times

‘Atiramos Primeiro’

O Parque Nacional de Garamba é um enorme e maravilhoso lençol verde, com 1.900 milhas quadradas, incrustado no canto nordeste do Congo. Visualize um mar de capim-elefante na altura do peito, serpentes de rios marrons, rolos de papiros e ocasionais pássaros, como a secretária preta e branca, deslizando com elegância através de céus cor-de-rosa. Fundado em 1938, Garamba é considerado um dos mais estonteantes parques da África, o sonho dos naturalistas.

Mas hoje é um campo de batalha. Toda manhã, pelotões de 140 guardas florestais de Garamba se armam com rifles, metralhadoras e granadas-foguete. Luis Arranz, diretor do parque, deseja adquirir aeronaves não pilotadas para fiscalização, e a organização sem fins lucrativos que administra o parque está considerando comprar óculos de visão noturna, coletes à prova de bala e caminhonetes com metralhadoras acopladas.

“Nós não negociamos, não damos avisos, atiramos primeiro,” diz o sr. Onyango, chefe dos guardas florestais, que trabalhou como fiscal da vida selvagem no Quênia por mais de 20 anos. Ele foi promovido a um alto posto, mas perdeu o emprego quando um caçador ilegal sob sua custódia morreu após ser chicoteado.

“Aqui não é michezo,” diz o sr. Onyango, usando a palavra brincadeira em swahili.

Em junho, ele ouviu uma profusão de tiros. Seus guardas florestais se arrastaram por horas por entre a grama-elefante até acharem caçadores ilegais retirando presas de diversos elefantes mortos. No instante em que seu esquadrão abriu fogo, a área virou um pandemônio, e os tiros vinham de todos os lados.

“Eles contra-atacaram com PKMs, AKs, G-3s e FNs”, disse. “A maioria dos caçadores ilegais são econômicos com a munição, mas esses caras estavam atirando como se estivessem no Iraque. De repente, percebemos que éramos menores, em número e armas.”

Duas metralhadoras dos guardas florestais emperraram naquele dia, e eles escaparam por pouco (desde 2008, 11 foram mortos, e filhos de alguns guardas florestais já foram sequestrados). Investigações subsequentes mostraram que os caçadores ilegais eram membros do Lord’s Resistance Army (LRA), um grupo rebelde brutal atuante na África Central que mata aldeões e escraviza crianças. Tropas das Operações Especiais Americanas estão ajudando diversos exércitos africanos a capturar Joseph Kony, líder do grupo, suspeito de estar escondido num canto remoto da República Centro-Africana.

O marfim pode ser a nova tábua de salvação de Kony.

Vários recém-foragidos do LRA disseram que Kony ordenou a seus combatentes que matassem a maior quantidade possível de elefantes e lhe enviassem as presas.

“Kony quer marfim,” disse uma jovem mulher sequestrada no começo deste ano perto de Garamba. Por ainda estar aterrorizada, ela não quis se identificar. “Eu ouvi rebeldes dizerem diversas vezes: `Precisamos obter marfim e mandar para Kony´.”

Em seus quatro meses de cativeiro, antes de conseguir escapar em uma noite em que os rebeldes estavam bêbados, ela viu 10 elefantes serem mortos e suas presas serem enroladas em sacos de pano e enviadas para Kony em seu esconderijo.

Outros recém-foragidos dizem que, desde maio, o grupo matou, no mínimo, 29 elefantes e, com a renda, comprou armas, munições e rádios. É possível que Kony esteja mancomunado com traficantes sudaneses de marfim. Um varejista de marfim em Omdurman, no Sudão, que vende abertamente pulseiras, terços e presas entalhadas de marfim, disse que uma das fontes do marfim era o LRA.

“O LRA trabalha com isso também. É assim que eles compram suas armas”, disse o lojista, informalmente. Oficiais americanos disseram que isso faz sentido, devido às poucas fontes de renda de Kony.

Vários comerciantes sudaneses de marfim disseram que o marfim do Congo e o da República Centro-Africana foram transportados por via terrestre através do vasto deserto da região de Darfur e, depois, levados para Omdurman, com a ajuda de oficiais sudaneses corruptos. Existe um costume no Sudão chamado “hora comprada”, em que contrabandistas pagam a oficiais e guardas alfandegários por uma específica quantidade de tempo para que um comboio com cargas ilegais passe pelos postos de controle das fronteiras.

Mas há várias rotas. Na costa leste da África, a cidade portuária de Mombasa, no Quênia, é o principal centro de transbordo. Uma pequena porcentagem dos contêineres em Mombasa é inspecionada, e o marfim é escondido em tudo quanto é tipo de carga, de abacates a anchovas. Algumas vezes são enrolados com pimentas chili, para enganar os cães farejadores.

No Golfo da Guiné, na costa oeste, “existe um fenômeno relativamente novo:  caçadores ilegais sofisticados e bem armados embarcam seu marfim em navios pesqueiros chineses,” disse um veterano oficial americano.

Oficiais chineses se recusaram a discutir qualquer aspecto do comércio de marfim com um representante do Ministério Florestal, que trata dos assuntos relativos ao marfim, dizendo: “Esse assunto é muito delicado, no momento”.

Diversos comerciantes de marfim sudaneses e oficiais do Ocidente dizem que as infames milícias janjaweed de Darfur eram integradas, em sua maioria, por caçadores ilegais. Grandes grupos de janjaweed – a palavra significa cavaleiro que ataca de surpresa – foram acusados de matar milhares de civis no começo do ano 2000, quando o conflito étnico explodiu em Darfur. Funcionários responsáveis pela aplicação da lei internacional dizem que os janjaweed de Darfur eliminaram milhares de elefantes na África Central nos anos 80. Agora, eles suspeitam que centenas de milícias janjaweed cavalgaram mais de 600 milhas desde o Sudão e foram os responsáveis pelo massacre de, no mínimo, 300 elefantes no Parque Nacional de Bouba Ndjida, em Camarões, em janeiro passado. Esse foi um dos piores massacres de elefantes recentemente descobertos.

Em 2010, soldados de Uganda, à procura de Kony nas florestas da República Centro-Africana, esbarraram numa caravana de marfim dos janjaweed. “Eram 400 caras, mulas para transporte, um grande acampamento e muitas armas,” disse um oficial ocidental. Uma batalha foi deflagrada, e 10 ugandenses foram mortos.

“Isso mostra o poder da caça ilegal e o quanto de dinheiro se pode ganhar ao entrar nesse jogo,” disse o oficial.

Homens de negócio estão bancando essas enormes expedições em busca de marfim, ao mesmo tempo auferindo lucros e fomentando os conflitos, dizem oficiais ocidentais.

“Isso não é coisa de caçadores eventuais,” disse o sr. Hormats, oficial do Departamento de Estado americano. “Isso é crime organizado.”

Paul Elkan, um diretor da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem, disse que a varredura feita pelos janjaweed na África Central, em caçadas ambiciosas de elefantes, “vai mais além do que um bando de caras atacando, montados a cavalo. Isso tem a ver com falta de segurança e falta de leis, ou seja, anarquia”.

Talvez nenhum outro país na África seja mais anárquico do que a Somália, que vem definhando por mais de 20 anos sem um governo central funcional, gerando militantes islâmicos, contrabandistas de armas, traficantes de seres humanos e piratas modernos. O marfim entrou nessa mistura ilícita.

Vários anciões somalis disseram que o Shabab, grupo militante islâmico que diz ter se aliado à Al Qaeda, recentemente começou a treinar combatentes para se infiltrarem no Quênia, o país vizinho, para matarem elefantes visando ao marfim, para levantar fundos.

Um antigo integrante do Shabab disse que o grupo estava prometendo  “facilitar o comércio do marfim” e encorajando aldeões ao longo da fronteira entre o Quênia e a Somália a trazer-lhe presas, que são embarcadas no porto de Kismayo, notório eixo de contrabando da última cidade principal ainda controlada pelo Shabab.

“O negócio é arriscado,” disse Hassan Majengo, um residente de Kismayo com conhecimento do comércio de marfim, “mas o lucro é excepcional”.

“Dinheiro Fácil”

O lucro não é perdido com propinas pagas a soldados da África Central, que ganham a bagatela de US$ 100 por mês, isso se realmente receberem.

Em Garamba, os guardas florestais prenderam vários soldados do governo congolês, sendo que alguns foram apanhados com presas, pedaços de carne de elefante e boinas vermelhas usadas frequentemente pela guarda de elite da Presidência.

“Um elemento do nosso exército está envolvido,” reconheceu o major Jean-Pierrot Mulako, promotor do exército congolês. “É dinheiro fácil.”

Soldados congoleses têm uma longa história de envolvimento em estupros e mortes de civis e em pilhagens. Segundo um relatório escrito em 2010 por John Hart, cientista americano e um dos principais pesquisadores de elefantes no Congo, os “militares congoleses estão implicados em quase toda caça ilegal de elefantes,” tornando o exército “o principal responsável pela matança ilegal de elefantes na República Democrática do Congo.”

Os guardas florestais de Garamba e um oficial da Inteligência do governo congolês disseram que eles também lutam rotineiramente com soldados do Exército de Libertação do Povo do Sudão, exército do Sudão do Sul. Um porta-voz do exército do Sudão do Sul negou o fato, e disse que os soldados “não tinham tempo” para a caça ilegal.

O governo americano forneceu US$ 250 milhões em assistência militar não letal para o Sudão do Sul nos últimos anos. Em maio, os guardas florestais de Garamba abriram fogo contra quatro soldados do Sudão do Sul que caçaram seis presas de elefantes. Os guardas florestais disseram ter matado um soldado, fato que não achavam ser de grande importância.

“Eu matei mais gente do que posso contar,” disse Alexi Tamoasi, guarda florestal veterano.

Mas a caça ilegal com helicóptero é algo novo.

O sr. Onyango disse que o modo estranho como as carcaças dos elefantes foram achadas, amontoadas em círculos, com os filhotes no meio para proteção, foi mais um indício de que o helicóptero os encurralou, porque elefantes normalmente se espalham ao primeiro tiro.

A Parques Africanos, organização sul-africana de conservação que administra Garamba, tem fotografias de um Mi-17, helicóptero de transporte militar, voando baixo sobre o parque em abril, e constatou que o helicóptero estava registrado no exército de Uganda. 


O coronel Felix Kulayigye, um porta-voz do exército de Uganda, reconheceu o helicóptero como sendo uma de suas aeronaves, mas disse que as acusações de caça ilegal eram “rumores sem fundamento” e que ele sabia “com certeza” que os membros do LRA eram “conhecidos” caçadores daquela área.


John Sidle, americano de Nebraska que trabalha como piloto em Garamba, disse: “O que me incomoda é que provavelmente o dinheiro da gasolina do helicóptero vem dos impostos pagos pelo povo americano.” 


Os Estados Unidos gastaram milhões de dólares nos últimos anos em gasolina e serviços de transporte para o exército de Uganda caçar Kony na África Central, enquanto treinam congoleses e sudaneses para ajudá-los. Entretanto, o Departamento de Estado disse que não havia evidências de que o exército de Uganda era responsável pelas matanças de Garamba, nem conhecimento de que qualquer um dos soldados envolvidos na caça a Kony se engajara na caça ilegal de elefantes. O Departamento de Estado não fez nenhuma observação sobre a extensa história de caça ilegal cometida pelos militares financiados pelos EUA.


Em junho, 36 presas foram apreendidas no aeroporto de Entebbe, em Uganda. Dos 22 elefantes mortos em Garamba, em março, 18 eram adultos que tiveram suas presas arrancadas, o que daria uma quantidade de 36 presas. As pequenas presas dos filhotes mortos não foram tocadas.


Em 1989, a CITES (Convenção Internacional para o Comércio de Espécies Ameaçadas), estabeleceu uma moratória no comércio internacional de marfim, exceto sob algumas circunstâncias. Ninguém sabe quantos elefantes estão sendo mortos por ano, mas muitos conservacionistas de ponta concordam que o número pode atingir “centenas de milhares” e que 2012 será provavelmente pior do que 2011.


A população total de elefantes na África também é um mistério. A União Internacional Pela Conservação da Natureza, uma rede global de conservação, estima entre 472.269 e 689.671. Mas isso é baseado nas informações de 2006. A caça ilegal se alastrou dramaticamente, desde então, por todo o continente africano.


Alguns elefantes mortos recentemente foram mutilados sexualmente. Seus genitais e mamilos foram cortados, possivelmente para venda, algo que os pesquisadores disseram jamais ter presenciado.


“É muito perturbador”, disse Iain Douglas-Hamilton, fundador de Salve os Elefantes, que recentemente foi testemunha numa audiência do Senado americano sobre marfim e insegurança.


“Como a Guerra às Drogas”

O sr. Arranz, diretor de Garamba, tem um olhar exausto. A História está contra ele. Garamba foi fundado há mais de 70 anos, em parte para proteger os raros rinocerontes do norte, que costumavam ser mais de 1.000. Mas muitas pessoas na Ásia acreditam que chifre de rinoceronte moído é uma cura para o câncer e outras enfermidades, e ele custa US$ 30.000 a libra (ou
0,4536 kg), mais do que o ouro. Nas últimas décadas, enquanto o Congo caía no caos, caçadores ilegais se mudaram para Garamba. Os rinocerontes do norte do parque eram os últimos vivos na natureza, mas os guardas florestais não têm avistado nenhum nos últimos cinco anos.

Garamba enfrenta, ao que parece, um número de desafios sem-fim, muitos relacionados à falência do Estado, no Congo. Alguns guardas florestais são caçadores ilegais e matam os animais que eles foram incumbidos de proteger, alegando que é impossível sobreviver com seus baixos salários. 


“Eu estava com fome,” explicou um guarda florestal preso por matar um antílope waterbuck.
Vários guardas florestais de Garamba admitem que são alcoólatras e têm dívidas no bar perto da sede do parque, o que não ajuda muito. O sr. Onyango, o chefe, bebe diversos litros de cerveja numa única noite. Ele culpa “o estresse.” 


O grau da caça ilegal atingiu seu maior nível na África Central, uma região que engloba alguns dos países mais problemáticos do mundo. No Chade, cavaleiros armados até os dentes, que vários conservacionistas disseram ser janjaweed, recentemente mataram 3.000 elefantes em apenas poucos anos.


Garamba tinha mais de 20.00 elefantes. Ano passado, o número caiu para 2.800. Este ano, talvez 2.400.


Toda manhã, se o céu está aberto, o sr. Arranz voa sobre Garamba num pequeno avião de dois lugares, equivalente a um Mazda Miata de asas. A savana verde-esmeralda se estende sob ele, numa visão emocionante ao amanhecer.


Mas, outro dia, ele viu algo que causou vincos em sua testa: abutres.


No dia seguinte, depois de uma caminhada através da grama alta, o cheiro foi se tornando insuportável e o ar reverberava ao som de milhares de moscas. “Morto por caçadores ilegais”, disse o sr. Arranz, ao descobrir um elefante morto, com sua face arrancada.


Perto havia cinzas de um pequeno acampamento.


“Esses caras ficaram um tempo por aqui”, disse ele. “Se eles se dispuseram a fazer isso por um só elefante...” Sua voz embargou.


“É como na guerra às drogas,” disse ele mais tarde. “Se as pessoas continuam comprando e pagando por marfim, é impossível isso ter um fim.”


 Guarda florestal no Parque Nacional de Garamba organiza uma  série de presas de elefantes, a maior parte delas proveniente da caça ilegal, mas algumas de elefantes mortos naturalmente. A grande maioria do marfim ilegal — 70 por cento,  segundo especialistas — vai para a China, onde uma emergente classe média empurrou o preço para estratosféricos U$1.000,00 por libra nas ruas de Pequim (o que equivale equivale a 0,4536 kg).
Foto: Tyler Hicks/The New York Times


Link para o artigo original. 

Isma’il Kushkush contribuiu em Omdurman, Sudão; Mia Li, de Pequim ; e um jornalista somali, de Mogadishu, Somalia.

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terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Mente e Movimento

Indo ao encontro dos interesses dos elefantes 
Joyce Poole e Petter Granli

Capítulo IV

O quarto e último capítulo de "Mente e Movimento: Indo ao encontro dos interesses dos elefantes" trata do que é essencial para o bem-estar dos elefantes. 

"Teremos nós o direito de presidir sobre o sofrimento de animais inteligentes, para nosso entretenimento e prazer, estando eles ou não representando seus primos selvagens?" Estas e outras questões que atualmente estão no centro de debates no mundo todo, principalmente nos Estados Unidos, Canadá e Europa, são levantadas nesta importante conclusão. Para ler o documento a partir do capítulo inicial, clique aqui

Conclusão

Elefantes são criaturas vigorosas e inteligentes que se desenvolveram em ambientes físicos e sociais expansivos e complexos. Adaptados a grandes espaços, a contínua procura por comida, água, companheiros e cônjuges envolve movimentos em grande e pequena escala, que, acreditamos, são essenciais a seu bem-estar. Com base em décadas de pesquisa, consideramos que os zoos e circos de hoje estão longe de ir ao encontro dos interesses dos elefantes, sejam machos ou fêmeas. Também não acreditamos que os espaços de exibição de alguns zoológicos, levemente expandidos, e a altos custos, farão alguma diferença significativa. 

É nossa opinião que os interesses dos elefantes em cativeiro só podem ser alcançados em ambientes que:

Figura 6. Elefantes selvagens vivem em uma complexa sociedade de associações e divisões, notável tanto por sua fluidez como pela permanência e proximidade das relações sociais. (Foto: Petter Granli)

  • Permitam o desenvolvimento de relações sociais normais, a formação de famílias (com filhotes), a possibilidade de formarem grupos sociais de associações e divisões, pelo menos em pequena escala, comportamento cooperativo, aprendizado social e interação lúdica;
  • Permitam a escolha de associação e interação entre numerosos parceiros e companheiros;
  • Permitam o comportamento natural de procura por alimento e padrões de atividades;
  • Tornem necessária a perambulação na busca por alimentos variados, parceiros sociais e cônjuges;
  • Inspirem atividades físicas e mentais em todos os aspectos da vida diária.

Durante essa análise, enfatizamos que o espaço é crucial para o bem-estar dos elefantes. Para atender a cada um dos critérios acima, espaço é uma necessidade. E, atendendo a esses critérios, os zoos também irão atender a uma necessidade final: 

  • Assegurar que doenças crônicas e sofrimentos físicos e mentais devidos à falta de movimentação física e estímulo mental jamais ocorram.
Entretanto, definir o espaço mínimo necessário para atender aos interesses dos elefantes é extremamente difícil. Acreditamos que de dois a três grupos familiares sejam necessários para permitir o desenvolvimento das características de associações e divisões. Além dessa quantidade, a “população” deve incluir machos adultos. Para reduzir o problema de cio masculino prolongado, uma hierarquia natural deve ser permitida se estabelecer, e os machos devem ter um mecanismo seguro de retirada. Estimamos que um mínimo de quatro a cinco machos adultos, abrangendo idades desde jovens adultos (15-20 anos) a adultos totalmente maduros (40-50 anos ou mais) devam ser incluídos. Para acomodar uma população de 25-35 ou mais indivíduos e permitir uma natural procura por alimento e comportamento social, acreditamos que 50-70km² (2km²/indivíduo) de terreno e habitat variados seja uma indicação do espaço necessário.

Supondo que tal cenário seja aceitável, alguns desses grandes zoos de elefantes poderiam ser localizados nas zonas climáticas mais quentes dos EUA e da Europa. As “populações” seriam compostas de elefantes vindos de zoos existentes ou de circos, porque a captura e a importação de elefantes de seu habitat natural é inaceitável. Uma vez estabelecida uma população, a transferência de fêmeas e filhotes para outras instalações seria altamente indesejável, devido ao potencial trauma infligido pela ruptura de vínculos sociais. 

Com base no nosso conhecimento sobre o comportamento social dos elefantes está a  firme crença de que não é possível um elefante fêmea ter qualidade de vida sem a presença de filhotes. Temos uma forte preocupação a respeito de questões éticas envolvendo a reprodução em cativeiro e suas consequências a longo prazo. Qualquer grande instalação que mantenha uma população de elefantes funcionando naturalmente, com mortalidade e reprodução naturais, provavelmente experimentará um acréscimo no número de habitantes, e, sendo a exposição de natureza de confinamento, teria de sofrer uma intervenção para manter um tamanho apropriado da população. O abate com objetivos de controle populacional é extremamente controverso (Owen-Smith, Kerley, Page, Slotow et al., 2006). O abate de elefantes nos Estados Unidos ou na Europa seria eticamente inaceitável, assim como a transferência de indivíduos (particularmente fêmeas e filhotes) de uma instalação para outra. Controle de fertilidade, apesar de possível, provavelmente causaria uma queda extrema na porcentagem de nascimentos, uma vez que o esperado é que a a mortalidade nessas instalações seja pequena. 

A questão da reprodução em cativeiro é tão problemática que a maioria dos proponentes do bem-estar dos elefantes é de opinião que nenhuma reprodução deve  ocorrer. Claramente uma política de não reprodução em cativeiro conduziria a uma eventual extinção de elefantes cativos fora de seu habitat natural. Se é uma coisa boa ou ruim, depende de quem você escuta, e não está dentro do âmbito deste ensaio. Concluímos meramente colocando as seguintes perguntas: Teremos nós o direito de presidir sobre o sofrimento de animais inteligentes, para nosso entretenimento e prazer, estando eles ou não  representando seus primos selvagens? O quanto de sofrimento físico e mental de elefantes é tolerável, em troca de uma medida em prol da conservação da espécie? E é aceitável educar o público e prevenir a extinção de elefantes selvagens mantendo várias centenas deles em  vergonhosos espaços confinados? 

Agradecimentos

Agradecemos o Gabinete do Presidente do Quênia pela permissão para trabalharmos no Parque Nacional do Amboseli, o Kenya Wildlife Service por patrocínio local e a Amboseli Trust for Elephants por décadas de trabalho científico em equipe e suporte logístico. A participação na conferência e a criação deste documento foram possíveis pelo suporte da Amboseli Trust for Elephants, a RSPCA e o Phoenix Zoo. Agradecemos aos nossos colegas da Amboseli Trust for Elephants e Lisa Kane e Debra Forthman pelos comentários que fizeram sobre o manuscrito. Somos gratos à Tufts University Cummings School of  Veterinary and Medicine’s Center for Animals and Public Policy e à Coalition for Captive Elephants Well-Being por sediarem o encontro no qual baseia-se este volume, e aos patrocinadores do congresso (Royal Society for the Prevention of Cruelty to Animals, Gary Fink, Phoenix Zoo, American Society for the Prevention of Cruelty to Animals, North Carolina Zoo e Oackland Zoo). Agradecimentos especiais a Paul Waldau, Lisa Kane e Debra Forthman pela organização. 

Tradução, revisão, edição: Ana Zinger, João Paiva, Teca Franco, Junia Machado.

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